Tinha três anos, a Ritinha. Já andava na escola, a aprender os conceitos que a idade lhe permitia, a crescer em direcção ao céu, que era o limite da sua imaginação.
Nesse seu mundo imaginário, as Barbies e as princesas eram perfeitas projecções dela própria, tal como se via quando fosse grande.
Naquele Carnaval, quis mascarar-se de princesa. Um vestido cor-de-rosa, farfalhudo, com roda e comprido, uma tiara de brilhantes e, para compor, luvas brancas até ao cotovelo.
A mãe, que tinha de cumprir orçamento apertado e havia mais filhos para mascarar, não comprou o vestido, nem a tiara, nem as luvas brancas. Carnaval é coisa que não merece investimentos dispendiosos, a imaginação de mãe tinha de servir o intento. Por isso, deitou mãos à obra nas gavetas e caixas lá de casa. E encontrou qualquer coisa.
Na noite que precedeu o dia das máscaras na escola, a Ritinha dormiu agitada.O sono trouxe-lhe imagens das histórias que ela conhecia tão bem: a Barbie Rapunzel e a sua condição de princesa, as Bratz que salvavam o mundo com os seus poderes, a Dama e o Vagabundo que viveram uma linda história de amor... de cães.
Pela manhã, havia um vestido cor-de-rosa, pronto, à espera de a transportar para o seu mundo mágico. Tinha franjas e lantejoulas da mesma cor, brilhava e mexia muito. Não era comprido nem podia ser rodado, o corte seguia a direito e parava a meio caminho para dar lugar às franjas irrequietas. Um colar de pérolas que dava duas grandes voltas e a mala pequena de alça longa com as mesmas franjas, feita do tecido do vestido, compunham o quadro e faziam-lhe a máscara.
Deixou-se vestir, desconfiada.
- O que é isto, mãe? Esta máscara é de quê? – pergunta a Ritinha.
- Esta máscara é de “Dama dos anos 20” – a mãe na esperança de a convencer de que estavam perante um traje a rigor e até a imaginou a dançar o Charleston.
- Dama dos anos 20?! Está bem... - concordou, ainda assim satisfeita com a máscara. Já lhe tinha dado um lugar no seu imaginário. Não era princesa, mas era Dama. E dos anos 20, o que soava a coisa muito importante! Pena era não haver um Vagabundo para completar...
No final do dia de escola, a mãe foi buscá-la. A máscara ainda a exibia, orgulhosa, sobrevivente das actividades do dia.
- Ó mãe – perguntou a auxiliar de serviço na entrega das crianças, visivelmente divertida e ao mesmo tempo curiosa – a que está a Ritinha mascarada? É que – continuou – de cada vez que lhe perguntei, ela respondeu "Cadela dos anos 20"...
12/03/2013
10/03/2013
Os aviões
Os aviões fascinam-me desde criança.
Sempre que o meu avô estava para chegar de viagem, nós íamos buscá-lo ao aeroporto e a minha mãe levava-me ao terraço mágico.
Ficávamos a ver os aviões aterrar e descolar. Eu não respirava para não roubar o ar, que era todo deles. Não me mexia para não lhes perturbar a manobra. Sentia-me minúscula e ao mesmo tempo protagonista de uma aventura inacreditável! Se os meus colegas lá do colégio vissem aquilo! Como podiam os aviões, tão grandes e pesados, contrariar a tendência que tudo o resto tinha, e subir ao céu como se fossem passarinhos, leves e ágeis? Ou então, com toda a delicadeza, mostrar orgulhosos as rodas minúsculas e airosamente beijar o chão como se fosse uma folha de Outono a pousar levemente?
Eram momentos inesquecíveis. Eu tentava adivinhar em qual vinha ele, o meu avô. A minha mãe sabia tudo sobre os aviões, e por isso sabia sempre qual era o dele: olha lá vem ele, já está! Será que o via através de uma das janelas microscópicas? Ou será que os aviões falavam com ela?
Descíamos e eu ia colar o nariz ao vidro até ver o meu avô caminhar em nossa direcção, o porte confiante, que terá ido ele fazer tão longe?
Antes de ter tempo de acabar de crescer, fecharam o nosso terraço. O meu avô continuou a viajar, e nós a ir esperá-lo. No entanto, a magia já não estava lá. Perguntei à minha mãe porque nos tinham feito aquilo, será que roubei um bocadinho do ar aos aviões? Mas isso não sabia ela. Desconfio que também não se conformou.
Apesar disso, a minha mãe continuou a saber os aviões de cor. Bastava-lhe olhar para o céu: olha, lá vai um Boeing 727! Ou um 737. Eu tentava ver-lhes as diferenças, também queria aprendê-los de cor. Achava que o Boeing 727 era mais pequeno que o 737, confiava na lógica dos números escolhidos para os modelos. Muito mais tarde descobri que afinal é ao contrário e que a ordem numérica cresceu para o modelo mais novo.
Hoje, quando vou a conduzir na segunda circular, alinho-me em rota cruzada com o momento da aterragem e deixo que o trem do avião roce delicadamente o tejadilho do meu carro. Assim, mantenho o meu tesouro bem guardado, mesmo sem o nosso terraço, sem a mão da minha mãe e sem tudo o que ela sabia sobre aqueles mistérios. A magia, claro, perdeu cor.
Acho que para ela também. A minha mãe já não olha para o céu e já não diz que modelo é aquele que vai a passar. Eu sei que é porque se zangou por causa do terraço, o tesouro que alguém lhe tirou.
Tenho medo que ela pense que fui eu que lho roubei.
Sempre que o meu avô estava para chegar de viagem, nós íamos buscá-lo ao aeroporto e a minha mãe levava-me ao terraço mágico.
Ficávamos a ver os aviões aterrar e descolar. Eu não respirava para não roubar o ar, que era todo deles. Não me mexia para não lhes perturbar a manobra. Sentia-me minúscula e ao mesmo tempo protagonista de uma aventura inacreditável! Se os meus colegas lá do colégio vissem aquilo! Como podiam os aviões, tão grandes e pesados, contrariar a tendência que tudo o resto tinha, e subir ao céu como se fossem passarinhos, leves e ágeis? Ou então, com toda a delicadeza, mostrar orgulhosos as rodas minúsculas e airosamente beijar o chão como se fosse uma folha de Outono a pousar levemente?
Eram momentos inesquecíveis. Eu tentava adivinhar em qual vinha ele, o meu avô. A minha mãe sabia tudo sobre os aviões, e por isso sabia sempre qual era o dele: olha lá vem ele, já está! Será que o via através de uma das janelas microscópicas? Ou será que os aviões falavam com ela?
Descíamos e eu ia colar o nariz ao vidro até ver o meu avô caminhar em nossa direcção, o porte confiante, que terá ido ele fazer tão longe?
Antes de ter tempo de acabar de crescer, fecharam o nosso terraço. O meu avô continuou a viajar, e nós a ir esperá-lo. No entanto, a magia já não estava lá. Perguntei à minha mãe porque nos tinham feito aquilo, será que roubei um bocadinho do ar aos aviões? Mas isso não sabia ela. Desconfio que também não se conformou.
Apesar disso, a minha mãe continuou a saber os aviões de cor. Bastava-lhe olhar para o céu: olha, lá vai um Boeing 727! Ou um 737. Eu tentava ver-lhes as diferenças, também queria aprendê-los de cor. Achava que o Boeing 727 era mais pequeno que o 737, confiava na lógica dos números escolhidos para os modelos. Muito mais tarde descobri que afinal é ao contrário e que a ordem numérica cresceu para o modelo mais novo.
Hoje, quando vou a conduzir na segunda circular, alinho-me em rota cruzada com o momento da aterragem e deixo que o trem do avião roce delicadamente o tejadilho do meu carro. Assim, mantenho o meu tesouro bem guardado, mesmo sem o nosso terraço, sem a mão da minha mãe e sem tudo o que ela sabia sobre aqueles mistérios. A magia, claro, perdeu cor.
Acho que para ela também. A minha mãe já não olha para o céu e já não diz que modelo é aquele que vai a passar. Eu sei que é porque se zangou por causa do terraço, o tesouro que alguém lhe tirou.
Tenho medo que ela pense que fui eu que lho roubei.
07/03/2013
Alentejo, o lugar que o tempo esqueceu
Chegámos ao Solar dos Lilases era quase meia-noite de uma sexta feira de Novembro e muita chuva.
Mora foi o lugar escolhido, ao acaso. Fomos recebidos por mãe e filha, duas senhoras de uma simpatia que àquela hora já devia pedir retiro, mas que nos aconchegou.
Era preciso preencher dois formulários antes de subirmos ao quarto.
– Ainda têm de ter mais esta maçada - disse a mãe, dona de uma voz tão doce como poucas.
O Solar é do final do século XIX. Tectos que oferecem generosos trabalhos de outros tempos. O cheiro da lareira apagada mantém-se aceso, preso às paredes. Os tapetes de Arraiolos vestem o chão com flores. Uma viagem no tempo.
Sentei-me a uma mesa manca na sala escura a preencher os papeis. O Erik iluminou com o telemóvel o espaço de escrita, que as lâmpadas de baixo consumo demoram a inundar, já era tão tarde!
Quando terminei os impressos, dirigimo-nos ao quarto.
- O do fundo do corredor, lá em cima, pequeno mas sossegado - disse a senhora da voz doce.
Na manhã seguinte, após o pequeno almoço que foi muito abaixo do que a varanda a atirar para o vale de Mora e a sala centenária prometiam, saímos à procura de uma pastelaria, para completar o espaço que ficou livre no estômago.
Entrámos num café num largo que ficaria bem dizer ser o da Igreja, se o fosse. O café tinha na entrada um toldo verde e letras pintadas a amarelo, “D’frade” era o nome.
Ao empurrar a porta somos atacados por aquele cheiro de gordura antiga, irreversivelmente colada ao ar que tinhamos de respirar. Hesitei, mas entrámos. Em Mora não há muitos cafés.
Lá dentro, apenas habitantes locais do sexo masculino que não davam sinais de se incomodarem com o cheiro. São valentes.
Pedimos dois cafés. O bolo não podia ser ali, disse eu ao Erik, baixinho. O dono do café tinha colado um papelinho do lado de dentro do vidro do balcão com bolos engelhados que dizia “0,50 € pastelaria diversa”, que tinha um canto espetado num queque.
Atravessámos a primeira sala que tinha apenas uma mesa ocupada. Eram dois homens de boné, um gordo e um cabisbaixo, em frente a uma televisão cuja cor estava reduzida à palete dos tons de verde, a condizer com o toldo lá fora.
Sentámo-nos com os cafés a uma mesa da sala seguinte. Cobertura de plástico a imitar cortiça e uma jarra com flores artificiais, tristes.
O homem gordo falava muito alto para o homem cabisbaixo. Decidi entreter o Erik e tratei de me sintonizar à conversa deles para ir traduzindo o alentejano e assim oferecer-lhe algo que compensasse a gritaria.
- Tens medo das raposas, tu? – atirou o gordo.
- Então havia de ter medo das raposas, eu? – respondeu o cabisbaixo sem potência na voz.
- Eles vão lá, eles caçam-nas, nós podemos ir com eles.
O outro respondeu com os ombros e não ouvi mais sobre as raposas.
O Erik inventou que eles eram dois matemáticos em elevada discussão científica que ninguém iria entender, informação secreta, disfarçados de alentejanos.
Daí para os neutrinos foi um salto. O neutrino que tinha viajado mais rápido que a luz tinha afinal chegado ao destino apenas 0,03% mais depressa do que se fosse pura luz. Custa a crer. Mas afinal os neutrinos têm ou não têm massa? Gordos não são com certeza, cabisbaixos também não parecem, tão despachados se revelam na corrida!... Concordámos que a história ainda tem muita tinta para gastar.
Voltei a virar as antenas para os matemáticos; era o gordo quem falava, gritava, melhor dizendo. Era acerca daquela que tinha sobrado e à qual ele se tinha agarrado naquela noite, não se lembrava o outro? O outro não, os ombros outra vez a responder.
O matemático gordo insistia, sim, naquela noite, fui bater à tua porta, e depois estava tonto e fui à porta de cima. Nada, o colega cabisbaixo não conseguia lembrar-se.
- Comes muito queijo, tu – rematou o gordo.
Traduzi a conversa para o Erik, que ainda não sabia que nós, portugueses, associamos a qualidade da memória à quantidade de queijo que ingerimos.
Saímos do café gorduroso para a rua fresca, onde estavam a substituir o empedrado do largo sem igreja.
Na esquina próxima anunciavam produtos alentejaníssimos, entrámos. Também tinha cheiro, a queijo, fortíssimo. Vagueámos os olhos pelas prateleiras e escolhemos um vinho tinto da região. Queijo não comprámos, gostamos de manter as memórias frescas.
Pagámos e saímos. Outra vez o fresco da rua nos bateu na cara levando o cheiro a queijo e a imagem dos torresmos, que completavam o quadro alentejaníssimo da loja.
Voltámos para o quarto do Solar dos Lilases. O Erik instalou-se à janela a ler no seu livro electrónico sobre o cérebro e os seus mistérios. Não me lembrei de lhe perguntar se os matemáticos alentejanos eram referidos no livro.
Sentada à secretária que havia no quarto lilás, regressei ao meu trabalho.
Descansei os olhos por diversas vezes no horizonte alentejano, por cima dos telhados cor de tijolo, abaixo de nós. A porta envidraçada do quarto interrompe o tecto esconso onde as grossas vigas de madeira combinam com o cheiro das lareiras que vem lá de fora. Os pássaros embalam-me os pensamentos com o seu canto de Outono.
Por que será que o tempo aqui sabe parar, ficar noutra dimensão?
Talvez pergunte aos matemáticos se lá voltarmos amanhã e eles não tiverem ido caçar raposas.
Mora foi o lugar escolhido, ao acaso. Fomos recebidos por mãe e filha, duas senhoras de uma simpatia que àquela hora já devia pedir retiro, mas que nos aconchegou.
Era preciso preencher dois formulários antes de subirmos ao quarto.
– Ainda têm de ter mais esta maçada - disse a mãe, dona de uma voz tão doce como poucas.
O Solar é do final do século XIX. Tectos que oferecem generosos trabalhos de outros tempos. O cheiro da lareira apagada mantém-se aceso, preso às paredes. Os tapetes de Arraiolos vestem o chão com flores. Uma viagem no tempo.
Sentei-me a uma mesa manca na sala escura a preencher os papeis. O Erik iluminou com o telemóvel o espaço de escrita, que as lâmpadas de baixo consumo demoram a inundar, já era tão tarde!
Quando terminei os impressos, dirigimo-nos ao quarto.
- O do fundo do corredor, lá em cima, pequeno mas sossegado - disse a senhora da voz doce.
Na manhã seguinte, após o pequeno almoço que foi muito abaixo do que a varanda a atirar para o vale de Mora e a sala centenária prometiam, saímos à procura de uma pastelaria, para completar o espaço que ficou livre no estômago.
Entrámos num café num largo que ficaria bem dizer ser o da Igreja, se o fosse. O café tinha na entrada um toldo verde e letras pintadas a amarelo, “D’frade” era o nome.
Ao empurrar a porta somos atacados por aquele cheiro de gordura antiga, irreversivelmente colada ao ar que tinhamos de respirar. Hesitei, mas entrámos. Em Mora não há muitos cafés.
Lá dentro, apenas habitantes locais do sexo masculino que não davam sinais de se incomodarem com o cheiro. São valentes.
Pedimos dois cafés. O bolo não podia ser ali, disse eu ao Erik, baixinho. O dono do café tinha colado um papelinho do lado de dentro do vidro do balcão com bolos engelhados que dizia “0,50 € pastelaria diversa”, que tinha um canto espetado num queque.
Atravessámos a primeira sala que tinha apenas uma mesa ocupada. Eram dois homens de boné, um gordo e um cabisbaixo, em frente a uma televisão cuja cor estava reduzida à palete dos tons de verde, a condizer com o toldo lá fora.
Sentámo-nos com os cafés a uma mesa da sala seguinte. Cobertura de plástico a imitar cortiça e uma jarra com flores artificiais, tristes.
O homem gordo falava muito alto para o homem cabisbaixo. Decidi entreter o Erik e tratei de me sintonizar à conversa deles para ir traduzindo o alentejano e assim oferecer-lhe algo que compensasse a gritaria.
- Tens medo das raposas, tu? – atirou o gordo.
- Então havia de ter medo das raposas, eu? – respondeu o cabisbaixo sem potência na voz.
- Eles vão lá, eles caçam-nas, nós podemos ir com eles.
O outro respondeu com os ombros e não ouvi mais sobre as raposas.
O Erik inventou que eles eram dois matemáticos em elevada discussão científica que ninguém iria entender, informação secreta, disfarçados de alentejanos.
Daí para os neutrinos foi um salto. O neutrino que tinha viajado mais rápido que a luz tinha afinal chegado ao destino apenas 0,03% mais depressa do que se fosse pura luz. Custa a crer. Mas afinal os neutrinos têm ou não têm massa? Gordos não são com certeza, cabisbaixos também não parecem, tão despachados se revelam na corrida!... Concordámos que a história ainda tem muita tinta para gastar.
Voltei a virar as antenas para os matemáticos; era o gordo quem falava, gritava, melhor dizendo. Era acerca daquela que tinha sobrado e à qual ele se tinha agarrado naquela noite, não se lembrava o outro? O outro não, os ombros outra vez a responder.
O matemático gordo insistia, sim, naquela noite, fui bater à tua porta, e depois estava tonto e fui à porta de cima. Nada, o colega cabisbaixo não conseguia lembrar-se.
- Comes muito queijo, tu – rematou o gordo.
Traduzi a conversa para o Erik, que ainda não sabia que nós, portugueses, associamos a qualidade da memória à quantidade de queijo que ingerimos.
Saímos do café gorduroso para a rua fresca, onde estavam a substituir o empedrado do largo sem igreja.
Na esquina próxima anunciavam produtos alentejaníssimos, entrámos. Também tinha cheiro, a queijo, fortíssimo. Vagueámos os olhos pelas prateleiras e escolhemos um vinho tinto da região. Queijo não comprámos, gostamos de manter as memórias frescas.
Pagámos e saímos. Outra vez o fresco da rua nos bateu na cara levando o cheiro a queijo e a imagem dos torresmos, que completavam o quadro alentejaníssimo da loja.
Voltámos para o quarto do Solar dos Lilases. O Erik instalou-se à janela a ler no seu livro electrónico sobre o cérebro e os seus mistérios. Não me lembrei de lhe perguntar se os matemáticos alentejanos eram referidos no livro.
Sentada à secretária que havia no quarto lilás, regressei ao meu trabalho.
Descansei os olhos por diversas vezes no horizonte alentejano, por cima dos telhados cor de tijolo, abaixo de nós. A porta envidraçada do quarto interrompe o tecto esconso onde as grossas vigas de madeira combinam com o cheiro das lareiras que vem lá de fora. Os pássaros embalam-me os pensamentos com o seu canto de Outono.
Por que será que o tempo aqui sabe parar, ficar noutra dimensão?
Talvez pergunte aos matemáticos se lá voltarmos amanhã e eles não tiverem ido caçar raposas.
04/03/2013
O homem do café
O café ali tem um sabor especial.
Talvez pela colecção de candeeiros pendurados orgulhosamente do tecto. Cada um com sua cor e seu tamanho, partilham apenas a forma. Duvido que muita gente os admire, tirando eu, nunca vi ninguém dobrar o pescoço. Eles, no entanto, continuam lá.
Ele também, o homem do café. Às quartas, às segundas, aos domingos, de manhã ou à hora de fechar. Um dia, perguntámos-lhe se tinha folga.
Ele sorriu, como faz sempre, sem parar de limpar vigorosamente o balcão dos bolos. Disse que sim, que folgava uma vez por semana, mas tinha de trabalhar doze horas nos outros dias.
- "Vê a senhora, tenho cinco filhos e quero que todos estudem, três já estão na universidade!" Agora o sorriso que se abriu era quase tão largo como o balcão que estava a limpar.
O Erik, que não nasceu em paragens lusas, sensibiliza-se com a ternura nacional de quem trabalha de sol a sol para proporcionar aos filhos o que aos próprios nem em sonhos se materializou.
No Natal passado, andávamos na azáfama do costume e parámos para um café. Atarefado a atender as exigências dos clientes que tinham encomendado os bolos-rei, os sonhos e as lampreias de ovos, lá estava ele. Luvas higiénicas da praxe, o sorriso sempre atencioso, gestos rápidos, produtividade ligada no máximo, ninguém ficava mal servido.
Aproximámo-nos. Mal nos viu, interrompeu a sequência de movimentos sem se deixar desconcentrar, descalçou a luva direita e estendeu a mão ao Erik para lhe desejar umas boas festas. A ele, a nós, que nem tínhamos encomenda pendente.
O que ele não viu, já tinha retomado o nível de eficiência, foi as lágrimas de comoção nos olhos do Erik.
Semana seguinte, era o último dia do ano. O Erik fez as olliebollen de acordo com as tradições da sua terra nos países baixos, e reservou algumas para o homem do café.
Saímos aperaltados nos nossos brilhos pretos para com eles saudar o novo ano que ia chegar daí a algumas horas. Passámos no café para entregar as delícias estrangeiras.
As cadeiras viradas ao contrário em cima das mesas, a colega do homem do café a varrer o chão, o cabelo em desalinho: o dia devia ter sido longo. As outras lojas do centro estavam fechadas ou a fechar. Metade das luzes já a dormir. Toda a gente saía, o ano velho estava feito. Havia que abraçar o novo, festa rija ou não, cada qual a seu caminho.
- "Ele foi levar o lixo, não deve demorar" - informou-nos a colega da vassoura.
Nem um minuto passou, surgiu ele da porta do elevador que dá acesso à zona de serviço. Vinha apressado. Li-lhe nos pensamentos um alívio de missão cumprida, era hora de recolher e finalmente descansar. Quando levantou os olhos e nos viu, abriu o seu sorriso do tamanho do balcão dos bolos, numa saudação que rasgou o cansaço.
- "Então, foi um dia longo..." - disse-lhe eu.
- "Hoje foi, começou às quatro da manhã." - respondeu cordial mas orgulhosamente, enquanto os apertos de mão se faziam, ele em esforço de disfarçar a fadiga.
Expliquei-lhe que o Erik tinha feito os doces típicos daquele dia, da terra dele, e que lhe tinha reservado alguns para reunir à sua festa de fim de ano. Disse-lhe que pareciam os nossos sonhos, desses que ele nos costuma oferecer com o café, quentinhos, acabadinhos de fritar, mas com outros ingredientes, claro.
Ele não escondeu a surpresa, que lhe brilhou nos olhos. Muito obrigado, disse.
Após as habituais trocas de votos de felicidades, apressámo-nos a sair. Ficou-me gravado na memória o semblante de fadiga extrema que o homem do café trazia depois de ir levar o lixo de um dia de trabalho demasiado longo. Que sonhos terá ele.
Quando lá voltei, já entrado o novo ano, perguntei-lhe como tinha sido a sua festa. Ah!, a festa... tinha sido a dormir... esperar pela meia noite era desafio impossível para aquele dia, informava o seu sorriso.
A dormir... e os seus sonhos, estavam lá?, quis eu perguntar. Não os do Natal, não os do Erik, mas os seus.
Daqueles como os que deixa sonhar aos seus filhos.
Terá ficado algum para ele?
Talvez pela colecção de candeeiros pendurados orgulhosamente do tecto. Cada um com sua cor e seu tamanho, partilham apenas a forma. Duvido que muita gente os admire, tirando eu, nunca vi ninguém dobrar o pescoço. Eles, no entanto, continuam lá.
Ele também, o homem do café. Às quartas, às segundas, aos domingos, de manhã ou à hora de fechar. Um dia, perguntámos-lhe se tinha folga.
Ele sorriu, como faz sempre, sem parar de limpar vigorosamente o balcão dos bolos. Disse que sim, que folgava uma vez por semana, mas tinha de trabalhar doze horas nos outros dias.
- "Vê a senhora, tenho cinco filhos e quero que todos estudem, três já estão na universidade!" Agora o sorriso que se abriu era quase tão largo como o balcão que estava a limpar.
O Erik, que não nasceu em paragens lusas, sensibiliza-se com a ternura nacional de quem trabalha de sol a sol para proporcionar aos filhos o que aos próprios nem em sonhos se materializou.
No Natal passado, andávamos na azáfama do costume e parámos para um café. Atarefado a atender as exigências dos clientes que tinham encomendado os bolos-rei, os sonhos e as lampreias de ovos, lá estava ele. Luvas higiénicas da praxe, o sorriso sempre atencioso, gestos rápidos, produtividade ligada no máximo, ninguém ficava mal servido.
Aproximámo-nos. Mal nos viu, interrompeu a sequência de movimentos sem se deixar desconcentrar, descalçou a luva direita e estendeu a mão ao Erik para lhe desejar umas boas festas. A ele, a nós, que nem tínhamos encomenda pendente.
O que ele não viu, já tinha retomado o nível de eficiência, foi as lágrimas de comoção nos olhos do Erik.
Semana seguinte, era o último dia do ano. O Erik fez as olliebollen de acordo com as tradições da sua terra nos países baixos, e reservou algumas para o homem do café.
Saímos aperaltados nos nossos brilhos pretos para com eles saudar o novo ano que ia chegar daí a algumas horas. Passámos no café para entregar as delícias estrangeiras.
As cadeiras viradas ao contrário em cima das mesas, a colega do homem do café a varrer o chão, o cabelo em desalinho: o dia devia ter sido longo. As outras lojas do centro estavam fechadas ou a fechar. Metade das luzes já a dormir. Toda a gente saía, o ano velho estava feito. Havia que abraçar o novo, festa rija ou não, cada qual a seu caminho.
- "Ele foi levar o lixo, não deve demorar" - informou-nos a colega da vassoura.
Nem um minuto passou, surgiu ele da porta do elevador que dá acesso à zona de serviço. Vinha apressado. Li-lhe nos pensamentos um alívio de missão cumprida, era hora de recolher e finalmente descansar. Quando levantou os olhos e nos viu, abriu o seu sorriso do tamanho do balcão dos bolos, numa saudação que rasgou o cansaço.
- "Então, foi um dia longo..." - disse-lhe eu.
- "Hoje foi, começou às quatro da manhã." - respondeu cordial mas orgulhosamente, enquanto os apertos de mão se faziam, ele em esforço de disfarçar a fadiga.
Expliquei-lhe que o Erik tinha feito os doces típicos daquele dia, da terra dele, e que lhe tinha reservado alguns para reunir à sua festa de fim de ano. Disse-lhe que pareciam os nossos sonhos, desses que ele nos costuma oferecer com o café, quentinhos, acabadinhos de fritar, mas com outros ingredientes, claro.
Ele não escondeu a surpresa, que lhe brilhou nos olhos. Muito obrigado, disse.
Após as habituais trocas de votos de felicidades, apressámo-nos a sair. Ficou-me gravado na memória o semblante de fadiga extrema que o homem do café trazia depois de ir levar o lixo de um dia de trabalho demasiado longo. Que sonhos terá ele.
Quando lá voltei, já entrado o novo ano, perguntei-lhe como tinha sido a sua festa. Ah!, a festa... tinha sido a dormir... esperar pela meia noite era desafio impossível para aquele dia, informava o seu sorriso.
A dormir... e os seus sonhos, estavam lá?, quis eu perguntar. Não os do Natal, não os do Erik, mas os seus.
Daqueles como os que deixa sonhar aos seus filhos.
Terá ficado algum para ele?
01/03/2013
Miúdas à solta
Marginal, sentido Cascais Lisboa. Sete horas e trinta e cinco minutos de uma manhã brilhante de prata, gaivotas no chão, olhos fechados à luz, o sono em fundo. A maré está longe, dá espaço à praia enquanto a Lua deixa. O Sol irradia todo o seu esplendor revigorante. Relembra-me que este nosso país é tão lindo, embora eu saiba que o tempo é curto, mesmo no arrancar do dia.
As miúdas, uma com 3 a outra com 6 anos de idade, encostadas no banco de trás, oscilam ligeiramente para a frente e para trás ao ritmo do pára-arranca a que os privilegiados da linha de Cascais estão votados se querem cumprir horários.
O Nuno Rogeiro fala na rádio. Partilha a sua opinião sobre o estado desta nossa nação ao Sol. Faz previsões de futuro próximo. É o único som acima do ronronar do carro, que também tem sono mas conhece o caminho.
- "E muita gente vai ter de engolir muitos sapos vivos!" - diz o Nuno a dada altura.
Oiço comentar, directamente dos 6 anos de gente, lá atrás, com profunda indignação:
- "Que nojo!"
As miúdas, uma com 3 a outra com 6 anos de idade, encostadas no banco de trás, oscilam ligeiramente para a frente e para trás ao ritmo do pára-arranca a que os privilegiados da linha de Cascais estão votados se querem cumprir horários.
O Nuno Rogeiro fala na rádio. Partilha a sua opinião sobre o estado desta nossa nação ao Sol. Faz previsões de futuro próximo. É o único som acima do ronronar do carro, que também tem sono mas conhece o caminho.
- "E muita gente vai ter de engolir muitos sapos vivos!" - diz o Nuno a dada altura.
Oiço comentar, directamente dos 6 anos de gente, lá atrás, com profunda indignação:
- "Que nojo!"
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