Eu estava a separar a roupa para lavar na máquina. Roupa branca para dentro, roupa escura para o lado.
A Leonor, então com 4 anos, observava-me.
Até que, da pilha de roupa suja ainda por separar, surge o par de calções rosa escuro a espreitar. Via-se bem a etiqueta: dos 4 aos 6, lavar a 30º.
Debruçou-se sobre a pilha. Não muito: embora das duas a mais alta fosse ela, a diferença era pouca. Pegou no calçãozinho da etiqueta de fora. E estendeu-mo. Toma, mãe.
- Ah, esse não, esse é para lavar noutra máquina, filha.
Olhou em volta, à procura. O calção balouçava, pendurado na sua mão.
- Nesta, mãe? - o pequeno dedo espetado apontava para a máquina da loiça, ali ao lado.
11/04/2013
10/04/2013
O livro de filosofia
Todas as manhãs ela entra no autocarro, na mesma paragem. Todas não, há aquelas em que a vejo da janela do meu lugar a correr rua abaixo, não chega a tempo.
Deve ter uns 15, 16 anos. Tem o cabelo escuro, encaracolado e comprido, dos mais bonitos e brilhantes que já vi. Reparei nela por causa do cabelo.
Às vezes traz na mão um copo de plástico fechado, com café. Enche o autocarro com o seu aroma e é a única que não dá por isso.
A mim apetece-me dizer-lhe bom dia. Queria agradecer-lhe o cabelo sedoso, o café aromático.
Nunca se sentou ao meu lado. E eu nunca lhe disse bom dia.
Traz no olhar uma doçura quente, luzidia como azeitonas pretas. É um olhar sem fim, sem fundo. Mais maduro que a sua idade.
Ultimamente parece triste, inquieta.
Se ela chegasse mais cedo e ficasse na paragem a ouvir os cantos matinais e primaveris dos pássaros que vivem nas árvores do bairro, já teria experimentado a paz que as primeiras notas da manhã oferecem.
Assim que se senta no autocarro, que àquela hora não vai cheio, tira um livro da mochila. Um livro da escola.
Lê mais vezes o de filosofia. Quando o faz, vai serena, concentrada. Lê e bebe o café distraidamente. De vez em quando, levanta a cabeça e fixa o olhar profundo no infinito que a janela lhe oferece. Contempla a vida a correr lá fora, penso eu. Mas não lhe consigo ler os pensamentos.
Ontem abriu o livro de biologia. Não levantou a cabeça, enquanto leu. Virava as folhas nervosamente. Para a frente, às vezes para trás. Ao fazê-lo, para trás, mexe os lábios, está a ler mentalmente, repetidamente. Quando será o teste?
A inquietação que transporta na mochila - ou será no copo de café? - está, esta semana, mais evidente. Mas ela é suficientemente nova para não saber que esse passageiro indesejável vai de boleia.
Hoje, quando apanhou o autocarro, vinha mais ofegante. Trazia o café no copo de plástico. Encheu o autocarro, não reparou. Nós reparámos.
Sentou-se num lugar à janela mas não abriu a mochila. Acho que o livro de filosofia não estava lá.
Eu aguardava o momento de estudo, que tardava. O copo de plástico estava esquecido na sua mão. Tremia.
E eis que desata a chorar. Chorou baixinho durante todo o caminho até à paragem em que costuma sair.
Não, o livro de filosofia não estava lá.
Saiu.
Fiquei a vê-la do meu lugar. Ela, parada no passeio, os ombros a tremer, o lenço no nariz, a mochila - vazia? - às costas. Uma senhora que passou aproximou-se e falou-lhe. Ela abanou a cabeça e afastou-se. O autocarro seguiu e não vi mais.
Podia ter ficado desiludida por eu não a ter consolado no seu pranto. Podia, se soubesse que eu existo. Podia, se soubesse que eu lhe conheço os livros.
Podia, se soubesse que a adoptei como filha secreta, uma filha cujo nome não sei.
Fiquei feliz por ela ter chorado. Libertou-se da inquietação que trazia na mochila, no copo de café, presa nos seus caracóis longos. Libertou-se? É melhor confirmar, amanhã.
Pode ser que se sente ao meu lado. E eu vou dizer-lhe bom dia. E, se ela deixar, pergunto-lhe o nome.
Deve ter uns 15, 16 anos. Tem o cabelo escuro, encaracolado e comprido, dos mais bonitos e brilhantes que já vi. Reparei nela por causa do cabelo.
Às vezes traz na mão um copo de plástico fechado, com café. Enche o autocarro com o seu aroma e é a única que não dá por isso.
A mim apetece-me dizer-lhe bom dia. Queria agradecer-lhe o cabelo sedoso, o café aromático.
Nunca se sentou ao meu lado. E eu nunca lhe disse bom dia.
Traz no olhar uma doçura quente, luzidia como azeitonas pretas. É um olhar sem fim, sem fundo. Mais maduro que a sua idade.
Ultimamente parece triste, inquieta.
Se ela chegasse mais cedo e ficasse na paragem a ouvir os cantos matinais e primaveris dos pássaros que vivem nas árvores do bairro, já teria experimentado a paz que as primeiras notas da manhã oferecem.
Assim que se senta no autocarro, que àquela hora não vai cheio, tira um livro da mochila. Um livro da escola.
Lê mais vezes o de filosofia. Quando o faz, vai serena, concentrada. Lê e bebe o café distraidamente. De vez em quando, levanta a cabeça e fixa o olhar profundo no infinito que a janela lhe oferece. Contempla a vida a correr lá fora, penso eu. Mas não lhe consigo ler os pensamentos.
Ontem abriu o livro de biologia. Não levantou a cabeça, enquanto leu. Virava as folhas nervosamente. Para a frente, às vezes para trás. Ao fazê-lo, para trás, mexe os lábios, está a ler mentalmente, repetidamente. Quando será o teste?
A inquietação que transporta na mochila - ou será no copo de café? - está, esta semana, mais evidente. Mas ela é suficientemente nova para não saber que esse passageiro indesejável vai de boleia.
Hoje, quando apanhou o autocarro, vinha mais ofegante. Trazia o café no copo de plástico. Encheu o autocarro, não reparou. Nós reparámos.
Sentou-se num lugar à janela mas não abriu a mochila. Acho que o livro de filosofia não estava lá.
Eu aguardava o momento de estudo, que tardava. O copo de plástico estava esquecido na sua mão. Tremia.
E eis que desata a chorar. Chorou baixinho durante todo o caminho até à paragem em que costuma sair.
Não, o livro de filosofia não estava lá.
Saiu.
Fiquei a vê-la do meu lugar. Ela, parada no passeio, os ombros a tremer, o lenço no nariz, a mochila - vazia? - às costas. Uma senhora que passou aproximou-se e falou-lhe. Ela abanou a cabeça e afastou-se. O autocarro seguiu e não vi mais.
Podia ter ficado desiludida por eu não a ter consolado no seu pranto. Podia, se soubesse que eu existo. Podia, se soubesse que eu lhe conheço os livros.
Podia, se soubesse que a adoptei como filha secreta, uma filha cujo nome não sei.
Fiquei feliz por ela ter chorado. Libertou-se da inquietação que trazia na mochila, no copo de café, presa nos seus caracóis longos. Libertou-se? É melhor confirmar, amanhã.
Pode ser que se sente ao meu lado. E eu vou dizer-lhe bom dia. E, se ela deixar, pergunto-lhe o nome.
03/04/2013
Hormonas
Saí do trabalho a voar para chegar à escola a tempo. Não queria perder o debate que as professoras da minha filha tinham organizado com a turma sobre a disciplina e a constante falta dela. Falta contra a qual o debate se insurgia. Participavam os mais de vinte alunos da turma de sétimo ano, as organizadoras e alguns pais e encarregados de educação.
Foi mostrado um filme, imagens, textos. Sobre todos eles se debateu. Em nenhum caso se ouviu um aluno falar sem primeiro levantar o braço, manifestando a intenção. Braços que, sem excepção, vibravam no ar.
Disseram o que é a escola, disseram para que serve a escola. Disseram o que está certo e o que está errado no comportamento deles.
E depois centrou-se o debate no tema da indisciplina.
- "João, diz tu"
- "Ó stôra, ó stôra.... como é que eu hei-de dizer... ó stôra..."
- "Estão aqui mais pessoas na sala, não te dirijas só a mim."
- "Sim pois, ó pessoas, é que nós somos crianças, não é... quer dizer, somos pré-adolescentes! E temos, ó stôra, ai, pessoas, nós temos... hormonas! isso... temos hormonas e ficamos um bocado, assim... ficamos malucos, stôra. Pessoas. E 90 minutos de aula é muito tempo e nós não aguentamos. É das hormonas."
- "Sim, João, mas vocês têm de fazer um esforço para tomar atenção, controlar as hormonas enquanto estão nas aulas."
Mais braços no ar, a chamar a chamar.
- "Tu, Pedro."
- "Stôra, está bem, podíamos, mas as aulas também podiam ser de 50 minutos, como os nossos pais tiveram, não é? Eles aprenderam as coisas todas em aulas de 50 minutos, não aprenderam? Aprenderam e fizeram as pontes e os edifícios, como esta escola em que nós estamos! Eles também tinham hormonas. Mas só tinham 50 minutos de aula!"
- "Isso é tudo verdade, Pedro, mas se pensares bem, é nos primeiros cinco minutos da aula que vocês estão mais indisciplinados."
Braços agitados, esticados, impacientes.
- "Diz tu, Susana."
- "Pois 'tamos, stôra, por causa dos 90 minutos da aula anterior!"
O debate durou duas horas e meia. Saí contagiada pela energia deles, pela vibração que os seus braços esticados provocaram no ar. A ânsia de crescer e viver que pulsava na sala invadiu-me a alma.
O debate sobre a indisciplina foi afinal muito mais disciplinado do que eu esperava.
Indisciplinadas são as reuniões de pais. Nessas, não há entusiasmo no ar. Há queixas e há críticas. Há muita falta de vontade. E há ausências.
Esta geração de pais, que sabe fazer pontes e edifícios, podia aprender a calar os ais.
Afinal são deles estes filhos com tantos mais.
Foi mostrado um filme, imagens, textos. Sobre todos eles se debateu. Em nenhum caso se ouviu um aluno falar sem primeiro levantar o braço, manifestando a intenção. Braços que, sem excepção, vibravam no ar.
Disseram o que é a escola, disseram para que serve a escola. Disseram o que está certo e o que está errado no comportamento deles.
E depois centrou-se o debate no tema da indisciplina.
- "João, diz tu"
- "Ó stôra, ó stôra.... como é que eu hei-de dizer... ó stôra..."
- "Estão aqui mais pessoas na sala, não te dirijas só a mim."
- "Sim pois, ó pessoas, é que nós somos crianças, não é... quer dizer, somos pré-adolescentes! E temos, ó stôra, ai, pessoas, nós temos... hormonas! isso... temos hormonas e ficamos um bocado, assim... ficamos malucos, stôra. Pessoas. E 90 minutos de aula é muito tempo e nós não aguentamos. É das hormonas."
- "Sim, João, mas vocês têm de fazer um esforço para tomar atenção, controlar as hormonas enquanto estão nas aulas."
Mais braços no ar, a chamar a chamar.
- "Tu, Pedro."
- "Stôra, está bem, podíamos, mas as aulas também podiam ser de 50 minutos, como os nossos pais tiveram, não é? Eles aprenderam as coisas todas em aulas de 50 minutos, não aprenderam? Aprenderam e fizeram as pontes e os edifícios, como esta escola em que nós estamos! Eles também tinham hormonas. Mas só tinham 50 minutos de aula!"
- "Isso é tudo verdade, Pedro, mas se pensares bem, é nos primeiros cinco minutos da aula que vocês estão mais indisciplinados."
Braços agitados, esticados, impacientes.
- "Diz tu, Susana."
- "Pois 'tamos, stôra, por causa dos 90 minutos da aula anterior!"
O debate durou duas horas e meia. Saí contagiada pela energia deles, pela vibração que os seus braços esticados provocaram no ar. A ânsia de crescer e viver que pulsava na sala invadiu-me a alma.
O debate sobre a indisciplina foi afinal muito mais disciplinado do que eu esperava.
Indisciplinadas são as reuniões de pais. Nessas, não há entusiasmo no ar. Há queixas e há críticas. Há muita falta de vontade. E há ausências.
Esta geração de pais, que sabe fazer pontes e edifícios, podia aprender a calar os ais.
Afinal são deles estes filhos com tantos mais.
02/04/2013
Artur e Panpan
Ontem fiz a viagem Amesterdão Lisboa num lugar encantado dentro do avião, ao lado deles.
Ambos exibiam o colar de plástico com a bolsa dependurada, guardiã dos seus documentos de transporte. Dois meninos que viajavam sozinhos e se cruzaram no meu caminho. E juntos cruzámos o céu.
Artur tem sete anos e queria saber se já podia usar manga curta quando chegasse a Portugal. Tinha passado as férias da Páscoa na companhia da mãe, que se tinha mudado há muito tempo, assegurou ele, para a Holanda. Viajava agora de regresso para junto do pai.
Panpan nasceu na China, longe de Xangai e perto fiquei-por-saber-de-onde, há dez anos. Vive há cinco em Portugal e também tinha ido de férias à Holanda. Para casa de um primo. Tinha as mãos ocupadas a jogar gameboy e falava sem tirar os olhos do jogo.
Ainda no chão, no aeroporto molhado e sombrio de Amesterdão, já tínhamos iniciado a amizade. Perguntaram-me quando começaria o avião a andar muito depressa.
Eu disse-lhes que iam sentir uma força a empurrar-lhes o corpo contra as costas da cadeira, e então iam perceber a velocidade. Eles não acreditaram e fizemos uma aposta.
Quando chegou o momento da aceleração em pista, ambos mantiveram-se triunfantes afastados do banco (não sem um cerrar de olhos e de dentes, em esforço) para me provarem que eu estava errada. Não havia força nenhuma.
Ganharam. A força tinha-se esquecido deles, eu bem vi!
Já acima das nuvens, o Panpan ia lançado nas suas divagações sobre a vida e fui então informada que o seu sonho é ir a Londres. Se eu já lá tinha ido? Sim, umas três vezes, talvez, ou quatro. Como é possível tantas, perguntavam os olhos amendoados desviados do gameboy por um instante.
É possível, porque eu sou muito mais velha do que tu.
E que idade tens?, pergunta o Panpan.
81, sugeriu o Artur. Não, corrigiu, 90 (deve ter visto os meus olhos arregalados de espanto, mas interpretou ao contrário). Tens 32, decidiu o mais velho. Está melhor, embora...
Há lá aquele relógio, continuava o menino do gameboy, mais uma vez sem tirar os olhos do jogo. É aquele relógio muito importante, sabes?
O Big Ben, sugeri.
Sim sim!! É esse! Ahhhh eu queria tanto ir a Londres! O livro que eu mais gostei de ler é do Sherlock Holmes e acontece tudo em Londres. Mas eu também queria entrar nos desenhos animados e ficar lá. O mundo nos desenhos animados é muito melhor. E também quero ser presidente da China e da América, rematou enquanto subia de nível no gameboy.
E depois perguntou-me se eu também tinha um sonho.
Tenho. Mas não lho contei. Nem ele quis saber qual é o meu sonho, o gameboy exigia agora toda a sua atenção.
E tu, Artur?
Eu sonhei que um elefante com cauda de dinossauro e dentes de tubarão e pés de galinha gigantes corria atrás de mim e me queria apanhar. Mas depois acordei. E também tive outro sonho com uma vaca que também me queria apanhar e que também tinha pés de elefante e asas de dragão. Umas asas assim muito pequeninas, estás a ver? a posição das mãos a acenar junto às axilas do Artur demonstrava as asas do dragão. Sim, estou a ver.
A conversa continuou dentro dos mundos encantados deles e eu encantada com eles.
Começámos a descer. A ideia de nunca mais os ver depois de abandonar o avião começou a doer-me.
Aterrámos. A hospedeira veio dizer-lhes para esperarem nos seus lugares até toda a gente sair. Quando me levantei para me ir embora, estendi-lhes a mão e despedi-me. Adeus. Desejei-lhes felicidades.
O Artur perguntou-me se eu ia chorar. Não, não vou chorar.
Mas fiquei a saber que a mãe dele chorou quando o entregou no aeroporto umas horas antes.
Se eu pudesse, dizia-lhe que os sonhos do seu filho foram ouvidos pelos anjos lá em cima. E que os anjos cuidam dos meninos que contam os sonhos acima das nuvens. Meninos com os olhos grandes do Artur e os olhos rasgados do Panpan.
Se o Panpan tivesse insistido, teria ficado a saber que o meu sonho é este.
Ambos exibiam o colar de plástico com a bolsa dependurada, guardiã dos seus documentos de transporte. Dois meninos que viajavam sozinhos e se cruzaram no meu caminho. E juntos cruzámos o céu.
Artur tem sete anos e queria saber se já podia usar manga curta quando chegasse a Portugal. Tinha passado as férias da Páscoa na companhia da mãe, que se tinha mudado há muito tempo, assegurou ele, para a Holanda. Viajava agora de regresso para junto do pai.
Panpan nasceu na China, longe de Xangai e perto fiquei-por-saber-de-onde, há dez anos. Vive há cinco em Portugal e também tinha ido de férias à Holanda. Para casa de um primo. Tinha as mãos ocupadas a jogar gameboy e falava sem tirar os olhos do jogo.
Ainda no chão, no aeroporto molhado e sombrio de Amesterdão, já tínhamos iniciado a amizade. Perguntaram-me quando começaria o avião a andar muito depressa.
Eu disse-lhes que iam sentir uma força a empurrar-lhes o corpo contra as costas da cadeira, e então iam perceber a velocidade. Eles não acreditaram e fizemos uma aposta.
Quando chegou o momento da aceleração em pista, ambos mantiveram-se triunfantes afastados do banco (não sem um cerrar de olhos e de dentes, em esforço) para me provarem que eu estava errada. Não havia força nenhuma.
Ganharam. A força tinha-se esquecido deles, eu bem vi!
Já acima das nuvens, o Panpan ia lançado nas suas divagações sobre a vida e fui então informada que o seu sonho é ir a Londres. Se eu já lá tinha ido? Sim, umas três vezes, talvez, ou quatro. Como é possível tantas, perguntavam os olhos amendoados desviados do gameboy por um instante.
É possível, porque eu sou muito mais velha do que tu.
E que idade tens?, pergunta o Panpan.
81, sugeriu o Artur. Não, corrigiu, 90 (deve ter visto os meus olhos arregalados de espanto, mas interpretou ao contrário). Tens 32, decidiu o mais velho. Está melhor, embora...
Há lá aquele relógio, continuava o menino do gameboy, mais uma vez sem tirar os olhos do jogo. É aquele relógio muito importante, sabes?
O Big Ben, sugeri.
Sim sim!! É esse! Ahhhh eu queria tanto ir a Londres! O livro que eu mais gostei de ler é do Sherlock Holmes e acontece tudo em Londres. Mas eu também queria entrar nos desenhos animados e ficar lá. O mundo nos desenhos animados é muito melhor. E também quero ser presidente da China e da América, rematou enquanto subia de nível no gameboy.
E depois perguntou-me se eu também tinha um sonho.
Tenho. Mas não lho contei. Nem ele quis saber qual é o meu sonho, o gameboy exigia agora toda a sua atenção.
E tu, Artur?
Eu sonhei que um elefante com cauda de dinossauro e dentes de tubarão e pés de galinha gigantes corria atrás de mim e me queria apanhar. Mas depois acordei. E também tive outro sonho com uma vaca que também me queria apanhar e que também tinha pés de elefante e asas de dragão. Umas asas assim muito pequeninas, estás a ver? a posição das mãos a acenar junto às axilas do Artur demonstrava as asas do dragão. Sim, estou a ver.
A conversa continuou dentro dos mundos encantados deles e eu encantada com eles.
Começámos a descer. A ideia de nunca mais os ver depois de abandonar o avião começou a doer-me.
Aterrámos. A hospedeira veio dizer-lhes para esperarem nos seus lugares até toda a gente sair. Quando me levantei para me ir embora, estendi-lhes a mão e despedi-me. Adeus. Desejei-lhes felicidades.
O Artur perguntou-me se eu ia chorar. Não, não vou chorar.
Mas fiquei a saber que a mãe dele chorou quando o entregou no aeroporto umas horas antes.
Se eu pudesse, dizia-lhe que os sonhos do seu filho foram ouvidos pelos anjos lá em cima. E que os anjos cuidam dos meninos que contam os sonhos acima das nuvens. Meninos com os olhos grandes do Artur e os olhos rasgados do Panpan.
Se o Panpan tivesse insistido, teria ficado a saber que o meu sonho é este.
01/04/2013
Jeitinho de mão
Com esta mania de ser independente em tudo, incluí no pacote das minhas habilidades verificar o ar dos pneus do carro, antes de uma longa viagem.
Faço-o há décadas e em todos os carros que tive até hoje - não foram muitos, mas foram alguns - fui bem sucedida no processo. Tão satisfeita isto me fazia sentir, que devo ter partilhado o facto com a Marina.
Nesse Verão combinámos ir de férias com os respectivos filhos, num total de quatro, connosco seis.
Destino, Algarve. Suficientemente longe para merecer a verificação dos pneus.
A minha amiga, muito mais realista do que eu e ciente das dificuldades da vida, não se tinha aventurado nesta caminhada de tratar o carro por tu.
Eu assegurei-lhe que a minha vasta experiência com os pneus e a respectiva pressão do ar era perfeita para, quando parássemos na estação de serviço de Palmela, a coisa fazer-se sem novidade. Todo este discurso foi acompanhado de uma ponta de orgulho deste lado.
É altura de dizer que desenvolvi um jeitinho de mão que aplicava com segurança, no momento de retirar a ponteira da manga abastecedora do pipo do pneu e não deixar ssssssair muito ar. Aquele sibilar enervava-me. Será que a pressão não baixou?
Palmela à vista, fizemos a paragem combinada, miudagem aos xixis.
Atirei-me primeiro ao meu carro, para transmitir confiança à minha amiga. Quatro pneus mais tarde, confirmada a minha destreza, passei ao carro dela.
No primeiro pneu não me aventurei com toda a garra no jeito de mão do momento final. Foi só ao de leve. Ssss.
No segundo pneu, estabelecida a confiança com o VW Passat novinho em folha da minha amiga, cá vai disto. Jeitinho final. Sssssssssssss. Bolas, ainda saíu ar.
Terceiro pneu, vou aprimorar. Sssssssssssssssssssssssss.
Ssssssssssssssssssssss???
- "Ó mãe........", diz-me a Sofia, "......o carro está a descer".
- "Mmm? a descer?"
Já não me aproximei do quarto pneu, a Marina tirou-me a mangueira assassina das mãos. Os dois pneus de trás estavam completamente vazios, barrigas estendidas no pavimento a antecipar o banho de sol que só no Algarve deveria acontecer.
Totalmente confusa, a balbuciar desculpas e com a garganta colada, eu tentava acreditar no que via. Sentia-me perdida e não compreendia porque o Passat estava contra mim.
Com as pernas a tremer, dirigi-me ao balcão de atendimento da estação de serviço. Mas o que fiz eu de errado?
- "Acabei de furar dois pneus ao carro da minha amiga" - disse eu à empregada, que me olhou com espanto misturado com medo e assim ficou cinco segundos enquanto processava a informação.
- "Dois?..." - repetiu ela, exibindo dois dedos da mão direita a ilustrar a quantidade.
O salvamento chegou depressa e afinal os pneus não estavam furados. Os pipos do Passat eram feitos de uma liga frágil, tecnologia recente, explicou o mecânico de serviço que nos salvou as férias (denotei um certo, ligeiro, divertido sorriso no seu rosto que prefiro não tentar interpretar).
A tal liga de que eram feitos os pipinhos, excelente para comunicar com o computador de bordo do automóvel, não era à prova de jeitinhos de mão. Esqueceram-se dessa parte, lá na VW. Sssssssssssss.
As férias foram boas e a Marina felizmente continua minha amiga.
Mas as minhas mãos não mais deram jeitinhos em pneus de qualquer carro.
Faço-o há décadas e em todos os carros que tive até hoje - não foram muitos, mas foram alguns - fui bem sucedida no processo. Tão satisfeita isto me fazia sentir, que devo ter partilhado o facto com a Marina.
Nesse Verão combinámos ir de férias com os respectivos filhos, num total de quatro, connosco seis.
Destino, Algarve. Suficientemente longe para merecer a verificação dos pneus.
A minha amiga, muito mais realista do que eu e ciente das dificuldades da vida, não se tinha aventurado nesta caminhada de tratar o carro por tu.
Eu assegurei-lhe que a minha vasta experiência com os pneus e a respectiva pressão do ar era perfeita para, quando parássemos na estação de serviço de Palmela, a coisa fazer-se sem novidade. Todo este discurso foi acompanhado de uma ponta de orgulho deste lado.
É altura de dizer que desenvolvi um jeitinho de mão que aplicava com segurança, no momento de retirar a ponteira da manga abastecedora do pipo do pneu e não deixar ssssssair muito ar. Aquele sibilar enervava-me. Será que a pressão não baixou?
Palmela à vista, fizemos a paragem combinada, miudagem aos xixis.
Atirei-me primeiro ao meu carro, para transmitir confiança à minha amiga. Quatro pneus mais tarde, confirmada a minha destreza, passei ao carro dela.
No primeiro pneu não me aventurei com toda a garra no jeito de mão do momento final. Foi só ao de leve. Ssss.
No segundo pneu, estabelecida a confiança com o VW Passat novinho em folha da minha amiga, cá vai disto. Jeitinho final. Sssssssssssss. Bolas, ainda saíu ar.
Terceiro pneu, vou aprimorar. Sssssssssssssssssssssssss.
Ssssssssssssssssssssss???
- "Ó mãe........", diz-me a Sofia, "......o carro está a descer".
- "Mmm? a descer?"
Já não me aproximei do quarto pneu, a Marina tirou-me a mangueira assassina das mãos. Os dois pneus de trás estavam completamente vazios, barrigas estendidas no pavimento a antecipar o banho de sol que só no Algarve deveria acontecer.
Totalmente confusa, a balbuciar desculpas e com a garganta colada, eu tentava acreditar no que via. Sentia-me perdida e não compreendia porque o Passat estava contra mim.
Com as pernas a tremer, dirigi-me ao balcão de atendimento da estação de serviço. Mas o que fiz eu de errado?
- "Acabei de furar dois pneus ao carro da minha amiga" - disse eu à empregada, que me olhou com espanto misturado com medo e assim ficou cinco segundos enquanto processava a informação.
- "Dois?..." - repetiu ela, exibindo dois dedos da mão direita a ilustrar a quantidade.
O salvamento chegou depressa e afinal os pneus não estavam furados. Os pipos do Passat eram feitos de uma liga frágil, tecnologia recente, explicou o mecânico de serviço que nos salvou as férias (denotei um certo, ligeiro, divertido sorriso no seu rosto que prefiro não tentar interpretar).
A tal liga de que eram feitos os pipinhos, excelente para comunicar com o computador de bordo do automóvel, não era à prova de jeitinhos de mão. Esqueceram-se dessa parte, lá na VW. Sssssssssssss.
As férias foram boas e a Marina felizmente continua minha amiga.
Mas as minhas mãos não mais deram jeitinhos em pneus de qualquer carro.
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