a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

23/07/2013

Rebuçados de gengibre

Ainda estou a ouvir esta música. Já toda a gente se recolheu, o dia acabou e eu fiquei aqui. Esquecida do mundo.

Não de todo, a música também se deixou estar.

E repete-se uma e outra vez. Esta música casou connosco naquele dia, há muitos dias, quando caminhei em direcção a ti. Tinha o ramo de rosas na mão, um sorriso na alma e achava que íamos mesmo ser felizes. Enquanto esta melodia tocava. Lembras-te, claro.

Eu sonhava que a vida se arrumava toda, muito direitinha. E então podíamos vivê-la de perto. Um do outro.

A garrafa de champanhe ficou fechada, mas ainda a tenho no frigorífico. É para quando voltares, está bem?

Passado este tempo que devia ter sido nosso e nos foi roubado, estou só e estou triste.

Tu estás aí tão longe. E eu aqui e mais ninguém cá está.

Só a música.

Hoje cedo fui despedir-me das minhas filhas, foram no comboio. Escondi delas a minha tristeza. Elas fingiram bem não a ver.

Fiquei na plataforma a vê-las afastarem-se, as suas mãos a acenar e a ficar cada vez mais pequeninas, a fugir. Até o alfa pendular desaparecer na curva e o ar que ocupou o seu espaço movente vir embater-me nas costas, virar-me o cabelo, agitar-me para dentro deste dia só.

Acho que nunca tinha sentido o sabor da solidão. Por isso ainda não o sei descrever, este novo aroma que me veio fazer companhia.

Tentei os rebuçados de gengibre que comprei num dia de neura e que são do tipo caseiro. Colaram-se uns aos outros assim que o pacote de celofane ficou aberto por mais de um dia e deixou a humidade do ar combinar-se com eles. São grandes, os rebuçados de gengibre.

Mas o sabor da solidão não é este.


Olha, vou deixar a música ficar. A ver se ela se combina contigo e comigo e nós também ficamos colados um ao outro. Como os rebuçados de gengibre.

E o bolo? Ficou bonito.


17/07/2013

Música, por favor

Esta tarde está toda a gente na rua. Aqui, perto do meu trabalho.

Estamos a ver a luta dos dinossauros, que já começou. Afinal são três, os lagartões. E tão grandes que são.

Estou petrificada, eu. De medo.

Não estou sozinha, estou petrificada e os outros também. Ninguém se mexe.

Ai não.

Não é de medo, não.

Estou petrificada mas é de fóssil.

O tempo voou, eu devo ter-me distraído.

E os dinossauros começaram a luta que esteve suspensa milhões de anos.

Bolas, e agora? Tenho tanto que fazer.


Alguém aí põe música, por favor? Talvez os bichos acalmem e nos deixem voltar ao trabalho.


14/07/2013

Pantera cor-de-rosa

Estava parada no sinal para peões. Aguardava a oportunidade para atravessar.

A sua expressão não tinha expressão. A sua cauda esvoaçava suavemente como se uma brisa relaxante a envolvesse, ali, na cidade tão calma.

Não havia carros, a rua estava deserta.

Pôs um pé no asfalto, a Pantera. Fez menção de atravessar.

Nesse instante, carros, camiões e todos os veículos motorizados, barulhentos, apressados, agressivos, apareceram da esquerda e da direita mais ou menos à velocidade do som.

A Pantera recolheu o pé e tudo acalmou como que por magia. Nesse instante.

A sua expressão manteve-se sem expressão. A sua cauda continuava a esvoaçar suavemente, em resposta à brisa que ainda lá estava.

Pôs de novo o pé no asfalto. E de novo uma infinita multidão de automóveis, ambulâncias, carros de bombeiros, autocarros, alinhados em gritante poluição sonora, surgiram do nada e outra vez à velocidade do som deslocavam-se em ambos os sentidos.

O pé foi retirado e tudo se reduziu harmoniosamente à brisa de que a cauda da Pantera desfrutava.

A situação repete-se, mais vezes, muitas, não sei quantas. Foi há muito tempo. Mas ainda hoje tenho medo de atravessar a estrada. Lembro-me sempre da Pantera.

Que injustiça a vida lhe oferecia. Seria inveja, por ela ser assim, tão cool?

Se pudesse tinha-lhe dado asas, para ela voar por cima daquilo tudo, atravessar a rua, vencer.

Mas desconfio que se asas houvesse para a Pantera, aviões furiosos haviam de surgir.

Não gosto de injustiças.

Da Pantera só mostro a música. Essa, pelo menos, não pode ser esmagada pela fúria dos invejosos.


11/07/2013

Estrelas na areia

Tenho tantas saudades tuas.

Procurei-te por todo o lado.

Entrei no café onde íamos sempre e o empregado a quem deste a provar os teus doces de Natal, lembras-te?, perguntou por nós. Não sei, disse eu. Não estavas lá, por isso eu também não. Estavam só o vazio e o frio. O sorriso do homem do café também tinha saído.

Fui à loja dos anéis onde nos sentámos a escolher loucuras e nos ofereceram uma bebida. Não estavas. Vi outro par de noivos sentados nas nossas cadeiras. Fugi.

Corri ao aeroporto, onde tantas vezes te encontrei e onde te vi sempre caminhar, correr, para mim. E eu para ti. Não desta vez.

Lembrei-me da loja dos discos, aquela que vende os teus cd's de música clássica. Fui lá, mas a loja já fechou. Tinha os vidros, por dentro, cobertos de papel pardo. Onde compras agora os teus discos?

Subi a única colina do teu país, ao hospital onde passaste todos aqueles dias ligado aos tubos e à cama articulada. Procurei em todos os pisos, não te vi.

Peguei furiosamente no meu carro e voei até ao Alentejo, entrei no café dos matemáticos, mas tu tinhas saído há muito. Entretanto o largo do café já tem igreja, sabias disso?

Acabei o dia na praia. Na praia onde daquela vez vi os roazes do Sado, contei-te? Olhei para o ceú à procura das estrelas e do seu poder mágico. Mas elas não chegaram porque o Sol ainda não se pôs, ali ao fundo, no mar.

Sentei-me na areia e então chorei.

Onde estás?

Vi as minhas mãos enterrarem-se neste solo macio e duro ao mesmo tempo. Por entre os meus dedos os grãos corriam como se fossem líquido em pedaços.

Em pedaços está o meu coração. E as estrelas, onde estão?

E foi então que as vi. Muitas, imensas. Todas coladinhas, alinhadas umas com as pontas aos mesmos cantos das outras. Tão bonitas.

As estrelas estavam todas ali. Escondidas na areia.


Acordei de um salto. Aproximei-me da janela do meu quarto vazio e olhei para fora, para o céu. Ainda é noite e as estrelas estão lá, brilham para mim. Para ti também?

Sequei as lágrimas, voltei para a cama, adormeci.

De manhã, quando acordei, encontrei esta foto no chão do quarto. Foste tu?

10/07/2013

O tempo voa

No caminho que faço de manhã para o trabalho, o meu novo trabalho, passo por um cavalo marinho enfeitado numa rotunda e um par de dinossauros em luta suspensa.

Isto por acaso agrada-me.

O cavalo marinho está virado para o lado da rotunda de onde eu venho. Portanto, ele vê-me surgir da curva que me tira do IC19. Digo isto porque o cavalo marinho é muito alto.

Deve ser uma espécie já extinta, visto conseguir manter-se fora de água tanto tempo e não perder o aspecto de frescura esverdeada que ostenta. Também mantém os enfeites, o vaidoso. Vê-se mesmo que para ele o tempo é muito, tanto que já não conta.

Mais à frente, empoleirados no telhado tipo terraço de um espaço comercial, estão os dinossauros. Parecem prestes a desatar à bulha.

Talvez saia o primeiro soco daqui a uns três milhões de anos. São criaturas que vivem numa escala de tempo a anos-luz da nossa. É por isso que não têm pressa nenhuma.

Já comigo não é assim. Tenho pressa de chegar ao trabalho. Onde nada está extinto. Tudo vibra em urgências de desenvolvimento, a tecnologia não espera, o mercado exige, vamos lá.

Acho que não sabe de dinossauros, a tecnologia. Nem de cavalos marinhos sem tempo.

O que sabe é correr em ânsias de chegar à frente. É por isso que no meu trabalho novo o tempo voa.


A garrafa de vinho branco que ando a beber por causa dos 35ºC que me esperam em casa ao final do dia, está a acabar.

Amanhã paro no espaço comercial dos dinossauros e vou lá comprar outra. Enquanto não começa a luta, que o tempo voa.