Ontem no caminho para casa depois do trabalho, parei no supermercado para comprar maçãs.
Enquanto caminhava em direcção às portas deslizantes, vejo que têm coladas nos vidros fotografias de maçãs verdes, em tamanho enorme, que boas devem ser, talvez as veja lá dentro, de verdade, ainda para mais com as gotas de água salpicadas na casca reluzente, a deslizar, agora enfiam-se dentro da porta fixa e lá vou eu.
Eu detesto, detesto profunda e genuinamente, fazer compras. De supermercado, de roupas, de sapatos, de farmácia, de coisas que não servem para nada, de perfumes, de chapéus de chuva, lá em casa consomem-se muitos não sei porquê, de cházinhos gourmet, de sabonetes, de lâmpadas, de papel de embrulho para o Natal, de espremedores de citrinos, detesto.
Com uma excepção, mas já lá vamos, ainda estamos a entrar no supermercado e ia eu a pensar.
Em detestando compras de tal maneira, não se compreende porque cruzo tantas vezes por semana as portas envidraçadas com maçãs verdes gigantes que no mês passado exibiam sardinhas prateadas também em tamanho familiar, postas por ordem, inteiras e não às postas, não confundamos os peixes, leve quatro pague três, ou não era aqui?
Gostava bem mais de quando lá tinham colados às portas os pimentos amarelos, de um tom torrado, tão bonito, em tamanho imenso, lá está, é a imagem de marca: produtos gigantes para alarmar os clientes, estimular-lhes a curiosidade. Ora os pimentos faziam lá melhor figura que os peixes de prata (como na canção, quem se lembra?) e as maçãs sugestivamente suculentas. Só não mordi um daqueles, porque as portas nunca deixaram, as egoístas.
Portanto, vamos lá outra vez, ontem entrei para comprar maçãs. Demorei-me apenas o tempo suficiente para encontrar produto cá da terra, pus-me na fila de pagamento que é sempre tão demorada que me faz bocejar muitas vezes por minuto enquanto leio as capas das revistas do escaparate de topo, ao lado das pastilhas elásticas, a contar os desfechos dos amores e dos ódios em vigor nas novelas, pago as maçãs, finalmente, e saio a tentar fintar as verdes, que são sempre mais rápidas, cá vou eu, boa tarde.
Sobre o mistério que me leva a ir tão frequentemente ao supermercado, não posso mais fazer que declarar que, por enquanto, não o resolvi.
O que resolvi foi voltar à loja de Moscavide no próximo sábado. Nessa loja nem sempre se fazem compras, e eu dessa gosto mesmo, ora oiçam.
Visitei-a quando precisei de um fecho de correr, novo, para a almofada das costas do velho sofá lá de casa. Enquanto esperava a minha vez, vejo aproximar-se do balcão um velho, um velhote, que segurava um saco de plástico azul dentro do qual estavam três lanternas, nenhuma funcionava, a combinação de pilhas não estava a dar certo. Precisava de uma delas, pelo menos, o senhor sabe como é, para à noite ir à casa de banho. O senhor sabia, reagrupou as pilhas, pôs-lhe uma lanterna a funcionar, não sei como fez, daqui não vejo muito bem, mas sei que não vendeu nenhuma pilha, nada, não foi preciso. O velhote que voltasse assim que a luz começasse a falhar.
A minha vez. Pedi um fecho novo, está a ver, deste comprimento, tem que se medir se faz favor. Menina, dê cá isso, o fecho está bom, eu vou ali e já venho e não precisa de fecho novo. Ele foi ali, ele voltou e eu saí da loja com o mesmo fecho e com vontade de lá ficar. Para ver como ia ele tratar os clientes seguintes. Se algum lhe conseguiria comprar alguma coisa, qualquer coisa.
No próximo sábado, está decidido, volto lá. O fecho da mochila da Mafalda está estragado, mesmo estragado, e eu quero ver como vai ser.
Depois, quando sair da loja de fechos de Moscavide, vou entrar numa livraria, uma qualquer. E só de lá arredarei pé com um livro. Meto-o na mochila com fecho novo, para testar o fecho e trazer o livro para casa.
Detesto fazer compras, com uma excepção. Não, duas.
Fechos de correr na loja de Moscavide e livros.
11/09/2013
06/09/2013
A cena
Não me sai da cabeça, a cena, não sai. Anda a meter-se nos meus pensares, uma, duas vezes por dia, talvez mais.
Foi assim.
Era a hora de fazer o jantar e ter a televisão da cozinha ligada, a passar as notícias. Para lá não olho muito, é mais ouvir, mas quando vinha da despensa com a pimenta na mão e me posicionei de frente para o pequeno ecrã, vejo a cena. A tal que não me sai da cabeça.
Seis pessoas, dois homens e quatro mulheres, um incêndio que ameaçava as casas por ali. As chamas dançavam à frente deles os seis, nenhum era bombeiro. Tentavam, desesperadamente, vencer o fogo, disse o jornalista.
Os dois homens seguravam uma mangueira, a mesma mangueira, uma mangueira normal, das que se tem para regar o jardim.
As quatro mulheres carregavam baldes enormes daqueles de tinta, muitos litros lá cabem, muitos, e cheios de água, transportados por elas, cada uma com o seu, a verter água alguns, pelo caminho, uma escorregou, a outra ultrapassou-a, o fogo mesmo ali.
Um dos homens que seguravam a mangueira a apontar para o fogo, dava ordens às mulheres. Aqui, agora ali, mais para lá, deita mais aqui, olha aqui. E elas para cá, para lá, os baldes enormes, mesmo grandes, a água a saltar, a verter, elas a correr, escorregavam, continuavam, a água a lançar-se às chamas. Um e outro, quatro baldes à vez, depois oito, a mangueira a jorrar, muito bem segura por quatro mãos, mais para ali, mais para aqui e a cena mudou.
De volta ao estúdio e o pivot do jornal das oito retomou o ponto em que devia continuar. Parece que não viu a cena. Sobre a força silenciosa, obediente, das mulheres, nada disse, nada.
Talvez tenha perdoado aos homens, pelo horror da situação.
Eu acho boa ideia, perdoar.
Mas acho ainda melhor deixar aqui um abraço àquelas quatro mulheres, nunca mais as vou esquecer.
Foi assim.
Era a hora de fazer o jantar e ter a televisão da cozinha ligada, a passar as notícias. Para lá não olho muito, é mais ouvir, mas quando vinha da despensa com a pimenta na mão e me posicionei de frente para o pequeno ecrã, vejo a cena. A tal que não me sai da cabeça.
Seis pessoas, dois homens e quatro mulheres, um incêndio que ameaçava as casas por ali. As chamas dançavam à frente deles os seis, nenhum era bombeiro. Tentavam, desesperadamente, vencer o fogo, disse o jornalista.
Os dois homens seguravam uma mangueira, a mesma mangueira, uma mangueira normal, das que se tem para regar o jardim.
As quatro mulheres carregavam baldes enormes daqueles de tinta, muitos litros lá cabem, muitos, e cheios de água, transportados por elas, cada uma com o seu, a verter água alguns, pelo caminho, uma escorregou, a outra ultrapassou-a, o fogo mesmo ali.
Um dos homens que seguravam a mangueira a apontar para o fogo, dava ordens às mulheres. Aqui, agora ali, mais para lá, deita mais aqui, olha aqui. E elas para cá, para lá, os baldes enormes, mesmo grandes, a água a saltar, a verter, elas a correr, escorregavam, continuavam, a água a lançar-se às chamas. Um e outro, quatro baldes à vez, depois oito, a mangueira a jorrar, muito bem segura por quatro mãos, mais para ali, mais para aqui e a cena mudou.
De volta ao estúdio e o pivot do jornal das oito retomou o ponto em que devia continuar. Parece que não viu a cena. Sobre a força silenciosa, obediente, das mulheres, nada disse, nada.
Talvez tenha perdoado aos homens, pelo horror da situação.
Eu acho boa ideia, perdoar.
Mas acho ainda melhor deixar aqui um abraço àquelas quatro mulheres, nunca mais as vou esquecer.
04/09/2013
Avozinha
Estou com remorsos.
Disse, há dois posts atrás, que não morro de amores pelos e-readers ou livros electrónicos. Magrelos, insípidos, artificiais, esconderijos cínicos da leitura dos outros, etc, está bem, pronto, vou parar.
É que há tecnologia de que gosto mesmo muito, e isso é preciso esclarecer, não vá a minha amiga Marina voltar a dizer que estou uma avozinha.
Lembro-me por exemplo, assim sem pensar muito, dos correctores ortográficos. Essas maravilhas dos editores de texto que arrumam as letras que os meus ansiosos dedos trocam de lugar, não obedecem à minha mente que emite palavras em catadupa, e tal, mas correctíssimas aqui dentro do meu pensar. E que ficariam injustamente mal escritas, não fosse o corrector corrigir.
Portanto, a condição de avozinha ainda não está perto: gosto dos correctores ortográficos. Já me safaram de certos embaraços e isso é de louvar.
No entanto, já agora que viemos até aqui, vai o resto: uma ocasião houve em que o corrector não percebeu as minhas alegres intenções e não corrigiu.
Eu, por altura do Natal passado, desejei, por escrito, aos meus prezados contactos profissionais,
Um Ano Novo cheio de alergias.
E agora estou com remorsos.
Disse, há dois posts atrás, que não morro de amores pelos e-readers ou livros electrónicos. Magrelos, insípidos, artificiais, esconderijos cínicos da leitura dos outros, etc, está bem, pronto, vou parar.
É que há tecnologia de que gosto mesmo muito, e isso é preciso esclarecer, não vá a minha amiga Marina voltar a dizer que estou uma avozinha.
Lembro-me por exemplo, assim sem pensar muito, dos correctores ortográficos. Essas maravilhas dos editores de texto que arrumam as letras que os meus ansiosos dedos trocam de lugar, não obedecem à minha mente que emite palavras em catadupa, e tal, mas correctíssimas aqui dentro do meu pensar. E que ficariam injustamente mal escritas, não fosse o corrector corrigir.
Portanto, a condição de avozinha ainda não está perto: gosto dos correctores ortográficos. Já me safaram de certos embaraços e isso é de louvar.
No entanto, já agora que viemos até aqui, vai o resto: uma ocasião houve em que o corrector não percebeu as minhas alegres intenções e não corrigiu.
Eu, por altura do Natal passado, desejei, por escrito, aos meus prezados contactos profissionais,
Um Ano Novo cheio de alergias.
E agora estou com remorsos.
03/09/2013
A gaiola dourada
Sucumbi a tantas recomendações e fui ver "A Gaiola Dourada".
Bolas!!
Chorei que nem uma Margarida, como observou a minha filha, cujo historial de literatura consumida não inclui a bíblia.
Mais: a sala estava p'raí a sessenta por cento, o que nos tempos que correm e ao dia de semana, é notável.
Gostei muito, ri muito e, como já disse, chorei que nem uma Margarida.
E não me arrependi de ter sucumbido.
Bolas!!
Chorei que nem uma Margarida, como observou a minha filha, cujo historial de literatura consumida não inclui a bíblia.
Mais: a sala estava p'raí a sessenta por cento, o que nos tempos que correm e ao dia de semana, é notável.
Gostei muito, ri muito e, como já disse, chorei que nem uma Margarida.
E não me arrependi de ter sucumbido.
01/09/2013
Óculos vermelhos
Havia comboios que não circulavam, devido a obras na linha, e tivemos de esperar meia hora na estação até surgir a composição amarela e azul que nos levaria a Utreque, onde tencionávamos visitar o museu dos caminhos de ferro.
Esperámos ao sol num dos bancos de malha de metal preto, agradavelmente aquecido. Contra todas as previsões meteorológicas, hoje não choveu.
A viagem de comboio foi mágica, como sempre. Não apenas por desta vez ter o Erik por companhia, mas porque viajar de comboio é mágico, ponto final.
À minha frente sentou-se uma senhora mais entrada na idade que eu, mas ainda longe de idosa.
Mal se instalou, encavalitou os óculos de massa vermelha no nariz e, enquanto eu lhe seguia com muita atenção os movimentos, porque me interessa sempre sobremaneira o que fazem as pessoas no comboio, abriu o saco grande, castanho, que trazia.
Em lugar de sacar do seu e-reader para ler um livro electronicamente, como eu esperava e como vejo toda a gente fazer aqui nos países baixos, esta senhora de óculos vermelhos tira um livro de dentro da mala. Um livro verdadeiro, com folhas de papel autênticas, com capa colorida, um livro.
Aparentava também um certo avanço de idade, o livro, de tão usado, um pouco inchado, talvez orgulhoso. Várias folhas, aqui e ali, tinham os cantos dobrados, a marcar.
A dona dos óculos vermelhos desdobrou a última marca, a um décimo do fim, e começou a ler.
Torci-me em ângulos obtusos e agudos até conseguir ver o autor e o título do livro. Haruki Murakami, este foi fácil.
Falta o título. A ver se é o mesmo que eu li deste autor japonês, leitura que não admirei, mas também não desgostei, e assim talvez pudesse encetar um ou outro comentário com esta senhora, de tão contente estou por lhe ver o livro.
Mal consegui conter a curiosidade até, finalmente, num virar de página, o título. Norwegian wood. Hum, desconheço.
Ela lia, indiferente às minhas invasões observatórias. Estudei-lhe a expressão do rosto. Serena. Ausência de emoção. O que fazes tu, Murakami, que não levas a senhora a mostrar nada nadinha nem um leve arquear de sobrancelha, nem um retorcer de canto da boca, nada? Ela, que te dá ainda um lugar, não te enfiou numa coisa espalmada electrónica, sem cheiro, sem peso, sem cor, sem a ponta de interesse?! Ela, que exibe o teu nome a mim, aos outros passageiros e a toda a gente, que te respeita e te carrega no saco, que te dobra as pontas a marcar folhas, que não te misturou com outras quinhentas e setenta e nove obras reduzidas a uns quantos gigabytes?! Ah, esta senhora merecia mais, convenhamos!
Utrecht, Centraal Station, informa a voz no altifalante da carruagem.
Chegámos. Abandonámos o comboio, sem eu ter podido superar a minha cobardia, que me fez fingir total desinteresse pelo que a passageira à minha frente fazia ou sequer se lia. E apeei-me sem mais nada, que burra.
Podia ainda vê-la da plataforma, sentada no seu lugar. O comboio pôs-se em marcha, ela seguiu com o Haruki Murakami e a sua serenidade.
E eu segui com o Erik em direcção ao âmago de Utreque.
Enquanto caminhava distraidamente e quase era atropelada por várias bicicletas à vez, não fosse o Erik puxar-me ou empurrar-me, conforme, decidi que amanhã, quando chegar a Lisboa, compro uma versão traduzida para português de Norwegian wood, deve haver.
E vou lê-la no comboio, a ver se a serenidade vem sentar-se comigo. A ver a quantas folhas vou dobrar os cantos.
Mas antes disso.
Hoje à tarde, na cidade, comprei uns óculos vermelhos. Ficam-me tão bem.
Esperámos ao sol num dos bancos de malha de metal preto, agradavelmente aquecido. Contra todas as previsões meteorológicas, hoje não choveu.
A viagem de comboio foi mágica, como sempre. Não apenas por desta vez ter o Erik por companhia, mas porque viajar de comboio é mágico, ponto final.
À minha frente sentou-se uma senhora mais entrada na idade que eu, mas ainda longe de idosa.
Mal se instalou, encavalitou os óculos de massa vermelha no nariz e, enquanto eu lhe seguia com muita atenção os movimentos, porque me interessa sempre sobremaneira o que fazem as pessoas no comboio, abriu o saco grande, castanho, que trazia.
Em lugar de sacar do seu e-reader para ler um livro electronicamente, como eu esperava e como vejo toda a gente fazer aqui nos países baixos, esta senhora de óculos vermelhos tira um livro de dentro da mala. Um livro verdadeiro, com folhas de papel autênticas, com capa colorida, um livro.
Aparentava também um certo avanço de idade, o livro, de tão usado, um pouco inchado, talvez orgulhoso. Várias folhas, aqui e ali, tinham os cantos dobrados, a marcar.
A dona dos óculos vermelhos desdobrou a última marca, a um décimo do fim, e começou a ler.
Torci-me em ângulos obtusos e agudos até conseguir ver o autor e o título do livro. Haruki Murakami, este foi fácil.
Falta o título. A ver se é o mesmo que eu li deste autor japonês, leitura que não admirei, mas também não desgostei, e assim talvez pudesse encetar um ou outro comentário com esta senhora, de tão contente estou por lhe ver o livro.
Mal consegui conter a curiosidade até, finalmente, num virar de página, o título. Norwegian wood. Hum, desconheço.
Ela lia, indiferente às minhas invasões observatórias. Estudei-lhe a expressão do rosto. Serena. Ausência de emoção. O que fazes tu, Murakami, que não levas a senhora a mostrar nada nadinha nem um leve arquear de sobrancelha, nem um retorcer de canto da boca, nada? Ela, que te dá ainda um lugar, não te enfiou numa coisa espalmada electrónica, sem cheiro, sem peso, sem cor, sem a ponta de interesse?! Ela, que exibe o teu nome a mim, aos outros passageiros e a toda a gente, que te respeita e te carrega no saco, que te dobra as pontas a marcar folhas, que não te misturou com outras quinhentas e setenta e nove obras reduzidas a uns quantos gigabytes?! Ah, esta senhora merecia mais, convenhamos!
Utrecht, Centraal Station, informa a voz no altifalante da carruagem.
Chegámos. Abandonámos o comboio, sem eu ter podido superar a minha cobardia, que me fez fingir total desinteresse pelo que a passageira à minha frente fazia ou sequer se lia. E apeei-me sem mais nada, que burra.
Podia ainda vê-la da plataforma, sentada no seu lugar. O comboio pôs-se em marcha, ela seguiu com o Haruki Murakami e a sua serenidade.
E eu segui com o Erik em direcção ao âmago de Utreque.
Enquanto caminhava distraidamente e quase era atropelada por várias bicicletas à vez, não fosse o Erik puxar-me ou empurrar-me, conforme, decidi que amanhã, quando chegar a Lisboa, compro uma versão traduzida para português de Norwegian wood, deve haver.
E vou lê-la no comboio, a ver se a serenidade vem sentar-se comigo. A ver a quantas folhas vou dobrar os cantos.
Mas antes disso.
Hoje à tarde, na cidade, comprei uns óculos vermelhos. Ficam-me tão bem.
Subscrever:
Mensagens (Atom)