Uma das t-shirts de uma das minhas filhas exibe a inscrição "sweetness of nature" em letras brancas abertas em rectângulos pretos num fundo, de novo, branco. E foi hoje o dia em que os meus olhos pousaram nela, nesta hora de quietude no lar em que apenas resto eu de vigília. A t-shirt está pendurada nas costas de uma cadeira à espera de apanhar boleia para a gaveta a que pertence.
Eu ignorava até este momento que a minha filha informa o mundo, que com ela tem o privilégio de se cruzar, de uma verdade tão cristalina e tão pura.
Em primeiro lugar, não quero escrever um post comprido, para não fazer diminuir ainda mais o número de visitas a este blogue outonal.
Em primeiro lugar também (que vem apenas um nano segundo depois do parágrafo anterior e não um segundo inteiro), sinto-me uma má mãe por só agora ter visto o que está escrito numa camisola da minha doce filha, quando aquela já está a entrar na idade puída das camisolas.
Em segundo lugar, sinto-me uma má mãe porque nem sequer sei a qual das doçuras da natureza que eu pus no mundo esta peça de roupa idosa pertence.
Em terceiro lugar e com vista a manter o post curto e apetitoso de ler, se é que ainda vou a tempo, acabo de perceber porque dizem as minhas filhas a propósito de uma outra mãe que essa é que é uma mulher a sério. É que vai aos saldos, é que faz compras com as filhas (dela), é que sabe escolher.
Em quarto lugar e último (mantenho o intento da curteza do texto), há que esclarecer então, justiça seja feita, que a tal outra mãe, que já sabemos que é uma mulher a sério, não se importa com a música de levar-com-tábuas-na-cabeça que as lojas de roupa para jovens insistem em passar em altos berros. E por isso deve conhecer as mensagens das t-shirts das filhas.
Este parágrafo é extra, que depois do último não deve vir mais nada, mas há que fechar a história: eu, mulher a sério mas mãe incompleta, declaro que vou fazer uso dos tampões de esponja cor-de-laranja que me deram num voo de longo curso e vou acompanhar as minhas doçuras da natureza na próxima visita às lojas, vou vou. De tampões de esponja cor-de-laranja nos ouvidos e de sorriso na cara.
18/10/2013
16/10/2013
Muita satisfação
Acabo de descobrir que chá de gengibre com hortelã fresca é quase tão bom como ficar na cama ao sábado de manhã a sorrir de olhos fechados, que não é dia de trabalho.
Por isso, agora é isto: chego a casa, tiro os sapatos e o casaco, ponho uma coisa de borracha nos pés que me assenta muito bem o andar, visto outro casaco, um que comprei há doze anos quando ainda era branco, numa loja de desporto, e antes de desatar a gritar às miúdas que arrumem os livros da escola, os ténis espalhados pelo chão, a manta do sofá que ganha vida própria quando elas estão em casa mas nunca foi uma, sempre a outra, antes disto tudo, deito água na chaleira nova e carrego no botão.
Enquanto oiço o apito rouco que a electricidade faz ao manobrar poderosamente a energia, enfiando-a dentro da molécula de dois hidrogénios com um oxigénio, enquanto isso, corto fatias finas de gengibre que trouxe do supermercado e penso: o gengibre é como eu. Feio por fora, bom por dentro.
Depois, quando a água atinge o ponto de mudança de estado e a chaleira sabichona da tecnologia faz saltar o botão que eu antes accionei, deito um pezinho ou dois de hortelã dentro da panela do chá (panela fica bem mas é bule, é bule), a água fervente por cima e deixo-me levar pelo aroma.
A seguir esqueço-me de gritar tudo o que declarei que grito às minhas filhas, preparo o jantar e bebo o chá de gengibre com hortelã como se não houvesse amanhã. Esta expressão corriqueira agrada-me bestialmente e por isso hoje a posto aqui com muita satisfação.
E agora que mudei o teor dos meus posts para receitas caseiras, vou tratar da pilha de roupa que está por passar. Como se não houvesse amanhã.
Por isso, agora é isto: chego a casa, tiro os sapatos e o casaco, ponho uma coisa de borracha nos pés que me assenta muito bem o andar, visto outro casaco, um que comprei há doze anos quando ainda era branco, numa loja de desporto, e antes de desatar a gritar às miúdas que arrumem os livros da escola, os ténis espalhados pelo chão, a manta do sofá que ganha vida própria quando elas estão em casa mas nunca foi uma, sempre a outra, antes disto tudo, deito água na chaleira nova e carrego no botão.
Enquanto oiço o apito rouco que a electricidade faz ao manobrar poderosamente a energia, enfiando-a dentro da molécula de dois hidrogénios com um oxigénio, enquanto isso, corto fatias finas de gengibre que trouxe do supermercado e penso: o gengibre é como eu. Feio por fora, bom por dentro.
Depois, quando a água atinge o ponto de mudança de estado e a chaleira sabichona da tecnologia faz saltar o botão que eu antes accionei, deito um pezinho ou dois de hortelã dentro da panela do chá (panela fica bem mas é bule, é bule), a água fervente por cima e deixo-me levar pelo aroma.
A seguir esqueço-me de gritar tudo o que declarei que grito às minhas filhas, preparo o jantar e bebo o chá de gengibre com hortelã como se não houvesse amanhã. Esta expressão corriqueira agrada-me bestialmente e por isso hoje a posto aqui com muita satisfação.
E agora que mudei o teor dos meus posts para receitas caseiras, vou tratar da pilha de roupa que está por passar. Como se não houvesse amanhã.
09/10/2013
Televisão com fibra
Armanda Passos
- Mas porquê? Porque gostas do quadro? - quis ele saber.
- Sei lá, gosto. Gosto muito. É a cor e os pés, grandes. Os vestidos também, claro. Gosto muito. - disse eu.
Mas não disse tudo, nunca digo. Um quadro e eu, em gostando um do outro, temos segredos.
E deste gosto porque aquela mulher sou eu.
Sou a camponesa livre que galga o terreno com uns pés grandes, consistentes, e que não tem medo.
Sou esta mulher que vai à terra deitar-lhe as sementes que traz na dobra do avental colorido e regressa a casa com a certeza da colheita.
Sou a mulher que sabe esperar pela primavera e que, enquanto o inverno corre, coze o pão e recolhe a lenha, para acender o fogo que nunca lhe falta e enche a casa, que é o seu lar, de aromas quentes, inesquecíveis.
Sou a que conhece a chuva que vai cair amanhã e o cantar do vento que ainda não parou.
Sou a que leva o cântaro e o enche na fonte de água cristalina e fresca, só para a ouvir. E pelo caminho conta a história da velha que não sabia ler nem escrever à criança que imagina levar pela mão.
Sou a que, com assobios desafinados, imita os pássaros e com eles fala.
Aquela mulher sou eu. Sou a da direita e também a da esquerda. Sou as duas, que a solidão não me conhece.
É que naquela terra, em que semeando dá em colhendo, não houve lembrança de criar padrões de beleza. E eu, em segredo, sem medo, podia ser feia.
- Sim, gosto muito. Da cor, dos pés grandes e dos vestidos - repito, enquanto oiço o cão do andar de cima ladrar porque o vendedor dos quatrocentos e oitenta e nove canais de televisão com fibra tocou a todas as campainhas do prédio.
02/10/2013
Pintado de fresco
Não vou contar isto em tom de queixa, prometo.
O trabalho hoje foi a rasgar pano, tinha de terminar o apanhado de um fenómeno que nos caiu na sopa para engolirmos quer gostemos ou não, lá na empresa. E foi mesmo a cem à hora e não sem hora, porque às dezoito e quinze havia a reunião na escola da outra filha.
Desta vez tenho de agradecer aos anjos o ter participado finalmente numa reunião de pais em que todos, mas todos, pais, mães e uma irmã, disseram coisas pertinentes, interessantes, interessados, e educadamente! Todos! E - cereja no topo - a mostrar o amor pelos educandos, coisa que nem sempre está patente.
Saí da reunião com a bexiga a reclamar a hora do alívio, aguenta aí só mais um bocadinho, está quase.
Ainda precisava de comprar o jantar e mais umas coisas imprescindíveis para sexta feira e como amanhã é dia de ginásio e ontem também foi, só sobrou hoje.
Estacionei à porta do supermercado às dezanove e cinquenta e voltei a entrar no carro com os sacos cheios (e a bexiga também, não esquecer) às vinte horas e catorze minutos. Sorri no escuro do habitáculo, satisfeita com a eficiência da operação.
Até casa eram só mais umas poucas centenas de metros, onde me esperavam as minhas filhas, uma delas a estalar de curiosidade para saber como foi a reunião, mãe?
Pressionei o botão do lado esquerdo do comando do portão da garagem (o botão do lado direito está lá, mas não tem serventia) e assim que o espaço na vertical permitiu passar o meu automóvel e mais um milimetrozinho para a margem, lancei-me rampa abaixo entusiasmada com a chegada a casa. Mas na curva, bolas, na curva do Seat que está lá a coleccionar pó às camadas, ouvi um som de rrrrrrrrrr que não me deixou nem o tal milímetro de margem para dúvidas.
Boa. Raspei o carro do vizinho do oitavo andar.
Estacionei no meu lugar, irritada com o aperto da garagem, a posição dos outros carros, a dos planetas e também com a natureza, que me encheu a bexiga desta maneira, logo na altura em que mais precisava de não raspar carro nenhum. Escusado será referir que a satisfação que trazia da operação-supermercado-fulminante sumiu-se por causa do Seat da curva da garagem.
Saí do carro, do meu, e dei a volta a ver o estrago. Nada, com o dedo retirei as vinte e três camadas de pó sobrepostas numa linha de cor indefinida que roubei ao Seat. Voltei a ver a cor preta do meu carro, em todo o seu esplendor.
Carregada com os sacos para não ter de voltar atrás, já se sabe as urgências que trazia, dirigi-me à curva onde está o Seat, que fica a caminho do elevador, e observei a zona da linha de pó que lhe fiz o favor de limpar. Estava lá. E estava também o risco preto, pintado de fresco por mim.
Mas eis que foco melhor a visão, pouso os sacos pesados, e verifico que a minha marca tem companhia.
Havia lá outras, assinaturas de todas as cores, branco, vermelho e uma de um azul pálido que conheço vagamente da mesma garagem.
De volta à sensação de não estar só no mundo, e já em casa, escrevi ao vizinho do oitavo andar a dar-lhe conta de que também eu lhe assinei o carro. De preto, vizinho, acho que ficou bonito.
De certeza que ele vai ficar contente. Eu já estou.
É que, entretanto, passei pela casa-de-banho.
O trabalho hoje foi a rasgar pano, tinha de terminar o apanhado de um fenómeno que nos caiu na sopa para engolirmos quer gostemos ou não, lá na empresa. E foi mesmo a cem à hora e não sem hora, porque às dezoito e quinze havia a reunião na escola da outra filha.
Desta vez tenho de agradecer aos anjos o ter participado finalmente numa reunião de pais em que todos, mas todos, pais, mães e uma irmã, disseram coisas pertinentes, interessantes, interessados, e educadamente! Todos! E - cereja no topo - a mostrar o amor pelos educandos, coisa que nem sempre está patente.
Saí da reunião com a bexiga a reclamar a hora do alívio, aguenta aí só mais um bocadinho, está quase.
Ainda precisava de comprar o jantar e mais umas coisas imprescindíveis para sexta feira e como amanhã é dia de ginásio e ontem também foi, só sobrou hoje.
Estacionei à porta do supermercado às dezanove e cinquenta e voltei a entrar no carro com os sacos cheios (e a bexiga também, não esquecer) às vinte horas e catorze minutos. Sorri no escuro do habitáculo, satisfeita com a eficiência da operação.
Até casa eram só mais umas poucas centenas de metros, onde me esperavam as minhas filhas, uma delas a estalar de curiosidade para saber como foi a reunião, mãe?
Pressionei o botão do lado esquerdo do comando do portão da garagem (o botão do lado direito está lá, mas não tem serventia) e assim que o espaço na vertical permitiu passar o meu automóvel e mais um milimetrozinho para a margem, lancei-me rampa abaixo entusiasmada com a chegada a casa. Mas na curva, bolas, na curva do Seat que está lá a coleccionar pó às camadas, ouvi um som de rrrrrrrrrr que não me deixou nem o tal milímetro de margem para dúvidas.
Boa. Raspei o carro do vizinho do oitavo andar.
Estacionei no meu lugar, irritada com o aperto da garagem, a posição dos outros carros, a dos planetas e também com a natureza, que me encheu a bexiga desta maneira, logo na altura em que mais precisava de não raspar carro nenhum. Escusado será referir que a satisfação que trazia da operação-supermercado-fulminante sumiu-se por causa do Seat da curva da garagem.
Saí do carro, do meu, e dei a volta a ver o estrago. Nada, com o dedo retirei as vinte e três camadas de pó sobrepostas numa linha de cor indefinida que roubei ao Seat. Voltei a ver a cor preta do meu carro, em todo o seu esplendor.
Carregada com os sacos para não ter de voltar atrás, já se sabe as urgências que trazia, dirigi-me à curva onde está o Seat, que fica a caminho do elevador, e observei a zona da linha de pó que lhe fiz o favor de limpar. Estava lá. E estava também o risco preto, pintado de fresco por mim.
Mas eis que foco melhor a visão, pouso os sacos pesados, e verifico que a minha marca tem companhia.
Havia lá outras, assinaturas de todas as cores, branco, vermelho e uma de um azul pálido que conheço vagamente da mesma garagem.
De volta à sensação de não estar só no mundo, e já em casa, escrevi ao vizinho do oitavo andar a dar-lhe conta de que também eu lhe assinei o carro. De preto, vizinho, acho que ficou bonito.
De certeza que ele vai ficar contente. Eu já estou.
É que, entretanto, passei pela casa-de-banho.
Via rápida
Todas as manhãs te levava à escola, de carro. Ias no banco redutor, adaptado ao teu tamanho de criança, no assento de trás. Habitualmente viajávamos em silêncio, a hora matinal não se presta a muita conversa.
A seguir à rotunda da estação de serviço, entrávamos no acesso que mete para a via rápida, à nossa esquerda. Rápida mas só de nome, àquela hora. O tráfego era denso. Lento, compacto, seguia impaciente. A manobra exigia-me uma boa dose de perícia ou a concessão de um dos outros condutores, a deixar-nos entrar. Acto contínuo, a minha mão direita ergue-se em agradecimento.
Num dia de tráfego mais fluido, a espaços, não levantei a mão ao entrar na via rápida.
- Não agradeces, mãe?
- Ninguém me deixou passar, filha, fui eu que entrei.
- Mas é melhor agradeceres. Se calhar a pessoa que vem atrás de nós queria deixar-te entrar.
Hoje o banco de trás do meu carro vai vazio, tu cresceste. Andas noutra escola e já vais sozinha.
Talvez agora te risses, se me pudesses ver. Todas as manhãs, ao entrar na via rápida, a minha mão aberta ergue-se, incondicionalmente.
Ficou-lhe o teu pedido na memória.
E naquele ponto da estrada, para sempre ligado a ti, abre-se-me este sorriso que vem da tua infância.
A seguir à rotunda da estação de serviço, entrávamos no acesso que mete para a via rápida, à nossa esquerda. Rápida mas só de nome, àquela hora. O tráfego era denso. Lento, compacto, seguia impaciente. A manobra exigia-me uma boa dose de perícia ou a concessão de um dos outros condutores, a deixar-nos entrar. Acto contínuo, a minha mão direita ergue-se em agradecimento.
Num dia de tráfego mais fluido, a espaços, não levantei a mão ao entrar na via rápida.
- Não agradeces, mãe?
- Ninguém me deixou passar, filha, fui eu que entrei.
- Mas é melhor agradeceres. Se calhar a pessoa que vem atrás de nós queria deixar-te entrar.
Hoje o banco de trás do meu carro vai vazio, tu cresceste. Andas noutra escola e já vais sozinha.
Talvez agora te risses, se me pudesses ver. Todas as manhãs, ao entrar na via rápida, a minha mão aberta ergue-se, incondicionalmente.
Ficou-lhe o teu pedido na memória.
E naquele ponto da estrada, para sempre ligado a ti, abre-se-me este sorriso que vem da tua infância.
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