Dois mil e treze foi um ano e pêras.
Mudei de emprego duas vezes, fiz nascer este blogue ainda que timidamente, passei o natal na serra e troquei os sofás cá de casa, sim, são dois (as últimas três palavras encontrei-as no filme de segurança da TAP).
Criei, portanto, dois monos. Animada da vontade de me despojar deles, liguei para a câmara municipal numa terça feira de sol, passou-se isto no julho, para que o serviço de recolha semanal, à quarta feira, se animasse também de vontade idêntica e levasse os sofás velhos.
Fui atendida por uma senhora.
- A sua morada, se faz favor.
(disse a minha morada, à qual poupo os meus leitores, à qual não poupei a senhora da câmara, nem tampouco a privei dos pontos, dos traços, dos "des" e do código postal completo)
- Não, não, tem de ser a morada certa - diz-me ela.
- A morada certa? - agora eu - mas esta é a minha morada certa, já lá moro há muitos anos e sei-a bem, até a sei de cor, veja a senhora.
(faço o telefonema no meu horário de expediente para coincidir com o de atendimento da câmara que cabe todo no meu, e do meu sobram prolongamentos tanto no início como no fim do dia)
- Não, não me refiro à morada que me disse, refiro-me à sua morada certa. Tem que me dar a morada que está na sua factura da água. Tem aí a facturazinha, tem?
- Não, isso é que não tenho, mas eu garanto à senhora que sei muito bem onde moro. Aliás, tenho aqui a chave de casa na mala, que serve mesmo nessa porta que lhe disse e à qual fui sempre ter sem me enganar, garanto à senhora... (e puxo do meu melhor sorriso na esperança que se faça ouvir do outro lado, costuma funcionar).
- Ligue-me amanhã e dê-me a morada certa, menina (ponto um, a tonalidade cristalina da minha voz põe-me muito abaixo da idade que tenho quando ao telefone, ponto dois, esta senhora nasceu sem uma ponta de humor, azar o meu).
Aproveito para esclarecer que em caso de perder a oportunidade de me ver livre dos monos nesta quarta feira, há que esperar pela próxima, o que não se afigura animador, visto ter de saltar por cima de dois sofás de cada vez que há que atravessar o corredor do apartamento desta morada tão difícil de identificar, na qual costumo dormir e comer diariamente.
- Mas por favor, minha cara senhora, acredite em mim, eu sei mesmo muito bem que a minha morada certa, certíssima, é esta, tente lá aí no seu sistema, tenta? (o meu sorriso voltou em força e a minha esperança também) Além disso - continuei - eu ponho os sofás na rua, por isso nem interessa muito o número da porta, pois não? Se eu disser a rua, só a rua...
- Não, não, ligue amanhã com a facturazinha e depois diga-me o seu número de cliente, está bem?
- Ahhh número de cliente... e o meu nome, posso dizer o meu nome, talvez...
- Menina, amanhã - apesar do "menina", a interrupção foi brusca e eu não consegui mesmo nada daquela senhora da câmara.
Os sofás foram parar à garagem e lá ficaram algumas semanas, todas aquelas em que me esqueci de pôr na mala uma factura da água, sempre que era terça feira.
Mas acabou por acontecer. E numa bela noite de verão, finalmente, nesse dia da semana já mencionado largamente, lanço-me na empreitada de movimentar os monstros para a rua como combinado com a senhora da câmara, enfim de factura em riste na mão, a ditar a morada certa e o número de cliente.
Primeiro levo um, fica aqui, encosto-o ao muro, já está.
Agora o outro, é só subir a rampa da garagem, cá vai, é pesado, isto...
E eis que o primeiro está a ser colocado numa carrinha branca, por alguém.
Anunciei a esse alguém este segundo, olhe, há aqui outro, se quiser...
Pediram-me para o esconder, que era só ir pôr este a casa, os dois não cabem, está bem?
Esteve muito bem e o casal, era um casal, levou os dois sofás que me fizeram muitos serões, ouviram muitas conversas, leram os livros que puderam e ainda assistiram a algumas sestas nesta morada e em duas ou três anteriores, mas isto não disse eu à senhora da câmara não fosse ela ficar confusa e pedir-me todo o meu arquivo de facturas da água ou coisa assim.
Na manhã seguinte, como cidadã cumpridora que tento ser, telefono à câmara a avisar que afinal o serviço ficava sem efeito, os sofás tinham sido levados por alguém.
- Ah, menina (lá está, é a minha voz cristalina), não era preciso ligar, a nossa carrinha passa sempre, à quarta feira...
29/01/2014
27/01/2014
Júpiter
Os ponteiros do
relógio marcam meia noite e parece-me quarenta e sete ou quarenta e oito
minutos, sofro de certo paralaxe daqui. O nevoeiro já se dissipou após uma
teimosia mantida o sábado inteiro, fez questão de abraçar a serra sem a deixar
ver o pé.
Levanto-me do
cadeirão que me lembra o meu avô, é por estar junto à lareira que a memória me
põe na infância, visto o casaco e saio para a rua. A luz eléctrica ilumina-me o
caminho empedrado povoado de sombras e de brilhos, herança da
humidade do dia. Entre as pedras grosseiras, anciãs, toda uma colónia de
ervinhas desenha os rectângulos o melhor que pode. A vida quer sempre vencer, penso.
A aldeia está
deserta, está sempre assim à excepção de quando vem a família inglesa, não essa,
outra, é que se vê gente. E um cão, gente e um cão.
Os meus passos
não oiço, as paredes sobreviventes das casas em ruínas já se esqueceram de como
se ecoam sons, que sons ausentes são os que ficaram. Não lhes cobro a falha,
pelo silêncio em que mergulham, deduzo que se julgam mortas.
No chão a minha
sombra agora alongada, cortesia do candeeiro que ficou para trás, chega ao
largo antes de mim. Aqui ouve-se a água que continua
a correr do cano para o lavadouro público e, embora sabendo-se viva, engana-se
muito, que a roupa já não se lava aqui.
Continuo a
caminhar até deixar de ouvir a água, sigo o trajecto por baixo dos postes de
luz eléctrica branca que prolongam o seu serviço até onde já não há ruínas,
casas nunca houve, entregando-me na escuridão que eu penetro até deixar de me ver projectada, esmagada contra o chão.
Não há vestígios
do nevoeiro que embrulhou a serra todo o dia, não há vento e quase não há frio.
E agora sim, olho
para o céu.
Na imensidão
suspensa lá em cima, distingo a via láctea a cruzar o negrume e cá está a minha existência a suspender-se também. Queria inventar uma
história para cada ponto luminoso, mas só sei reinventar a minha: a
pequenez de que sou feita, a irrelevância dos fragmentos de dor que me inundam
o espírito e que agora expulso em espasmos de paz.
Era mesmo isto
que me faltava, uma visita às estrelas. Um vislumbre da via láctea e a certeza
de que sou tão pouco, tão menos do que sinto, tão exígua que só a paz cabe
inteira cá dentro porque vem sem tamanho.
Encho-me do ar desta noite
desembaraçada do manto de névoa que lhe vestiu o dia, mas eu já disse isto, não
já?
- Olha, ali é
Júpiter, vês aquela estrela brilhante?, interrompes-me com o teu smart phone no ar, eu a ver toda a constelação desenhada no ecrã, Júpiter, efectivamente.
Júpiter e esta história que era só minha antes de teres falado. Tornaste:
- Vamos, que o jantar deve estar pronto. Amanhã temos de pôr pilhas novas no relógio, está parado, reparaste?
24/01/2014
Mambo vibrante
Enquanto o café corre na máquina, no cubículo a que se pode chamar copa, o tempo fica suspenso em mim e eu observo os meus polegares.
O cubículo onde corre o café deita para a cantina lá da empresa que a esta hora devia estar deserta, mas não é o caso. O técnico do alarme de incêndio está em cima do escadote a reparar o sensor de fumos junto ao tecto.
Não olho para ele, olho para os meus polegares que exibem unhas de famílias diferentes. A esquerda está sempre bonita e parece que me sorri desde que nascemos as duas, a direita não. Vai mudando a expressão consoante o que lhe oferece o dia, é um pouco achatada e normalmente acho-a feia. Hoje parece que franze o sobrolho. Só em momentos de elevada satisfação me sorri.
O café parou de correr, deve ter-se finalmente cansado.
Pego na chávena, envolvo-a com as mãos que agradecem o calor que a cerâmica rouba ao líquido e generosamente trespassa. O rapaz do sensor dos fumos está a descer do escadote que deve ter duas vezes a sua altura.
Sopro a superfície do café com a chávena junto ao meu nariz para lhe aspirar o vapor e vejo a nuvenzinha branca afastar-se de mim na direcção da cantina que não está deserta.
De repente o técnico, que carrega agora o escadote ao ombro e se dirige à porta, dá pela minha presença dentro do cubículo e faz um trejeito que eu vejo ser um trejeito de quem dá pela presença de uma pessoa dentro de um cubículo com uma chávena de café nas mãos. Estaca o passo. Depois aponta para a porta de saída e diz-me,
- Atão pois feixa a portazinha, atão?
- Fecho fecho, não se preocupe.
Gostei deste técnico de sensores de fumos e da pergunta que acabámos de ler.
Se ele tivesse dito,
- Então depois fecha a porta, fecha?
Eu estaria a esta hora a escrever sobre a última visita ao dentista ou então sobre a sessão de hoje no ginásio que foi particularmente vibrante, ainda estou a sentir o mambo.
Portanto voltemos ao café antes que arrefeça, que era aí que estávamos.
Deixado a sós com os polegares, incentivado pelo aroma que se espalha aqui e sem ninguém por perto a pedir que se fechem portas, o meu cérebro está que não se contem e solta a palavra thumbnails que vem meter conversa comigo.
Eu digo-lhe que podiam bem ter inventado tiny inches ou funny cartoons para nomear a visão das fotos aos quadradinhos no ecrã dos computadores. Mas thumbnails sobrepôs-se e ganhou. Aceito. Para além de ter bom perder, compreendo que as unhas dos nossos polegares podem bem ser factores determinantes na vida de uma pessoa quando o tempo fica suspenso e calha termos uma chávena de café nas mãos e já agora nenhum gadget por perto para brincar (eu não escrevi gajo, é gadget).
Ao segundo golo deste café, inesperadamente, a pergunta,
- E os widgets? Tens widgets?
Termino o café de um trago, não, não trago para aqui widgets, que coisa as palavras vestirem-se de igual e serem tão diferentes, viro as costas à conversa enquanto lavo a chávena na água corrente da torneira e depois apresso-me a tomar a vez na corrida, para que me meto eu nisto, gadget, widget, é dali para fora que vou, fecho a porta obedientemente, bem fechada, e volto ao meu local de trabalho.
Só mais tarde, à hora do almoço, assim como quem não quer a coisa, abordo o meu colega mais novo e informo que lhe vou lançar um desafio enquanto me sai um largo sorriso por cima da sopa: a diferença entre gadget e widget, sabes?
Ele arqueia as sobrancelhas a estranhar o desafio. Sabia. Olho para o colega mais velho na esperança de lhe ver espanto no rosto, jogamos na mesma equipa, verdade? não sabes, pois não? E o mais velho também sabia.
O que eles não sabem e eu não lhes vou dizer é que depois da sessão de mambo vibrante no ginásio, se reparar bem, visto daqui, olha só, estão-me os dois polegares a sorrir.
O cubículo onde corre o café deita para a cantina lá da empresa que a esta hora devia estar deserta, mas não é o caso. O técnico do alarme de incêndio está em cima do escadote a reparar o sensor de fumos junto ao tecto.
Não olho para ele, olho para os meus polegares que exibem unhas de famílias diferentes. A esquerda está sempre bonita e parece que me sorri desde que nascemos as duas, a direita não. Vai mudando a expressão consoante o que lhe oferece o dia, é um pouco achatada e normalmente acho-a feia. Hoje parece que franze o sobrolho. Só em momentos de elevada satisfação me sorri.
O café parou de correr, deve ter-se finalmente cansado.
Pego na chávena, envolvo-a com as mãos que agradecem o calor que a cerâmica rouba ao líquido e generosamente trespassa. O rapaz do sensor dos fumos está a descer do escadote que deve ter duas vezes a sua altura.
Sopro a superfície do café com a chávena junto ao meu nariz para lhe aspirar o vapor e vejo a nuvenzinha branca afastar-se de mim na direcção da cantina que não está deserta.
De repente o técnico, que carrega agora o escadote ao ombro e se dirige à porta, dá pela minha presença dentro do cubículo e faz um trejeito que eu vejo ser um trejeito de quem dá pela presença de uma pessoa dentro de um cubículo com uma chávena de café nas mãos. Estaca o passo. Depois aponta para a porta de saída e diz-me,
- Atão pois feixa a portazinha, atão?
- Fecho fecho, não se preocupe.
Gostei deste técnico de sensores de fumos e da pergunta que acabámos de ler.
Se ele tivesse dito,
- Então depois fecha a porta, fecha?
Eu estaria a esta hora a escrever sobre a última visita ao dentista ou então sobre a sessão de hoje no ginásio que foi particularmente vibrante, ainda estou a sentir o mambo.
Portanto voltemos ao café antes que arrefeça, que era aí que estávamos.
Deixado a sós com os polegares, incentivado pelo aroma que se espalha aqui e sem ninguém por perto a pedir que se fechem portas, o meu cérebro está que não se contem e solta a palavra thumbnails que vem meter conversa comigo.
Eu digo-lhe que podiam bem ter inventado tiny inches ou funny cartoons para nomear a visão das fotos aos quadradinhos no ecrã dos computadores. Mas thumbnails sobrepôs-se e ganhou. Aceito. Para além de ter bom perder, compreendo que as unhas dos nossos polegares podem bem ser factores determinantes na vida de uma pessoa quando o tempo fica suspenso e calha termos uma chávena de café nas mãos e já agora nenhum gadget por perto para brincar (eu não escrevi gajo, é gadget).
Ao segundo golo deste café, inesperadamente, a pergunta,
- E os widgets? Tens widgets?
Termino o café de um trago, não, não trago para aqui widgets, que coisa as palavras vestirem-se de igual e serem tão diferentes, viro as costas à conversa enquanto lavo a chávena na água corrente da torneira e depois apresso-me a tomar a vez na corrida, para que me meto eu nisto, gadget, widget, é dali para fora que vou, fecho a porta obedientemente, bem fechada, e volto ao meu local de trabalho.
Só mais tarde, à hora do almoço, assim como quem não quer a coisa, abordo o meu colega mais novo e informo que lhe vou lançar um desafio enquanto me sai um largo sorriso por cima da sopa: a diferença entre gadget e widget, sabes?
Ele arqueia as sobrancelhas a estranhar o desafio. Sabia. Olho para o colega mais velho na esperança de lhe ver espanto no rosto, jogamos na mesma equipa, verdade? não sabes, pois não? E o mais velho também sabia.
O que eles não sabem e eu não lhes vou dizer é que depois da sessão de mambo vibrante no ginásio, se reparar bem, visto daqui, olha só, estão-me os dois polegares a sorrir.
22/01/2014
A plenos pulmões
Anda muita gente a falar na zona de conforto, isto e aquilo, é em todo o lado, é sair, há que sair e não sei quê, já me anda a enervar.
Só não vi ainda ninguém a indicar o caminho para fora. É para onde? Para o aeroporto, se faz favor, isto disse eu ao taxista no outro dia, mas agora não é por aqui que vamos.
Vamos é dar um saltinho ao verão, que hoje choveu que se fartou, é para o dia em que eu saí da minha zona de conforto, se faz favor. Aviso já que não apreciei nem um bocadinho o resultado.
Era um domingo de Julho, um domingo de Julho de dois mil e treze e um domingo de Julho tórrido.
Saí de casa lançando-me nos mais de quarenta graus que o ar oferecia e tive a certeza que agora sim, isto é que vai ser, estamos em rota de cruzeiro para fora da zona de conforto. Aventurei-me rumo à praia, foi à Ericeira que apontei.
E tenho a dizer que consegui lá chegar. À Ericeira e à tal zona de fora do conforto, a foto não me deixa mentir.
A saber em detalhe: a) nenhum dos três chapéus de sol que se vêem na foto é meu, b) o meu estava fechado devido a uma crise gritante de espaço, c) estendi a minha toalha dobrada em quatro, com licença, d) enquanto tirei a foto pus o pé inadvertidamente dentro do balde da menina que brincava na toalha contígua à minha, e) e depois foi dificílimo retirá-lo sem cair em cima de cinco pessoas.
Estou, por conseguinte, inclinada a ir contra todas as recomendações oficiais e dizer ao mundo, deixem-se ficar na zona de conforto, não vão em cantigas.
No entanto, como tenho uma certa inclinação para a experimentação científica, cá vai outra tentativa, a confirmar.
Trata-se de, em vez de largar a escrever o que me anda à solta na cabeça, aos encontrões do lado de dentro do meu crânio fervente, aventurar-me a listar alguns conselhos de beleza e sucesso junto do sexo oposto dirigidos às mulheres. É um esforço que faço, coisa que, se a população de irmãs com que a vida me presenteou me lesse o blogue (não lêem) haviam, as irmãs, de arregalar os olhos incrédulas. Ora cá vai:
um. Após um dia inteiro com mini-meias de mousse calçadas, ou de vidro, tanto faz, não aparecer junto do vosso homem nas duas horas seguintes ao retirar das meias que, mesmo que as enrolem devagar para baixo e depois as façam girar em círculos à cowboy por cima das vossas cabeças, a marca do elástico continua lá;
dois. Ao deitar, não envergar a t-shirt do clube de futebol onde fizeram ginástica há uns quinze anos, cuja cor outrora branca assumiu um tom indefinido devido às lavagens e, ainda não acabei, em cujas mangas se pode ler em letras grandes, que era para se ver das bancadas do estádio, de um lado, "Grupor transitários" e, do outro, "Rações Sicasal Acral";
três. Deixar, ainda que vos custe, bem dobrada dentro da gaveta a roupa interior que herdaram de uma avó querida. Não é preciso deitar a roupa fora, basta mantê-la na gaveta de forma permanente.
Já estou suficientemente desconfortável e três conselhos que me custaram uma hora a escrever devem chegar.
Caso todos os meus onze leitores desapareçam deste blogue após este post, não considerarei recomendável a ninguém abandonar a zona de conforto. Direi, a plenos pulmões, como disse Camões (as rimas gostam de aparecer a esta hora), e tão bem que o disse: "Fazei o que mais souberdes."
(Seria uma pena perder os meus queridos leitores, o blogue dá-me tantas alegrias! Será que ter conta no facebook também é assim?)
Só não vi ainda ninguém a indicar o caminho para fora. É para onde? Para o aeroporto, se faz favor, isto disse eu ao taxista no outro dia, mas agora não é por aqui que vamos.
Vamos é dar um saltinho ao verão, que hoje choveu que se fartou, é para o dia em que eu saí da minha zona de conforto, se faz favor. Aviso já que não apreciei nem um bocadinho o resultado.
Era um domingo de Julho, um domingo de Julho de dois mil e treze e um domingo de Julho tórrido.
Saí de casa lançando-me nos mais de quarenta graus que o ar oferecia e tive a certeza que agora sim, isto é que vai ser, estamos em rota de cruzeiro para fora da zona de conforto. Aventurei-me rumo à praia, foi à Ericeira que apontei.
E tenho a dizer que consegui lá chegar. À Ericeira e à tal zona de fora do conforto, a foto não me deixa mentir.
A saber em detalhe: a) nenhum dos três chapéus de sol que se vêem na foto é meu, b) o meu estava fechado devido a uma crise gritante de espaço, c) estendi a minha toalha dobrada em quatro, com licença, d) enquanto tirei a foto pus o pé inadvertidamente dentro do balde da menina que brincava na toalha contígua à minha, e) e depois foi dificílimo retirá-lo sem cair em cima de cinco pessoas.
Estou, por conseguinte, inclinada a ir contra todas as recomendações oficiais e dizer ao mundo, deixem-se ficar na zona de conforto, não vão em cantigas.
No entanto, como tenho uma certa inclinação para a experimentação científica, cá vai outra tentativa, a confirmar.
Trata-se de, em vez de largar a escrever o que me anda à solta na cabeça, aos encontrões do lado de dentro do meu crânio fervente, aventurar-me a listar alguns conselhos de beleza e sucesso junto do sexo oposto dirigidos às mulheres. É um esforço que faço, coisa que, se a população de irmãs com que a vida me presenteou me lesse o blogue (não lêem) haviam, as irmãs, de arregalar os olhos incrédulas. Ora cá vai:
um. Após um dia inteiro com mini-meias de mousse calçadas, ou de vidro, tanto faz, não aparecer junto do vosso homem nas duas horas seguintes ao retirar das meias que, mesmo que as enrolem devagar para baixo e depois as façam girar em círculos à cowboy por cima das vossas cabeças, a marca do elástico continua lá;
dois. Ao deitar, não envergar a t-shirt do clube de futebol onde fizeram ginástica há uns quinze anos, cuja cor outrora branca assumiu um tom indefinido devido às lavagens e, ainda não acabei, em cujas mangas se pode ler em letras grandes, que era para se ver das bancadas do estádio, de um lado, "Grupor transitários" e, do outro, "Rações Sicasal Acral";
três. Deixar, ainda que vos custe, bem dobrada dentro da gaveta a roupa interior que herdaram de uma avó querida. Não é preciso deitar a roupa fora, basta mantê-la na gaveta de forma permanente.
Já estou suficientemente desconfortável e três conselhos que me custaram uma hora a escrever devem chegar.
Caso todos os meus onze leitores desapareçam deste blogue após este post, não considerarei recomendável a ninguém abandonar a zona de conforto. Direi, a plenos pulmões, como disse Camões (as rimas gostam de aparecer a esta hora), e tão bem que o disse: "Fazei o que mais souberdes."
(Seria uma pena perder os meus queridos leitores, o blogue dá-me tantas alegrias! Será que ter conta no facebook também é assim?)
19/01/2014
Planeta Azul
Li há dias que foram vistos por aí uns objectos voadores não identificados.
Temo saber do que se trata.
Em tempos idos, tempos cujas imagens, lançadas no espaço, já estão a vinte e cinco anos luz de distância, ou seja, a chegar à estrela Vega, eu tinha dificuldade em distinguir salsa de coentros.
Mas não era só isso.
Era também o homem do talho. Todo sabido, todo nove horas, se eu lhe pedia um pedaço de carne, vinha ele com a pergunta, é para estufar ou assar. Assar, assar, respondia ao calhas e muito depressa não fosse ele desconfiar, sabia lá eu o que era estufar. Quer dizer, sabia o que era estofar, mas isso não tinha nada que ver com talhos.
Ao peixe não me atrevia a chegar, se a pergunta vinha, é para quê, ainda me havia de sair é para quê? é para comer...
As senhoras mais velhas que encomendavam ao meu lado, estamos outra vez no talho, é que sabiam.
Sabiam os nomes das partes dos corpanzis da vaca e do porco e para que servia cada uma delas, é para guisar se faz favor. Como é possível?! A carne assim parece toda igual só a picada é que não mas com essa ensinaram-me a ter muito cuidado, tanto, que eu nem a comprava. E o coelho, coitadinho. Tão magrinho dependurado pelos pés e eu desde que um dia vi depenar um coelho, ou matar ou esfolar, um destes nomes há-de servir, não compro coelhos. Nem vivos nem os da exposição na prateleira refrigerada, bem podem vir as senhoras sabichonas da cozinha, que coelho não. Se se tratar de pato ou cabrito, saboreio o arroz do primeiro que a minha mãe faz e passo o natal com o segundo à mesma mesa mas não no mesmo prato, já provei uma vez, obrigada.
Portanto, desviei rota logo nessas primeiras imagens que com a conversa já devem ter chegado a Vega e entreguei-me às prateleiras das embalagens feitas onde só faz falta confirmar a data de validade, onde ninguém me pergunta nada sobre estufar ou grelhar e onde, com sorte, está lá escrito para que confecção se destina o pedaço.
O peixe, Vega já está ao corrente, levou o mesmo tratamento. Nem tentei as bancas, que as postas cortadas e congeladas na embalagem que vem do Atlântico Norte são um requinte, pronto a cozinhar é o que lá diz e cozinhar soa a coisa geral, não há que especificar se é na grelha, no forno ou dentro de água.
Mas isto, senhoras e senhores, trazia-me triste. Não saber retirar o melhor do que a natureza nos oferece ao prato não me povoava a existência de orgulho, não senhor. E por conseguinte as coisas, com o passar dos anos, sofreram certas alterações.
Hoje faço investidas confiantes nos balcões da senha de vez. Comecei pelos do peixe.
À segunda feira digo, com expressão facial adequada, ah hoje não há nada! fingindo que me tinha esquecido que era segunda feira, só pelo prazer de mostrar que sei muito bem em que dias não há pesca. À terça regalo-me com os robalos que levo, são fresquinhos, são? São sim minha senhora, enquanto se abre a guelra ao peixe a ilustrar a afirmação. O tom de vermelho é que diz se é fresco e eu acredito. Até por vezes, ora deixe ficar as escamas que é para fazer ao sal. Uma categoria.
Por causa do peixe, já aprendi a distinguir os coentros. Se me lanço no arroz de tamboril (mas que peixe tão feio, o tamboril fazia-me mais feliz quando o comprava aos cubos dentro do pacote), a prateleira dos cheiros já não me desafia. Pego com muita segurança no raminho que diz "Coentros" na etiqueta. Alguém generoso e com o olfacto afinado introduziu estas facilidades na vida das pessoas, embora com a ligeira desvantagem de, caso ande por perto alguém em idade de lançar as primeiras imagens a Vega, não estar eu em posição de impressionar com a destreza na escolha do ramo.
Quanto à carne, o estado da arte não regista desenvolvimento por aí além. Mesmo volvidos todos estes anos a comer e a beber, não se pode dizer que tenha passado muito tempo encostada aos vidros curvos dos balcões dos talhos a admirar as partes ensanguentadas que dançam nas mãos sábias dos talhantes vestidas de malha de aço, não sei se é para ficarem sexy, eu cá não vou nessa.
No entanto, há que admitir que dá Deus nozes a quem não tem dentes, que no bairro onde moro, oiço dizer, os talhos são que é uma beleza em qualidade.
Faço que sim que sim, concordo logo, ah pois são, até deixo que me brilhem os olhos, mas no que estou a pensar é nos croissants acabados de sair do forno da pastelaria com esta especialidade, que aliás tem fila ao sábado e ao domingo com gente de todas as idades, são delícias para degustar a gorda quantidade de chocolate que sai lá de dentro e nos vem queimar a língua e que nos escorre pelos dedos, mas quem se importa com isso, ninguém. E desses percebo eu desde os tempos com que iniciei esta narrativa, é só perguntar.
O que temo então?
Temo que estas imagens dos croissants a fumegar e a verter o líquido preguiçoso e terrivelmente aromático, tão aromático que foi longe, tenham sido captadas em Vega.
De lá, está visto que enviaram alguém aqui ao Planeta Azul para investigar.
Temo saber do que se trata.
Em tempos idos, tempos cujas imagens, lançadas no espaço, já estão a vinte e cinco anos luz de distância, ou seja, a chegar à estrela Vega, eu tinha dificuldade em distinguir salsa de coentros.
Mas não era só isso.
Era também o homem do talho. Todo sabido, todo nove horas, se eu lhe pedia um pedaço de carne, vinha ele com a pergunta, é para estufar ou assar. Assar, assar, respondia ao calhas e muito depressa não fosse ele desconfiar, sabia lá eu o que era estufar. Quer dizer, sabia o que era estofar, mas isso não tinha nada que ver com talhos.
Ao peixe não me atrevia a chegar, se a pergunta vinha, é para quê, ainda me havia de sair é para quê? é para comer...
As senhoras mais velhas que encomendavam ao meu lado, estamos outra vez no talho, é que sabiam.
Sabiam os nomes das partes dos corpanzis da vaca e do porco e para que servia cada uma delas, é para guisar se faz favor. Como é possível?! A carne assim parece toda igual só a picada é que não mas com essa ensinaram-me a ter muito cuidado, tanto, que eu nem a comprava. E o coelho, coitadinho. Tão magrinho dependurado pelos pés e eu desde que um dia vi depenar um coelho, ou matar ou esfolar, um destes nomes há-de servir, não compro coelhos. Nem vivos nem os da exposição na prateleira refrigerada, bem podem vir as senhoras sabichonas da cozinha, que coelho não. Se se tratar de pato ou cabrito, saboreio o arroz do primeiro que a minha mãe faz e passo o natal com o segundo à mesma mesa mas não no mesmo prato, já provei uma vez, obrigada.
Portanto, desviei rota logo nessas primeiras imagens que com a conversa já devem ter chegado a Vega e entreguei-me às prateleiras das embalagens feitas onde só faz falta confirmar a data de validade, onde ninguém me pergunta nada sobre estufar ou grelhar e onde, com sorte, está lá escrito para que confecção se destina o pedaço.
O peixe, Vega já está ao corrente, levou o mesmo tratamento. Nem tentei as bancas, que as postas cortadas e congeladas na embalagem que vem do Atlântico Norte são um requinte, pronto a cozinhar é o que lá diz e cozinhar soa a coisa geral, não há que especificar se é na grelha, no forno ou dentro de água.
Mas isto, senhoras e senhores, trazia-me triste. Não saber retirar o melhor do que a natureza nos oferece ao prato não me povoava a existência de orgulho, não senhor. E por conseguinte as coisas, com o passar dos anos, sofreram certas alterações.
Hoje faço investidas confiantes nos balcões da senha de vez. Comecei pelos do peixe.
À segunda feira digo, com expressão facial adequada, ah hoje não há nada! fingindo que me tinha esquecido que era segunda feira, só pelo prazer de mostrar que sei muito bem em que dias não há pesca. À terça regalo-me com os robalos que levo, são fresquinhos, são? São sim minha senhora, enquanto se abre a guelra ao peixe a ilustrar a afirmação. O tom de vermelho é que diz se é fresco e eu acredito. Até por vezes, ora deixe ficar as escamas que é para fazer ao sal. Uma categoria.
Por causa do peixe, já aprendi a distinguir os coentros. Se me lanço no arroz de tamboril (mas que peixe tão feio, o tamboril fazia-me mais feliz quando o comprava aos cubos dentro do pacote), a prateleira dos cheiros já não me desafia. Pego com muita segurança no raminho que diz "Coentros" na etiqueta. Alguém generoso e com o olfacto afinado introduziu estas facilidades na vida das pessoas, embora com a ligeira desvantagem de, caso ande por perto alguém em idade de lançar as primeiras imagens a Vega, não estar eu em posição de impressionar com a destreza na escolha do ramo.
Quanto à carne, o estado da arte não regista desenvolvimento por aí além. Mesmo volvidos todos estes anos a comer e a beber, não se pode dizer que tenha passado muito tempo encostada aos vidros curvos dos balcões dos talhos a admirar as partes ensanguentadas que dançam nas mãos sábias dos talhantes vestidas de malha de aço, não sei se é para ficarem sexy, eu cá não vou nessa.
No entanto, há que admitir que dá Deus nozes a quem não tem dentes, que no bairro onde moro, oiço dizer, os talhos são que é uma beleza em qualidade.
Faço que sim que sim, concordo logo, ah pois são, até deixo que me brilhem os olhos, mas no que estou a pensar é nos croissants acabados de sair do forno da pastelaria com esta especialidade, que aliás tem fila ao sábado e ao domingo com gente de todas as idades, são delícias para degustar a gorda quantidade de chocolate que sai lá de dentro e nos vem queimar a língua e que nos escorre pelos dedos, mas quem se importa com isso, ninguém. E desses percebo eu desde os tempos com que iniciei esta narrativa, é só perguntar.
O que temo então?
Temo que estas imagens dos croissants a fumegar e a verter o líquido preguiçoso e terrivelmente aromático, tão aromático que foi longe, tenham sido captadas em Vega.
De lá, está visto que enviaram alguém aqui ao Planeta Azul para investigar.
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