Saí da autoestrada na direcção do Cartaxo.
Tu sempre gostaste do nome Cartaxo e eu sempre desgostei de autoestradas. Uma coisa somada à outra deu nisto, vês?
Um nome envelhecido em barris feitos de uma árvore tão antiga que me faz esquecer que não quero seguir em frente, um nome assente num lugar onde vamos fazer uma pausa.
Cartaxo. Após um troço de estrada esburacada com curvas em piso ondulado pelas raízes das árvores velhas que se transformaram em barris para albergar o vinho.
A rua que nos acolhe não tem ninguém mas há casas dos dois lados. Umas casas, outras prédios que parecem encolhidos, gastos, nus de alegrias, tudo está velho, ou é de mim, que estou triste?
Estaciono numa perpendicular que desenho com vagar e saímos do carro. Uma senhora curvada e pequena passa por mim, olha-me. Não és de cá, dizem-me os olhos dela. Boa tarde, digo-lhe eu. Tu não dizes nada.
Caminhamos em silêncio, procuro a tua mão. Dirigimo-nos ao café que tem um toldo com o nome impresso. A Tertúlia.
Tu gostas de Cartaxo, eu gosto de Tertúlia.
Dentro, um ecrã grande pendurado na parede, junto ao tecto, a emitir o som que me traz os domingos cinzentos da minha infância, como detesto televisão! Quando se vive com a televisão, ainda se vive?
Apenas uma mesa ocupada. Duas mulheres velhas sentadas e uma que ainda está a crescer e que saltita em redor da mesa, a cantarolar. Depois pára e olha para mim. Não és de cá, pensa ela.
- Ainda servem almoço? - pergunto à senhora de bata de trabalho que está atrás do balcão a acomodar bolos na prateleira de vidro.
- Não, menina, almoços já não servimos. Desde que a polícia começou a multar os carros estacionados em cima do passeio, as pessoas não vêm.
Encolheu os ombros. Depois continuou.
- Mas temos bolos caseiros, olhe este, de nozes. Saiu agora do forno, ainda está quente. E este aqui também se vende muito bem, fiz hoje de manhã, é bolo mármore, vê?
Rodou o prato para me mostrar o contraste na massa, bolo mármore.
- Corte do outro, o de nozes, se faz favor. Duas fatias grossas.
- A menina não é de cá, pois não?
- Hoje sou. Tenho um buraco no peito e vou enchê-lo com o seu bolo. Uma fatia hoje outra amanhã, deve chegar. Sou de cá porque a estrada que me trouxe também tem buracos.
- Então venha mais logo, menina, estou a fazer bolachas de manteiga. São uma maravilha, é o que todos dizem. Até se esquece das tristezas, vai ver!
- Obrigada, tenho de continuar caminho.
Voltei ao carro, pousei o saco com as fatias de bolo quente no lugar onde tinhas vindo enquanto me consegui enganar.
No café "A Tertúlia" vive-se com a televisão e já não se servem almoços.
Mas fazem-se bolos caseiros. E eu vou continuar a procurar-te.
No Cartaxo não estás.
14/04/2014
11/04/2014
Silêncio
Acabo de me dar conta de que gosto muito muito muito de andar de comboio.
Calha mal ter-me dado conta disto agora, que estava para me ir deitar.
Em vez disso, estou no comboio.
Senta-se uma rapariga à minha frente, virada para mim. Claramente estudante, claramente altíssima, claramente podia quase ser minha filha e claramente holandesa. Vejo-a tirar coisas da mala e usar essas coisas. Um telefone. Digita uma mensagem rapidamente e guarda-o. Bzzz dentro da mala, o telefone, ela ignora-o. Um elástico com que apanha o cabelo. Uma volta loira no ar e fica preso como se soubesse o caminho, que bonito cabelo. Uma pequena caixa de bombons com papel celofane a abraçar os bombons. Tira um, mete na boca. Dispenso o celofane. Admiro a passividade com que ela enfrenta o barulho tcheliquoestrínico que emana do celofane e enche a carruagem de ondas sonoras de intensidade razoável, revira os chocolates e tira outro.
Eu tenho sempre travões activos produzidos pela minha insuperável timidez no que respeita a fazer barulho em público que ainda por cima iria revelar, neste caso dos bombons, a gulodice que me assiste e que coabita com a timidez não sei como. Isto para outras pessoas, detesto incomodar outras pessoas, era aqui que eu queria chegar. E esta é a carruagem stilte. Stilte significa silêncio.
No comboio acontece sempre alguma coisa que me provoca introspecção e consequente registo. Timidez. Gulodice.
Depois, ao apear-me, levo um nível de auto-conhecimento mais elevado. E isso não é pouco, é muito.
É muito que gosto de andar de comboio.
(Stilte e tcheliquoestrínico estão em itálico por não serem Português. A primeira é termo Neerlandês, a segunda acabou de me sair.)
Calha mal ter-me dado conta disto agora, que estava para me ir deitar.
Em vez disso, estou no comboio.
Senta-se uma rapariga à minha frente, virada para mim. Claramente estudante, claramente altíssima, claramente podia quase ser minha filha e claramente holandesa. Vejo-a tirar coisas da mala e usar essas coisas. Um telefone. Digita uma mensagem rapidamente e guarda-o. Bzzz dentro da mala, o telefone, ela ignora-o. Um elástico com que apanha o cabelo. Uma volta loira no ar e fica preso como se soubesse o caminho, que bonito cabelo. Uma pequena caixa de bombons com papel celofane a abraçar os bombons. Tira um, mete na boca. Dispenso o celofane. Admiro a passividade com que ela enfrenta o barulho tcheliquoestrínico que emana do celofane e enche a carruagem de ondas sonoras de intensidade razoável, revira os chocolates e tira outro.
Eu tenho sempre travões activos produzidos pela minha insuperável timidez no que respeita a fazer barulho em público que ainda por cima iria revelar, neste caso dos bombons, a gulodice que me assiste e que coabita com a timidez não sei como. Isto para outras pessoas, detesto incomodar outras pessoas, era aqui que eu queria chegar. E esta é a carruagem stilte. Stilte significa silêncio.
No comboio acontece sempre alguma coisa que me provoca introspecção e consequente registo. Timidez. Gulodice.
Depois, ao apear-me, levo um nível de auto-conhecimento mais elevado. E isso não é pouco, é muito.
É muito que gosto de andar de comboio.
(Stilte e tcheliquoestrínico estão em itálico por não serem Português. A primeira é termo Neerlandês, a segunda acabou de me sair.)
10/04/2014
Condições Gerais
Saio do trabalho mais cedo e vou apanhar as miúdas em casa, combinámos um fim de tarde de compras numa das superfícies comerciais de Lisboa.
Elas sabem que se eu puder opto por lavar o carro à mangueirada, pôr-me a fotografar flores antes que murchem ou por meter conversa com uma velhinha parecida com a minha querida avó. Mas hoje combinei as compras.
As idades adolescentes das minhas filhas permitem-nos ir cada uma à sua loja para rentabilizar o tempo de estadia, não vá eu chegar mais cedo à fase do não-aguento-mais-quero-ir-para-casa-já e depois ficava o bilhete para o concerto do James Arthur por comprar e isso é que não.
Vários quilómetros percorridos e vieram encontrar-me sentada, quase derreada, num dos bancos de madeira que a gerência disponibiliza aos idosos e aos maridos em tempo de espera e que eu agradeço, só foi pena não ter trazido o livro.
Já em casa, a minha filha mais nova, a quem o James Arthur faz mesmo vibrar, anuncia que pagou o euro e meio a mais para o seguro de desistência que lhe propuseram na bilheteira da Fnac. Está bem, filha, fizeste bem.
- E mais, mãe, ouve: o seguro cobre participação de sinistros - lê em voz alta as condições gerais, não sem um certo orgulho - ou seja, ficamos mais protegidos.
E depois conclui, triunfante, enquanto dobra o papel:
- Se eu vir alguém no concerto com um ar sinistro, vou logo avisar!
Elas sabem que se eu puder opto por lavar o carro à mangueirada, pôr-me a fotografar flores antes que murchem ou por meter conversa com uma velhinha parecida com a minha querida avó. Mas hoje combinei as compras.
As idades adolescentes das minhas filhas permitem-nos ir cada uma à sua loja para rentabilizar o tempo de estadia, não vá eu chegar mais cedo à fase do não-aguento-mais-quero-ir-para-casa-já e depois ficava o bilhete para o concerto do James Arthur por comprar e isso é que não.
Vários quilómetros percorridos e vieram encontrar-me sentada, quase derreada, num dos bancos de madeira que a gerência disponibiliza aos idosos e aos maridos em tempo de espera e que eu agradeço, só foi pena não ter trazido o livro.
Já em casa, a minha filha mais nova, a quem o James Arthur faz mesmo vibrar, anuncia que pagou o euro e meio a mais para o seguro de desistência que lhe propuseram na bilheteira da Fnac. Está bem, filha, fizeste bem.
- E mais, mãe, ouve: o seguro cobre participação de sinistros - lê em voz alta as condições gerais, não sem um certo orgulho - ou seja, ficamos mais protegidos.
E depois conclui, triunfante, enquanto dobra o papel:
- Se eu vir alguém no concerto com um ar sinistro, vou logo avisar!
07/04/2014
As meias
Veio escarrapachar-se à minha frente.
Ali, mesmo do outro lado da rua, naquele suporte vertical com moldura metálica acastanhada. O suporte de outdoor está à chuva mas isso não impede os anúncios impressos em papel de grandes dimensões de deslizarem por detrás do vidro pingado, à vez. Ora sobe um ora sobe outro e na volta descem todos, uma organização tri-partida.
Um é o novo Audi que não sei quê, não deu tempo de ler, desliza na vertical ascendente e vem o outro que é também um Audi mas que fica mais em conta, a Audi anda a esforçar-se, está visto. São ambos brancos, os carros (o branco está na moda no que toca aos automóveis).
Mas o terceiro anúncio é que me fez saltar um bocadinho dentro do meu carro que está parado, não tem tido deslizes e é preto: Sei Lá, o filme???
Olha olha, querem ver que enquanto a Audi se esmerou para mostrar os seus carros novos, um virado com a frente direita, o outro a dar a lateral esquerda, andava o pessoal das produções a fazer um filme do livro da Margarida Rebelo Pinto?!? Mau.
Se foi este o livro que li dela, lembro-me apenas de uma cena. Do resto ficou o vazio.
A mulher enfadou-se do homem com quem tinha dormido por causa das meias azuis escuras no chão do quarto. Imaginou-se esta mulher, se bem creio, a encontrar meias desta cor pelo chão, todos os dias da sua vida, na saúde e na doença, até que a morte lhe leve as meias. E a cor.
E agora sai um filme sobre isto.
Acho bem. Sempre é um dinheirito que poupo.
Ali, mesmo do outro lado da rua, naquele suporte vertical com moldura metálica acastanhada. O suporte de outdoor está à chuva mas isso não impede os anúncios impressos em papel de grandes dimensões de deslizarem por detrás do vidro pingado, à vez. Ora sobe um ora sobe outro e na volta descem todos, uma organização tri-partida.
Um é o novo Audi que não sei quê, não deu tempo de ler, desliza na vertical ascendente e vem o outro que é também um Audi mas que fica mais em conta, a Audi anda a esforçar-se, está visto. São ambos brancos, os carros (o branco está na moda no que toca aos automóveis).
Mas o terceiro anúncio é que me fez saltar um bocadinho dentro do meu carro que está parado, não tem tido deslizes e é preto: Sei Lá, o filme???
Olha olha, querem ver que enquanto a Audi se esmerou para mostrar os seus carros novos, um virado com a frente direita, o outro a dar a lateral esquerda, andava o pessoal das produções a fazer um filme do livro da Margarida Rebelo Pinto?!? Mau.
Se foi este o livro que li dela, lembro-me apenas de uma cena. Do resto ficou o vazio.
A mulher enfadou-se do homem com quem tinha dormido por causa das meias azuis escuras no chão do quarto. Imaginou-se esta mulher, se bem creio, a encontrar meias desta cor pelo chão, todos os dias da sua vida, na saúde e na doença, até que a morte lhe leve as meias. E a cor.
E agora sai um filme sobre isto.
Acho bem. Sempre é um dinheirito que poupo.
01/04/2014
Estrôncio
Quando eu era criança não gostava mesmo nada de grelos cozidos.
Os grelos cozidos vinham normalmente ao lado de peixe cozido. E de cenoura cozida.
O peixe punha-o a nadar em azeite até perder a sua candura azulada emprestada pelos laivos que sinalizavam a presença do ferro que te faz tão bem, Susana. A cenoura comia-a em bocadinhos muito pequenos, a ciência inclinar-se-ia para lhes chamar nano-bocados e eu não me oponho. Mas os grelos.
Os grelos era escurinhos e todos molhados no meu prato, o verde escuro é do ferro, também têm ferro, faz muito bem aos meninos, mas mamã, eu posso comer só o ferro do peixe, posso?
- De tudo. As meninas têm que comer de tudo.
Com a minha mãe não se brinca, portanto tratei de iniciar a composição da garfada enquanto apertava o nariz entre o polegar e o indicador da outra mão, e tentava afastar o pensamento de grelos com aquelas pernas compridas que se metem garganta abaixo enquanto o pé ainda descansa no garfo, a falta de jeito ainda morava comigo, inquilina da idade de então, que esse era o meu medo.
Nesse dia a minha mãe deve ter exasperado com a velocidade a que os grelos desapareciam do meu prato do almoço, já devia ser quase hora de jantar e eu naquele debate, aproximou-se, pegou ela no meu garfo todo lambuzado do azeite onde o peixe tinha boiado com o seu ferro muito tempo atrás, está visto que este ferro não é metal pesado, o peixe boiava mesmo, e meteu-me os grelos na boca com o jeito que só ela possui.
Milagre.
Aquela garfada de grelos era doce e não tinha pernas compridas nem me meteu medo.
Decidi que era magia, só podia ser. Magia de que só a minha mãe, que cheirava às flores todas dos campos todos e era a pessoa mais linda do mundo inteiro, era capaz.
Hoje estou ainda para saber o que se passou, estariam os grelos cansados de ser horríveis durante tanto tempo? O ferro era afinal metal pesado e já se tinha depositado no fundo do prato? Ou é leve e ter-se-ia evaporado?
Compro muitos livros, mas nenhum me explicou de onde veio aquela magia que transformou os grelos mesmo à minha frente.
E também compro chá. Para beber quando tenho frio ou quando é abril e o inverno continua agarrado a nós, esqueceu-se de sair.
Hoje escolhi o de caramelo porque gosto de caramelos mas não os como por causa da linha que já de si não é grande coisa.
O chá, apesar de ser de caramelo e ter uma fotografia de um exemplar em ponto grande semi-derretido na caixa, é mau. Péssimo, até.
A minha mãe é que agora vive longe e não me informou sobre o ferro do chá ou o magnésio ou outro elemento qualquer da tabela periódica, deixa cá ver, o estrôncio, que tem um nome sonante.
Se não já tinha esta noite outro milagre para contar e um post muito giro para escrever.
Os grelos cozidos vinham normalmente ao lado de peixe cozido. E de cenoura cozida.
O peixe punha-o a nadar em azeite até perder a sua candura azulada emprestada pelos laivos que sinalizavam a presença do ferro que te faz tão bem, Susana. A cenoura comia-a em bocadinhos muito pequenos, a ciência inclinar-se-ia para lhes chamar nano-bocados e eu não me oponho. Mas os grelos.
Os grelos era escurinhos e todos molhados no meu prato, o verde escuro é do ferro, também têm ferro, faz muito bem aos meninos, mas mamã, eu posso comer só o ferro do peixe, posso?
- De tudo. As meninas têm que comer de tudo.
Com a minha mãe não se brinca, portanto tratei de iniciar a composição da garfada enquanto apertava o nariz entre o polegar e o indicador da outra mão, e tentava afastar o pensamento de grelos com aquelas pernas compridas que se metem garganta abaixo enquanto o pé ainda descansa no garfo, a falta de jeito ainda morava comigo, inquilina da idade de então, que esse era o meu medo.
Nesse dia a minha mãe deve ter exasperado com a velocidade a que os grelos desapareciam do meu prato do almoço, já devia ser quase hora de jantar e eu naquele debate, aproximou-se, pegou ela no meu garfo todo lambuzado do azeite onde o peixe tinha boiado com o seu ferro muito tempo atrás, está visto que este ferro não é metal pesado, o peixe boiava mesmo, e meteu-me os grelos na boca com o jeito que só ela possui.
Milagre.
Aquela garfada de grelos era doce e não tinha pernas compridas nem me meteu medo.
Decidi que era magia, só podia ser. Magia de que só a minha mãe, que cheirava às flores todas dos campos todos e era a pessoa mais linda do mundo inteiro, era capaz.
Hoje estou ainda para saber o que se passou, estariam os grelos cansados de ser horríveis durante tanto tempo? O ferro era afinal metal pesado e já se tinha depositado no fundo do prato? Ou é leve e ter-se-ia evaporado?
Compro muitos livros, mas nenhum me explicou de onde veio aquela magia que transformou os grelos mesmo à minha frente.
E também compro chá. Para beber quando tenho frio ou quando é abril e o inverno continua agarrado a nós, esqueceu-se de sair.
Hoje escolhi o de caramelo porque gosto de caramelos mas não os como por causa da linha que já de si não é grande coisa.
O chá, apesar de ser de caramelo e ter uma fotografia de um exemplar em ponto grande semi-derretido na caixa, é mau. Péssimo, até.
A minha mãe é que agora vive longe e não me informou sobre o ferro do chá ou o magnésio ou outro elemento qualquer da tabela periódica, deixa cá ver, o estrôncio, que tem um nome sonante.
Se não já tinha esta noite outro milagre para contar e um post muito giro para escrever.
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