a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

13/05/2014

Incentivo à leitura

Encontro na lista o número de telefone que procuro e ligo. Estou empenhada em ser uma mãe completa e está na altura de assinar uma publicação mensal em nome da minha filha de seis anos e em nome do incentivo à leitura. Estamos no ano de dois mil e três.

- Abril Controljornal, boa tarde, em que posso ajudar?

- Boa tarde, gostaria de assinar uma publicação vossa, por favor.

- Com certeza, minha senhora. Já é nossa cliente?

- Não.

- Então preciso do seu nome, número de contribuinte, morada...

E eu dei o meu nome, número de contribuinte, morada...

- Vejo aqui que já é nossa cliente, mas tenho outra morada, ora confirme lá, por favor.

- Essa é a minha morada antiga, diz que já fui cliente?...

- Foi, sim, tenho os seus dados, vou actualizar a morada, ora repita se faz favor.

Repito o meu endereço e de repente lembro-me.

Lembro-me da compilação de artigos histéricos que me incentivavam a ser a líder de que a minha empresa precisava em textos ilustrados com fotos de escadas a subir em direcção ao céu, a ser a vencedora em qualquer conflito, a nem sequer viver conflitos, uma profissional que respira sucesso, transpira inteligência, veste autoconfiança, ou coisa parecida, um ser praticamente extra terrestre, agora lembro-me. Assinei a publicação que esperava me oferecesse os conhecimentos de gestão que queria acrescentar à minha formação técnica, sabedoria credenciada e debitada por sumidades em muitas matérias, aquilo prometia, tudo traduzido em português e resumido, com um nome que não envergonhava ninguém. Eu tinha, em tempos, assinado a "Executive Digest". E depois de alguns meses de lavagens cerebrais que me deixaram na mesma, felizmente, um insucesso a ensinar-me o sucesso, cancelei a assinatura e deitei aquela porcaria toda fora.

- Sim, tem razão, já fui vossa cliente.

- E sabe que publicação assinava?

- Sei. A "Executive Digest".

- A "Executive Digest"! Parabéns, uma excelente publicação! E porque desistiu?

- Não gostei. Os artigos diziam sempre o mesmo, a querer convencer toda a gente de que pode ser líder, irreal.

- Hum... Mas temos outras publicações, temos a "Exame", a "Exame Informática", temos...

- Obrigada, não é nenhuma dessas que quero.

- E que publicação pretende então assinar, minha senhora?

- A revista da "Barbie".

09/05/2014

Luz verde

Hoje à hora do almoço saí da empresa e fui lavar o carro.

O pórtico de lavagem obedece ao programa automático e anda para a frente e para trás, não sem dar um solavanco a cada mudança de sentido, por forma a percorrer toda a área da sujidade depositada nos últimos meses pela intempérie, isto enquanto esguicha feixes de água e pulveriza uma espuma branca que se deposita como se fosse neve e que cheira quase tão bem como o champô das minhas filhas. As escovas enormes rodam e dançam em cima do carro, esfregam-no todo. Eu estou fora da cena, em pé, de mala ao ombro a observar o desenrolar do programa de lavagem número três enquanto me ponho a jeito para apanhar sol.

Que bem me sinto quando estou ao sol e não estou a torrar, que é o caso presente, oferecido pela frescura presumida que vem do túnel de lavagem. E ponho-me a pensar na Luísa.

Ontem à tarde cruzei-me com ela no corredor do primeiro piso, vinha a comer um bolo seco. Sorri-lhe, boa tarde Luísa e bom proveito!

- Estes bolos, diz-me ela, são os melhores bolos do mundo!

- Ah sim?! - e deitei os olhos ao pedaço restante que parecia ter sido de uma ferradura, é uma ferradura Luísa? Ou um bolo da sua terra?... - deitei-me a adivinhar.

- Não, são os melhores bolos do mundo, já lhe disse.

A Luísa sorriu por detrás dos óculos. É mulher mais velha do que eu e eu tenho uma paixão qualquer por mulheres mais velhas do que eu. São quase sempre fontes de saber de que bebo avidamente. O sorriso cheio da Luísa encosta-lhe as bochechas aos óculos e faz-lhe os olhos pequeninos, rasgados num brilho intenso.

Depois, a mastigar e a semear migalhas, que ninguém se importa com migalhas do melhor bolo do mundo, saca do telemóvel e com o polegar esfrega-lhe a superfície e mostra-me a foto, vê?

Vejo. Vejo um tabuleiro com a família de bolos ao qual este pertence, dispostos a formar as palavras "Feliz Dia da Mãe!".

- Foi o meu mais novo.

As bochechas da Luísa continuam viradas para mim, coladas aos óculos, os olhos a cintilar alegrias também estas das melhores do mundo e a luz verde em forma de seta acendeu.

O carro está lavado.

06/05/2014

Pastilhas elásticas de gengibre

Uma das aplicações recentes da nanotecnologia foi utilizada no tamanho das garrafas de azeite da era pós-gripe A nos lugares onde se come em público e onde mais do que um par de mãos as emporcalha.

Certo, nano é um bocadito exagero, mas vá, minitecnologia. E tecnologia porque gosto e mini porque também, especialmente numa esplanada de beira mar, com um livro, que saudades tenho disto, e uma brisa fraquinha que não vire as folhas ao livro (não uso livros electrónicos, lidos em locais ao ar livre onde há moscas, a mosca ao pousar na brancura da página vira-a e isso acho aborrecido).

Foi a implementação da gripe A que veio para mandar, há uns anos, e que decretou a) líquidos de desinfecção de mãos em todo o canto onde caibam os dispensadores juntamente com cartazes ilustradores da esfrega ideal para manter a bicharada fora, b) nunca mais dispensar talheres em cantinas e sítios de buffet que não estejam embrulhados em papel, película aderente, bolsa de plástico asséptica ou, ainda melhor, todos juntos, c) as garrafas de azeite e vinagre tamanho mini a terem que juntar-se à cerveja da mesma estirpe, até aqui está correcto, pena é que em dias de peixe cozido, lá na cantina, haja que pedir uma garrafa de azeite a cada dez minutos de almoço e ficamos por aqui.

No entanto os mandamentos desta gripe vão acabar porque segundo li hoje no jornal, a campanha de desinfecção de mãos não surtiu efeito nos hospitais, único lugar onde as pessoas ainda faziam a esfrega à risca, e às mãos, segundo a mesma fonte. É que as infecções não abrandaram na propagação, a verdade é esta.

Eu em tendo tempo, debruçava-me sobre coisas com interesse, que podem realmente trazer benefícios à sociedade e que não requerem tecnologia por aí além. Por exemplo, criar pastilhas elásticas com sabor a coentros. Para quem vive no estrangeiro e suspira de saudades de um arroz de tamboril malandrinho, as pastilhas podiam facilmente expedir-se em três dias úteis e fazia a pessoa o gostinho ao dedo. Outras haviam de ser com sabor a alho, que tanto dá para matar a saudade da ameijoa à bulhão pato em se consumindo a seguir à variedade coentro, como dá para usar em quantidade dupla, para mandar afastar gente indesejada sem se arruinar a reputação de pessoa polida, bem educada. Numa terceira aplicação das ideias inovadoras que me povoam o espírito a cada dia que passa, haviam de surgir em prateleiras perto de si as pastilhas elásticas de gengibre. Sim, gengibre, que eu não dispenso semelhante maravilha da natureza. Ora a pastilha de gengibre, tomar aí nota, é para utilizar com afinco quando se quer captar a atenção de alguém que está distraído a teclar no telemóvel ou a postar uma selfie no facebook em vez de desatar a beijar-nos.

(devido ao facto tristonho de eu não ter conta no facebook nem fazer selfies, que ainda só faço retratos de mim mesma mas poucos, gosto mais de flores, desdenho aquelas palavras e ponho-as em itálico)

05/05/2014

Cicatrizes

A chinesa pequenina tem os olhos molhados. Parece que chora. Está na fila do aeroporto e está uma volta da serpentina de gente que se aproxima da zona de controlo de bagagem de mão, atrás de mim.

Há minutos, quando a fila ainda escoava, ora estamos de frente, ora de costas, em serpentina acomoda-se a gente melhor, ela teclava no vidro do seu aparelho de comunicações com as unhas capeadas a gel (deve ser isto o gel embora pareça plástico duro). Quase choca com o passageiro da frente quando ele pára, paramos todos, a funcionária do controlo de metais e líquidos que as pessoas levam para os aviões fechou a passagem com a cinta de extremidade embutida na peça de plástico que encaixa no pequeno poste cilíndrico.

São 19h52 e nos altifalantes anuncia-se, pela segunda vez desde que entrei no edifício, que às 20h00 se vai fazer dois minutos de silêncio pelos soldados mortos na segunda guerra mundial e já agora em todas as guerras.

É assim nos 4 de maio na Holanda. Leva-se a sério o dia de lembrar os que combateram na guerra, que no dia seguinte, o dia 5, é dia de festa, comemora-se a libertação dos Países Baixos pelas forças aliadas. Assinou-se acordo com os alemães e tudo. O fim da guerra deve ter sido, para quem a viveu, uma alegria cheia de dor a que a minha imaginação, por mais que estique, não chega.

A chinesa pequenina das unhas cor de rosa, que ainda está uma volta de serpentina atrás de mim, não percebe o evento iminente e pergunta ao passageiro da frente, o que é? Ele explica. Do outro lado, mais alguém pergunta e mais alguém explica. O bruaá vai diminuindo até se diluir em roçadelas de roupa e cliques de malas a pousar no chão. A chinesa pequenina guarda imediatamente o dispositivo em que estava a teclar e fica assim, absorta nunca saberei em que pensamentos da guerra onde o seu mundo não esteve. E parece que chora.

Os empregados antes distribuídos pelas diversas linhas de controle de metais alinham-se agora em frente ao mar de gente no qual me dissolvo.

Durante dois minutos o aeroporto de Amesterdão cristalizou num silêncio absoluto.

Depois, a chinesa pequenina desapareceu e não lhe vi mais as lágrimas. Queria chorar como ela, mas não soube como. Queria chorar por nós.

Por nós que não tivemos esta guerra, que não lambemos estas feridas e que não transportamos estas cicatrizes na alma.

Mas o que temos nós então?

04/05/2014

Até a noite cair

Openlucht museum, Arnhem, Holanda

Não foi Jan Vermeer quem pintou esta obra, isto nem é uma obra, mas foi com o azul da palete dele na ideia que ontem tirei a foto.

Se a luz pode fazer isto, entrar, deixar-se cair na cadeira e lamber a parede às tiras a testar o sabor do azul, se pode fazer ricochete nas alvuras que encontra pelo caminho, se torna este castanho quente como o outono, se esta é a cor que me prende os olhos e me enterra no infinito das sombras que oferece, se isto pode ser assim, Vermeer fez o que tinha de ser feito.

No museu ao ar livre os exemplares de casas holandesas, trazidos de cada canto deste pequeno mas rico país e aqui reconstruídas, estão vivas. Dentro desta está uma mulher vestida ao rigor daqueles tempos, em cima das socas que o mundo inteiro conhece. Tem o cabelo ruivo apanhado num carrapito à toa que deixa pender madeixas em caracol desalinhado, a saia rodada é preta e quase toca nas socas, a camisa branca com rendas e folhos. Explica aos visitantes como se vivia aqui há cem anos.

Animais e pessoas no mesmo espaço, o ambiente ficava assim mais quente ainda que mal cheiroso, a mulher aperta o nariz a completar a ilustração que ela própria encarna. E havia as moscas, claro, os animais era isto, mau cheiro e moscas. Os piores, os porcos, não tinham lugar cá dentro, ninguém os aguentava à mesa da sala, quando ainda não no prato, mesmo em tempos de muito frio os porcos é fora que estão.

- E o azul, este azul nas paredes? - pergunto eu, a querer ouvir Vermeer, Jan Vermeer e uma história de amor.

- O azul, diz ela a sorrir, o azul tinha de ser este. Era usado em todas as casas para afastar as moscas.

As moscas. Com moscas não sei ouvir uma história de amor.

Mesmo assim, sentei-me. Fechei os olhos à luz para que ela poisasse no meu brinco de pérola e aí ficasse até a noite cair.