a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

31/05/2014

Porta-chaves

Levantei-me cedo. Eu e a minha falta de ferro levantámo-nos cedo.

- Carne de vaca, tinha dito a médica - é preciso comer carninha!

O meu projecto de visitar o talho da grande superfície, já de si sem a dose de entusiasmo que me acompanha à padaria, por exemplo, foi interrompido pelo balcão do peixe, onde estava instalada toda uma colónia de belezas de carinha fresca.

Travei a fundo, derrapei ligeiramente e parei. Ora se aqui também mora ferro tão magnético como o das vacas, vamos nessa.

Apresso-me a puxar a senha do dispensador, é que vejo outra freguesa a aproximar-se e quero ser a primeira. Com esta freguesa vem também uma quantidade de entusiasmo transbordante, a avaliar pelo sorriso de olhos arregalados para o peixinho, para onde olha ela, ai que cheguei primeiro, ponha aí vinte e cinco sardinhas, se faz favor, felizmente agora sou eu. 

Olho de soslaio para a minha concorrente enquanto começo a ser atendida, a ver se ela tira o sorriso da cara quando eu digo vinte e cinco sardinhas e não estão ali muitas mais, não tira. Como que a adivinhar o meu pensamento e sendo ela, isso percebi eu, mulher comunicativa, esclarece-me prontamente: quero carapaus, eh. 

Entretanto a contagem prossegue, dezoito, dezanove, e vejo surgir no meio do gelo picado onde se deitava a sardinha dezanove um mini carapau que me desperta interesse. Olha esta mini sardinha, digo eu. É um carapau, menina, veja, e a mulher simpática, de touca na cabeça, que me avia, ergue-o para mim. Aproximo o nariz da coisita pendurada. Vejo, pois vejo, é um carapau.

Terminada a contagem para dentro do saco, que mete dentro de outro e dentro de mais outro, vem finalmente a pesagem. A mulher que me esclareceu sobre a raça da miniatura piscícola, acomoda-a agora no topo das vinte e cinco sardinhas, estende-me o aviamento e sorri-me. É oferta, diz.

- Obrigada! Esse dá para fazer um porta-chaves. - sai-me, fruto da boa disposição que as sardinhas me oferecem.

E a mulher que vai pedir carapaus mas dos grandes e é comunicativa, vi logo, diz assim: Ai que gira ela, um porta-chaves!

Se eu sou gira, na opinião desta senhora, sim, senhora fica-lhe melhor, pensando bem, o que serão estas belezas que ficaram tão bonitas na foto de família, incluindo o projecto de porta-chaves? 


29/05/2014

Pêndulo invertido

Não tendo eu a capacidade genética de ladrar, dei hoje de manhã os bons dias a um cão desconhecido.

Caminho pela rua e vejo à minha frente o pequeno cão branco dirigir-se a mim num trote ligeiro, o coto de pêlo que tem no lugar da cauda faz de pêndulo invertido muito rápido, com ângulos de cento e oitenta graus bem medidos, estou certa, e os seus olhos pretos pareceu-me que brilhavam. Estava preso a uma trela vermelha daquelas que esticam proporcionalmente ao entusiasmo do animal, veio aos meus pés entregar-me um ânimo canino que me tocou os sapatos e também o coração e eu oiço a minha voz dizer-lhe bom dia!, creio que a sorrir.

A mulher que o acompanhava também ouviu, fez uma espécie de careta e, percebendo que a saudação não se dirigia a ela, não me respondeu. Percebeu bem.

Aquele momento, ao tocar-me o coração, aqueceu-me a alma, confesso, ainda que sob admiração.

E foi o que me valeu até ao meio dia.

Hora em que, sucumbindo ao frio, liguei, no meu local de trabalho, o aquecimento no máximo.

Devo estar doente. Ou então não estamos quase em junho.

Mastodontes quadrangulares

Eu vejo serventia num cachecol do Benfica.

Se tivesse um, punha-o ao pescoço num dia em que me vestisse a condizer e que estivesse frio. Aliás num inverno como o que estamos a viver, que se enfiou pela primavera adentro sem pedir licença a ninguém, que se saiba, num inverno como este de finais de maio já vale tudo, o que não vale é ter frio.

Não iniciarei dissertações sobre moda, mas já agora fica a nota que atesta a veracidade do que digo e relata-lhe a origem: hoje de manhã enrolei à volta do pescoço uma coisa a que se pode chamar écharpe, oferta recente da minha mãe ao regressar de Paris, e só à hora do almoço reparei que no vermelho sangue do lenço, esta cor é muito apreciada por mim, lenço foi para não estrangeirar outra vez, reparei que está, o lenço, povoado de torres Eiffel em diferentes inclinações e orientações, num tom ligeiramente mais escuro e então, quer dizer, uma pessoa sai de casa a achar-se tão bem envolta neste tom sangue que aviva os sentidos de qualquer ser humano e afinal é uma coisa de loja de souvenirs!

Suspirando, enrolei o lencinho bem enrolado, por forma a deixar visíveis apenas pedaços das pernas das torres Eiffel que acredito ninguém conseguir identificar facilmente na reunião da tarde, e fico assim mais descansada.

No caminho para casa, no entanto, venho a reflectir na futilidade que me assaltou. Afinal o lenço é bonito, aquele vermelho é para usar e acabou, deixa lá as torres, o que é que isso tem? E foi então que percebi que até um cachecol do Benfica me faria serviço, como comecei por explicar.

Enriquecida com estes pensamentos tranquilizadores, passo uma vez mais por uma das maiores inutilidades dos tempos modernos, poluição visual no seu pior que ainda por cima aparece às centenas de milhar, coisa para arrancar com os dentes se os tivesse de tamanho apropriado.

Será que a malta que põe estes mastodontes quadrangulares enfiados no chão a dizer que se aluga o espaço não percebe que esse espaço não serve para nada?!?! Não?!?!

Então eu ajudo vá lá, tomar aí nota, se faz favor:

1. espaço nesta cidade falta é para estacionar mas não vejo nenhum carro ser capaz de subir semelhante verticalidade e aí se estabelecer sem ceder à força da gravidade, por muita tecnologia de que disponha;
2. para abrir um novo ginásio de dança, embora sendo melhor ideia que a do estacionamento, apenas trapezistas do circo talvez fechassem contrato, mas esse mercado é muito pequeno e só aparece no Natal;
3. se é para postar informação escrita, se é para isso, então ponham essa porcaria mais baixo, para a pessoa ao passar poder deslizar a mão aberta, espalmada, e consultar outros ecrãs.

Espero ter ajudado, qualquer coisa é só dizer.


E então? Tem ou não tem valor um cachecol do Benfica?

(nota: com todo o respeito ao Benfica, cujo futebol não acompanho, mas cuja cor me agrada)

27/05/2014

Carne de vaca

- Não fuja! - diz-me o enfermeiro do posto médico lá da empresa.

Estou sentada numa das cadeiras baixas do corredor transformado em sala de espera há não mais de dois minutos e ele veio avisar-me que tenho de esperar mais um.

- É que tivemos aqui uma urgência, é só mais um minutinho, está bem?

Eu não tenho o costume de fugir de enfermeiros, embora da última vez que aqui me chamaram o tenha feito.

Esperei uma hora e meia, dessa vez, sentada numa destas cadeiras. Li para cima de dezoito vezes o folheto de dar sangue é dar vida e duas ou três o do planeamento familiar, o do rastreio do cancro da mama li talvez umas cinco, o das próteses auditivas e o da pasta que fixa próteses mas dentárias apenas uma cada. Quase tudo isto fora do meu leque de interesses ou necessidades para além dos cuidados já em curso, mas que beleza de escrita esta, cuidados já em curso, e falta nomear a excepção que é dar sangue, situação fora das minhas possibilidades, já que desmaio antes de encher meio saco e levo uma legião de estaladas na cara, coisa que prefiro evitar. Mas porque este tema me traz um pouco culpada, li o folheto tantas vezes quantas o tempo de espera me deixou, em busca de formas de tentar salvar assim uma vida, quem sabe sob anestesia ou de cabeça para baixo, normalmente recupero os sentidos assim. Mas não.

Por conseguinte, dessa vez, abandonei o local do exame médico de rotina que a minha entidade patronal quer que eu faça, e eu agradeço, não sou mal agradecida, mas uma hora e meia à espera deixou-me com os nervos em franja, portanto o melhor foi pôr-me na alheta e ele diz que fugi.

Hoje assim não aconteceu, o enfermeiro segurou-me bem e deixei-me examinar. Depois dos testes aplicados por ele, passei para a médica. Ao ler os resultados da miríade de análises que fiz previamente, levantou os olhos e por cima dos seus óculos de leitura, dá-me a receita:

- Tem de comer mais carne de vaca, está bem? Carninha. Por causa do ferro.

- Pode ser chocolate, doutora? Daquele bem preto com menos açúcar, o chocolate tem muito ferro, não é?

- Pode... você não tem colesterol... mas carne de vaca - continuou - não se esqueça da carninha de vaca, hã? É como se fosse um remédio.

Portanto não tenho nem colesterol nem ferro suficiente.

Quanto ao primeiro, ficamos assim, nada a fazer.

Já o segundo torna-se questão mais delicada visto que me vai levar ao talho em vez de à farmácia. Não, não me estou a queixar, no talho passam-se coisas sempre deveras interessantes.

Que me dão matéria para escrever uns posts mais vermelhinhos que este.

Ou menos anémicos, como queiram.

25/05/2014

Cannelloni de espinafres

É sexta feira.

Em termos da chegada ao fim foi a semana primeiro, esta semana, e só depois, mas por pouco, a minha energia. Estou a raiar a exaustão.

De tal maneira foi o empreendimento em trabalho, que hoje larguei a teoria dos buracos negros e lancei-me numa de cometer loucuras ao almoço para angariar fundos de maneio em calorias antes de me fazer à tarde. Loucuras, dizia eu, a saber: comer uma pizza, olhe era uma pizza se faz favor, beber coca-cola, uma coca-cola das normais, nem light nem zero (nunca experimentei a zero, não sei como se bebem trezentos e trinta mililitros de ar), acabar com uma tremenda mousse de chocolate e depois traga a conta, traz?

A minha intenção para a retoma de forças era esta, mas eis que ao aproximar-me da porta do restaurante sou informada.

- Se é para pizzas, há vinte e cinco à sua frente. Vai demorar.

Eu que sempre quis estar numa fila de vinte e cinco pizzas, hoje logo é dia em que não vem nada a calhar.

- Não faz mal, come-se outra coisa.

Para melhor usufruir da angariação de energias renováveis, acho que se pode dizer assim, renováveis, arrastei um dos meus rebentos neste projecto, que isto foi mesmo um projecto.

- Somos duas, pode ser à janela?

Podia. Havia uma mesa à janela que não tinha sido tomada por nenhuma das vinte e cinco pizzas.

Muitas vezes exagero quando conto as histórias que escrevo aqui, mas desta vez eram mesmo vinte e cinco pizzas.

Sentámo-nos. De frente para a minha filha, estou em posição de lhe admirar as linhas do rosto, o cabelo, os olhos redondos, as pestanas que parecem provocar ventanias quando se movem, de a ver concentrar-se na ementa, não nas pizzas, como é possível ela ser tão linda?! Levantou os olhos para mim quando decidiu o que comer.

- Ó mãe, pára de me olhar assim!

- Assim como?

- Tu sabes como! Quero cannelloni de espinafres - e fechou a ementa.

Vieram as latas de coca-cola, agora as latas são altas e esguias. Vieram as massas.

- Fixe, olha aqui, o treinador! O médio-centro! Vou levar estas latas para fazer colecção. São giras, assim mais finas!

- Deve ter havido um motivo para isto - digo eu. Com certeza este novo design alto e esguio foi concebido para transmitir uma mensagem subliminar, das que entra no subconsciente, entendes?, as pessoas nem se apercebem.

- Achas?! - a minha filha pega na lata e roda-a na mão, olhando-a com atenção, inclina a cabeça ligeiramente.

- Acho. Até aposto que é para reconquistar as pessoas que fugiram para a alimentação saudável, apresentando-lhes agora uma lata "elegante". Beba, que isto já não engorda!

- Como nós.

- Como nós, bem, nós não vamos abandonar a alimentação saudável, sabes disso.

- Sim, mãe. Só quando cometemos loucuras, não é?! A mousse, vamos dividir ou vais pedir duas?

- Duas mousses por favor. E a conta.



(a foto tirei-a para provar que não estou a exagerar quando digo que são vinte e cinco pizzas à nossa frente)