Estou com o agrafador de barriga aberta para lhe colocar um novo alinhamento de agrafos prontos a usar, formatura em ângulos rectos, riquezas de tecnologia simples e tão útil, quando me entra no gabinete a Ana com o envelope na mão.
A minha colega Ana é magra, não distribui muitos sorrisos, não tenta agradar a ninguém, anda sempre muito depressa, faz o seu trabalho bem feito e fala pouco.
Ora eu gosto de pessoas que falam pouco, não só para me darem a mim tempo de falar muito, oportunidade à qual nem sempre resisto, que por vezes me caem pedaços de céu na cabeça e há que os contar ou então na sopa e há que os partilhar, mas também porque as pessoas que falam pouco não encanam as pernas às rãs e portanto não deitam fora o momento, não me deitam fora a mim, é assim a Ana.
Estamos em junho, há que registar este facto, e a Ana entra-me no gabinete em junho e em dezembro.
Indiferente ao processo de alimentação do agrafador que está a decorrer na palma da minha mão esquerda, estende-me o envelope, olha-me a direito nos olhos, ela sabe que eu a entendo, sabe que eu sei que ela sabe e que sei ao que vem, não é preciso dizer nada, duas vezes por ano, antes do natal e antes do final do ano lectivo, eu ponho agrafos novos no dispositivo e a Ana vem mostrar-me as fotografias dos filhos.
Fica em pé à minha frente, à espera, não tem muito tempo, o trabalho é para honrar, mas os olhos deleitam-se com as fotos que para ela estão ao contrário, eu é que as vejo bem, que crescidos os meninos, Ana, parece que foi ontem, olha para isto!
Quando ligam da escola a informar que um dos meninos está doente, a Ana voa porta fora e vai ser mãe do seu filho. Não sei de que tamanho é a angústia que leva, só sei, o meu coração sabe, que a Ana é uma grande mãe.
12/06/2014
10/06/2014
Dissertação
- A senhora deseja alguma coisa?
A senhora sou eu e desejo chegar a casa.
- Sim, por favor, um café - respondo.
A hospedeira estende-me dois copos, um com o café tapado com tampa plástica equipada com um orifício de forma rasgada muito interessante, o outro vazio, transparente, com uma colher preta dentro, tanto plástico, tomara alguém inventar menos embalagens, quiçá eu um dia, e dois guardanapos. Açúcar e leite não vêm no conjunto, eu disse não obrigada.
- Aqui tem. Cuidado, está muito quente. Espera três minutos e tira a saqueta, sim?
Com certeza que o farei e não me hei-de eu queimar, mas antes paguei os três euros devidos. Três euros por um café a onze mil metros de altitude, com vista panorâmica sobre um pôr-do sol que me deslumbra, é dinheiro bem empregue.
Enquanto espero, levo o nariz colado ao vidro da janela, que está à minha direita, e nem me mexo. Podia fotografar, isso podia, mas far-me-ia perder tempo o extrair a máquina da mala, e depois o tentar evitar a asa do avião que fica tão a mais nas fotografias, entorta-as todas, não, não me mexo. Vou absorvendo a vista com a minha, torço o pescoço um pouco para trás e enquadro o laranja mais intenso no centro geométrico do meu campo de visão, a asa já vai de fora e acho que eu também.
Quando me sinto três minutos mais velha, relógio não o levo, levanto a tampa de plástico branco que cobre o café e sim, olá, cá está a saqueta e parece exausta, tirem-me daqui. Com a ajuda da colher preta de plástico que já entrou na história ali em cima, retiro a saqueta de dentro do copo cheio e deposito-a no outro, traz uma grande barriga, esta saqueta, e deita-se, agora parece satisfeita, no fundo transparente, preenchendo-o como se de fluido se tratasse, acho que vai adormecer.
Encaixei, não sei se já lá vão muitos detalhes mas tem de ser, já expliquei que não há fotografias, encaixei, com muito jeitinho, a tampa plástica no copo de papel que se mostra firme e não resvala, também gostava eu de ser sempre assim.
O livro que vinha a ler e que vai deitado na mesa-tabuleiro no teatro destas operações, não está a gostar da manobra e começa a deslizar, a ameaçar fazer-se ao chão entre mim e a passageira ao meu lado, mas eu ainda não encaixei a tampa completamente, eh pá, ó livro, espera lá sossegado que é preciso não nos queimarmos.
Com a destreza que pude reunir encaixo a tampa e apanho o livro a dobrar a esquina, já a fazeres-te à pista, mas que pressas são estas ó livro, serão as minhas? eu também quero chegar a casa.
Mas primeiro um rico cafézinho, que é o que se segue. Eu cá bebo café em qualquer lugar, café é café, espécie de coisa sagrada ponto final. Não percebo nada quando as pessoas dizem que só a nossa bica é que é boa, e o resto água suja. Ora, água suja!
Para mim, já que viemos até aqui continuamos a dissertação, para mim o café é muito mais do que a bebida, é tudo aquilo que se faz enquanto se bebe. Tudo o que se ouve e se diz, se pensa ou se cheira, se aquece, se vê, se contempla, se planeia, se lê.
Ou se escreve. Ou não teria certamente Hemingway contado tão bem porque é Paris uma festa.
A senhora sou eu e desejo chegar a casa.
- Sim, por favor, um café - respondo.
A hospedeira estende-me dois copos, um com o café tapado com tampa plástica equipada com um orifício de forma rasgada muito interessante, o outro vazio, transparente, com uma colher preta dentro, tanto plástico, tomara alguém inventar menos embalagens, quiçá eu um dia, e dois guardanapos. Açúcar e leite não vêm no conjunto, eu disse não obrigada.
- Aqui tem. Cuidado, está muito quente. Espera três minutos e tira a saqueta, sim?
Com certeza que o farei e não me hei-de eu queimar, mas antes paguei os três euros devidos. Três euros por um café a onze mil metros de altitude, com vista panorâmica sobre um pôr-do sol que me deslumbra, é dinheiro bem empregue.
Enquanto espero, levo o nariz colado ao vidro da janela, que está à minha direita, e nem me mexo. Podia fotografar, isso podia, mas far-me-ia perder tempo o extrair a máquina da mala, e depois o tentar evitar a asa do avião que fica tão a mais nas fotografias, entorta-as todas, não, não me mexo. Vou absorvendo a vista com a minha, torço o pescoço um pouco para trás e enquadro o laranja mais intenso no centro geométrico do meu campo de visão, a asa já vai de fora e acho que eu também.
Quando me sinto três minutos mais velha, relógio não o levo, levanto a tampa de plástico branco que cobre o café e sim, olá, cá está a saqueta e parece exausta, tirem-me daqui. Com a ajuda da colher preta de plástico que já entrou na história ali em cima, retiro a saqueta de dentro do copo cheio e deposito-a no outro, traz uma grande barriga, esta saqueta, e deita-se, agora parece satisfeita, no fundo transparente, preenchendo-o como se de fluido se tratasse, acho que vai adormecer.
Encaixei, não sei se já lá vão muitos detalhes mas tem de ser, já expliquei que não há fotografias, encaixei, com muito jeitinho, a tampa plástica no copo de papel que se mostra firme e não resvala, também gostava eu de ser sempre assim.
O livro que vinha a ler e que vai deitado na mesa-tabuleiro no teatro destas operações, não está a gostar da manobra e começa a deslizar, a ameaçar fazer-se ao chão entre mim e a passageira ao meu lado, mas eu ainda não encaixei a tampa completamente, eh pá, ó livro, espera lá sossegado que é preciso não nos queimarmos.
Com a destreza que pude reunir encaixo a tampa e apanho o livro a dobrar a esquina, já a fazeres-te à pista, mas que pressas são estas ó livro, serão as minhas? eu também quero chegar a casa.
Mas primeiro um rico cafézinho, que é o que se segue. Eu cá bebo café em qualquer lugar, café é café, espécie de coisa sagrada ponto final. Não percebo nada quando as pessoas dizem que só a nossa bica é que é boa, e o resto água suja. Ora, água suja!
Para mim, já que viemos até aqui continuamos a dissertação, para mim o café é muito mais do que a bebida, é tudo aquilo que se faz enquanto se bebe. Tudo o que se ouve e se diz, se pensa ou se cheira, se aquece, se vê, se contempla, se planeia, se lê.
Ou se escreve. Ou não teria certamente Hemingway contado tão bem porque é Paris uma festa.
05/06/2014
Trinta e oito
Eram dezassete horas e vinte e seis minutos e eu já tinha visto mais de uma dúzia de fotografias de sapatos, com meias, sem meias, sapatos a trabalhar, sapatos de férias, sapatos em casa, quer dizer estes eram do tipo pantufas, sapatos pintados aposto que a óleo em tela há imenso tempo, tanto que quase se pode dizer bué, e ainda sapatos filhos da criatividade do momento, hoje foi o dia mais calçado da minha vida.
Ora isto não é de deixar passar assim sem mais nem ontem e ainda vai hoje.
As pessoas costumam dar-se as mãos, vemos isso muito nas escolas, fazem rodas, cantam e saltitam, promovem assim a união humana, belíssima para a construção do futuro dos petizes. Isto que se viu hoje foi a união consolidada dos ex-petizes, um caminhar em uníssono, uma marcha colorida mas homogénea, um passo de gigante ou quase isso que daqui a pouco estávamos a falar na ida à Lua e tanto também não.
Foi muito bonito, isso é que foi.
Com tanto sapato, seus queridos, puseram-me aqui no sapatinho, mesmo com o natal tão longe, uma tremenda vontade de dançar. E agora?
Agora a ver se esta vos serve, a mim já está a servir, costuma ser o trinta e oito.
Ora isto não é de deixar passar assim sem mais nem ontem e ainda vai hoje.
As pessoas costumam dar-se as mãos, vemos isso muito nas escolas, fazem rodas, cantam e saltitam, promovem assim a união humana, belíssima para a construção do futuro dos petizes. Isto que se viu hoje foi a união consolidada dos ex-petizes, um caminhar em uníssono, uma marcha colorida mas homogénea, um passo de gigante ou quase isso que daqui a pouco estávamos a falar na ida à Lua e tanto também não.
Foi muito bonito, isso é que foi.
Com tanto sapato, seus queridos, puseram-me aqui no sapatinho, mesmo com o natal tão longe, uma tremenda vontade de dançar. E agora?
Agora a ver se esta vos serve, a mim já está a servir, costuma ser o trinta e oito.
Sono profundo
Lembro-me tão bem do carro do Rui.
Não tinha chave. Para entrar, o Rui colava a palma da mão na janela do condutor, fazia um vácuo estudado, experiente, bastante para o vidro se sentir agarrado e depois descia o conjunto até conseguir abrir a janela os centímetros suficientes para o braço entrar e destrancar a porta. Uma vez lá dentro, ao volante, o Rui unia dois fios que penduravam da zona onde os carros menos velhos costumavam ter a fechadura que permitia a ignição. Unia os fios enquanto acelerava e assim ligava o motor. O Fiat 125 começava então a vibrar e a roncar.
O Rui era dos poucos colegas lá da faculdade que já tinha carro. Um dia, eu ia sentada atrás, e vi cinco cogumelos esbranquiçados a despontar no tapete, junto dos meus pés.
- Rui, o teu carro tem cogumelos.
- Quantos são? Têm nascido muitos, com esta chuva. Nascem como cogumelos! - o Rui achava graça a isto, ria-se, e eu tive muito cuidado com os pés para não pisar a cultura.
Sempre que havia um semáforo no percurso e a luz acesa calhava ser a vermelha, o Rui parava e o carro desligava-se.
Já todos sabíamos que o momento que se seguiria ao cair do verde, cair é como quem diz, podia tornar-se barulhento se havia carros atrás.
Verde.
União dos fios, aceleradelas, o Rui com calma, buzinadela lá atrás, aceleradela aqui da frente, os fios, com jeitinho, muita calma, nós a olhar, a impaciência atrás de nós a subir, mais um bocadinho, já está. O Fiat acorda do sono profundo, ronca, agita-se, leva-nos a todos. E aos cogumelos.
- É uma pena o carro não ter chave - disse um dia o Rui, satisfeito. O Rui está sempre satisfeito.
- Pois, se tivesse chave, arrancavas mais depressa - concluiu alguém, acho que foi o Fernando.
- Pois arrancava, mas antes - explica o Rui - ia lá atrás ao condutor impaciente e entregava-lhe a chave.
- Entregavas-lhe a chave?! - agora devo ter sido eu.
- Entregava-lhe a chave e dizia-lhe: o senhor vá ali pôr o meu carro a trabalhar se faz favor, que eu fico aqui no seu a buzinar.
(só não tenho a certeza quanto aos cogumelos serem cinco, talvez fossem sete)
Não tinha chave. Para entrar, o Rui colava a palma da mão na janela do condutor, fazia um vácuo estudado, experiente, bastante para o vidro se sentir agarrado e depois descia o conjunto até conseguir abrir a janela os centímetros suficientes para o braço entrar e destrancar a porta. Uma vez lá dentro, ao volante, o Rui unia dois fios que penduravam da zona onde os carros menos velhos costumavam ter a fechadura que permitia a ignição. Unia os fios enquanto acelerava e assim ligava o motor. O Fiat 125 começava então a vibrar e a roncar.
O Rui era dos poucos colegas lá da faculdade que já tinha carro. Um dia, eu ia sentada atrás, e vi cinco cogumelos esbranquiçados a despontar no tapete, junto dos meus pés.
- Rui, o teu carro tem cogumelos.
- Quantos são? Têm nascido muitos, com esta chuva. Nascem como cogumelos! - o Rui achava graça a isto, ria-se, e eu tive muito cuidado com os pés para não pisar a cultura.
Sempre que havia um semáforo no percurso e a luz acesa calhava ser a vermelha, o Rui parava e o carro desligava-se.
Já todos sabíamos que o momento que se seguiria ao cair do verde, cair é como quem diz, podia tornar-se barulhento se havia carros atrás.
Verde.
União dos fios, aceleradelas, o Rui com calma, buzinadela lá atrás, aceleradela aqui da frente, os fios, com jeitinho, muita calma, nós a olhar, a impaciência atrás de nós a subir, mais um bocadinho, já está. O Fiat acorda do sono profundo, ronca, agita-se, leva-nos a todos. E aos cogumelos.
- É uma pena o carro não ter chave - disse um dia o Rui, satisfeito. O Rui está sempre satisfeito.
- Pois, se tivesse chave, arrancavas mais depressa - concluiu alguém, acho que foi o Fernando.
- Pois arrancava, mas antes - explica o Rui - ia lá atrás ao condutor impaciente e entregava-lhe a chave.
- Entregavas-lhe a chave?! - agora devo ter sido eu.
- Entregava-lhe a chave e dizia-lhe: o senhor vá ali pôr o meu carro a trabalhar se faz favor, que eu fico aqui no seu a buzinar.
(só não tenho a certeza quanto aos cogumelos serem cinco, talvez fossem sete)
03/06/2014
Vestidos de noivas
Hoje à tarde fui a Moscavide.
Descia uma das ruas perpendiculares com a janela do carro aberta, a minha filha sentada ao meu lado, o sol a deitar-se em toda a parte e cheirou-me a elefantes.
- Cheira a elefantes.
- Elefantes, mãe?! Como sabes a que cheiram os elefantes?
Olhou para mim sorridente, sobrancelhas fora da posição de repouso, expressão interrogativa, olhos pretos brilhantes, é tão bonita a minha filha.
- És tão bonita, filha.
No fim da rua que descemos e que é perpendicular à avenida a que o bairro deu nome, não vem ninguém a quem dar prioridade mas paro o carro, saco da máquina fotográfica de dentro da mala (sim, eu tiro fotografias com uma máquina fotográfica muito boa, a especialidade dela é fotografar, daí o nome), olha lá para mim outra vez, meu amor.
- Mãe, vais tirar-me uma fotografia com esta loja por trás?
- Não, vou tirar três, espera aí. E essa loja é boa, tem vestidos de noivas.
Ela esperou. Sorriu, encolheu os ombros, ai ai, mãe, que maluca!
Moscavide é um bairro feio. Tem prédios feios e ruas feias. E hoje cheirava a elefantes. Eu não devia gostar de Moscavide. Mas gosto.
É com certeza de ser maluca.
Descia uma das ruas perpendiculares com a janela do carro aberta, a minha filha sentada ao meu lado, o sol a deitar-se em toda a parte e cheirou-me a elefantes.
- Cheira a elefantes.
- Elefantes, mãe?! Como sabes a que cheiram os elefantes?
Olhou para mim sorridente, sobrancelhas fora da posição de repouso, expressão interrogativa, olhos pretos brilhantes, é tão bonita a minha filha.
- És tão bonita, filha.
No fim da rua que descemos e que é perpendicular à avenida a que o bairro deu nome, não vem ninguém a quem dar prioridade mas paro o carro, saco da máquina fotográfica de dentro da mala (sim, eu tiro fotografias com uma máquina fotográfica muito boa, a especialidade dela é fotografar, daí o nome), olha lá para mim outra vez, meu amor.
- Mãe, vais tirar-me uma fotografia com esta loja por trás?
- Não, vou tirar três, espera aí. E essa loja é boa, tem vestidos de noivas.
Ela esperou. Sorriu, encolheu os ombros, ai ai, mãe, que maluca!
Moscavide é um bairro feio. Tem prédios feios e ruas feias. E hoje cheirava a elefantes. Eu não devia gostar de Moscavide. Mas gosto.
É com certeza de ser maluca.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
