A serra estende-se à minha frente. O vale, ao fundo, está ponteado de casinhas brancas. Aqui e ali a sombra de uma nuvem teimosa e a cascata, na encosta do outro lado, ouve-se daqui.
O dia amanheceu de uma cor indefinida, era branco e azul ou, pensando bem, talvez apenas cinza. Eu vi porque acordei muito cedo e não pude dormir mais. Os pássaros despertavam também, fiquei a ouvi-los cantar, é dos sons mais belos de todos. Se não houvesse pássaros, como podia alguém ter tentado a música?
Entretanto, a manhã já se inundou de luz e eu decidi escrever-te. As cores estão de volta a todas as coisas, o sol radioso, talvez prenúncio de um dia de verão esquecido do cinza da aurora.
Ontem apareceram no terraço dois grandes gafanhotos de um verde muito vivo. Os gafanhotos ainda me enervam imenso.
Continuo a mesma tola de sempre, mas já não se nota tanto. Aprendemos a disfarçar as inconveniências com que vivemos, eu também aprendi. O meu cabelo já começou a branquear, sabes? O meu rosto também já tem vincos que o tempo cá vai deixando. Mas não me importo, ponho uma cor no cabelo que me devolve a ilusão e para o rosto comprei um creme que tem o cheiro do meu jardim de infância, por isso vai dar resultado.
As miúdas cresceram. Nunca gostaram das minhas sopas (e eu também não), mas cresceram. Devia ter-te pedido que me ensinasses a fazer a sopa, o aroma da tua ainda me alimenta a memória nos momentos em que busco consolo em ti.
Ainda não se partiu nenhuma chávena do teu serviço de chá inglês. Tenho sempre muito cuidado, digo a toda a gente que o serviço era teu. Por falar em chá, agora compro o queijo já fatiado, não tomei jeito a cortá-lo à mão e não quero mais máquinas a encher a cozinha.
Não sei se vais ler isto, talvez possas, em vez de ler, ouvir a minha voz interior, aquela que vou soltando por aqui, na internet; expliquei-te o que é a internet quando me perguntaste, recordas-te?
Mas queria dizer-te que não tive, em todos estes anos, outro momento tão negro como aquele em que te fui anunciar a brutal morte do teu único filho e fiquei sem voz.
E tu, sempre o encontraste desse lado, avó?
29/06/2014
26/06/2014
Encantadores de serpentes
À entrada do parque deram-nos um mapa, ou melhor, uma espécie de jornal que tinha um mapa. Tinha também notícias e advertências várias.
Como não ia eu a conduzir o carro alugado, abri o jornal e pus-me a ler. Nessa época, corria o mês de abril de mil novecentos e noventa e seis, eu já tinha o impulso de ler tudo o que me aterrava nas mãos ou debaixo dos olhos.
Li então que não era permitido deixar dentro do carro estacionado, à vista, pacotes de batatas fritas ou de bolachas ou alimentos do género. Por causa dos ursos. A acompanhar, estava uma fotografia de uma janela de um carro dobrada ao meio.
Li também que caso nos deparássemos com um destes ursos, bicho negro de tamanho respeitável, deveríamos enfrentá-lo, levantar e agitar os braços, bater com os punhos no peito, gritar, fazermo-nos, em suma, grandes e assustadores. Li duas vezes, para confirmar que tinha lido bem e para memorizar as instruções. Assim, em princípio, o urso leva um susto e sai-nos da frente (eles notavam no artigo que os ursos estão habituados às pessoas). Se isso não acontecer, atiramos-lhe a nossa mochila de presente, para que ele se entretenha e então afastamo-nos.
Levantei os olhos da leitura, o carro rodava devagar pelas estradas do parque Yosemite, na Califórnia, estradas ladeadas de árvores, aqui ainda não são as sequóias, são outras, e ia partilhar estes interessantes artigos do jornal, mas os meus três amigos tagarelavam sobre as caminhadas ascendentes nas falésias que circundam o vale gigante, que bonito deve ser chegar ao topo da cascata, e eu deixei o assunto dos ursos para mais tarde.
E mais tarde chegou. Tínhamo-nos separado dois a dois de acordo com os interesses de cada um, havia que aproveitar o tempo, e os dois que ficámos deste lado caminhávamos pelo bosque, junto a outras pessoas, um grupo grande, à nossa frente.
Eu ouvi um urro que não atribuí aos passarinhos, mas pensei que era sugestão da minha leitura. Observei disfarçadamente os outros e ninguém pareceu ouvir o mesmo que eu. O segundo urro não tardou.
- Ouviste isto? - perguntou-me o Miguel.
As pessoas à nossa frente aceleraram o passo e olhavam para trás, para nós, que não temos cara de ursos, depois para trás de nós, e aceleravam mais o passo. O Miguel fez menção de acelerar também.
- Não te preocupes. Se o urso aparecer, fazemos assim, escuta.
E então contei-lhe a ele o que escrevi ali em cima, mas mais depressa. Ele disse que eu estava maluca e que íamos correr. Agarrou-me no braço e puxou-me. Corremos nós e os outros que iam à nossa frente. Correu toda a gente para a estrada até deixarmos de ouvir o urso.
Eu não estava maluca e tive muita pena, sinceramente, de não o ter visto.
O Miguel ainda tremia e eu a dizer-lhe que era só seguir as instruções, as que ele não quis ler, mesmo quando lhe abri o jornal à frente do nariz.
Sempre que contei esta história que de mentira só tem o nome do Miguel, ninguém acreditou em mim.
Os mais simpáticos disseram que vá, acredito, mas o que ouviste foi um som gravado a sair de uns altifalantes escondidos nas árvores.
Meus ricos, disse-lhes eu, isso é o que há nas ramblas, em Barcelona. O som dos pássaros que lá deviam estar e não estão por causa dos encantadores de serpentes, e isto não é mais que a minha opinião, são gravações emitidas por altifalantes pendurados nas árvores. E eu vi-os.
E também vi, mas aposto que vocês não, que as pernas do árbitro que apitou hoje o nosso jogo são feias. Mesmo feias.
E agora, já acreditam?
Como não ia eu a conduzir o carro alugado, abri o jornal e pus-me a ler. Nessa época, corria o mês de abril de mil novecentos e noventa e seis, eu já tinha o impulso de ler tudo o que me aterrava nas mãos ou debaixo dos olhos.
Li então que não era permitido deixar dentro do carro estacionado, à vista, pacotes de batatas fritas ou de bolachas ou alimentos do género. Por causa dos ursos. A acompanhar, estava uma fotografia de uma janela de um carro dobrada ao meio.
Li também que caso nos deparássemos com um destes ursos, bicho negro de tamanho respeitável, deveríamos enfrentá-lo, levantar e agitar os braços, bater com os punhos no peito, gritar, fazermo-nos, em suma, grandes e assustadores. Li duas vezes, para confirmar que tinha lido bem e para memorizar as instruções. Assim, em princípio, o urso leva um susto e sai-nos da frente (eles notavam no artigo que os ursos estão habituados às pessoas). Se isso não acontecer, atiramos-lhe a nossa mochila de presente, para que ele se entretenha e então afastamo-nos.
Levantei os olhos da leitura, o carro rodava devagar pelas estradas do parque Yosemite, na Califórnia, estradas ladeadas de árvores, aqui ainda não são as sequóias, são outras, e ia partilhar estes interessantes artigos do jornal, mas os meus três amigos tagarelavam sobre as caminhadas ascendentes nas falésias que circundam o vale gigante, que bonito deve ser chegar ao topo da cascata, e eu deixei o assunto dos ursos para mais tarde.
E mais tarde chegou. Tínhamo-nos separado dois a dois de acordo com os interesses de cada um, havia que aproveitar o tempo, e os dois que ficámos deste lado caminhávamos pelo bosque, junto a outras pessoas, um grupo grande, à nossa frente.
Eu ouvi um urro que não atribuí aos passarinhos, mas pensei que era sugestão da minha leitura. Observei disfarçadamente os outros e ninguém pareceu ouvir o mesmo que eu. O segundo urro não tardou.
- Ouviste isto? - perguntou-me o Miguel.
As pessoas à nossa frente aceleraram o passo e olhavam para trás, para nós, que não temos cara de ursos, depois para trás de nós, e aceleravam mais o passo. O Miguel fez menção de acelerar também.
- Não te preocupes. Se o urso aparecer, fazemos assim, escuta.
E então contei-lhe a ele o que escrevi ali em cima, mas mais depressa. Ele disse que eu estava maluca e que íamos correr. Agarrou-me no braço e puxou-me. Corremos nós e os outros que iam à nossa frente. Correu toda a gente para a estrada até deixarmos de ouvir o urso.
Eu não estava maluca e tive muita pena, sinceramente, de não o ter visto.
O Miguel ainda tremia e eu a dizer-lhe que era só seguir as instruções, as que ele não quis ler, mesmo quando lhe abri o jornal à frente do nariz.
Sempre que contei esta história que de mentira só tem o nome do Miguel, ninguém acreditou em mim.
Os mais simpáticos disseram que vá, acredito, mas o que ouviste foi um som gravado a sair de uns altifalantes escondidos nas árvores.
Meus ricos, disse-lhes eu, isso é o que há nas ramblas, em Barcelona. O som dos pássaros que lá deviam estar e não estão por causa dos encantadores de serpentes, e isto não é mais que a minha opinião, são gravações emitidas por altifalantes pendurados nas árvores. E eu vi-os.
E também vi, mas aposto que vocês não, que as pernas do árbitro que apitou hoje o nosso jogo são feias. Mesmo feias.
E agora, já acreditam?
25/06/2014
Beijos meus
Não falava com ele há um tempo, talvez uns dois anos. Hoje ligou-me para o número fixo, em resposta ao meu email de ontem a pedir um orçamento.
Tenho ideia que nos tratávamos por tu. Pelo menos tenho a certeza absoluta que me cumprimentava com dois beijinhos, mesmo por cima da minha mão estendida em riste, cheia de esperança de ser apertada. Esta mania dos beijos em trabalho é muito esquisita para mim. Adiro com relutância, mas lá vou aderindo, sobretudo quando a relação de trabalho se deve manter sã.
Mas hoje liga-me, então, o Teixeira.
- Olá, estás bom? - por acaso reconheci-lhe a voz.
E ele muito formal, olá, como está? Há quanto tempo, não é?, e tal, essas coisas que se dizem antes de ir ao que interessa. Eu atalhei, urgi porque preciso agora de tentar outra vez o tu, a ver se é de mim ou se ele está distraído, vamos lá.
- Estás a ligar-me por causa do meu email de ontem, presumo.
- Exactamente, é que já tenho um valor e estou a fazer-lhe um desconto muito bom!!
Mau.
Vou insistir, tentar recordar o rapaz que isto era por tu, normalmente não se anda para trás, rapaz este que ainda por cima deve andar pela minha idade, é quase certo que sim, portanto mais uma razão, afinal aqui a esquisitinha costumo ser eu.
- Mas isso é óptimo, Teixeira, e em quanto consegues fazer?
Ele disse-me o valor e manteve-se na dele, você sabe lá e isto e mais um queijo e tome lá as novidades. Desatou a contar-me, então, muito entusiasmado, o rebranding que a empresa sofreu e que está na base dos preços mais atractivos, a juntar ao facto de terem feito também uma reorganização departamental.
Eu ainda estou na palavra rebranding, a digeri-la com cuidado, a tentar visualizá-la em português, tarefa não imediata, será disto que ele ficou assim?, quando aparece à porta do meu gabinete o Luís com o computador portátil nos braços a tentar dizer-me qualquer coisa, fazendo gestos exagerados com a boca, ou seja a falar sem emitir som, pareceu-me que cantava o "Upside Down" da Diana Ross e eu, caramba, mas que dois!
Como o desenrolar do rebranding continuava, tapei o bucal do telefone e gritei-lhe com o audio desligado, o quê, Luís??
O meu colega Luís tem por vezes umas manifestações repentinas do artista que há nele e eu detesto perder uma boa oportunidade para enriquecer a minha cultura, o Teixeria mencionava agora o website reformulado e portanto tomei atenção no Luís, que eu só oiço um canal de cada vez.
- Já te mandei o relatório, depois vê aí no mail, ok? - diz-me ele.
Ó filho, eu 'tou aqui no rebranding, era o que eu lhe queria dizer, agora que percebi que não havia Diana Ross nenhuma, nem upside down boy you turn me inside out, nem nada. Mas não disse, o Luís adora pôr a malta à prova e o que ele queria sei eu.
O Teixeira, entretanto, já estava na sua recta final quando sintonizei para o telefone outra vez, e pronto, como vê, houve grandes mudanças desde a última vez que cá veio.
Já engasgada e a ver se concluo a conversa sem definir o tratamento, remato.
- Muito obrigada, Teixeira, assim que puder respondo, sim? Foi um prazer.
Acho que me saí bem nesta parte, penso, portanto, ter metido golo.
E o Luís, o safadão, também. O que ele queria era provar que as mulheres não são nada capazes de fazer duas coisas ao mesmo tempo. E conseguiu, o cão.
Já o Teixeira, esse, não pense que leva mais beijos meus.
Tenho ideia que nos tratávamos por tu. Pelo menos tenho a certeza absoluta que me cumprimentava com dois beijinhos, mesmo por cima da minha mão estendida em riste, cheia de esperança de ser apertada. Esta mania dos beijos em trabalho é muito esquisita para mim. Adiro com relutância, mas lá vou aderindo, sobretudo quando a relação de trabalho se deve manter sã.
Mas hoje liga-me, então, o Teixeira.
- Olá, estás bom? - por acaso reconheci-lhe a voz.
E ele muito formal, olá, como está? Há quanto tempo, não é?, e tal, essas coisas que se dizem antes de ir ao que interessa. Eu atalhei, urgi porque preciso agora de tentar outra vez o tu, a ver se é de mim ou se ele está distraído, vamos lá.
- Estás a ligar-me por causa do meu email de ontem, presumo.
- Exactamente, é que já tenho um valor e estou a fazer-lhe um desconto muito bom!!
Mau.
Vou insistir, tentar recordar o rapaz que isto era por tu, normalmente não se anda para trás, rapaz este que ainda por cima deve andar pela minha idade, é quase certo que sim, portanto mais uma razão, afinal aqui a esquisitinha costumo ser eu.
- Mas isso é óptimo, Teixeira, e em quanto consegues fazer?
Ele disse-me o valor e manteve-se na dele, você sabe lá e isto e mais um queijo e tome lá as novidades. Desatou a contar-me, então, muito entusiasmado, o rebranding que a empresa sofreu e que está na base dos preços mais atractivos, a juntar ao facto de terem feito também uma reorganização departamental.
Eu ainda estou na palavra rebranding, a digeri-la com cuidado, a tentar visualizá-la em português, tarefa não imediata, será disto que ele ficou assim?, quando aparece à porta do meu gabinete o Luís com o computador portátil nos braços a tentar dizer-me qualquer coisa, fazendo gestos exagerados com a boca, ou seja a falar sem emitir som, pareceu-me que cantava o "Upside Down" da Diana Ross e eu, caramba, mas que dois!
Como o desenrolar do rebranding continuava, tapei o bucal do telefone e gritei-lhe com o audio desligado, o quê, Luís??
O meu colega Luís tem por vezes umas manifestações repentinas do artista que há nele e eu detesto perder uma boa oportunidade para enriquecer a minha cultura, o Teixeria mencionava agora o website reformulado e portanto tomei atenção no Luís, que eu só oiço um canal de cada vez.
- Já te mandei o relatório, depois vê aí no mail, ok? - diz-me ele.
Ó filho, eu 'tou aqui no rebranding, era o que eu lhe queria dizer, agora que percebi que não havia Diana Ross nenhuma, nem upside down boy you turn me inside out, nem nada. Mas não disse, o Luís adora pôr a malta à prova e o que ele queria sei eu.
O Teixeira, entretanto, já estava na sua recta final quando sintonizei para o telefone outra vez, e pronto, como vê, houve grandes mudanças desde a última vez que cá veio.
Já engasgada e a ver se concluo a conversa sem definir o tratamento, remato.
- Muito obrigada, Teixeira, assim que puder respondo, sim? Foi um prazer.
Acho que me saí bem nesta parte, penso, portanto, ter metido golo.
E o Luís, o safadão, também. O que ele queria era provar que as mulheres não são nada capazes de fazer duas coisas ao mesmo tempo. E conseguiu, o cão.
Já o Teixeira, esse, não pense que leva mais beijos meus.
22/06/2014
Renato
Na quarta feira combinei almoçar com a Marina no centro comercial do bairro perto do trabalho dela que, por coincidência, é aquele em que eu vivo.
Cheguei ao local do encontro e, em vez dela, encontrei uma mensagem no meu telefone, estou cinco minutos atrasada.
Fiquei contente por poder esperar. Enquanto espero deixo de decidir, deixo de contar o tempo, deixo de me apressar ou exigir resultados, suspendo-me no éter da atmosfera possível, que ali à porta do centro comercial tem pintado contra o azul do céu o lilás vibrante, ondulando ao vento, dos jacarandás.
Se por acaso um dia eu morrer, mas não acredito que isso aconteça, poderá continuar a colher-se nas flores destas árvores o reflexo dos meus olhos por muito tempo e por tantas vezes os ter lavado nelas.
Com o olhar suspenso de prazer cromático, detecto, no extremo do meu campo de visão, alguém que se aproxima.
Solto o olhar das cores inebriantes e enceto um sorriso de antecipação à minha amiga, mas quem vem lá é o rapaz magricela que passeia os cães. Vem sozinho e dirige-se à entrada do centro comercial, mas desvia a sua rota na minha direcção e remove da cara os óculos de sol. Eu faço o mesmo, ele dá-me dois beijinhos e encosta-se ao muro ao meu lado.
- Então, hoje vens sozinho.
- Sim, fui agora entregar dois ali à rua de cima, vou almoçar, mas estou cansado - ao dizer isto, o Renato esfrega os olhos.
- Cansado? Então? - este miúdo tem idade para ser meu filho mas é muito mais alto que eu.
- Comecei às seis da manhã, fui passear dois ali em baixo, depois até às oito faço outros dois, ao todo são dez por dia. Ainda me falta um às quatro horas, depois às sete e às oito outra vez.
O Renato tem no rosto marcas que contam histórias que eu não conheço, sei vagamente que não pôde continuar a estudar, que houve gritos e maus tratos na sua infância, que dormiu fora de casa porque não lhe abriam a porta. Sulcos de cicatrizes que cresceram com ele, arte obrigatória quando a vida é madrasta, agruras que lhe escureceram a pele.
- Dez cães? Todos os dias?
- Não, ao sábado não passeio.
Sei de uma família que lhe oferece jantar quando o Renato entrega o cão ao fim do dia. Pergunto-lhe mais sobre o seu trabalho para me manter espectadora deste brilho que lhe baila nos olhos e que ilumina o seu rosto de menino cujas marcas me doem a mim também. Ele dá-me detalhes.
- Este que vou buscar às quatro horas vê-me chegar, lá de cima da varanda, e vai logo a ladrar dizer à dona que eu cheguei.
Depois ri e acena com a cabeça, a reforçar a alegria do cão e a dele, quer que eu acredite. Eu acredito.
Acredito na história do Renato, na família que lhe dá jantar, nos jacarandás que pintam o céu assim, no almoço com a minha amiga. E só por isto acredito também que nunca morrerei.
E na sombra destes jacarandás, vejo a Marina aproximar-se a sorrir, apressada.
Cheguei ao local do encontro e, em vez dela, encontrei uma mensagem no meu telefone, estou cinco minutos atrasada.
Fiquei contente por poder esperar. Enquanto espero deixo de decidir, deixo de contar o tempo, deixo de me apressar ou exigir resultados, suspendo-me no éter da atmosfera possível, que ali à porta do centro comercial tem pintado contra o azul do céu o lilás vibrante, ondulando ao vento, dos jacarandás.
Se por acaso um dia eu morrer, mas não acredito que isso aconteça, poderá continuar a colher-se nas flores destas árvores o reflexo dos meus olhos por muito tempo e por tantas vezes os ter lavado nelas.
Com o olhar suspenso de prazer cromático, detecto, no extremo do meu campo de visão, alguém que se aproxima.
Solto o olhar das cores inebriantes e enceto um sorriso de antecipação à minha amiga, mas quem vem lá é o rapaz magricela que passeia os cães. Vem sozinho e dirige-se à entrada do centro comercial, mas desvia a sua rota na minha direcção e remove da cara os óculos de sol. Eu faço o mesmo, ele dá-me dois beijinhos e encosta-se ao muro ao meu lado.
- Então, hoje vens sozinho.
- Sim, fui agora entregar dois ali à rua de cima, vou almoçar, mas estou cansado - ao dizer isto, o Renato esfrega os olhos.
- Cansado? Então? - este miúdo tem idade para ser meu filho mas é muito mais alto que eu.
- Comecei às seis da manhã, fui passear dois ali em baixo, depois até às oito faço outros dois, ao todo são dez por dia. Ainda me falta um às quatro horas, depois às sete e às oito outra vez.
O Renato tem no rosto marcas que contam histórias que eu não conheço, sei vagamente que não pôde continuar a estudar, que houve gritos e maus tratos na sua infância, que dormiu fora de casa porque não lhe abriam a porta. Sulcos de cicatrizes que cresceram com ele, arte obrigatória quando a vida é madrasta, agruras que lhe escureceram a pele.
- Dez cães? Todos os dias?
- Não, ao sábado não passeio.
Sei de uma família que lhe oferece jantar quando o Renato entrega o cão ao fim do dia. Pergunto-lhe mais sobre o seu trabalho para me manter espectadora deste brilho que lhe baila nos olhos e que ilumina o seu rosto de menino cujas marcas me doem a mim também. Ele dá-me detalhes.
- Este que vou buscar às quatro horas vê-me chegar, lá de cima da varanda, e vai logo a ladrar dizer à dona que eu cheguei.
Depois ri e acena com a cabeça, a reforçar a alegria do cão e a dele, quer que eu acredite. Eu acredito.
Acredito na história do Renato, na família que lhe dá jantar, nos jacarandás que pintam o céu assim, no almoço com a minha amiga. E só por isto acredito também que nunca morrerei.
E na sombra destes jacarandás, vejo a Marina aproximar-se a sorrir, apressada.
21/06/2014
O avental
São oito e dezanove quando tocam à campainha. Adivinho que é a promessa que estava ontem afixada dentro do elevador: a visita para a leitura do contador de electricidade entre as oito e as treze.
Limpo as mãos antes de me dirigir à porta, bom dia!
- Bom dia, era para ler o contador.
- Com certeza, era e é, faça favor. Deixe ver, vazio, ponta não tem nada, cheia, ora anote aí.
O serviço durou uma mão cheia de segundos, que eu ajudei a senhora, era uma senhora.
Regresso à cozinha para continuar a espremer as laranjas. Por um lado, anda aí muita gente a ver se instala as redes inteligentes para fazer a leitura dos contadores mas até agora nada, grandes incompetentes, por outro ando eu a ver se combato a minha anemia com a vitamina C destas laranjas, que vai agarrar-se ao ferro dos cereais, é o que dizem, e ainda com sementes de linhaça que fazem o papel da cereja no topo do bolo.
Se no primeiro caso não tem havido resultados visíveis, facto ainda agora confirmado pela campainha que tocou às oito e dezanove, no segundo a história é outra.
É outra e ficará muito mais completa se eu disser, disser não, escrever, que a casa ainda está mergulhada no silêncio, que o sol matinal já entrou e se sentou à mesa da cozinha, que a luz desta manhã revela as sombras que ainda não acordaram, que a nesga de rio lá ao fundo se vestiu hoje de prata enquanto que eu, menos espalhafatosa, optei pelo branco.
No entanto, apesar da beleza inegável deste combate à falta de ferro a que me devotei sem querer, avanço gradualmente para um campo magnético onde nunca estive e tenho, por conseguinte, receio das chaves de fendas.
Quem diz chaves de fendas, diz agrafadores ou mesmo paragens de autocarros.
As paragens é pior, evidentemente. Por precaução, comecei a atravessar a rua para o outro lado sempre que vejo uma dirigir-se a mim, ainda que se mantenha firme agarrada ao chão, a paragem, nunca se sabe se muda de ideias quando eu passar rés vés. E depois era ver-me não a correr atrás do autocarro, mas a fugir da paragem. Ora isto não, uma pessoa sempre tem uma imagem a manter.
Espremo a última metade das laranjas e reflicto nestas coisas.
Se os senhores das redes inteligentes que nunca mais é sábado (por acaso hoje, dia em que escrevo, é, mas aceitemos a maneira de falar), se esses senhores vissem isto, esta escalada de exterminação da anemia, tão bem sucedida, tão eficazmente orientada, haviam de pintar a cara de preto.
Eles a cara de preto, o rio todo de prata e eu assim de branco, está um leque de tons que é uma maravilha, não fosse o meu branco apresentar-se agora salpicado de vitamina C.
É o que acontece quando me esqueço de pôr o avental.
Agradecimentos: à Carla pela dica das sementes de linhaça nos cereais, estou com muita esperança nelas, e à Mafy pelos links da internet que me abriram portas para este casamento feliz entre o ferro e a vitamina C.
Limpo as mãos antes de me dirigir à porta, bom dia!
- Bom dia, era para ler o contador.
- Com certeza, era e é, faça favor. Deixe ver, vazio, ponta não tem nada, cheia, ora anote aí.
O serviço durou uma mão cheia de segundos, que eu ajudei a senhora, era uma senhora.
Regresso à cozinha para continuar a espremer as laranjas. Por um lado, anda aí muita gente a ver se instala as redes inteligentes para fazer a leitura dos contadores mas até agora nada, grandes incompetentes, por outro ando eu a ver se combato a minha anemia com a vitamina C destas laranjas, que vai agarrar-se ao ferro dos cereais, é o que dizem, e ainda com sementes de linhaça que fazem o papel da cereja no topo do bolo.
Se no primeiro caso não tem havido resultados visíveis, facto ainda agora confirmado pela campainha que tocou às oito e dezanove, no segundo a história é outra.
É outra e ficará muito mais completa se eu disser, disser não, escrever, que a casa ainda está mergulhada no silêncio, que o sol matinal já entrou e se sentou à mesa da cozinha, que a luz desta manhã revela as sombras que ainda não acordaram, que a nesga de rio lá ao fundo se vestiu hoje de prata enquanto que eu, menos espalhafatosa, optei pelo branco.
No entanto, apesar da beleza inegável deste combate à falta de ferro a que me devotei sem querer, avanço gradualmente para um campo magnético onde nunca estive e tenho, por conseguinte, receio das chaves de fendas.
Quem diz chaves de fendas, diz agrafadores ou mesmo paragens de autocarros.
As paragens é pior, evidentemente. Por precaução, comecei a atravessar a rua para o outro lado sempre que vejo uma dirigir-se a mim, ainda que se mantenha firme agarrada ao chão, a paragem, nunca se sabe se muda de ideias quando eu passar rés vés. E depois era ver-me não a correr atrás do autocarro, mas a fugir da paragem. Ora isto não, uma pessoa sempre tem uma imagem a manter.
Espremo a última metade das laranjas e reflicto nestas coisas.
Se os senhores das redes inteligentes que nunca mais é sábado (por acaso hoje, dia em que escrevo, é, mas aceitemos a maneira de falar), se esses senhores vissem isto, esta escalada de exterminação da anemia, tão bem sucedida, tão eficazmente orientada, haviam de pintar a cara de preto.
Eles a cara de preto, o rio todo de prata e eu assim de branco, está um leque de tons que é uma maravilha, não fosse o meu branco apresentar-se agora salpicado de vitamina C.
É o que acontece quando me esqueço de pôr o avental.
Agradecimentos: à Carla pela dica das sementes de linhaça nos cereais, estou com muita esperança nelas, e à Mafy pelos links da internet que me abriram portas para este casamento feliz entre o ferro e a vitamina C.
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