Quero água.
Na porta de embarque há uma máquina de venda automática de bebidas que tem dentro garrafas de água Serra da Estrela.
Meti na ranhura uma moeda de dois euros, cada garrafa custa um euro e trinta, informa a etiqueta. Segui as instruções e recebi o troco. Mas só o troco.
De todas as vezes que me servi de produtos em máquinas de venda automática, assaltou-me o mesmo pensamento imbecil. O que farei se a máquina não me entregar o produto.
Hoje é o dia.
Saquei do telefone e procurei um número nas diversas etiquetas que esta máquina tem. Encontrei, digitei-o. Mantenho, na mão, os setenta cêntimos do troco; se os guardo na carteira misturam-se com as outras moedas e lá se vai a minha fraca evidência, a única que tenho.
Enquanto oiço chamar, pressinto que o meu pensamento imbecil anotado acima ocorre a mais pessoas, vários pares de olhos estão postos em mim, seguem-me os movimentos, vêem que tal. Sinto-me, até, um pouco ruborizada.
- Boa tarde, ora diga, se faz favor.
- Boa tarde. Olhe, eu estou na porta vinte e dois e tentei comprar uma garrafa de água, mas a máquina que aqui está só dá troco, a garrafa não saiu.
Não gosto muito de admitir que digo "olhe" ao telefone, normalmente não o faço, mas por causa destes espectadores que me estão a atrapalhar, saiu.
- Disse porta vinte e dois? Já aí vou, menina, é só o tempo de ir buscar as chaves, está com pressa?
- Pressa? Não, o embarque ainda não começou.
Não passaram nem cinco minutos quando vejo aproximar-se o maior molho de chaves que jamais vi, atrás do qual surge um homem baixo, cabelo todo branco, voz grave, já lhe vamos ouvir a voz, mãos grandes, sorridente.
- Foi a menina que ligou?
A menina sou eu. Não corrigi.
- Sim, fui eu, ainda tenho o troco na mão, veja, a máquina deu-me o troco - mostrei-lhe as moedas coladas à palma da minha mão que vai ficar a cheirar a metal e eu não gosto de ter as mãos a cheirar a metal.
- Vamos lá ver, menina, antes de abrir a máquina.
Tirou do bolso uma moeda igual à minha e seguiu o procedimento. Recebeu o troco, apenas o troco.
- Vê? Foi exactamente isso que me aconteceu.
- Ora deixe cá ver o número da máquina, é que tenho de encontrar a chave certa.
Remexeu nas chaves que deviam ser mais de cem. Encontrou, confirmou o número, abriu a máquina.
Retirou uma garrafa de água Serra da Estrela e estendeu-ma.
- Já sabe, sempre que acontecer, é só ligar e eu venho logo.
Agradeci, admirada com a facilidade com que se resolveu, certa de que o pensamento imbecil não mais me importunará. Os meus espectadores, entretanto, regressaram aos respectivos dispositivos electrónicos onde mergulham a concentração, perderam o interesse em mim; são, portanto, um bocado parvos.
Aproximo-me do vidro onde posso admirar de perto os aviões, abro a garrafa de água gelada, a água assim não é do meu agrado mas a sede está cega, tomo dois golos e ao terceiro anunciam o embarque.
12/07/2014
09/07/2014
Bem passada
Estou cá desconfiada que hoje vou escrever poucochinho.
Chego do ginásio em termos que não vou dissecar aqui, não há que temer, mas antes do banho de que estou necessitada, mantenho-me cativa para a tarefa planeada: coloração do cabelo.
Enquanto espero que o químico actue, diz lá quinze minutos mas eu vou aos vinte, sei lá se aquilo funciona com quinze, armei o escadote e mudei duas lâmpadas do tecto da casa de banho que andavam fundidas. Andavam, claro, é forma de falar.
Em consequência da fraca luz aqui instalada há dias, estou em crer que o meu cabelo não estava a sair de casa em condições, que hoje dei conta de certos olhares quando entrei muito fresca no meu local de trabalho.
No entanto, não estou certa se foi do cabelo ou de ter ouvido o Nuno Markl recordar o Nove Semanas e Meia na rádio e me ter deixado a pensar que afinal nunca tentei imitar aquelas ideias e fritar costeletas de porco na barriga, aproveitando as quenturas que haviam de se arranjar.
Ovos estrelados em cima do umbigo vi eu já não sei em que sátira a este clássico, pelo que também registei a ideia que se encontra a acompanhar a das costeletas numa produção fictícia empoeirada, bolorenta e coisa do género, dentro de uma gaveta. Enfim.
E com a conversa descarrilei.
Mudei as lâmpadas. Ficou uma beleza a casa de banho inundada, felizmente só de luz.
Depois arrumei o escadote e fui à loiça. Tirar a lavada, devolvê-la aos armários, meter a suja. Já contei: demoro nove minutos a arrumar uma carga de loiça da máquina (mesmo assim, não há maneira de convencer as minhas gaiatas a fazê-lo de iniciativa própria). Seguidamente, minutos para que vos quero, vou à roupa; enchi a máquina e programei a lavagem para acertar em cheio na tarifa do vazio, que nos visita durante a noite.
De regresso à casa de banho, deito um golpe de vista ao relógio, está na hora de concluir o processo químico. Quem me dera ficar linda de (alguns) cabelos brancos e não precisar disto.
Mas preciso, o meu cabelo até parece o que já foi e devolve-me na perfeição as ilusões.
Talvez até um dia destes me encha de brios e retome a ideia da costeletinha, em não sendo muito alta é capaz de ficar bem passada e sempre se poupam uns trocos em gás. Grande ideia, a do Nuno.
07/07/2014
Badajoz
Há tempos vi-a na televisão. Reconheci-a logo, apesar de terem passado mais de treze anos.
Estava a ser entrevistada numa reportagem sobre empresas que promovem a natalidade através das facilidades nos horários das mães trabalhadoras e ela, hoje directora de um grande departamento numa grande empresa, explicava aos jornalistas e a nós, os lá-em-casa, o que se faz naquela grande empresa para que crianças dali nascidas não saibam o que é uma mãe ausente, uma febre camuflada enfiada na escola, um crescer, em certa medida, aos tropeções dados em nome das exigências profissionais dos pais. Ali respirava-se toda uma louvável atitude, muito nutritiva para a tão importante unidade celular da sociedade, a família.
Ela, vou chamar-lhe Luísa, e eu estávamos por acaso no mesmo evento de empresas com colaboradores acompanhados das famílias; crianças havia muitas, bebés alguns, um dos quais era meu, ou melhor, minha, e outro, aliás outra, era dela.
As circunstâncias levaram-na a perguntar-me se a queria acompanhar nessa tarde numa viagem à cidade espanhola mais próxima, Badajoz, para uma sessão de compras.
As circunstâncias levaram-me a aceitar o convite não sem alguma hesitação, pois para mim a ideia de compras não é presságio de alegrias, no entanto impossível seria juntar-me às actividades radicais do resto do grupo, verdadeiramente inadequadas para as nossas bebés - a minha e a dela.
O Audi do marido da Luísa, que também não tinha aderido às actividades radicais e tinha em memória a posição de condução dela, a demonstração fê-la a Luísa na perfeição, vês que moderno é o carro do meu marido, claro que vejo, o Audi, era aqui que eu ia, levou-nos a Badajoz.
A viagem não durou mais de hora e meia, mas foi bastante informativa. A Luísa vai todos os fins de semana para fora com a família e começa a escolher o local à quarta feira. Perto da água é o requisito que permite ao marido pescar, perto de uma cidade é o outro que lhe permite a ela fazer compras. A bebé leva-a para as lojas, o rapaz, também havia um rapaz que aparenta uns nove anos de idade, ficava no carro junto à água a jogar gameboy enquanto o pai pescava. Tanto tempo no carro?, eu estranhei. Sim, ele adora, joga imenso, é óptimo nos níveis, informou a Luísa.
Mal chegámos, declarei que precisava de um local sossegado para dar de comer à minha filha. Mas como a Luísa estava impaciente para iniciar a ronda pelas lojas da calle não sei quê, ia andando e indicou-me vagamente onde eu a poderia encontrar mais tarde, nessa tal calle.
A pequena barriga de dez meses de idade que se passeava no carrinho empurrado por mim calles fuera já ia consolada com o lanche, quando encontrei a Luísa numa loja muito grande onde se ouvia uma espécie de música gravada num dia de obras em que se martelava muito, ou coisa do género. Encontrei-a na longa fila de pagamento com várias peças de roupa penduradas num braço, enquanto o outro segurava um biberão de leite que a sua filha bebia, sentada no carrinho. Notei o pequeno pescoço torcido para apanhar o jeito ao biberão, notei que os olhos da mãe pousavam nas maravilhas têxteis que ia adquirir, notei o empurrar do carrinho com um pé enquanto a fila avançava, notei que tentei oferecer ajuda com o biberão, não é preciso, ela está habituada, ria-se a Luísa, olha as coisas que eu comprei.
E depois notei que estava mesmo arrependida de ter vindo a Badajoz.
Nunca mais vi a Luísa a não ser há tempos, na televisão, a descrever as boas acções que pratica no exercício das suas funções profissionais e que ali acima se podem ler. Ainda estou incrédula.
Mas não em relação ao seu visível exemplar desempenho profissional, naturalmente.
Estava a ser entrevistada numa reportagem sobre empresas que promovem a natalidade através das facilidades nos horários das mães trabalhadoras e ela, hoje directora de um grande departamento numa grande empresa, explicava aos jornalistas e a nós, os lá-em-casa, o que se faz naquela grande empresa para que crianças dali nascidas não saibam o que é uma mãe ausente, uma febre camuflada enfiada na escola, um crescer, em certa medida, aos tropeções dados em nome das exigências profissionais dos pais. Ali respirava-se toda uma louvável atitude, muito nutritiva para a tão importante unidade celular da sociedade, a família.
Ela, vou chamar-lhe Luísa, e eu estávamos por acaso no mesmo evento de empresas com colaboradores acompanhados das famílias; crianças havia muitas, bebés alguns, um dos quais era meu, ou melhor, minha, e outro, aliás outra, era dela.
As circunstâncias levaram-na a perguntar-me se a queria acompanhar nessa tarde numa viagem à cidade espanhola mais próxima, Badajoz, para uma sessão de compras.
As circunstâncias levaram-me a aceitar o convite não sem alguma hesitação, pois para mim a ideia de compras não é presságio de alegrias, no entanto impossível seria juntar-me às actividades radicais do resto do grupo, verdadeiramente inadequadas para as nossas bebés - a minha e a dela.
O Audi do marido da Luísa, que também não tinha aderido às actividades radicais e tinha em memória a posição de condução dela, a demonstração fê-la a Luísa na perfeição, vês que moderno é o carro do meu marido, claro que vejo, o Audi, era aqui que eu ia, levou-nos a Badajoz.
A viagem não durou mais de hora e meia, mas foi bastante informativa. A Luísa vai todos os fins de semana para fora com a família e começa a escolher o local à quarta feira. Perto da água é o requisito que permite ao marido pescar, perto de uma cidade é o outro que lhe permite a ela fazer compras. A bebé leva-a para as lojas, o rapaz, também havia um rapaz que aparenta uns nove anos de idade, ficava no carro junto à água a jogar gameboy enquanto o pai pescava. Tanto tempo no carro?, eu estranhei. Sim, ele adora, joga imenso, é óptimo nos níveis, informou a Luísa.
Mal chegámos, declarei que precisava de um local sossegado para dar de comer à minha filha. Mas como a Luísa estava impaciente para iniciar a ronda pelas lojas da calle não sei quê, ia andando e indicou-me vagamente onde eu a poderia encontrar mais tarde, nessa tal calle.
A pequena barriga de dez meses de idade que se passeava no carrinho empurrado por mim calles fuera já ia consolada com o lanche, quando encontrei a Luísa numa loja muito grande onde se ouvia uma espécie de música gravada num dia de obras em que se martelava muito, ou coisa do género. Encontrei-a na longa fila de pagamento com várias peças de roupa penduradas num braço, enquanto o outro segurava um biberão de leite que a sua filha bebia, sentada no carrinho. Notei o pequeno pescoço torcido para apanhar o jeito ao biberão, notei que os olhos da mãe pousavam nas maravilhas têxteis que ia adquirir, notei o empurrar do carrinho com um pé enquanto a fila avançava, notei que tentei oferecer ajuda com o biberão, não é preciso, ela está habituada, ria-se a Luísa, olha as coisas que eu comprei.
E depois notei que estava mesmo arrependida de ter vindo a Badajoz.
Nunca mais vi a Luísa a não ser há tempos, na televisão, a descrever as boas acções que pratica no exercício das suas funções profissionais e que ali acima se podem ler. Ainda estou incrédula.
Mas não em relação ao seu visível exemplar desempenho profissional, naturalmente.
04/07/2014
Alfa Pendular
É a
terceira vez que me cai este botão. Das outras apanhei-o, devolvi-o ao sítio,
prendi bem a linha, dei mais voltas e cortei com a tesoura, que fica melhor do
que levar-lhe os dentes.
Mas
desta perdeu-se.
(o Alfa
Pendular percorre a lezíria, vamos a duzentos e vinte quilómetros por hora, noto)
Como não
uso o casaco salmão tostado sem botão, quando terminei de arrumar a loiça
dirigi-me ao armário onde está a minha velha caixa de costura.
Não
arrasto os pés, não apanho o cabelo nem uso chapéus, não fumo e não me importo
de coser botões. Na rua, alguém deposita garrafas no contentor do vidro no
momento em que abro a caixa.
Dentro
está um mundo de coisas pequenas e quase todas inúteis, desconfio que nunca
darei uso à parafernália de dispositivos e ferramentas de que disponho. Mas
preciso de um botão.
(o
comboio vai cheio, está uma linda tarde de sol e o computador aquece-me imenso
as pernas)
Nesta
caixa há muitos botões independentes, fruto dos cuidados das marcas de roupa
que pensam nestas coisas de a gente suspirar com o casaco fechado e lá vai o
botão; servem, as marcas, peças sobressalentes com o prato principal que costuma
ser um casaco, uma camisa ou mesmo uma calça.
(não
ponho o computador na mesa basculante disponível no comboio, porque fica muito
longe de mim e marreca perco a postura, é só isso)
Encontrei
o botão que me vai servir a próxima temporada neste casaco, estava dentro de uma bolsinha de cartão que traz a inscrição “just in case”. E devido ao feliz caso
de eu admirar a inteligência subtil das gentes que fazem estas coisas, esboço
um sorriso e pego na agulha, vamos a isto.
(estou a
ficar enjoada com os movimentos pendulares do Alfa aliados à verdade que vou
dizer: o meu almoço foi parco)
Começo a
coser o botão no local de onde retirei os restos de linha da vez anterior. Os
primeiros movimentos que me levam o braço na diagonal orientada a sul são
longos e lentos. O Tejo está lá em baixo a cuidar da cidade que mergulhou na
paz logo a seguir à queda da última garrafa no vidrão e eu tenho vontade de
ouvir um fado. Os alongamentos do braço a sul vão encurtando gradualmente com o
comprimento da linha e o crescer da firmeza da união que estou a criar.
(vai uma
miúda ali à frente a ler um livro do Tintim, nunca gostei do Tintim por causa
do penacho)
Termino
o trabalho dando ainda mais voltas ao remate a ver se desta o botão não se pôe
na alheta por dá cá aquela palha e com a tesoura de pontas corto a linha.
(enjoada
é favor e as minhas pernas a arder tanto!; talvez marreca ainda
mantenha alguma elegância, afinal)
Arrumo a
velha caixa de costura e de novo sem arrastar os pés, sem o cabelo apanhado,
sem chapéu e sem fumar, vou pôr um fado a tocar na aparelhagem.
Este casaco
salmão tostado assenta-me que nem uma luva ou, se dissermos cair, então é que
nem ginjas que me cai, é muito bonito e amanhã vou vesti-lo.
(estamos a chegar ao meu destino, fecho o computador)
O comboio pára e a porta abre-se. Coimbra está sob um céu de nuvens.
Antes de me apear, aperto o casaco salmão tostado. Just in case.
01/07/2014
Sangue raro
Quatro agentes da autoridade e uma carrinha dentro da qual sei muito bem que posso manter-me em pé e ainda haver espaço se preciso fosse e eu transportasse uma panela cheia de sopa de grão com espinafres à cabeça, nunca se sabe, todos de azul escuro, os agentes e a carrinha, mandaram-me parar. Foi isto logo após a curva que fiz tão bem feitinha, à direita, no momento em que admirava o logótipo da SportTV já que não há flores por ali.
Caso os parágrafos fiquem de tirar o ar, não por serem maravilhosos pedaços de literatura mas pela extensão que atingem, é do meu nervosismo, só para avisar.
Não havia mais nenhum carro parado, portanto forçaram-me a chegar à frente e fiquei mesmo atrás da carrinha azul escura, com as janelas também todas dessa cor, sem gosto nenhum, mas eu neste momento aceito tudo desde que não se repita aquilo.
Travão de mão que acciono com o pé, o meu carro é assim mesmo, baixo o volume do som e abro o vidro.
- Bom dia, senhora condutora, os seus documentos e os da viatura, se faz favor.
- Com certeza - a voz saiu-me um fiozito vergonhoso.
Retiro da mala a carteira que precisa obviamente de perder peso, abro-a e vasculho os documentos solicitados. A minha mão treme ligeiramente e eu rebobino os últimos minutos que fiz, a rodar pela avenida, mas a que velocidade vinha eu, bolas, será que voltei a distrair-me, logo agora que preciso tanto de umas botas novas devido ao inverno que não sai.
- Aqui tem, senhor agente, este é o do carro - uma vez eu disse senhor guarda e ele corrigiu para agente, por isso agora é senhor agente.
- O do seguro e o da inspecção, tudo certinho, faça favor - estendi mais dois.
- A minha carta de condução, ora veja.
- E o que falta, senhor agente?
Todos estes travessões sou eu a falar, já com o fiozito menos vergonhoso, ligeiramente mais encorpado. O agente da autoridade não fala, apenas inclina a cabeça e vira os meus documentos ao contrário, que eu não lhos dou todos direitos, já disse que estou nervosa. E como ele não fala, eu não vou encher isto de travessões com reticências, tornar-se-ia aborrecido, se é que não se tornou já.
- O seu cartão de cidadão, senhora condutora - agora por acaso falou.
Não estou a adorar ser chamada de senhora condutora, mas em tratando-se de um agente vestido de azul escuro com metade da espessura da minha carteira na mão, aguento-me.
- Ah claro - riso estúpido e nervoso, mal pareço eu - aqui tem.
Passam minutos, acho. O meu coração bate forte e eu repenso na minha condução pela avenida fora, será que me estiquei, eu que tenho tanto cuidado? O agente dá a volta ao carro e vai espreitar os papeis colados no pára-brisas, o seu rosto sem expressão e eu espero.
- Está tudo bem, senhor agente?
- Por enquanto, sim - o homem está de regresso à minha janela.
Pelo retrovisor vejo que os dois carros que tinham sido parados depois de mim, estão a sair. Começo a pensar como vou fazer para pagar isto, agora estou nervosa a sério, os outros piraram-se num instante e eu ainda aqui.
- Isso é o seu grupo sanguíneo, senhor agente? - refiro-me ao A+ que está bordado no fardamento, pouco acima do nível dos meus olhos.
Uma pessoa faz o que pode para preencher silêncios constrangedores que podem acabar mal, ou seja, comigo dentro do estupor da carrinha a pagar uma conta de três dígitos gordos, e pareceu-me este um óptimo tema. Pareceu-me a mim, claramente só a mim.
- É.
Eu aguento tudo. Desde aquele dia de janeiro em que entrei numa carrinha desta cor sem janelas e paguei os trezentos euros do excesso de velocidade,
- Ou isso ou fica o carro, senhora condutora - tinha dito o agente de então que era sorridente e se divertia à minha custa.
Desde esse dia eu aguento os carros a apitar atrás de mim e os condutores a esbracejar ao ultrapassarem-me, eu sou positivamente a única a cumprir os cinquenta quilómetros por hora e não me refiro a esta avenida, nessa é fácil, os semáforos ajudam, refiro-me ao estupor da marechal gomes da costa que aí é que foi e é onde o limite dos cinquenta devia ser muito mais, parvalhões, e eu cumpro e sou gozada, insultada, já conheço imensas sonoridades de diferentes buzinas, mas cumpro.
- Senhor agente, acho muito interessante esse seu grupo sanguíneo, sabe? A+, muito interessante! - sim, é verdade, eu disse isto.
- Muito obrigado e tenha um bom dia, senhora condutora - remata o agente estendendo-me a papelada que regressou cansada à minha mão radiante.
Portanto, safei-me.
E queria dizer que vou continuar a fazer a marechal gomes da costa a cinquenta à hora, mesmo que tenha de travar na descida, sou a única mas é assim que faço, e vou a partir de hoje, sempre sempre, para além de tentar encurtar os meus posts, prometo, mas isso tem de ser quando não estou nervosa, vou, dizia, gabar com veemência o grupo sanguíneo dos agentes (até sou capaz de acrescentar que se trata de um sangue raro).
É que nem precisei de lhe oferecer um pratinho de sopa de grão com espinafres.
Caso os parágrafos fiquem de tirar o ar, não por serem maravilhosos pedaços de literatura mas pela extensão que atingem, é do meu nervosismo, só para avisar.
Não havia mais nenhum carro parado, portanto forçaram-me a chegar à frente e fiquei mesmo atrás da carrinha azul escura, com as janelas também todas dessa cor, sem gosto nenhum, mas eu neste momento aceito tudo desde que não se repita aquilo.
Travão de mão que acciono com o pé, o meu carro é assim mesmo, baixo o volume do som e abro o vidro.
- Bom dia, senhora condutora, os seus documentos e os da viatura, se faz favor.
- Com certeza - a voz saiu-me um fiozito vergonhoso.
Retiro da mala a carteira que precisa obviamente de perder peso, abro-a e vasculho os documentos solicitados. A minha mão treme ligeiramente e eu rebobino os últimos minutos que fiz, a rodar pela avenida, mas a que velocidade vinha eu, bolas, será que voltei a distrair-me, logo agora que preciso tanto de umas botas novas devido ao inverno que não sai.
- Aqui tem, senhor agente, este é o do carro - uma vez eu disse senhor guarda e ele corrigiu para agente, por isso agora é senhor agente.
- O do seguro e o da inspecção, tudo certinho, faça favor - estendi mais dois.
- A minha carta de condução, ora veja.
- E o que falta, senhor agente?
Todos estes travessões sou eu a falar, já com o fiozito menos vergonhoso, ligeiramente mais encorpado. O agente da autoridade não fala, apenas inclina a cabeça e vira os meus documentos ao contrário, que eu não lhos dou todos direitos, já disse que estou nervosa. E como ele não fala, eu não vou encher isto de travessões com reticências, tornar-se-ia aborrecido, se é que não se tornou já.
- O seu cartão de cidadão, senhora condutora - agora por acaso falou.
Não estou a adorar ser chamada de senhora condutora, mas em tratando-se de um agente vestido de azul escuro com metade da espessura da minha carteira na mão, aguento-me.
- Ah claro - riso estúpido e nervoso, mal pareço eu - aqui tem.
Passam minutos, acho. O meu coração bate forte e eu repenso na minha condução pela avenida fora, será que me estiquei, eu que tenho tanto cuidado? O agente dá a volta ao carro e vai espreitar os papeis colados no pára-brisas, o seu rosto sem expressão e eu espero.
- Está tudo bem, senhor agente?
- Por enquanto, sim - o homem está de regresso à minha janela.
Pelo retrovisor vejo que os dois carros que tinham sido parados depois de mim, estão a sair. Começo a pensar como vou fazer para pagar isto, agora estou nervosa a sério, os outros piraram-se num instante e eu ainda aqui.
- Isso é o seu grupo sanguíneo, senhor agente? - refiro-me ao A+ que está bordado no fardamento, pouco acima do nível dos meus olhos.
Uma pessoa faz o que pode para preencher silêncios constrangedores que podem acabar mal, ou seja, comigo dentro do estupor da carrinha a pagar uma conta de três dígitos gordos, e pareceu-me este um óptimo tema. Pareceu-me a mim, claramente só a mim.
- É.
Eu aguento tudo. Desde aquele dia de janeiro em que entrei numa carrinha desta cor sem janelas e paguei os trezentos euros do excesso de velocidade,
- Ou isso ou fica o carro, senhora condutora - tinha dito o agente de então que era sorridente e se divertia à minha custa.
Desde esse dia eu aguento os carros a apitar atrás de mim e os condutores a esbracejar ao ultrapassarem-me, eu sou positivamente a única a cumprir os cinquenta quilómetros por hora e não me refiro a esta avenida, nessa é fácil, os semáforos ajudam, refiro-me ao estupor da marechal gomes da costa que aí é que foi e é onde o limite dos cinquenta devia ser muito mais, parvalhões, e eu cumpro e sou gozada, insultada, já conheço imensas sonoridades de diferentes buzinas, mas cumpro.
- Senhor agente, acho muito interessante esse seu grupo sanguíneo, sabe? A+, muito interessante! - sim, é verdade, eu disse isto.
- Muito obrigado e tenha um bom dia, senhora condutora - remata o agente estendendo-me a papelada que regressou cansada à minha mão radiante.
Portanto, safei-me.
E queria dizer que vou continuar a fazer a marechal gomes da costa a cinquenta à hora, mesmo que tenha de travar na descida, sou a única mas é assim que faço, e vou a partir de hoje, sempre sempre, para além de tentar encurtar os meus posts, prometo, mas isso tem de ser quando não estou nervosa, vou, dizia, gabar com veemência o grupo sanguíneo dos agentes (até sou capaz de acrescentar que se trata de um sangue raro).
É que nem precisei de lhe oferecer um pratinho de sopa de grão com espinafres.
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