a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

29/08/2014

Mais azuis

Cheguei ao entardecer, mas ainda a praia pulsava de gente. Estacionei no único lugar que havia, saí do carro e entrei, observadora em fato de trabalho, no cenário de verão. Não me lembro de antes ter visto a bandeira da praia de Carcavelos vestida de vermelho; foram os surfistas a encomendá-la assim, tantos os abraços que davam às ondas.

A Teresa ainda não tinha chegado. O nosso jantar vai ser longo e saber a curto, vou rir até me doer a barriga, com ela é sempre assim.

Em vez de me ir sentar na esplanada do bar, os meus sapatos altos levam-me ao limite da pequena falésia amarela, um ouro sobre um azul de lágrimas fartas que se escondem nas dobras do meu coração, surdas, eu não as sei ler. O azul imenso atira ondas contra a falésia num vaivém que cospe espuma em ofertas ao céu, orgasmos de vida que me fazem marcar encontro aqui com o inverno. Sei que os restos das gargalhadas do mar me vão cobrir da frescura que bebo como se fosse a alvorada de mim.

Tentei fotografar isto para ti, claro, estas cores impossíveis não te deixarão ver as lágrimas que me entopem a garganta nem verás o estremecimento das minhas mãos denunciando que palpito assim. Tomei deste silêncio musicado de mar, e de amor, e entrei dentro de mim. Não precisei procurar muito, encontrei-te, abracei-te como quero e ficámos assim fora do tempo, pelo tempo fora.

A Teresa chegou. Vejo-a daqui olhar em volta, procurar-me pelas mesas. Encaminho-me em passadas largas até chegar junto da minha amiga, que está bronzeada, sorri-me com a luz que lhe conheço e os seus olhos estão ainda mais azuis.

- Estiveste a chorar?

26/08/2014

Post estragado

O meu blogue irrita-me um bocado.

É que aparece sempre um comentário de mim própria de cada vez que há um post. E eu não gosto assim tanto dos comentários que faço aos posts que escrevo. Costumo fazê-los num estado de sonolência muito adiantado, é certo, visto ser capaz de jurar que não tinha comentado nada, mas quem se atreve a desmentir as novas tecnologias e os seus poderes? eu não.

Já andei a ver se a coisa se pode eliminar por completo da face do blogue, mas vêm uns alertas muito esquisitos que me metem medo e eu fico-me assim acobardada e portanto queria dizer isto às pessoas.

Já agora aproveito, uma vez que este post é um post estragado, digamos assim, porque não interessa nada, para dizer também que não ponho nenhuma fotografia que me represente e que apareça quando respondo aos meus queridos leitores que comentam, esses sim fazem-no num estado de vigília que se vê mesmo que era um bom estado de vigília, e deixo ficar essa coisa azul com uma cabeça também azul, pronto, mas que se pode fazer, não se pode fazer nada.

É que uma vez tentei pôr uma fotografia que encontrei de mim mesma com três anos de idade para ninguém me reconhecer, aquilo deu-me cá um trabalho a digitalizar e reduzir a um tamanho inspirado nisso da nanotecnologia, de pequeno que foi, mas muitas semanas depois, ou se calhar nem foram muitas, mas foram algumas, vejo essa fotografia no google+ em tamanho tal que dava para cobrir o Mosteiro dos Jerónimos quando resolverem limpar a fachada e talvez ainda sobrasse um bocadito para esconder o Centro Cultural de Belém.

Portanto se é isso que querem, o que vai uma pessoa de bem, como eu, fazer? Acobardar-se uma vez mais, acho que até dei um grito quando me vi do tamanho da Torre Eiffel aos três anos, e tirei tudo, evidentemente, e por acaso gosto imenso de escrever evidentemente.

Mas ando triste com aquela cabeça azul que podia ter o delinear do meu cabelo, ao menos isso tinham posto, os parolos do google+, já que gostam tanto de aumentar, aumentavam como deve ser, não é?

É que vejo outros blogues, mesmo aqueles que contam dezenas e dezenas de comentários por dia, postar coisas que por um tempo, é certo que curto, mas um tempo, têm zero comentários, zero. Que chatice.

(será que se abrisse conta no facebook...hã?)

Coisa verde


Tão boas foram as minhas férias que na primeira oportunidade, hoje, o dia do feliz regresso, fiquei no trabalho até depois de todos saírem (que também não eram assim muitos, já que este dia quis calhar no mês de agosto).

Todos todos não, o segurança ainda andava por lá. Os meus colegas dizem que ele é maluco, mas eu defendi-o sempre, acho que ele se inclina mais para um filósofo frustrado, um cientista reprimido, coisa assim; ensinou-nos a todos, por exemplo, vai para mais de vinte anos, os efeitos das hoje em dia famosíssimas bagas goji; apresenta aos mais pacientes, a espaços, novos cremes muito naturais que curam mais ou menos tudo e tem uma frequente vontade de discutir a cotação das acções da bolsa e pedir conselhos não sei para quê que não é a mim que os pede.

- Ah, ainda aí está, passei assim de repente e vi uma coisa verde.

- Verde?! - pergunto-lhe eu, ele com a cabeça espetada dentro da minha sala, confirmando o verde que viu.

- Sim, verde, a sua camisola não é verde?

Olhei para baixo, que camisola é esta que pus hoje de manhã?

- Não, é azul.

- Ah é? Mas então é um azul muito esquisito, muito raro.

- Raro?! - continuo a olhar para mim mesma - não, é azul turquesa, este azul chama-se turquesa.

- Turquesa? nunca tinha visto... E as suas férias, foram boas? - felizmente mudou de assunto.

- Sim, foram, obrigada - não devolvi a pergunta, este homem não foi de férias.

- Mas está muito magra - ele mantém a cabeça espetada dentro da minha sala, pelos vistos a vontade de fazer comentários sobre a minha pessoa ainda não lhe passou.

- Não estou nada magra, a minha cara é que é magra.

- Ah pois, tem razão, é da cara é! Realmente essa cara não ajuda nada...


Por conseguinte lá se foi o filósofo frustrado, o cientista reprimido e isso. Perdeu a defensora dele, que por muito maravilhosa que eu seja, um ser humano compreensivo, tolerante, optimista, magnânimo, justo, há, evidentemente, limites.

(eu, que desta vez até regressei ao trabalho sem neura, vou retomá-la da próxima, é mais seguro)

22/08/2014

Todas as estrelas

Tenho tanta vontade de te escrever, que comprei uma dúzia de postais todos iguais. Não escolhi o desenho que lhes foi impresso; se é uma fotografia antiga não sei, se é imagem que encerra mil palavras não encerrará todas as que tenho para ti e eu estou a transbordar, como sabes - saberás?

Escrevi em todos, um após outro, tentei dar-lhes ordem mas este fervor também me está nas mãos, este ardor no meu peito que continua a fabricar flores para ti.

Saí então à rua para colher um pedaço da vida que corre serena, firmar-me no espaço, tentar libertar-me da febre que me queima a pele assim, deves sentir, sentes?

Reparei que o sol ainda vai alto, as cores nos seus tons vibrantes cantam o refrão do ritmo do tempo; mesmo do avesso, olha como o verde é lindo.


Regressei, sentei-me à mesa e vi que ficou tudo mal, os postais. Desorientação em pedaços, manta de retalhos de um amor sem tempo, uma história que não se põe em capítulos assim, mas eu não podia esperar mais e tu compreendes isto, tu compreendes tudo.

Tentei arrumá-los como tu saberias fazer, dar ordem ao pôr do sol deste dia que ainda não acabou. Torci o tempo a ver se recupero o norte, meti-lhe curvas, virei-o para trás, iluminei-o com velocidades diferentes, pedi ajuda às teorias possíveis, nada resultou, só doeu, a desordem ficou. Depois soltei-o, deixei-o ir como quer e o tempo foi.

Quando voltou trouxe-me velha, vi-me ao teu lado, mãos engelhadas entrelaçadas nas tuas, deitados numa cama de onde se podem ver todas as estrelas e o sorriso que nos cintila na alma reflectido no firmamento.

20/08/2014

De livre vontade


Quem neste momento olhasse para mim mesmo distraidamente, diria que acabei de enfardar uma entediante dose de perna de peru no forno, o que não é verdade.

O que é verdade é que estou desde ontem a tentar perceber que palermice foi esta e isso deixa-me, não posso negar, com cara de peixe: a abrir e a fechar a boca sem emitir qualquer som (uma proeza, no meu caso), ou seja, praticamente o aspecto de que me revestiria caso tivesse comido a referida e entediante dose.

Cacifos, malas de viagem ou dispositivos de amarração de bicicletas a postes de electricidade, com certeza, cadeados cadeados cadeados. Mas amor!? En-cadear o amor!? Que brincadeira vem a ser esta, senhores gestores do centro comercial?

É pendurado na varanda de uma das superfícies comerciais que encanta Coimbra e que deita para o Mondego, que se pode encontrar este triste desajustado idiota e infeliz painel com cadeados agarrados a fitinhas de cueiros de bebés antigos e corações com inscrições como esta, caso se pretenda confirmar.

Coimbra é, por acaso, cidade onde costumo notar que as mães gritam menos com os filhos, que os casais se esquecem mais de rabujar entre eles, que as crianças conversam e fazem perguntas interessantes - sim eu ponho-me à escuta - em vez de gritarem e darem pontapés nas canelas dos pais, e que as pessoas, em geral, são mais bonitas do que na minha cidade habitual, Lisboa. Sinto, até, que a paz pára mais ali do que aqui.

Portanto era não estragarem, senhores gestores do centro comercial, e tirarem aquela merda dali, que há crianças que já sabem ler, sim?

E em Paris nas pontes não sei quê e em Amesterdão por acaso também, não é, mas isso interessa o quê?, nós somos nós. E sabemos bem que amor só é amor se for de livre vontade, não sabemos?

(isto de andar a postar fotografias deve-se sobretudo à saudade, não ao tédio, à saudade)