a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

09/09/2014

Emília

Estou na porta de embarque para regressar a Lisboa, estou muitas vezes em portas de embarque para regressar a Lisboa, mas desta tenho a mão enfiada dentro do saco, que já sabemos que não tem dívidas para com o tamanho, à procura de dois bocados do meu coração que me fugiram do peito não sei se foi no controlo por raios X se no porto de Roterdão, a minha mão às voltas às voltas, ai que vos apanho ó bocados, o meu olhar preso no tecto isso é que não sei porquê, e é quando ela passa por mim.

Caminha devagar, o peso do seu corpo alterna o descanso entre um pé e o outro, demora-se nas transferências, carrega a vida toda, a dela e a de mais quem, arrasta uma cauda de fardos que vi.

A minha mão parou dentro do saco e eu então vi os muitos almoços cozinhados ao calor dilatante do fogão, as infindas horas em pé a engomar os panos dos seus amores pequeninos e os dos grandes, será que vejo dos grandes, o vergar deste corpo tantas vezes repetido, mãos espalmadas no colchão para que o lençol fique bem esticado, é bem esticados que os lençóis são, mãos que terminam a reconstrução do quarto depois do sono que vai medrando os seus meninos, consolando os seus amores, esquecida de si própria, transporta latente a hesitação num caminhar mal ensaiado, aprendente, a hesitação que desencoraja quem sempre serviu de ser agora servida.

- Venha para aqui, mãe - a filha estende o braço oferecendo a ilusão de que a mãe precisa, já falta pouco.

Não tiro os olhos dela, ainda não vi tudo. Leio-lhe no cabelo estragado aos sábados em cabeleireiros baratos, que procurou as palavras que vinham sempre no final, um final tão igual.

- Que bonita está, dona Emília!

Será Emília, aqui para nós. E então brilhar-lhe-iam os olhos um bocadinho, um brilho comprado em pacotinhos nesses sábados antigos, já mortos, às raparigas que lhe penteavam histórias ao toucador.

Engoli qualquer coisa que tinha na garganta, a querer sair, e olhei para o avião, lá fora. O meu coração está inteiro, afinal.

E depois percebi que foi hoje que comecei a envelhecer.

06/09/2014

Ice Bucket Challenge

Pipoco Mais Salgado lançou-me o desafio que circula nas redes sociais, muito por todo o lado, denominado "Ice Bucket Challenge".

Não tendo eu aderido às redes sociais com a extensão com que muita gente o faz, nem tampouco sendo consumidora assídua de televisão, não conhecia o contexto em que nasceu esta corrente, cuja face mais visível é a imagem de baldes de água que se entornam pela cabeça abaixo das pessoas que aderem. Felizmente, afinal, é mais do que isso.

Não me sinto chocada com a alegria, ou o tom de brincadeira, de que se reveste esta iniciativa. Penso, até, que essa alegria servirá de alavanca para acordar atenções adormecidas, impulsionará o descruzar de braços, contagiará mãos que se deitam mais e mais a esta obra.

Não cumpri o desafio em 24 horas, como descobri que deve ser, nem despejei um balde de água fria por cima de mim.

Concluo, no entanto, que a parte verdadeiramente importante deste desafio, aquela que vai realmente chegar a quem ele se destina, é fortalecer a luta contra a Esclerose Lateral Amiotrófica. A melhor forma que encontrei de o fazer, por agora, foi contribuir com um donativo para a APELA.

É, ainda, minha tarefa desafiar alguém para continuar esta corrente. Vou fazê-lo a uma das bloggers que leio e que admiro, e que também, por ter um elevado número de seguidores, poderá estender o seu braço mais longe neste empreendimento. Desafio a M D Roque a participar no "Ice Bucket Challenge".

Por fim, quero ainda dizer ao Pipoco Mais Salgado que, depois disto, me sinto uma pessoa um bocadinho melhor. E por isso lhe agradeço.

04/09/2014

Olha a sorte

Acabo de ser informada pela companhia aérea em que viajarei amanhã, que o tamanho da mala que posso levar na mão encolheu. Ou então pago e vou com sorte.

Já lá fui meter então, na sub-mala que arranjei à pressa, a ver se dá, um par de meias e o livro para ler, um muito fininho, claro, e eu que tenho tendência para os livros mais grossos, mas foi um todo fininho, até digo qual foi, foi o Príncipezinho em francês, ando a treinar o francês, e quase não me cabia lá o cartão do cidadão. Sentando-me em cima da mala consegui fechá-la com muito esforço, porque ela até desapareceu debaixo de mim e eu não sou assim tão enorme, senhores, o cartão ficou, mesmo assim, com um cantinho de fora, mas acho que ninguém vai ver.

Deixem-se lá mas é de rodeios e digam logo que nos levam a ilustre bagagem para um destino paradisíaco, não é, a mala vai toda instalada num porão com ar condicionado, vamos admitir, e quem sabe até uma música ambiente lá passam, uma própria para malas, pulverizam o ar com aroma de café do Brasil, dizem que faz muito bem àqueles materiais, e para terminar vem um óleo de amêndoas do Algarve para uma derradeira massagem mesmo antes de aterrar, não vá o brilho perder-se com as bruscas diferenças de pressão sofridas no chassis da malinha. E se mandarmos uma toda fashion e de tamanho considerável a esse destino paradisíaco por quatrocentos euros, por exemplo, fazem-nos a promoção de arranjar um lugarzito para nós, olha a sorte, por mais dois euros e cinquenta cêntimos, promoção a não perder, é correr aos balcões, e vamos acompanhar a mala às suas férias, nada mau. E isto está-me a irritar, porque já pedi para o meu aniversário uma mini-mala nova que pudesse levar na mão, mas vai ter de ser uma muito mais pequena, afinal. Vou mas é meter-lhe um chip com GPS, que até estou com medo de a perder dentro do bolso.

(não, não é na TAP que isto se passa e não vale a pena esperar que eu vá largar aqui piadinhas sobre a TAP, que não é coisa que me assista, eu espero é fervorosamente que a TAP se recomponha depressa de todas as vicissitudes passadas)

Oferta generosa

Pediram-me para contar esta história outra vez. Contei-a ontem, conto-a hoje.

Estou com uma das minhas filhas na fila da caixa de um supermercado e seguro nos braços os três ou quatro produtos que me tinham escapado à última lista de compras. Comigo também está a pressa de ir apanhar a mais nova à outra escola, paragem seguinte do final desta tarde. À minha frente um pequeno grupo de mulheres de etnia cigana, todas muito bem desenvolvidas se olharmos ao espaço que os seus corpos ocupam. Em cima do tapete rolante, que não rola ainda, descansam outras três ou quatro coisas que presumi pertencerem-lhes.

Guardo habitualmente espaço entre mim e as pessoas da fila onde estou. Mas não terá sido por isso que sou de repente praticamente atropelada por um carro cheio de compras, empurrado por um homem que pela tez percebi pertencer ao grupo à minha frente. Passa por nós, ignorando-nos, e posiciona-se junto das ciganas, fazendo menção de iniciar a colocação das suas compras no tapete, que continua estático.

- Olhe, o senhor! A fila é aqui atrás, se faz favor.

E foi quando vi todos prontamente alinhados à minha frente, parede humana que parecia conhecer-me desde sempre, tão solto era o tratamento, por tu e por filha, lançando-me perguntas mais ou menos aos gritos sobre as minhas preferências relativamente às diversas formas de me chegarem a roupa ao pêlo, que me disponibilizavam logo ali, seu eu quisesse, ou então lá fora, filha, se gostares mais lá fora, ofertas de cuja generosidade, a avaliar pelos corpanzis em causa e a energia colocada na cena, não me pus a duvidar.

- Não se incomodem, não há necessidade. Vocês são muitos, eu sou só uma. Façam favor.

Mudei para a caixa mais afastada e mantive a roupa descolada do pêlo.

Na verdade nós éramos duas, só que a outra tinha apenas dez anos. E pediu-me, a tremer, para nunca mais irmos àquele supermercado.

02/09/2014

Insónia

A insónia meteu-me os buracos negros na cabeça, o problema foi esse. Não podem ver nada que comem tudo, os buracos negros.

(perguntaste-me de que tenho medo, não foi?)

Puxei o verão para mim, dei-lhe carícias a sossegá-lo, a sossegar-me, mas vejo os buracos negros outra vez, engolem tudo, limpam o espaço, derramam o vazio.

(não quis fugir à resposta, espera)

Concentrei-me só num, isolei-o, observei-o de frente, primeiro sem me aproximar. Um buraco negro pode comer-me a mim também, se lhe apetecer. Comer-me a mim também é uma maneira de falar e nem é muito bonita, por acaso, esta maneira de falar. Mas hoje não há palavras bonitas.

(quando alguém diz que não quer fugir à resposta está a dizer que quer fugir à resposta)

A insónia estava instalada e portanto tive tempo.

(é o que preciso de ganhar para te responder, tempo, que fugindo ganho, e engano-me, e engano-te)

Tempo que me deixou ver que este buraco negro, afinal, não cresce. Devagar, então, aproximei-me.

(enganas-te: eu não tenho medo)

E de perto, de mais perto, a insónia a vigiar, comi-o eu, ao buraco negro. Está dentro de mim. Estás dentro de mim.

(engano-me: tenho medo de ti, medo de te amar assim)

Estás a comer-me o coração.