O meu problema não é acreditar no que me dizem.
O meu problema é estar debaixo do chuveiro, abrir o frasco do gel de banho, pensar que frasco parece aplicar-se a vidro e o do gel de banho é invariavelmente de plástico, mas isto não passa de um detalhe nada científico embora ligeiramente irritante, e lembrar-me das promessas de sensação de frescura, de relaxamento com mel de amêndoa ou outro mel qualquer, de experiência suave e aveludada, se bem me lembro com um toque de pérolas de abacate, que de pimento vermelho não é, até o estado zen já para aqui é chamado e isto para não falar no roçar subtil do tema sensualidade, vejamos bem, sensualidade, o desplante; em suma, construírem sem pestanejar, esses rapazes do marketing, uma expectativa de momento transformante envolvente e depois nada. Mas como uma pessoa debaixo do chuveiro está com pressa para ir para o trabalho, vai sem pérolas de abacate, sem mel e sem amêndoas, vai nada sensual e nem dá por isso, não é?
É certo que o creme deslizante tão bom para a pele não cheira a elefantes, embora eu goste do cheiro a elefantes mas isso sou eu, nem a peixe, deste já não tanto, aquilo até cheira bem embora ninguém saiba a quê, o que sinto mesmo, vamos lá a levantar o véu, é a água quente a escorrer-me pela pele, bem podem vir os cremes todos que quiserem vir. Sabão azul e branco também era capaz de dar o mesmo resultado que é a pessoa, qualquer pessoa, ficar bem lavada. Mas o meu problema também não é isto, aliás o problema nem é meu.
Já se percebeu, não já? É a deixa para a companhia das águas. Isso sim, câmaras municipais, a acordar, vá lá ver! É acrescentar na factura, oiçam isto, ao lado dos consumos ao metro cúbico ou ao litro, agora é que não sei, as promessas das quenturinhas que oferecem às pessoas mesmo ali na aurora dos dias, no construir da beleza diária, que cada um tem a sua, isso vê-se bem em todo o lado, a água cristalina que acabou de passar por ali e os efeitos que deixa, e depois então o suminho de laranja e o café com torradas, não sei quê, ou então o relaxar ao final do dia, aí já se pode carregar ao de leve na sensualidade, vá lá coragem, há uma imensidão de hipóteses giras, até podem juntar uma fotografiazinha, na internet há muitas e são de graça, é só dizer que vem de lá e está tudo bem.
A ver, não tinham pensado nisso, pois não? Aposto que a intervenção criativa até vos vai libertar dos atrasos nos pagamentos e consequentes custos adicionais, é experimentar. E vai-se a ver o problema deixa logo de ser vosso, hã? Uma riqueza.
(queria dizer que não gosto da voz do Ricardo Carriço, mas como não ficava bem no texto nada científico que se lê acima, vai aqui e vai muito a tempo)
10/10/2014
09/10/2014
A noite não foi
Às vezes parece que a vida se aborrece do sentido único e segue em todas as direcções ao mesmo tempo. Fica o ar turvo e as horas mortas. Fica a cabeça revestida a cortiça por dentro, por fora parece igual mas os ombros descaem, tenho a certeza.
Olho para o relógio, já passa das sete e meia da tarde. Ainda não escureceu, só daqui a algumas semanas muda a hora e então será noite a sério. Mas eu já a trago, à noite, aqui dentro por isso vou até ao rio deitá-la fora na corrente, mesmo ali debaixo da ponte onde as águas são contadas ao passar.
Doem-me as pernas e os braços por causa da nova aula de dança, mas nem isso hoje me amaciou a estopa, é assim que estou.
Não te encontrei no rio, evidentemente, ó sentido único. Nem mesmo a corrente te trouxe para aqui, o meu colo costumava ser bom mas já está vazio.
Encontrei antes, vê bem, um sentido proibido que me deu uma trabalheira a dar a volta ao carro. Portanto fui para casa mais cedo e estacionei na garagem. Esperei que a luz apagasse para abrir os olhos e ver tudo preto, gosto muito de ver tudo preto quando tenho a noite aqui. Adormeci outra vez contigo nos braços vazios, único sentido que te foste. Mas foste.
E que palavra estranha, foste, no entanto é o sino da igreja a dar as oito horas que me acorda, não és tu. Horas que são de ir fazer o jantar, dar corda à vida para ela andar. Ó rima já te disse que não gosto de ti, vai-te embora e volta lá só em junho nos papelinhos espetados nos manjericos, que isso agora não temos.
Fiz um jantar mau e depois sentei-me ao piano. O livro das pautas está aberto no "The Entertainer" do Scott Joplin, toquei várias vezes uma parte da mão direita até sair o mais perto possível do que devia ser. Apaixonei-me por esta música quando tinha uns cinco ou seis anos e a ouvi numa coreografia de patinagem artística no gelo, na televisão. Depois passou muito tempo até a ouvir outra vez, naquela altura não se voltava com programas atrás e eu não sabia o nome daquela que passou a ser a minha música preferida para a pedir pelo Natal.
Hoje também não se volta com os passados atrás, isso é na ilusão das tecnologias que dizem muitas coisas e não. Enganam.
Estou cheia de sede. Parece que sempre deixei cair qualquer coisa ao rio, mas a noite não foi.
Olho para o relógio, já passa das sete e meia da tarde. Ainda não escureceu, só daqui a algumas semanas muda a hora e então será noite a sério. Mas eu já a trago, à noite, aqui dentro por isso vou até ao rio deitá-la fora na corrente, mesmo ali debaixo da ponte onde as águas são contadas ao passar.
Doem-me as pernas e os braços por causa da nova aula de dança, mas nem isso hoje me amaciou a estopa, é assim que estou.
Não te encontrei no rio, evidentemente, ó sentido único. Nem mesmo a corrente te trouxe para aqui, o meu colo costumava ser bom mas já está vazio.
Encontrei antes, vê bem, um sentido proibido que me deu uma trabalheira a dar a volta ao carro. Portanto fui para casa mais cedo e estacionei na garagem. Esperei que a luz apagasse para abrir os olhos e ver tudo preto, gosto muito de ver tudo preto quando tenho a noite aqui. Adormeci outra vez contigo nos braços vazios, único sentido que te foste. Mas foste.
E que palavra estranha, foste, no entanto é o sino da igreja a dar as oito horas que me acorda, não és tu. Horas que são de ir fazer o jantar, dar corda à vida para ela andar. Ó rima já te disse que não gosto de ti, vai-te embora e volta lá só em junho nos papelinhos espetados nos manjericos, que isso agora não temos.
Fiz um jantar mau e depois sentei-me ao piano. O livro das pautas está aberto no "The Entertainer" do Scott Joplin, toquei várias vezes uma parte da mão direita até sair o mais perto possível do que devia ser. Apaixonei-me por esta música quando tinha uns cinco ou seis anos e a ouvi numa coreografia de patinagem artística no gelo, na televisão. Depois passou muito tempo até a ouvir outra vez, naquela altura não se voltava com programas atrás e eu não sabia o nome daquela que passou a ser a minha música preferida para a pedir pelo Natal.
Hoje também não se volta com os passados atrás, isso é na ilusão das tecnologias que dizem muitas coisas e não. Enganam.
Estou cheia de sede. Parece que sempre deixei cair qualquer coisa ao rio, mas a noite não foi.
05/10/2014
Dias mais pobres
Não sei se foi de estar o fim de semana quase todo a trabalhar entre relatórios e gráficos com cores lindas escolhidas por mim nos dois primeiros e cores sem graça escolhidas pelo computador nos seguintes, não tem mão nenhuma para a estética, o computador, mas pelo menos as contas ficam muito bem feitinhas num instante, e disso é que eu preciso, se fosse fazê-las à mão levava uma vida, ou se foi de acartar com dois metros cúbicos de lenha de um lado para o outro, não sabemos do que foi, mas deu-me a esta hora para me sentar no terraço a captar os últimos raios de sol. O vento de outubro vai pondo nuvens ali em cima e está a tentar varrer-me daqui para fora, coisa que não vai conseguir nem que a vaca tussa. Mas já voltamos à vaca.
Primeiro é preciso registar que foi um prazer escrever sobre o vento de outubro, o outono é a minha estação preferida e como está mesmo a começar, anima-me normalmente, por exemplo mais que o verão.
Não é o caso de hoje: ao saber que esta fonte de boa leitura de há anos foi encerrada, fico também a saber que os meus dias ficarão um bocadinho mais pobres. Desejo felicidades ao Patrão da Barca agora atracada, José Rentes de Carvalho, e quem agradece sou eu por tudo o que ali aprendi (felizmente há os livros).
Retomando então a vaca que não chegou a tossir, fotografei hoje de manhã, quando ainda havia sol, por isso é que a sombra também ficou, uma bicicleta holandesa que me fez lembrar bloggers que gosto de ler e que também já fotografaram bicicletas, embora numa versão muito mais útil que a minha, que é de enfeitar.
Aqui fica, para a Carla e para a Loira.
Não vá elas fecharem os blogues de repente e eu não ter tempo de lhes oferecer nada.
Primeiro é preciso registar que foi um prazer escrever sobre o vento de outubro, o outono é a minha estação preferida e como está mesmo a começar, anima-me normalmente, por exemplo mais que o verão.
Não é o caso de hoje: ao saber que esta fonte de boa leitura de há anos foi encerrada, fico também a saber que os meus dias ficarão um bocadinho mais pobres. Desejo felicidades ao Patrão da Barca agora atracada, José Rentes de Carvalho, e quem agradece sou eu por tudo o que ali aprendi (felizmente há os livros).
Retomando então a vaca que não chegou a tossir, fotografei hoje de manhã, quando ainda havia sol, por isso é que a sombra também ficou, uma bicicleta holandesa que me fez lembrar bloggers que gosto de ler e que também já fotografaram bicicletas, embora numa versão muito mais útil que a minha, que é de enfeitar.
Aqui fica, para a Carla e para a Loira.
Não vá elas fecharem os blogues de repente e eu não ter tempo de lhes oferecer nada.
03/10/2014
Sobras
Deitei-me em cima da cama depois do jantar. Sinto-me cansada e deixo-me ir sem rumo, mergulhada nos meus sonhos que sobraram da infância, ficaram fora deste tempo onde já não cabem. Talvez lá te encontre de novo.
Não acendi a luz, deixo que a claridade que é sobra dos candeeiros eléctricos da rua entre pela cortina translúcida que cobre a janela e se instale livremente. Traz-me a tranquilidade para dentro deste espaço vazio.
Deixo que a luz entre assim, ténue, e fique se quiser a sobrar comigo. Vagueio com os olhos pelas sombras distorcidas que se formam na parede, algumas movimentam-se, sobem sem temor das alturas, também sobram dos carros que passam. Lembrei-me do reflexo da água da piscina no tecto do quarto da casa de verão, nas manhãs em que os meus sonhos acordavam grandes mas eram pequenos, como eu, e cabiam sempre.
Sabes o que respondeu a Marguerite Yourcenar, foi há tanto tempo que li isto, quando lhe perguntaram como chamava o gato dela? "Não chamo, ele vem quando quer."
Faço também assim, não quero torcer o mundo nem as coisas nem a ti, deixo a luz entrar quando quer, como quer, o gato também, mas eu não tenho gato. As pessoas deviam ser livres. E eu quero escrever-te agora e fazer de conta que sou livre, soltar estas palavras que se geram no que sobrou de mim este dia. Andaste pelos meus sonhos e agora andas onde?
Peguei no teu livro, o primeiro que me ofereceste. Pousei-o em cima do meu peito e ele quis ficar. Fechei os olhos e acariciei-o devagar. Senti a superfície fria e lisa, parece que pede que lhe sopre vida para acordar as palavras lá dentro, fazê-las respirar. O livro não se importa que eu seja assim, uma sobra. Peguei nele e beijei-o como se fosses tu ali.
Depois abri-o numa página qualquer e abri também os olhos mas está escuro. Soprei lá para dentro uma coisa que não ouviste, não sei, andas onde?, é um pedaço de vida para o coração do livro, como se fosse tocar o teu.
Acendi a luz. A página da esquerda está em branco. A da direita tem um título: "Aquele que dá a vida".
Ainda me sobrou um sorriso. Talvez te encontre de novo.
Não acendi a luz, deixo que a claridade que é sobra dos candeeiros eléctricos da rua entre pela cortina translúcida que cobre a janela e se instale livremente. Traz-me a tranquilidade para dentro deste espaço vazio.
Deixo que a luz entre assim, ténue, e fique se quiser a sobrar comigo. Vagueio com os olhos pelas sombras distorcidas que se formam na parede, algumas movimentam-se, sobem sem temor das alturas, também sobram dos carros que passam. Lembrei-me do reflexo da água da piscina no tecto do quarto da casa de verão, nas manhãs em que os meus sonhos acordavam grandes mas eram pequenos, como eu, e cabiam sempre.
Sabes o que respondeu a Marguerite Yourcenar, foi há tanto tempo que li isto, quando lhe perguntaram como chamava o gato dela? "Não chamo, ele vem quando quer."
Faço também assim, não quero torcer o mundo nem as coisas nem a ti, deixo a luz entrar quando quer, como quer, o gato também, mas eu não tenho gato. As pessoas deviam ser livres. E eu quero escrever-te agora e fazer de conta que sou livre, soltar estas palavras que se geram no que sobrou de mim este dia. Andaste pelos meus sonhos e agora andas onde?
Peguei no teu livro, o primeiro que me ofereceste. Pousei-o em cima do meu peito e ele quis ficar. Fechei os olhos e acariciei-o devagar. Senti a superfície fria e lisa, parece que pede que lhe sopre vida para acordar as palavras lá dentro, fazê-las respirar. O livro não se importa que eu seja assim, uma sobra. Peguei nele e beijei-o como se fosses tu ali.
Depois abri-o numa página qualquer e abri também os olhos mas está escuro. Soprei lá para dentro uma coisa que não ouviste, não sei, andas onde?, é um pedaço de vida para o coração do livro, como se fosse tocar o teu.
Acendi a luz. A página da esquerda está em branco. A da direita tem um título: "Aquele que dá a vida".
Ainda me sobrou um sorriso. Talvez te encontre de novo.
01/10/2014
Substituídos por porcos
Diz-me a Cristina hoje à mesa do café e a talhe de foice que viu um casal na Estação do Oriente com um porco pela trela, todos queridos e tudo.
- Mas de que cor é o porco? - eu preciso de saber estas coisas, não vá o bacorito ser castanho e eu imaginá-lo cor de rosa.
- Era assim branquinho e tinha malhas pretas (eu não disse?) e fazia assim assim (aqui a Cristina inclina a cabeça e desliza com ela debaixo de uma mão imaginária que afaga que afaga) assim, para levar festas. Era muito giro, remata.
Uma.
A minha irmã viu, no mês passado, em São Francisco, naquela cidade do lado de lá dos Estados Unidos que tem eléctricos a imitar o 28 e os outros, uma ponte a imitar a nossa Ponte 25 de Abril, algumas colinas a aspirarem às sete beldades aqui da nossa capital e muita gente gira (mas não tão gira como nós, evidentemente). Ora ela viu por lá, numa determinada zona, um homem passear um porco - outro porco, claro - num carrinho de bebé. Este imaginei-o imediatamente cor de rosa e foi com muita convicção que o imaginei, tanta que me esqueci de lhe perguntar a cor do bicho. Talvez dentro do carrinho de bebé não se visse bem, tenho ideia de que ia de touquinha com folhos, mas adiante, que agora o que está feito está feito. Ao lado desse homem caminhava outro, não tão digno de nota, ora vejamos: levava pela trela um cão. Um cão normal, pronto. Sem carrinhos, sem toucas, nada, um cão.
Duas.
Às vezes tenho problemas em chegar a tempo e depois fico no apeadeiro à espera do próximo comboio que pode até nem vir, nem haver próximo (está visto que me deitei a chapinhar no sentido figurado, e isto é perigoso, não vá afogar-me p'raqui, mas é de estar nervosa).
É que mesmo atrasada queria contar que uma vez salvei a vida a um bacorinho. E tinha só dez anos, eu.
Estávamos empoleiradas, eu e a minha vasta colecção de irmãs, todas a espreitar para uma pocilga onde moravam uma porca de dimensões generosas, imaginemos o tamanho de uma porca de dimensões generosas, e uma legião de bacorinhos com dias de idade. A porca estava deitada de lado e os porquinhos todos a mamar ao mesmo tempo, uma coisa rica de se ver! Nós continuamos empoleiradas do lado de cá da cerca, muito admiradas a observar a suculência da situação, a comentar a diferença dos tamanhos, o tom rosa da pele dos animais, que fofinhos (é daqui que vem o cor de rosa).
Nisto a porca farta-se da criançada, sacode-os, eles não querem, guincham uns acordes de bebés em protesto, o que nos fez a todas emitir um
- Ohhhhhhhh
e volta-se para o outro lado. Ao fazê-lo espalmou devagar, com o seu imenso e suíno corpanzil, um dos leitões, que por acaso era dos mais franzinos, mas que mesmo assim guinchou tanto, pobrezinho, com voz fininha, logo abafada pela própria mãe em menos de dois segundos, uma mãe completamente surda, é o que é.
Gritámos todas. Uma de nós - quase de certeza fui eu - correu a chamar o homem que tinha ar de homem que sabia salvar porquinhos.
E era mesmo: pegou num ancinho enorme e correu comigo - quase de certeza fui eu - de volta ao local da ocorrência. As outras apontavam e gritavam todas ao mesmo tempo, ali ali, debaixo da mãe está um!
Ele espetou várias vezes com o ancinho no lombo da porca de generosas dimensões, e surda, que vagarosamente e sem vontade nenhuma se levantou e deixou então à vista, à nossa vista, a sua cria acidentada.
(a parte que se segue pode ferir as pessoas mais susceptíveis, caso em que se aconselha a parar a leitura aqui)
Deitado de lado no chão sujo da pocilga, estava um leitãozinho espalmado, inerte, de um tom roxo-azulado, a lembrar uma aurora interrompida, e apresentava estoicamente a espessura de uma folha de papel. O homem, que tinha já entrado na área, pegou no bichinho e sacudiu-o com jeitinho, abanou-o um pouco, falou-lhe com meiguice e nós todas, empoleiradas na cerca, do lado de fora
- Ohhhhhhhhh
Esperou que o bacorito recuperasse espessura, o que se verificou mesmo ali, para nosso deleite, e a seguir tentou pô-lo em pé. As pernitas judiadas tremeram um pouco, mas depois começou a cambalear e foi com muito estilo que cambaleou. E nós todas, ainda empoleiradas na cerca, do lado de fora
- Ahhhhhhhh
Portanto missão cumprida. O porquinho sobreviveu e o homem garantiu-nos que a heróica celeridade do chamamento - quase de certeza fui eu - é que o salvou da morte por asfixia.
Espero que esta tenha sido, apesar de parecer em atraso, uma história que responde ao desafio por antecipação, aquele que é capaz de nos chegar de outras paragens dentro de uns dois anos, no meio de dicas para ter blogues de sucesso, dicas nas quais os cachorrinhos eventualmente salvos de morte atroz serão, está visto, substituídos por porcos.
Valeu?
- Mas de que cor é o porco? - eu preciso de saber estas coisas, não vá o bacorito ser castanho e eu imaginá-lo cor de rosa.
- Era assim branquinho e tinha malhas pretas (eu não disse?) e fazia assim assim (aqui a Cristina inclina a cabeça e desliza com ela debaixo de uma mão imaginária que afaga que afaga) assim, para levar festas. Era muito giro, remata.
Uma.
A minha irmã viu, no mês passado, em São Francisco, naquela cidade do lado de lá dos Estados Unidos que tem eléctricos a imitar o 28 e os outros, uma ponte a imitar a nossa Ponte 25 de Abril, algumas colinas a aspirarem às sete beldades aqui da nossa capital e muita gente gira (mas não tão gira como nós, evidentemente). Ora ela viu por lá, numa determinada zona, um homem passear um porco - outro porco, claro - num carrinho de bebé. Este imaginei-o imediatamente cor de rosa e foi com muita convicção que o imaginei, tanta que me esqueci de lhe perguntar a cor do bicho. Talvez dentro do carrinho de bebé não se visse bem, tenho ideia de que ia de touquinha com folhos, mas adiante, que agora o que está feito está feito. Ao lado desse homem caminhava outro, não tão digno de nota, ora vejamos: levava pela trela um cão. Um cão normal, pronto. Sem carrinhos, sem toucas, nada, um cão.
Duas.
Às vezes tenho problemas em chegar a tempo e depois fico no apeadeiro à espera do próximo comboio que pode até nem vir, nem haver próximo (está visto que me deitei a chapinhar no sentido figurado, e isto é perigoso, não vá afogar-me p'raqui, mas é de estar nervosa).
É que mesmo atrasada queria contar que uma vez salvei a vida a um bacorinho. E tinha só dez anos, eu.
Estávamos empoleiradas, eu e a minha vasta colecção de irmãs, todas a espreitar para uma pocilga onde moravam uma porca de dimensões generosas, imaginemos o tamanho de uma porca de dimensões generosas, e uma legião de bacorinhos com dias de idade. A porca estava deitada de lado e os porquinhos todos a mamar ao mesmo tempo, uma coisa rica de se ver! Nós continuamos empoleiradas do lado de cá da cerca, muito admiradas a observar a suculência da situação, a comentar a diferença dos tamanhos, o tom rosa da pele dos animais, que fofinhos (é daqui que vem o cor de rosa).
Nisto a porca farta-se da criançada, sacode-os, eles não querem, guincham uns acordes de bebés em protesto, o que nos fez a todas emitir um
- Ohhhhhhhh
e volta-se para o outro lado. Ao fazê-lo espalmou devagar, com o seu imenso e suíno corpanzil, um dos leitões, que por acaso era dos mais franzinos, mas que mesmo assim guinchou tanto, pobrezinho, com voz fininha, logo abafada pela própria mãe em menos de dois segundos, uma mãe completamente surda, é o que é.
Gritámos todas. Uma de nós - quase de certeza fui eu - correu a chamar o homem que tinha ar de homem que sabia salvar porquinhos.
E era mesmo: pegou num ancinho enorme e correu comigo - quase de certeza fui eu - de volta ao local da ocorrência. As outras apontavam e gritavam todas ao mesmo tempo, ali ali, debaixo da mãe está um!
Ele espetou várias vezes com o ancinho no lombo da porca de generosas dimensões, e surda, que vagarosamente e sem vontade nenhuma se levantou e deixou então à vista, à nossa vista, a sua cria acidentada.
(a parte que se segue pode ferir as pessoas mais susceptíveis, caso em que se aconselha a parar a leitura aqui)
Deitado de lado no chão sujo da pocilga, estava um leitãozinho espalmado, inerte, de um tom roxo-azulado, a lembrar uma aurora interrompida, e apresentava estoicamente a espessura de uma folha de papel. O homem, que tinha já entrado na área, pegou no bichinho e sacudiu-o com jeitinho, abanou-o um pouco, falou-lhe com meiguice e nós todas, empoleiradas na cerca, do lado de fora
- Ohhhhhhhhh
Esperou que o bacorito recuperasse espessura, o que se verificou mesmo ali, para nosso deleite, e a seguir tentou pô-lo em pé. As pernitas judiadas tremeram um pouco, mas depois começou a cambalear e foi com muito estilo que cambaleou. E nós todas, ainda empoleiradas na cerca, do lado de fora
- Ahhhhhhhh
Portanto missão cumprida. O porquinho sobreviveu e o homem garantiu-nos que a heróica celeridade do chamamento - quase de certeza fui eu - é que o salvou da morte por asfixia.
Espero que esta tenha sido, apesar de parecer em atraso, uma história que responde ao desafio por antecipação, aquele que é capaz de nos chegar de outras paragens dentro de uns dois anos, no meio de dicas para ter blogues de sucesso, dicas nas quais os cachorrinhos eventualmente salvos de morte atroz serão, está visto, substituídos por porcos.
Valeu?
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