Não sei onde eu estava com a cabeça quando aceitei o copo que me ofereceram há anos na estação de serviço da BP.
Beber água, leite ou mesmo cerveja num copo alto com o logótipo da BP não mata bem a sede, nem que haja um prato com tremoços por perto. Também tentei chá, vinho tinto e só falta sumo de dióspiro, mas não acredito. Beber por copos a invocar combustíveis para automóveis, motociclos ou carrinhas de caixa aberta não é boa ideia, isso qualquer pessoa vê.
Digo que não sei onde estava eu com a cabeça, porque geralmente não aceito ofertas do tipo quer-aproveitar-a-promoção-e-com-quarenta-litros-de-combustível-leva-uma-caixa-de-pastilhas-elásticas-que-lhe-dão-para-a-vida, claro que não. Cartões de pontos ou outras inutilidades que nas lojas se oferecem com entusiasmo, sacos de praia, chinelos cor de rosa, óculos muito feios e bolsas que não servem para nada. Detesto. Rejeito tudo.
Tirando isto costumo ser pessoa razoável. No entanto, como já tenho dito, há limites.
Continuo a não compreender a ideia que animou pessoas com a responsabilidade de tomar decisões sobre frutas, de se colarem etiquetas em forma de coração ou outras, mas a de coração é pior porque se rasga sempre, nas maçãs que nascem em Portugal e depois vendem aquilo assim, com chancela à laia de pedigree que não tem graça nenhuma. Havia de se poupar papel, tinta, o trabalho de colar aquelas porcarias, o trabalho de as descolar e ainda os efeitos secundários que a ingestão de cola terá na população que come maçãs com casca e que se irão reflectir após muita maçã; parece que já estou a ver a abertura do jornal das oito lá para dois mil e vinte e três, os jornalistas hão-de chamar-lhe um figo, apesar de terem sido maçãs.
Maçãs mas não só e é isto que me traz aqui hoje.
Ao fazer alegremente uma salada para o jantar, descubro que a ideia que animou as pessoas mencionadas acima já se espalhou por mais áreas de intervenção. Isto traduzido por miúdos e não para miúdos, ou vindo do todo para a parte, corrijo, partes, que não foi só um, é o mesmo que anunciar não sem indignação que também já se colam corações de Portugal nos tomates.
Coisa muito engraçada de se fazer, não digo que não, no caso de lhe reconhecermos préstimo. Os tomatinhos são lindos, doces e suculentos sem coraçõezinhos colados, como toda a gente sabe. Portanto eu agradecia imenso a quem puder informar, que me esclarecesse sobre esta matéria, não sendo incómodo de maior.
Eu cá, a seguir ao próximo ponto final levanto-me, vou ao armário, pego no copo da BP e ponho-o no contentor do vidro, acabou-se.
29/10/2014
26/10/2014
O presente
Preciso de te encontrar. Saí de casa, entrei no centro comercial e subi ao andar que tem o café de que gosto mais. Tomei um mas pedi dois, o outro é teu, comi um chocolate em forma de caracol que se derreteu um bocadinho nos meus dedos e o que tinha forma de flor embrulhei e meti-o no bolso.
Saí do café e entrei na loja em frente. Dentro, já está o natal a chegar em construções coloridas, luzes a piscar e jingle bells a soar. Toquei no brinquedo que tinha bonecos de coro com bocas abertas e pessoas a deslizar para dentro da igreja e a sair do outro lado, num círculo inventado que me aqueceu as recordações dos natais da infância, onde tudo brilhava no meu pequeno mundo. A janela de quatro vidros na parede de massa fingida, descobre uma luz amarela que cintila dentro. Acolhedora na imaginação que teço, nas jarras já secaram as flores de um verão, mas as suas cores fazem o natal mais cedo. Em redor da igreja e do coro que não sai do mesmo acorde, há neve caída no chão e a noite caída aqui. Posso ajudar? não obrigada, vinha à procura de uma pessoa. Preciso de te encontrar.
Desci ao piso de baixo e sentei-me no banco de madeira ao fundo das escadas, entre uma família que dava papa ao bebé e outra família que dava papa a outro bebé.
Fico a olhar as pessoas que passam e o tempo também passou. Os bebés comeram as papas, cresceram, as famílias mudaram, alguns velhos morreram, outros, velhos ficaram. Eu continuo sentada, são dias ou serão meses, talvez o infinito esteja aqui; tenho medo que seja natal outra vez e eu ainda não te vi.
E então, para descansar da saudade, fecho os olhos. Na minha mente tão presente, está o presente que és para mim.
Saí do café e entrei na loja em frente. Dentro, já está o natal a chegar em construções coloridas, luzes a piscar e jingle bells a soar. Toquei no brinquedo que tinha bonecos de coro com bocas abertas e pessoas a deslizar para dentro da igreja e a sair do outro lado, num círculo inventado que me aqueceu as recordações dos natais da infância, onde tudo brilhava no meu pequeno mundo. A janela de quatro vidros na parede de massa fingida, descobre uma luz amarela que cintila dentro. Acolhedora na imaginação que teço, nas jarras já secaram as flores de um verão, mas as suas cores fazem o natal mais cedo. Em redor da igreja e do coro que não sai do mesmo acorde, há neve caída no chão e a noite caída aqui. Posso ajudar? não obrigada, vinha à procura de uma pessoa. Preciso de te encontrar.
Desci ao piso de baixo e sentei-me no banco de madeira ao fundo das escadas, entre uma família que dava papa ao bebé e outra família que dava papa a outro bebé.
Fico a olhar as pessoas que passam e o tempo também passou. Os bebés comeram as papas, cresceram, as famílias mudaram, alguns velhos morreram, outros, velhos ficaram. Eu continuo sentada, são dias ou serão meses, talvez o infinito esteja aqui; tenho medo que seja natal outra vez e eu ainda não te vi.
25/10/2014
Gordura antiga disfarçada com lixívia ou a marcha nupcial
Pus a tocar "Spiegel im Spiegel" de Arvo Part (Part leva trema em cima do "a" mas o meu computador não tem, já me fartei de procurar), havia ainda tanto trabalho para fazer e o cansaço anda a correr atrás de mim, mas tenho conseguido desviar-me.
O problema é que o Arvo Part é coisa para nos soltar a alma cá de dentro se não nos pomos a pau e eu esqueci-me disso. À laia de aviso, adianto que tão nucleares são estes acordes que se entra em modo zen num instante, há que ter cautela em situação de condução de máquinas ou outras que requerem estado de alerta, como por exemplo na caça ao javali. É que começa a desenvolver-se cá dentro, por causa da música, uma espécie de construção que se enrola devagar no centro nevrálgico das células primordiais e depois se transmite às outras, entorpece primeiro as mãos e o pescoço e eu levantei-me e fui tomar um café.
A cantina está vazia a esta hora da manhã. Sentei-me a uma mesa qualquer com o meu café a fumegar, a tentar em vão aromatizar a atmosfera que cheira sempre a gordura antiga disfarçada com lixívia, coisa que na minha idade já se aceita. A dona Esmeralda esmera-se mesmo, lá limpas estão as mesas, muito postas em ordem a reflectir a luz da janela do lado oposto a este em que me sentei e que as faz parecerem brancas, o pior é que agora não me lembro de que cor são. Se tivesse sido eu a decorar esta cantina não faria assim. Havia de haver Armanda Passos na parede, e José de Guimarães, ao centro uma cópia da última ceia de Da Vinci para estimular o apetite, havia de tocar Mozart e Mendelssohn durante a refeição, em vez de se ouvir a televisão aos gritos. E eu já não precisaria de me curar com Arvo Part, a verdade é essa.
Mas há outra: estou muito contente por ter acabado a semana. Amanhã vou dormir até acordar e depois vou comprar um vestido muito bonito.
(sobre Mendelssohn, descobri que muita malta se casa com a marcha nupcial e não sabe quem foi o seu compositor, pode, isto?)
O problema é que o Arvo Part é coisa para nos soltar a alma cá de dentro se não nos pomos a pau e eu esqueci-me disso. À laia de aviso, adianto que tão nucleares são estes acordes que se entra em modo zen num instante, há que ter cautela em situação de condução de máquinas ou outras que requerem estado de alerta, como por exemplo na caça ao javali. É que começa a desenvolver-se cá dentro, por causa da música, uma espécie de construção que se enrola devagar no centro nevrálgico das células primordiais e depois se transmite às outras, entorpece primeiro as mãos e o pescoço e eu levantei-me e fui tomar um café.
A cantina está vazia a esta hora da manhã. Sentei-me a uma mesa qualquer com o meu café a fumegar, a tentar em vão aromatizar a atmosfera que cheira sempre a gordura antiga disfarçada com lixívia, coisa que na minha idade já se aceita. A dona Esmeralda esmera-se mesmo, lá limpas estão as mesas, muito postas em ordem a reflectir a luz da janela do lado oposto a este em que me sentei e que as faz parecerem brancas, o pior é que agora não me lembro de que cor são. Se tivesse sido eu a decorar esta cantina não faria assim. Havia de haver Armanda Passos na parede, e José de Guimarães, ao centro uma cópia da última ceia de Da Vinci para estimular o apetite, havia de tocar Mozart e Mendelssohn durante a refeição, em vez de se ouvir a televisão aos gritos. E eu já não precisaria de me curar com Arvo Part, a verdade é essa.
Mas há outra: estou muito contente por ter acabado a semana. Amanhã vou dormir até acordar e depois vou comprar um vestido muito bonito.
(sobre Mendelssohn, descobri que muita malta se casa com a marcha nupcial e não sabe quem foi o seu compositor, pode, isto?)
22/10/2014
Esplendor de implantação
Fiz uma lista e depois dobrei a folha de papel. Meti-a no bolso.
Olho pela janela e noto uma fileira de luzes vermelhas ao longo da pista onde o avião acabou de aterrar. Não me lembro de as ter visto antes, serão certamente arranjos para decorar o natal, se é que o natal se pode decorar. Eu decoro muito bem as matrículas dos automóveis, tenho esta mania desde os cinco anos e ainda não me livrei dela, às vezes cansa imenso, detesto automóveis.
Dói-me a barriga. Devo ter engolido um montão de neutrinos quando fotografei o nascer do sol. Estava cansada outra vez e irrita-me estar cansada, fico com tendência para me queixar e fazer listas de coisas que não gosto. Volto a tirá-la do bolso, ainda dá tempo de a reler. As hospedeiras da TAP dizem Ladies and "Gémen" (ponho maiúscula, mas é capaz de ser sem), só uma vez é que ouvi uma pronunciar bem a difícil palavra gentlemen. Sorri-lhe com uma inclinação de cabeça muito respeitosa antes de sair, boa noite.
Também seria tão bom se os jornalistas da rádio dissessem legislação, "leslação" enerva.
Mas não são só eles. Uma vez perguntei a uma pessoa que gosta de contar as suas aventuras a conduzir no auto-estrada (sim, no auto-estrada) se também de vez em quando gosta de conduzir no estrada; a pessoa olhou para mim como se eu fosse um borrego morto ou tivesse dito frigorífico em grego e não respondeu, desconfio que me odeia um bocado.
Não nos deixemos ir no engano de pensar que eu não meto argoladas, meto muitas, até costuma ser uma especialidade que não fica nada atrás do caril indiano, mas ao menos digo constitucional muito bem.
Por exemplo, não combino a mala com os sapatos a menos que esteja distraída, e também não compro mobílias a condizer umas com as outras a não ser que goste mesmo muito de as ver juntas. Combinar tudo é monótono.
E para terminar, que estou mesmo a precisar de sair daqui e respirar ar puro, fica esta a fazer fé no que afirmo acima, para compor o post que está nuzinho nuzinho (não, não me envergonho, só me dói a barriga):
Tinha nove anos de idade e como toda a gente de nove anos de idade à época, fui levada pela minha mãe ao arquivo de identificação tratar do bilhete, agora já és crescida, vês, treinaste a assinatura? Eu um bocado nervosa com medo de rasgar o papel como já me acontecera no caderno da escola, assinei devagarinho e de repente reparei numa coisa muito interessante, que me fascinou. O papel amarelado que eu estava a assinar chamava-se Bilhete de Identidade. Li duas vezes para confirmar: era mesmo Bilhete de Identidade.
E não Bilhete "Dentidade" como eu sempre ouvira pronunciar (mãe, nem tu dizes isto bem, confessa) e que eu vagamente achava estar ligado à questão da segunda dentição que, aos nove anos de idade, estava em pleno esplendor de implantação em toda a gente.
Aborrecido, não é?
(a fotografia do nascer do sol confirma tudo e está grande para se ver muito bem)
Olho pela janela e noto uma fileira de luzes vermelhas ao longo da pista onde o avião acabou de aterrar. Não me lembro de as ter visto antes, serão certamente arranjos para decorar o natal, se é que o natal se pode decorar. Eu decoro muito bem as matrículas dos automóveis, tenho esta mania desde os cinco anos e ainda não me livrei dela, às vezes cansa imenso, detesto automóveis.
Dói-me a barriga. Devo ter engolido um montão de neutrinos quando fotografei o nascer do sol. Estava cansada outra vez e irrita-me estar cansada, fico com tendência para me queixar e fazer listas de coisas que não gosto. Volto a tirá-la do bolso, ainda dá tempo de a reler. As hospedeiras da TAP dizem Ladies and "Gémen" (ponho maiúscula, mas é capaz de ser sem), só uma vez é que ouvi uma pronunciar bem a difícil palavra gentlemen. Sorri-lhe com uma inclinação de cabeça muito respeitosa antes de sair, boa noite.
Também seria tão bom se os jornalistas da rádio dissessem legislação, "leslação" enerva.
Mas não são só eles. Uma vez perguntei a uma pessoa que gosta de contar as suas aventuras a conduzir no auto-estrada (sim, no auto-estrada) se também de vez em quando gosta de conduzir no estrada; a pessoa olhou para mim como se eu fosse um borrego morto ou tivesse dito frigorífico em grego e não respondeu, desconfio que me odeia um bocado.
Não nos deixemos ir no engano de pensar que eu não meto argoladas, meto muitas, até costuma ser uma especialidade que não fica nada atrás do caril indiano, mas ao menos digo constitucional muito bem.
Por exemplo, não combino a mala com os sapatos a menos que esteja distraída, e também não compro mobílias a condizer umas com as outras a não ser que goste mesmo muito de as ver juntas. Combinar tudo é monótono.
E para terminar, que estou mesmo a precisar de sair daqui e respirar ar puro, fica esta a fazer fé no que afirmo acima, para compor o post que está nuzinho nuzinho (não, não me envergonho, só me dói a barriga):
Tinha nove anos de idade e como toda a gente de nove anos de idade à época, fui levada pela minha mãe ao arquivo de identificação tratar do bilhete, agora já és crescida, vês, treinaste a assinatura? Eu um bocado nervosa com medo de rasgar o papel como já me acontecera no caderno da escola, assinei devagarinho e de repente reparei numa coisa muito interessante, que me fascinou. O papel amarelado que eu estava a assinar chamava-se Bilhete de Identidade. Li duas vezes para confirmar: era mesmo Bilhete de Identidade.
E não Bilhete "Dentidade" como eu sempre ouvira pronunciar (mãe, nem tu dizes isto bem, confessa) e que eu vagamente achava estar ligado à questão da segunda dentição que, aos nove anos de idade, estava em pleno esplendor de implantação em toda a gente.
Aborrecido, não é?
(a fotografia do nascer do sol confirma tudo e está grande para se ver muito bem)
21/10/2014
A aula
Na minha nova aula de dança há mães que levam os filhos pequenos. Recomendam-lhes silêncio e permanência no canto onde os depositam, por hora e meia, quietos. Enfiam-lhes um tablet na mão e mostram o indicador vertical em frente aos lábios.
Dez minutos depois o menino Serafim, que há-de andar pelos seis anos, precisa de passar de nível ou qualquer coisa do género lá no tablet e invade o campo onde nos esforçamos para alongar o pescoço; a mãe respectiva acode a correr, acocora-se, fazes assim, querido, olha, ensina-o como fazer e torna a suplicar pela dose de silêncio que se esgotou em menos de um fósforo. O miúdo regressa ao banco dos suplentes a caminhar devagar, rosto paralelo ao chão e ao tablet, vai cansado.
Agora vem ali a miúda a quem perguntei a idade ao chegar, tenho sete anos, em rota de aproximação apontada a outra mãe, com o respectivo aparelho electrónico que lhe causa espanto e leva bloqueios, traz a urgência da idade, para não falar em outras urgências que não me assistem, mãe como se põe naquilo de ontem, e a mãe acorre, solícita, afaga-lhe o cabelo, já está de cócoras, é assim, já te disse, clicas aqui, vês, agora vá, volta para o pé da tua irmã.
À terceira invasão do campo, a professora dá um grito de comando ao Serafim, que vem a rabujar e ainda falta uma hora de aula, o relógio de parede só marca vinte e trinta, ó mãeeeeee, a mãe acode a esta nova aflição, ignora o grito de comando autorizando o filho a ignorá-lo também, abraça o petiz, meu amor, é só mais um bocadinho, olha, joga este, vai lá.
Agora a professora falou alto para a mãe e disse que se está a irritar. Com olhinhos tristes e cabeça enfiada nos ombros, corre a mãe do Serafim de volta à sua posição, com passinhos pequenos, como se criança fosse.
Olho em volta para as outras, as não-mães, ninguém parece importar-se. Devem estar habituadas, aqui a recém-chegada sou eu.
Portanto fiz mal. Em vez de ter esperado tantos anos que as minhas filhas crescessem antes de regressar aos ginásios, podia tê-las levado comigo, haviam de me ter dado um jeitão a costurar uma meia, a pregar um botão ou, em dias mais apertados, a adiantar ali mesmo a preparação do jantar com as dicas que eu lhes podia ir gritando.
Hoje seria uma mulher muito mais em forma.
E talvez não me inquietasse com o futuro de uma sociedade desfocada pela ausência de fronteiras que delimitam os lugares de uns e de outros, que preservam os tempos para as refeições e o sono das crianças, que mantêm firme o direito à não interrupção de uma aula, seja ela de que natureza for.
Por isso não se admirem, mães, se os professores dos vossos filhos vos disserem que eles são insubordinados, que interrompem, que falam constantemente, que não sabem respeitar uma aula.
Dez minutos depois o menino Serafim, que há-de andar pelos seis anos, precisa de passar de nível ou qualquer coisa do género lá no tablet e invade o campo onde nos esforçamos para alongar o pescoço; a mãe respectiva acode a correr, acocora-se, fazes assim, querido, olha, ensina-o como fazer e torna a suplicar pela dose de silêncio que se esgotou em menos de um fósforo. O miúdo regressa ao banco dos suplentes a caminhar devagar, rosto paralelo ao chão e ao tablet, vai cansado.
Agora vem ali a miúda a quem perguntei a idade ao chegar, tenho sete anos, em rota de aproximação apontada a outra mãe, com o respectivo aparelho electrónico que lhe causa espanto e leva bloqueios, traz a urgência da idade, para não falar em outras urgências que não me assistem, mãe como se põe naquilo de ontem, e a mãe acorre, solícita, afaga-lhe o cabelo, já está de cócoras, é assim, já te disse, clicas aqui, vês, agora vá, volta para o pé da tua irmã.
À terceira invasão do campo, a professora dá um grito de comando ao Serafim, que vem a rabujar e ainda falta uma hora de aula, o relógio de parede só marca vinte e trinta, ó mãeeeeee, a mãe acode a esta nova aflição, ignora o grito de comando autorizando o filho a ignorá-lo também, abraça o petiz, meu amor, é só mais um bocadinho, olha, joga este, vai lá.
Agora a professora falou alto para a mãe e disse que se está a irritar. Com olhinhos tristes e cabeça enfiada nos ombros, corre a mãe do Serafim de volta à sua posição, com passinhos pequenos, como se criança fosse.
Olho em volta para as outras, as não-mães, ninguém parece importar-se. Devem estar habituadas, aqui a recém-chegada sou eu.
Portanto fiz mal. Em vez de ter esperado tantos anos que as minhas filhas crescessem antes de regressar aos ginásios, podia tê-las levado comigo, haviam de me ter dado um jeitão a costurar uma meia, a pregar um botão ou, em dias mais apertados, a adiantar ali mesmo a preparação do jantar com as dicas que eu lhes podia ir gritando.
Hoje seria uma mulher muito mais em forma.
E talvez não me inquietasse com o futuro de uma sociedade desfocada pela ausência de fronteiras que delimitam os lugares de uns e de outros, que preservam os tempos para as refeições e o sono das crianças, que mantêm firme o direito à não interrupção de uma aula, seja ela de que natureza for.
Por isso não se admirem, mães, se os professores dos vossos filhos vos disserem que eles são insubordinados, que interrompem, que falam constantemente, que não sabem respeitar uma aula.
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