a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

29/11/2014

Viagem a Marte

Aconteceu hoje.

A máquina fotográfica estava mesmo ao meu lado.

Chamei-lhe um figo e ela captou isto. A ver.



É que fugiram de mim as palavras e calou-se-me a voz. Bem tentei.

(as pessoas que se inscreveram para a viagem a Marte estavam com certeza a brincar)

27/11/2014

Coisa tão linda

Lavo as mãos e sento-me à secretária para continuar o trabalho. A caldeirada de pota do almoço libertou vapores aromáticos típicos que parece que vieram comigo. Concentro-me, calculo que isto já passa e o resto, que também calculo, não dá zero.

Despacho-me, há que estar pronta para a reunião das três, já sei como é. Isto feito tem de ficar e eu tenho de ir.

Enquanto teclo os cálculos, o zircónio que me brilha no dedo brilha-me no dedo. É a receita da primeira hora da tarde, a hora morta, pesada, fastidiosa, estica o dia para dentro de um bocejo muito comprido, espreguiço-me, vou mostrar.

(coisa tão linda)

Continua a cheirar a caldeirada de pota, mas eu lavei as mãos.

À minha esquerda, pendurada na parede, está uma das minhas obras de arte favoritas, para não dizer uma das minhas paixões, a obra que contém mais beleza, mais ciência, mais técnica, estudo e dedicação, um trabalho de uma grande equipa a tempos diferentes, uma pérola ainda incompleta, uma estrela: a tabela periódica dos elementos.

(pausa para sorrisos rasgados e inclinações amorosas de cabeças visivelmente enternecidas e um café se for rápido)

O zircónio elegantemente exibido ali em cima também está no retrato, tem o número quarenta, e portanto não resisto e levo o dedo ao papel, toco no quadrado onde mora o zirconiozinho que bonito e que cheiro a caldeirada.

Admiro o brilho desta pedra preciosa, hipnotiza-me ligeiramente, uma riqueza que me faz revirar a mão, inclinar de novo a cabeça em enternecimento já referido, esquecer por um bocado os cálculos do resto que não é zero antes que a reunião comece e ver melhor.

Ver melhor e bastante bem a grande mancha amarela muito suspeita com ramificações transversais nos dois sentidos, estrutura ligeiramente fractal, impressa na manga da minha bata de trabalho que não tirei para ir à cantina, visto que me fica tão bem.



(Isto é o que acontece quando tento escrever um post pequeno, curto, rapidez no consumo que há mais que fazer. O que demorou imenso foi a fotografia)

25/11/2014

Males que vêm por bem ou a borboleta castanha?

A minha colega que apanhou Legionella regressou hoje ao trabalho. Diz que não tem fumado desde então, sempre foram duas semanas, sorria e estava, pareceu-me, mais brilhante o seu sorriso. A minha avó, se ali estivesse, teria dito àquela hora há males que vêm por bem.

E eu estou muito de acordo com ela.

Hoje ao final da tarde, quando o trânsito saiu à rua a marcar o ritmo dos dias que caem invariavelmente nos braços das noites, eu encontrava-me dentro do carro, a minha filha ao meu lado, o consultório do dentista a ficar para trás, devagar. 

Isto não seria interessante notar, se não fosse ter reparado que está uma roda pouco gigante dentro do recinto onde antes pulsava de farturas e música fanhosa, de luzes coloridas e cheiro a frango assado, de algodão doce colado ao meu nariz e a esperança de mais uma volta na montanha russa, vá lá, mãe, por favor!, a Feira Popular.

Distraiu-me aquela roda pouco gigante, ou fui eu que cresci?, e agora distraem-me os gritos da miúda no quarto, porque está aqui uma borboleta enorme!, das castanhas! e não pára de voar!, ó mãeeeeee!

Difícil não é ter um blogue, difícil é rasgar o tempo sem doer nada a ninguém e meter-lhe dentro um post, no tempo, fazer uma espécie de sanduíche de torresmos, assunto que não discuto porque nunca semelhante coisa me cruzou os dentes, mas há quem aprecie.

Os males que vêm por bem. Há-de ser aqui que chegamos.

Aproveitando o vagar com que rodavam os pneus atrás dos outros, enquanto a Feira Popular se afasta de nós e eu esqueço o cheiro do frango assado, lembro-me da velha professora de ginástica do colégio. Ela não morria de amores por mim, acho que nem sabia o meu nome, comigo usava sempre o apelido. Ao segundo jogo de andebol do sétimo ano, não esqueci, quando viu que eu não metia golo mesmo nenhum, aliás a bola escolhia muitas mãos, isso era, mas não vinha amiúde aconchegar-se nas minhas, pôs-me o apito pendurado ao pescoço e declarou que a partir dali eu era o árbitro, tu não jogas nada.

O jogo recomeçou e eu sem ideia certa das regras, esqueci-me de estudar aquilo, foi ao calhas. Deixei passar uns minutos e de repente apitei com força.

Porque apitei?!... Ai não era?... Tu vê lá se atinas, que não foi falta! Vou tentar, prometi.

Mais um bocadinho e vejo uma colega muito rápida, parece que troca as mãos, com certeza aquilo é a tramar alguma, cá vai disto e apito outra vez. Pelo sim pelo não faço-o com menos força, não vá ser inoportuno apitar naquele momento e isso aborrecer alguém, com sorte ninguém ouvia, poupava uma maçada a toda a gente, ouviram. Então?!? Outra vez?!?

A professora apontou os passos largos e o corpo possante para mim, arrancou-me o apito, tu nem para isto serves, e mandou-me para a baliza, vê lá se agora defendes.

Não foi estratégia brilhante e isso viu ela daí a poucochinho quando alguém se lembrou de querer meter um golo e o meu instinto não quis colaborar, mandou-me fugir da bola em vez de me manter à frente dela, aquilo parecia que vinha cá com uma força, portanto o golo entrou muito bem, aliás viu-se ao longo do jogo que veio mesmo com a família toda, à vez, que o instinto é coisa forte, dificilmente se vira ao contrário e o meu não foi excepção.

Aspirei a borboleta castanha enorme que não parava de voar, com o cano do aspirador apontado ao tecto e a miúda sossegou, já está tudo a dormir. 

Tudo menos eu, que não sei como fazer este mal que sou no andebol, vir por bem.

21/11/2014

Pais que não são meus

- A senhora fala português?

Ando a inventar.

Inventei de tricotar um cachecol azul muito bonito com um castanho entremeado em certos sítios, mas primeiro acendi seis velas de cores diferentes, espalhei-as pela sala e gastei os fósforos nisto para não queimar os dedos.

- A senhora fala português?

Inventei de acordar muito cedo e experimentar acender luzes em casa, mas tinha tanto sono que embati na ombreira da porta e fiz o corredor todo a esfregar o braço às escuras.

- Português falo e até bastante bem – percebi que a pergunta era para mim.

A electricidade tinha ficado do lado de fora da porta e eu fui inventar de tomar banho à luz das velas mas troquei os produtos na aplicação, quando se está zen não se pode ler miudezas como “shampoo” ou “dê mais brilho ao seu cabelo”, com esta luz sei lá com que brilho posso contar, de qualquer forma a coisa lá se fez. Depois, ao sair da casa de banho, tropecei na mala de viagem que ainda está no chão e lembrei-me dele.

- Então não me arranjava umas moedinhas, que a máquina ficou-me com o cartão?

Contra a minha mais habitual vontade, também inventei de comprar numa loja chinesa um chapéu de chuva que abre de repente ao pressionar-se um botão e torna a fechar de repente pelo mesmo botão, já o usei três vezes e ainda está bom.

- Moedinhas? – obeservei-o por um momento. Tresanda a tabaco e a desequilíbrio, os olhos não se fixam, parece que tremem. É domingo à noite, estamos no aeroporto, eu à espera do táxi para me levar a casa, a mala no chão ao meu lado.

- Sim, eu vim visitar os meus pais a Castelo Branco e agora faltam-me doze euros, a máquina ficou-me com o cartão, trabalho em Marrocos, a senhora não me arranja umas moedinhas?

- Não. Acabo de levantar dinheiro para o táxi e não tenho moedas.

Não abri a carteira para confirmar. Inventei a certeza de não ter moedas. Ele afastou-se e fiquei a vê-lo abordar outra pessoa que fala bem português: abriu a carteira e deu-lhe moedas.

E eu, da próxima vez, inventarei uma atitude diferente. Darei as moedas.

Porque mesmo inventando muito, não preciso de inventar que trabalho em Marrocos, que a máquina me ficou com um cartão que não tenho e que fui a Castelo Branco visitar uns pais que não são meus. 

Afinal não falei bem.

18/11/2014

Charco do bem comum

Ligo então o rádio e oiço-a pela segunda vez hoje. Mona Lisa entoada por Nat King Cole.

Não gosto desta música. Enjoa-me. É repetitiva. E lembra a Mona Lisa, deve ser essa a ideia, portanto há uma coisa que agora vou dizer.

Ou antes, declarar, pela primeira vez na minha já longa vida, que não acho graça, nem muita nem pouca, ao quadro mais conhecido do mundo. Por mais que eu pestaneje, leia até tarde, fuja da televisão, pague impostos, durma e acorde, ou os esfregue, os meus olhos gostam é de se fixar em coisas mais, digamos, evidentes. Um sorriso meio sorriso ou um quarto de sorriso ou um ensaio de sorriso ou um sorriso tão levemente sorrido ou um sorriso que vem a cair das nuvens torna-se cansativo e a gente não consegue arrumar o assunto de uma vez por todas.

Eu cá achava mais interessante se o Leonardo tivesse posto a moça a sorrir como deve ser ou séria e acabou-se. Facilitava a vida às pessoas. Está bem, eu sei que a arte reside nestas dificuldades, nestes vai não vai, nestes encanares de pernas às rãs, mas a verdade é que andamos nisto, nesta discussão, há quantos? cinco séculos? As pontes que não se podiam ter já construído, pontes a ligar terras, a promover o trânsito de produtos, a elevar a economia dos países, coisas realmente úteis, é que vendo bem cinco séculos são cinco séculos, não é?

E agora não saia do seu lugar que, mesmo correndo o risco de este blogue se tornar mal-amado como tudo, isso me ferir deveras e ter de fechar as portas por falta de visitantes, sai ainda mais esta verdade: a Mona Lisa nem sequer é bonita.

Tampouco o vestido a favorece.

Se liga com as sandálias o Leonardo não quis mostrar, mas isso já vai dos gostos de cada um e mais não me vou pôr a dizer.

Não vou porque de qualquer forma, outra verdade, o problema é meu.

Tomemos o George Clooney. Esse deus da beleza, não é?

Não é. O sorriso - aí sim vê-se que é sorriso, essa parte está boa - mas o sorriso costuma abrir-se mais de um lado que do outro, não sai direito, até talvez fosse uma questão de ele treinar mais vezes, não sei, costuma funcionar.

E depois destas duas pedradas no charco do bem comum estabelecido num caso há cinco séculos no outro há menos de um, não fico nada contente quando faço rimas, as rimas são feias, mas eu tenho pouca arte e nem sei se fiz uma, dizia, não me vou perder, hoje não, que depois destes dois pedregulhos que acabo de lançar, me resta agradecer a todos a paciência, de caminho manifestar a minha alegria porque o TEMPO CONTADO acordou, embora... será que vai voltar?, e deixar mais esta informação, não vá alguém achar coisas:

O Johnny Depp vestido de pirata sim, há ali sainete, ou então o Javier Bardem de toda a maneira, lembro-me agora, desde que se exclua o filme em que limpou o país que não era para velhos e ainda o do zero zero sete, nesses nem quero pensar. 

E pronto, ficávamos aqui.