a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

11/12/2014

Primeiros acordes

Dia.

Subimos lado a lado a alameda dos ciprestes a esta hora inundada de sol. Ela estremece de um frio que eu sei vir-lhe mais de uma memória com muitos espinhos que deste cortejo fúnebre, vejo-o diluído em lágrimas que lhe trazem mais luz aos olhos verdes. Ao caminhar, imprimimos no alcatrão novo o rasto das nossas sombras, que são irmãs. Escolhi fazer este trajecto lento ao seu lado, mantenho os olhos secos e conto-lhe uma história enquanto, por cima de nós, os aviões são cuspidos para o céu.

- Ainda não te contei esta história. Eu tinha catorze anos e gostava muito de uma música de que conhecia o título. Entrei com o pai numa loja de discos onde ele ia muito, comprava-os lá.

- Uma discoteca.

- Exacto, uma discoteca. E pedi ao senhor da loja que pusesse a tocar a música para a mostrar ao pai. Era o “More Than This” dos Roxy Music, conheces?

- Não, acho que não…

- É natural, se eu tinha catorze tu terias sete, brincavas com as Barbies… Bem, aos primeiros acordes, o pai disse logo que o comprava, pareceu-me que adorou a música e eu fiquei toda contente. Ouvi milhares de vezes aquele vinil.

Fizemos o resto do caminho na companhia das suas lágrimas silenciosas, nascente daquela memória antiga que este contexto fúnebre desenterra. Eu queria tirar do coração da minha irmã a dor que vive tão fundo nela.

Quando saímos do crematório, a alameda dos ciprestes continuava inundada de sol e os aviões seguiam cuspidos ao céu.

Noite.

Saí da reunião e fiz-me à estrada para chegar a horas ao jantar no bar da praia. A luz no painel de instrumentos insiste na ideia de meter combustível, pisca com energia cadente e eu faço contas aos quilómetros a ver se posso abastecer no regresso. Posso. O telemóvel também dá alarme, está quase sem bateria e tenho ainda dois telefonemas a fazer pelo caminho. Faço. Lembro-me entretanto que não há pão em casa nem tempo para o comprar. Paciência. Há bananas.

Chego com dez minutos de atraso, a Catarina já tem uma imperial e amendoins à sua frente. A praia nas noites frias de inverno também existe, mas o bar está quase deserto.

- Caty, importavas-te de não parecer sempre teres vinte e oito anos, importavas?

Ela ri-se e abraçamo-nos. Não nos vemos há um ano e estes jantares são praticamente sagrados.

Duas imperiais e dois hamburgueres depois, nada gourmet e tudo à grande, não vamos ao engano, despedimo-nos com desejos de boas festas e no regresso a casa parei na estação de serviço. Ao retirar a agulheta para abastecer, o aviso esganiçado no altifalante cliente da bomba seis, o serviço está em pré-pagamento, saiu automático e eu dei um grande salto, não gosto de dar grandes saltos. O pré-pagamento inclui tentativa de me venderem dois chocolates Toblerone maiores que, deixa ver, maiores que o meu úmero e ainda coisinhas estranhas para fazer pega monstros por dois euros e noventa e nove.

- Produto nacional, muito bom, quer?

- Não. Quero pão, tem pão?


No resto do caminho pus a tocar o CD dos Roxy Music, descendente do vinil dos meus catorze anos, que trago no carro. Tocou em repeat os acordes que pedi ao pai para ouvir naquela tarde em que tu brincavas com as Barbies e nenhuma de nós sabia ainda o que era morrer.

08/12/2014

Tempo

Cheguei-me ao rio. A lua reflecte-se ali a meio caminho entre esta margem e aquela, mostrando-me um carreiro de gotas todas juntas e eu escolhi uma, acolhi-a na mão, bebi-a. Sabe um nadinha a mar.

Começando a prosa com tanta poesia até parece que, em ganhando balanço, vai derreter um ou outro coração mais adiante e mais natalício ou mesmo distraído. Pois assim não será, que esta prosa serve-se azeda.

Hoje tinha pensado morrer. Para isso, fui comer uma refeição do tipo porcaria servida em recipientes de cartão armado ou de plástico em cama de tabuleiro revestido com papel total e visualmente poluído com tretas que não valem nada e ainda a factura debaixo do copo da bebida açucarada, das piores.

Sentei-me na esplanada dando as costas ao sol, a carregar, a ver se vem a mim um resto de energia e eu pego.

Uma mulher muito gorda fuma sentada no meu campo de visão e enternece-se com os pombos, anda aqui uma legião deles a debicar nos restos deixados nos tabuleiros abandonados. Eu não me enterneço com nada, como esta porcaria em cima dos materiais perecíveis depois de mim e da factura, que é sem contribuinte, e acaba de voar o celofane onde vinha metida a palhinha.

À minha frente está a revista do jornal de sábado que trouxe comigo e que me quer dar ideias para presentes de natal, perfumes, meias de lã, mas eu não quero estas, as minhas é que são boas ideias.

Entretanto, com o sol a carregar-me nas costas devo ter enfim pegado, reparo que neste cenário nem os olhos mais benevolentes podem registar uma centelha de beleza e uma batata frita desolada voa por cima da minha cabeça e vai embater na mulher que fuma e se enternece muito, olha que lindos, vê-se mesmo que gosta dos pombos. Eu era as gotas de água em carreiro a correr ao luar junto ao rio, mas doçuras não são para hoje.

Acabei com aquilo, o meu lixo levei-o para fora do alcance do vento e recolhi a casa com o saco do jornal na mão.

Pelo caminho percebi que afinal não podia morrer hoje, havia ainda a árvore de natal para fazer e uma pilha de roupa a tratar.

Fica para amanhã, então. O tempo que me vou subtrair corto-o em pedaços: anos para a família, meses para os amigos e semanas para o porteiro lá da empresa, que fica sozinho na noite mágica a vigiar a entrada de ninguém. Embrulho todos em papel muito bonito, ponho um laço vermelho com o brilho que lembra o luar no rio e ofereço-os pelo natal, isso sim.

Cá perfumes e meias de lã. Da falta destes não se ouve alguém queixar.

Já da falta de tempo, sim. 

Muito.

Mas pouco espero que demore a reflexão do amigo Xilre. Muito grata estou eu e, não tarda nada, saudosa.

07/12/2014

Maria Lúcia

Não sei se era natal naquela noite, sei que estava frio.

Maria Lúcia, viúva conformada com a sombra de um amor que o foi pleno, deita-se normalmente tarde. 

Mulher devota, crente num deus bom, não concebe naturalmente intenções outras que não pares das suas. Esquece-se de cuidar de males, muito menos esperar que lhe escorreguem para dentro da sua existência já longa mas frágil, contada em mais de sete décadas.

Deitava-se tarde à quarta feira e à sexta, ao domingo e em todos os dias.

A única luz que deixa brilhar nos serões solitários do seu apartamento antigo, num rés-do-chão de Lisboa, é o quadrado do ecrã de televisão. Dali toma, transferido, o consolo levado com o marido, o ecrã luminoso conta-lhe as histórias que lhe embalam os dias e desconfio que também os sonhos.

Na sala, os móveis cheiram ao cansaço de uma madeira escura, indefinida, colhida em florestas antigas onde imaginei ter havido duendes e elfas a tecerem os séculos, hoje decerto cruzadas por auto-estradas vazias. Os napperons que lhe saíram das mãos em décadas passadas, quando a vista ainda podia, filha, estão dispostos pelas superfícies nuas, que nudez é assunto para se ocultar em presença da Nossa Senhora, ali, de vigia na cristaleira.

As pernas cobre-as com a manta velha, que o aquecedor gasta muito. E é assim que, naquela noite em que não sei se era natal mas sei que estava frio, parece que ouve um barulho abafado.

Põe-se à escuta subtraindo mentalmente as vozes do filme que corre no ecrã e confirma: uma restolhada lhe chega aos ouvidos, esses não a enganam.

Afasta a manta, levanta-se da poltrona e, sem acender outra luz, sai da sala e entra no corredor de acesso ao quarto, parece que o barulho é dali.

- Não teve medo, Maria Lúcia?

- Medo de quê, filha? Não tive medo, mas quis ver o que era.

Agachado entre a parede branca e os pés da cama feita da madeira retirada aos mesmos duendes e elfas, estava um homem. Maria Lúcia viu-lhe os olhos brilhar à luz da televisão que fez com ela o corredor e ali ficou a secundá-la.

- O que está o senhor aí a fazer?

- Nem então teve medo?! – eu estava admirada.

- Não, filha, ele é que parecia assustado.

Disse-lhe para se levantar e pegou-lhe nas mãos, estavam frias.

- Tem as mãos frias. Eu sopa não tenho, mas venha até à cozinha e faço-lhe um café, para aquecer.

Ele obedeceu. Era um homem novo, podia ser meu neto, filha. E estava com frio.

O homem bebeu o café e agradeceu, palavras ouviu-lhe poucas. Ela acompanhou-o à porta e disse-lhe que da próxima vez não saltasse pela janela, que se podia magoar, tocava a campainha e ela oferecia-lhe sopa, se tivesse. Se não, havia de ser outro café.

Hoje de manhã, enquanto metia a roupa na máquina para lavar, o sol que me entrava pela janela bateu-me nas costas e eu lembrei-me dela. Por uma coincidência, por ser quase natal ou por haver duendes e elfas nestas linhas, Maria Lúcia faria hoje anos se fosse viva. Da história mudei um bocadinho o seu nome e não mudei mais nada.

04/12/2014

Gargalhadas suadas

Fala-se imenso do amor. E fala-se das coisas do facebook, de música má e de sushi, pagam-se contas pela internet e vêem-se montras nos centros comerciais aos domingos. E moda, fala-se da moda, desdenham-se os políticos, usa-se muito o desdém, vendo bem combina com os metais alaranjados que são a tendência deste ano em relojoaria, isso já eu percebi. Também se mastigam almoços de boca aberta com a cabeça inclinada ao tecto a olhar as notícias do jornal da uma na televisão dos restaurantes. Ou então, isto vê-se muito, tecla-se no aparelho electrónico que nos liga uns aos outros.

Ou desliga uns dos outros. Mas amor, era aqui que queríamos ir.

Fala-se do amor. Até se faz publicidade com o amor. É normal. Reduzir o amor a um par de gargalhadas soadas em muitos lados, dentro de carros parados em semáforos, nas cozinhas das casas das pessoas ou nas lojas, soam do outro lado da emissora rádio por causa de um reclame imbecil sobre uma bela loira que afinal era uma cerveja. Reduções baratas de coisas grandes porque a loira era para ser o amor de alguém mas não passou de uma fermentação bem maltada ou assim para se beber bem fresca. Qual amor?

Não é preciso falar do amor. Não falemos do amor. É preciso é fazer o amor.

Não merece a pena neste ponto incendiar entusiasmos e abrir expectativas, que eu não tenho arte para me esticar por terrenos delicados, há muitas maneiras de se cozinhar bacalhau e o amor português também joga nesse time.

Hoje. Na cantina lá da empresa onde todos os dias me encontram normalmente dentro da minha bata cujo corte não conheceu alfaiate, assim como muitos edifícios – quase todos – em Lisboa não sabem o que é um arquitecto, adiante que esta mágoa carregá-la-ei para a cova - abandonei a linha de alimentos onde me servi de vários, e sentei-me à mesa onde pousei o meu tabuleiro. À minha frente a Carla já vai adiantada mas o seu tabuleiro exibe ainda inteiro um dióspiro vermelhinho de maduro, coisa tão rica que até me veio um bocado de água à boca. No meu tabuleiro uma maçã assada raquítica a envergonhar-se, mas que amor.

- Ó dona Esmeralda, onde estão os dióspiros? Eu só encontrei esta maçã assada resmenga e salada de frutas, que é coisa que não como.

- Res… quê? – a dona Esmeralda aproxima-se da mesa a esfregar as mãos no avental.

- Resmenga, dona Esmeralda, inventei a palavra e por acaso faz muito sucesso.

Não passou um minuto e eu tinha no meu tabuleiro um dióspiro nascido de uma prateleira escondida lá das coisas da dona Esmeralda. Ora isto é amor. No fim houve que lavar as mãos e a boca, mas isso foi o menos, que me regalei à grande.

Esta manhã, eu ainda na cama. Abre-se a porta do quarto e entra uma chávena de café a fumegar e – já sabemos esta parte – a aromatizar o espaço como mais nada o pode fazer. Agarrada à alça da chávena vem a minha filha mais velha a sorrir, é mesmo linda esta miúda, bom dia, mãe.

Ora isto é coisa que eu não ensinei à petiza quando era petiza, portanto só pode ser o quê? Deu-me um beijo na testa e saiu para a escola, até logo. Amor.


E antes que pensamentos cruéis sobre uma mãe que fica na cama quando as pobres crianças saem de casa para a escola em vez de as conduzir de carro, coitadinhas, vão a pé ou de autocarro, antes que pensamentos assim invadam cabeças, vamos ouvir outra opinião:


(gargalhadas soadas adorei, são muito boas, mas se forem suadas serão ainda melhores, era reflectirmos nisto se faz favor, que é quase natal)

01/12/2014

Quietinho no prato

Os rapazes da Coreia do Norte, não sei, talvez lendo “Dentro do Segredo” do José Luís Peixoto, mas os da Coreia do Sul, se recebem alguém que vem, por exemplo, da Europa, é mostrar o que valem em comidinha fresca. Peixe.

Sabendo já nós de sobejo que os japoneses nem sempre chegam lume ao pescado, preferindo enrolá-lo em pequenas obras de arte coloridas e de meter na boca mas só depois do equilibrismo nos pauzinhos e é para quem pode, e o comem, ao pescado, mesmo cru, estaremos certamente preparados para a eventualidade de os rapazes da Coreia do Sul enveredarem por caminho não muito díspar. 

Erik e dois colegas, enviados dos Países Baixos a uma conferência ali organizada, constituíram alvo da espontaneidade risonha dos orientais deste país do sul e viram-se acomodados em restaurante bem afamado, peixe cru é o petisco que está para vir, muito fresco muito fresco, tão fresco tão fresco que na verdade, vendo bem as coisas, ainda não morreu. E se não morreu - esta é fácil - está vivo.

Ora, quando o apetite não é desmesurado e os bichinhos esperneiam alegremente no prato, num prato sem gradeamento nenhum, era ou não era de lhes segredar discretamente: fujam, fujam!?

- Então como fizeste? Comeste?!?

Erik não comeu, um dos colegas ficou ligeiramente esverdeado na dificuldade: desiludir a generosidade dos sul coreanos que riam e acenavam muito em incentivos à degustação, contra a impossibilidade prática de meter um bocado de polvo vivo na boca, os polvos vêm cheios de pernas, ou serão braços?, e trazem ventosas de origem, aquilo é capaz de se querer meter no nariz se der uma chicotada no ar pelo caminho, nunca se sabe, e depois para descolar?


Eu cá penso que se torna bastante conveniente, ao almoço, ter tudo quietinho no prato.