- Chegou a ver-me do livro?
A dona Esmeralda é daquelas pessoas que acorda às cinco horas da manhã desde antes de ela própria ter nascido e que nunca se atrasa em nada, tudo o que faz é para adiantar, prepara o dia seguinte porque se cá já não estiver, ninguém terá de fazer o trabalho por ela, esfrega e lava diariamente o que a meu ver seria feito de acordo com a necessidade a cada três dias.
- Não, dona Esmeralda, esqueci-me, desculpe. Trago amanhã.
Eu nasci depois do tempo, creio estar sempre em atraso, não me levantei nunca às cinco da manhã senão quando o telefone tocou com a pior notícia da minha vida, vivo desde que me lembro numa espécie de certeza de estar em falta, mas isso talvez se deva apenas ao facto de receber da vida mais do que dou. Não me tinha verdadeiramente esquecido do livro, mas precisava de mais tempo para o escolher, caso que não quis explicar-lhe naquele momento em que ela varria o chão da cantina e eu passava com um café na mão e a urgência do trabalho à espera.
- Não faz mal, se me trouxer para o fim de semana pode ser, não é pressa.
A filha e as netas da dona Esmeralda orbitavam em redor dela e da sua cozinha até há dias. As voltas que a vida dá sem lhe serem pedidas, levaram o orbitar da sua família para longe, sobretudo longe para quem terá de se servir de comboio, barco e autocarros para as visitas, que não podem ser frequentes.
- Trago amanhã, dona Esmeralda - prometi.
A cozinha é, como sabemos, o coração de uma casa, é nela que nasce o aroma do café e o da laranja acabada de espremer pela manhã, é ela que inspira as melhores conversas, foi nela que criei este blogue, entre o fim de um jantar e o arrumar da loiça. Imagino a cozinha da dona Esmeralda sempre quente e arrumada, um rádio ligado baixinho em cima de um naperon branco feito por ela, em crochet, em serões frente ao televisor no tempo em que o marido era vivo. O rádio ligado baixinho não imagino, é verdade, no momento em que me pediu um livro, um que não faça chorar, um que seja levezinho de ler, está a ver? contou-me do rádio, eu disse que sim, que estava bem, nada de livros que fazem chorar, o rádio fica ligado para o canário se distrair, coitadinho, o dia todo sozinho, o irmão deu-lhe o canário para compensar o vazio que agora o livro deve ajudar a preencher.
Visitei as minhas estantes de livros com os requisitos da dona Esmeralda em mente, este não, ela vai chorar, aquele talvez seja muito rebuscado, este aqui não me parece que lhe capte a atenção, precisei de mais tempo do que esperava para me decidir, na verdade foi tarefa muito mais difícil do que supunha. Escolhi dois para aumentar as minhas possibilidades de acertar. Um livro de contos da Isabel Allende que li muito antes de ser mãe e me fez desejar ter uma filha - vim a ter duas - e o livro das pequenas memórias de Saramago que a mim fez chorar mas talvez a ela não faça. Não podia emprestar-lhe livros que não me tinham marcado o coração. Expliquei-lhe no dia seguinte, no cantinho do café onde a apanhei depois do almoço dela, que esse sim é tarde, a seguir ao de toda a gente, os meus porquês de lhe ter levado aqueles dois livros.
E agora estou aqui a pensar que, indo o fim de semana a meio, talvez um dos livros também já o vá e mal posso esperar por segunda feira para saber qual.
20/12/2015
15/12/2015
Vertigem
Sempre me lembro de carregar o medo de me deixar cair no puré
morno interior e escuro, sem fim, que sabes, este que mantenho especialmente
fechado dentro da caixa forte em aço escovado para nem sequer brilhar. Nela sei
aprisionar a voz dos séculos que desdobrada lê mensagens de outros milénios
nossos e mais nada agora para não doer. Confere-me, porém, a certeza de ser
imortal. Por causa da vertigem que vem toda de mel, que me queres escorrer
lânguida para o milenar eu, é que tenho o medo. Pode cá haver dentro essa
poesia, isso pode. Essa tão quente e cheia, que se me perco engolida nela é por
inteiro que vamos e depois é capaz de, quando eu regressar, o pobre mundo já
estar rodando em dois mil e duzentos pedaços a sul, e ao erguer-me? serei
atingida por um vazio estranho de um tempo sem nós, desmoronado. Portanto
finco-me à superfície do eu, não caio não. Sei parecer a olhos muitos algo
quase nada, um todo murcho, um ramo seco ante ideais gravados em promoção nas
capas brilhantes de folhetos grátis, personagem sem nome, sei parecer, e sem
unicidade, um programa fictício de domingo à tarde, um arrancar de bocejos às
pedras.
Levo-me pois à cozinha. Ponho a
cafeteira a funcionar – o anteceder do café é sempre feliz - e deixo-me já
tomar pelo aroma que mergulha-me bem, entras-me logo sem medo neste toda-eu sem
fim.
Sento-me com a chávena a
fumegar delícias frutadas de alívios indefinidos para me pôr a escrever devagar
sobre a luz. Não essa tua do olhar, mas a do farol do meu carro que finalmente
se fundiu, eu sabia - é a oficina, o pagamento, o número de contribuinte e um
suspiro furtivo: porque à tona fico, embora mortal, a salvo de mim.
10/12/2015
Incubadora de posts dá nisto
Voltei a usar o meu caderno de notas para incubadora de posts, daqui em diante acabou-se o ai-eu-não-me-esqueço. Esqueço. As ideias são tão perecíveis como a flor da magnólia ou os morangos.
Posto isto - brincadeirinha com a palavra - posto isto:
Hoje jantei sozinha, quer dizer, com um livro. Mas um livro de tal maneira grosso que não queria manter-se aberto com o peso próprio das duas metades, não obstante uma bem maior que a outra, e fechava-se enquanto eu cortava o frango com os olhos no prato. Meto-lhe, então, depois de o voltar a abrir, o comando da televisão atravessado em cima das páginas abertas, mas o pobre também não tem peso próprio para desempenhar a tarefa e o livro dá-lhe uma dentada franca, chláp. Considerei ir buscar mais comandos de televisão, da playstation três, etc, devo ter uns seis em casa ou sete se contar com a wii, mas devido a não serem transparentes, a leitura tornar-se-ia impossível ou muito difícil entre duas garfadas bem cortadinhas de frango junto a um livro coberto de comandos remotos atravessados.
Mas vamos ao ponto. Acabei então de comer sem ler e no fim sobrou um bocado do vinho no copo, perfeita ocasião para dar alimento finalmente aos meus famintos olhos. Começámos, mas o vinho pediu um pedaço pequeno de chocolate negro para brincar na boca. Dei-lho, até lhe dei dois, para ele sossegar e me deixar ler. E então, às linhas tantas, solto uma gargalhada muito boa, tão boa que me lancei em notas na incubadora de posts por causa dela. A magnífica Clarice Lispector estava a contar-me na página aberta que usa máquina de escrever (o meu nível de interesse sobre a questão intensificou-se porque aquilo foi escrito enquanto eu me incubava dentro de minha mãe, fiz as contas), e usa máquina de escrever no colo. Como se a máquina fosse uma pessoa. Que a máquina lhe provoca pensamentos e sentimentos, que lhe capta subtilezas e, depois, a gargalhada minha aqui: "Eu gostaria de dar um presente a minha máquina".
Quando parei de rir, disse à página aberta que adoro isto de oferecer presente a máquina de escrever, que ela é maravilhosa por se lembrar de coisa assim, que se eu pudesse ir ver a Clarice ao Brasil eu ia, mas lembrei-me de repente de uma coisa. Eu já fiz pouco, gozei mesmo a sério, quase achincalhei, em outros natais, as minhas duas irmãs que tinham cães, cada uma o seu. Só porque elas ofereciam presentes aos cães. Ao próprio e ao cão-sobrinho. E isto eu sempre achei parvinho. Mesmo mesmo parvinho. E só conto hoje aqui no post porque agora já não acho.
Posto isto - brincadeirinha com a palavra - posto isto:
Hoje jantei sozinha, quer dizer, com um livro. Mas um livro de tal maneira grosso que não queria manter-se aberto com o peso próprio das duas metades, não obstante uma bem maior que a outra, e fechava-se enquanto eu cortava o frango com os olhos no prato. Meto-lhe, então, depois de o voltar a abrir, o comando da televisão atravessado em cima das páginas abertas, mas o pobre também não tem peso próprio para desempenhar a tarefa e o livro dá-lhe uma dentada franca, chláp. Considerei ir buscar mais comandos de televisão, da playstation três, etc, devo ter uns seis em casa ou sete se contar com a wii, mas devido a não serem transparentes, a leitura tornar-se-ia impossível ou muito difícil entre duas garfadas bem cortadinhas de frango junto a um livro coberto de comandos remotos atravessados.
Mas vamos ao ponto. Acabei então de comer sem ler e no fim sobrou um bocado do vinho no copo, perfeita ocasião para dar alimento finalmente aos meus famintos olhos. Começámos, mas o vinho pediu um pedaço pequeno de chocolate negro para brincar na boca. Dei-lho, até lhe dei dois, para ele sossegar e me deixar ler. E então, às linhas tantas, solto uma gargalhada muito boa, tão boa que me lancei em notas na incubadora de posts por causa dela. A magnífica Clarice Lispector estava a contar-me na página aberta que usa máquina de escrever (o meu nível de interesse sobre a questão intensificou-se porque aquilo foi escrito enquanto eu me incubava dentro de minha mãe, fiz as contas), e usa máquina de escrever no colo. Como se a máquina fosse uma pessoa. Que a máquina lhe provoca pensamentos e sentimentos, que lhe capta subtilezas e, depois, a gargalhada minha aqui: "Eu gostaria de dar um presente a minha máquina".
Quando parei de rir, disse à página aberta que adoro isto de oferecer presente a máquina de escrever, que ela é maravilhosa por se lembrar de coisa assim, que se eu pudesse ir ver a Clarice ao Brasil eu ia, mas lembrei-me de repente de uma coisa. Eu já fiz pouco, gozei mesmo a sério, quase achincalhei, em outros natais, as minhas duas irmãs que tinham cães, cada uma o seu. Só porque elas ofereciam presentes aos cães. Ao próprio e ao cão-sobrinho. E isto eu sempre achei parvinho. Mesmo mesmo parvinho. E só conto hoje aqui no post porque agora já não acho.
08/12/2015
A professora de matemática
Lembro-me bem dela, chamava-se Helena e o nome assentava-lhe bem, pela elegância. Eu tinha onze anos e ela era alta, o seu cabelo bonito. Era a minha professora de matemática. Mandava-nos ao quadro fazer exercícios e falava com voz firme, quente e calma. Era mulher que me inspirava respeito e admiração, era muito bonita a professora Helena e eu queria ser como ela. Naquela altura eu tinha - tínhamos todas, era uma moda - um livrinho de autógrafos. No final de uma aula de matemática, pedi um autógrafo à professora. Ela escreveu que me desejava felicidades na minha vida académica e privada. Fui ver "académica" ao dicionário. A letra dela era alta e elegante, a condizer-lhe com o nome, Helena. Lembro-me que escreveu a azul. Um dia a professora de matemática faltou, um dia, dois, uma semana, ouvimos dizer que estava doente. Doente também eu tinha estado, e as minhas irmãs, o xarope ajudava e as atenções da nossa mãe também, por isso não me importava nada o estar doente, pensava que era normal estar doente. Continuei a correr no recreio com as minhas colegas, a jogar ao mata ou a saltar à corda, que era a minha especialidade. As meias de lã até ao joelho que tínhamos de usar - era um dos requisitos da farda - tinham a mania de escorregar até formarem um fole no tornozelo. Havia muitas meninas a puxar as meias para cima no recreio, uma meia, depois a outra.
Quando a professora de matemática voltou, aproveitei o final de uma aula, aproximei-me da secretária quando ela estava a escrever no livro dos sumários e perguntei-lhe que doença ela tinha tido. Olhou para mim e hesitou. É uma doença das senhoras, disse por fim. Doença das senhoras. Fiquei mais um segundo ou dois à espera de saber qual doença era essa das senhoras, mas ela baixou a cabeça e continuou a escrever. A professora Helena tinha duas filhas a estudar lá no colégio, eram mais velhas do que eu e por isso não me atrevi a perguntar-lhes de que doença das senhoras se tratava. Pouco tempo depois a professora Helena tornou a faltar e veio outra cujo nome não me lembro, nem se era alta ou como era. A professora Helena desta vez não voltou. Soubemos pouco depois que morrera da doença das senhoras. Fiquei muito triste e horrorizada por ela ser tão nova, pensava que só as velhinhas morriam, pensei que se a minha mãe morresse eu também morreria, que uma mãe não podia morrer, era proibido as mães morrerem e senti uma dor aflita e terrível pelas filhas dela, não sabia como se respirava se a mãe morresse, como se fazia para o coração bater. Não me atrevi a aproximar-me delas quando retomaram as aulas, limitei-me a observá-las discretamente no recreio. Mas notei, nestas observações, que elas continuavam a correr como dantes, que as meias também lhes escorregavam para os tornozelos, tal como as das meninas que, como eu, tinham mãe. E que elas também as puxavam para cima, uma meia, depois a outra. E foi precisamente isto que, ao fim de algum tempo, me sossegou.
Quando a professora de matemática voltou, aproveitei o final de uma aula, aproximei-me da secretária quando ela estava a escrever no livro dos sumários e perguntei-lhe que doença ela tinha tido. Olhou para mim e hesitou. É uma doença das senhoras, disse por fim. Doença das senhoras. Fiquei mais um segundo ou dois à espera de saber qual doença era essa das senhoras, mas ela baixou a cabeça e continuou a escrever. A professora Helena tinha duas filhas a estudar lá no colégio, eram mais velhas do que eu e por isso não me atrevi a perguntar-lhes de que doença das senhoras se tratava. Pouco tempo depois a professora Helena tornou a faltar e veio outra cujo nome não me lembro, nem se era alta ou como era. A professora Helena desta vez não voltou. Soubemos pouco depois que morrera da doença das senhoras. Fiquei muito triste e horrorizada por ela ser tão nova, pensava que só as velhinhas morriam, pensei que se a minha mãe morresse eu também morreria, que uma mãe não podia morrer, era proibido as mães morrerem e senti uma dor aflita e terrível pelas filhas dela, não sabia como se respirava se a mãe morresse, como se fazia para o coração bater. Não me atrevi a aproximar-me delas quando retomaram as aulas, limitei-me a observá-las discretamente no recreio. Mas notei, nestas observações, que elas continuavam a correr como dantes, que as meias também lhes escorregavam para os tornozelos, tal como as das meninas que, como eu, tinham mãe. E que elas também as puxavam para cima, uma meia, depois a outra. E foi precisamente isto que, ao fim de algum tempo, me sossegou.
06/12/2015
O espírito do natal e por que fiz eu um blogue
Num dia em que subi ao escadote cinco vezes, comprei um
calendário aos escuteiros à porta do centro comercial, num dia em que temperei
o peito de peru para o jantar de amanhã, em que bebi um cappuccino preparado
pela minha filha mais nova, num dia em que comprei atacadores para as botas
antes de os velhos se romperem por completo, em que ouvi numa loja uma mulher velhota e muito bem arranjada dizer a outra mais nova que quando ele se cruza com ela no elevador, por ter uns olhos azuis que
parecem água e um sorriso maravilhoso, ela ganha o dia, num dia assim percebi, numa espécie de epifania de cristal, embrulhada no calor do aquecedor que está junto de mim num sopro contínuo,
entre uma linha e outra do meu trabalho caseiro, entre uma nota e outra do
concerto para piano número dois de Rachmaninov, sentada no canto onde ainda não está armada a árvore de
natal dois mil e quinze porque o espírito natalício não me chegou este ano, ainda não, percebi que o
que me levou a criar um blogue não foi a vontade de escrever. Foi uma vontade mais
nuclear, mais essencial, foi uma necessidade. A de alargar a celebração da vida
para fora de mim. Transbordava eu, sempre foi assim, de celebrações solitárias que
caíam ao chão, enterravam-se no cimento das pedras, eram lavadas com a chuva, evaporavam-se no verão, seguiam nas asas das gaivotas que as largavam no mar, fugazes. Ó mãe tu gostas de tudo! disse
a mais nova aos quatro anos porque eu todas as manhãs achava a praia linda na
fila da marginal, meninas, olhem, a praia está linda (e estava mesmo). Nunca me importei de perder um jogo de cartas
ou qualquer jogo, ou em corridas com as minhas irmãs, jamais empurrei as outras
raparigas do colégio para subir primeiro na carrinha que nos levava a casa, subia
em último mas havia sempre um lugar para mim (apenas tinha mais trabalho em descobrir
qual). As minhas celebrações interiores de vida chegavam-me. Chegam-me. Não quis
ser a melhor, não me era
necessário, continua a não ser, fui algumas vezes a pior e até chorei sem ninguém ver, depois as mãos limparam as lágrimas, o nariz fungou pela
última vez e os minutos continuaram a passar, veio um bom e depois mais vieram.
E fui uma das melhores num momento ou noutro, dádiva que me fez subir às nuvens
de um céu azul. Basta-me olhar ao espelho e constatar que não há ninguém
igualzinha a mim, nem entre as minhas irmãs: num
caso a voz, noutro as mãos, não mais que isso. Portanto, o meu lugar é meu.
Seja ele qual for, na carrinha do colégio, na cadeira em
que me sento sem árvore de natal, o Carl Sagan tinha razão, sou única.
E tu também és.
Este momento que partilhamos porque nascemos no mesmo
século (tens entre quinze e cento e quinze anos?), estamos aqui no mesmo tempo, entendemos a mesma língua, não te importas de ler o português do acordo ortográfico de que pouca gente gosta e dás a tua
voz às minhas palavras: era mesmo isto que eu queria. A celebração já não é
minha, é nossa: cresceu, viverá.
(estou aqui estou a achar que isto é amor… mas no natal pode-se,
alarga-se o amor um bocado, ninguém estranha nem dá medo e depois faz bem)
(ou seja, acabou de me chegar o espírito)
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