De manhã cedo ajudei-te com a impressora e o trabalho para entregares ao professor. Precisamos do tinteiro de cor, ficaram as figuras desmaiadas, ainda assim, não faz mal, disseste, dá para ver bem. Deixei-te, pouco depois, no portão da escola e segui para o trabalho. Levava comigo a memória amarga das tuas lágrimas de ontem, as que foste esconder no duche depois do treino. Levava também a angústia de não saber se serei capaz.
"Mãe, podes almoçar comigo?" dizia a mensagem que chegou a meio da manhã.
Apanhei-te ao portão à hora combinada, desta vez não me fizeste esperar. Almoçámos ao sol que Lisboa nos deitou e eu encontrei no fundo manso dos teus olhos grandes, coabitando com a esperança original intacta, o medo desajustado, este medo novo, um medo que não é o do escuro nem o do lobo mau, esses morriam fáceis nas palavras que me ouvias, eu era então capaz. É um medo feito agora mensagem que não sabes enviar por não a poderes ainda formular. Capto-a, porém, descodificada. Guardo-a no coração embrulhada em amor pronto a usar, mesmo à mão para te servir de amparo, filha, se for capaz.
Continuas a falar mostrando-me, sem saberes, a luta que se trava trôpega dentro do teu cândido existir e o meu embrulho começa a abrir-se. Sai-me agora em silêncio pelos poros num calor que te quer enlaçar a alma para sempre, revestir-te de uma camada de força inquebrável, maior que o sol e o rio e leve como o pôr de um sol de verão quente, um seguro de vida protegida por este meu doer que me teria começado também a jorrar pelos olhos em estado líquido, não fosse um pardal pousar na árvore nua junto de nós.
- Está ali um pardal, mãe.
Ficámos ambas a olhá-lo saltitar entre os galhos enquanto ele foi nosso. Depois, quando voou para fora do teu alcance, voltaste esses olhos grandes de novo para mim e sorriste.
- Já estou melhor.
Eu também, filha. Tu ainda não sabes que serás capaz. Mas eu sei.
30/01/2016
26/01/2016
Post mau, mas mau
Está uma pera rocha (com autocolante de origem) dentro da gaveta de baixo lá da minha secretária. Também está uma embalagem de chá e um pacote de bolachas, migalhas, duas chaves unidas por um porta chaves com chapinha plástica em azul, um frasco vazio (gosto muito de frascos vazios) e um postal que recebi num natal de há muito tempo, antes de deixar de receber postais de natal em postal de natal (isto percebe-se) mas de quem é o postal já não me lembro, amanhã verifico logo assim que me lembrar.
O que não se percebe é o interesse deste post. Ando às voltas.
Na segunda feira cheguei ao trabalho atrasada uns três minutos para a reunião, por causa da mania de ir ver o rio mais de perto e tentar definir-lhe a cor todos os dias. Desta vez, com aquela chuva toda, estava cinzento-apodrecido-no-verde. Quando entrei na minha sala espavorida e ouvi o zzzzzz do aquecedor que uso em vez do ar condicionado que a sala não tem (o ar condicionado nunca gosta de mim, é recíproco), senti a lâmina da culpa a ferir-me com uma ideiazinha assim: para além de chegares a estas lindas horas, ainda deixaste o aquecedor ligado todo o fim de semana, sua mula (quando eu estudava coisas difíceis para a faculdade em casa do meu pai e de repente descobria um erro, dizia isto, ah, estúpida!, ao que o meu querido pai, se me ouvia, respondia como quem fala sozinho, cá em casa não se contraria ninguém, um amor), lancei-me então ao interruptor e desliguei-o logo para poupar energia ali mesmo, depois abri o computador e fiz as coisas do costume muito depressa, corri escadas acima para a reunião e pus-me a pedir desculpa às pessoas, apertei-lhes as mãos, mas afinal tudo ainda no café, easy on, as eleições e o benfica também. Mais tarde, já de volta à minha sala, aparece a dona Rita, que é a brasileira que faz as limpezas lá do escritório e chega antes de mim. Mete a cabeça dentro da sala, um grande sorriso, está sempre bem disposta a dona Rita: intão, goztô? 'tava quentjinho dji manhã, tava? eu vim limpá e liguei o quentjinho p'ra siôra!
Continuo às voltas. Apetece-me amuar outra vez. Fazer uma birra. Quero o Xilre de volta. (eu e mais milhões, ou não?)
(e impostos para isto, ó Palmier? taxas, multas?... nada?... temos que aguentar?)
O que não se percebe é o interesse deste post. Ando às voltas.
Na segunda feira cheguei ao trabalho atrasada uns três minutos para a reunião, por causa da mania de ir ver o rio mais de perto e tentar definir-lhe a cor todos os dias. Desta vez, com aquela chuva toda, estava cinzento-apodrecido-no-verde. Quando entrei na minha sala espavorida e ouvi o zzzzzz do aquecedor que uso em vez do ar condicionado que a sala não tem (o ar condicionado nunca gosta de mim, é recíproco), senti a lâmina da culpa a ferir-me com uma ideiazinha assim: para além de chegares a estas lindas horas, ainda deixaste o aquecedor ligado todo o fim de semana, sua mula (quando eu estudava coisas difíceis para a faculdade em casa do meu pai e de repente descobria um erro, dizia isto, ah, estúpida!, ao que o meu querido pai, se me ouvia, respondia como quem fala sozinho, cá em casa não se contraria ninguém, um amor), lancei-me então ao interruptor e desliguei-o logo para poupar energia ali mesmo, depois abri o computador e fiz as coisas do costume muito depressa, corri escadas acima para a reunião e pus-me a pedir desculpa às pessoas, apertei-lhes as mãos, mas afinal tudo ainda no café, easy on, as eleições e o benfica também. Mais tarde, já de volta à minha sala, aparece a dona Rita, que é a brasileira que faz as limpezas lá do escritório e chega antes de mim. Mete a cabeça dentro da sala, um grande sorriso, está sempre bem disposta a dona Rita: intão, goztô? 'tava quentjinho dji manhã, tava? eu vim limpá e liguei o quentjinho p'ra siôra!
Continuo às voltas. Apetece-me amuar outra vez. Fazer uma birra. Quero o Xilre de volta. (eu e mais milhões, ou não?)
(e impostos para isto, ó Palmier? taxas, multas?... nada?... temos que aguentar?)
24/01/2016
Pequeno post em noite de lua cheia
O rapaz veste-se bem. Digo rapaz porque sei que ele tem menos dez anos que eu. Num dos dias da semana passada, quando estávamos na reunião do costume, reparei que usava uns botões de punho especialmente bonitos. Vi primeiro só um, tinha a forma de uma motorizada vespa, era de um azulão proporções perfeitas. Quando dei por mim já lhe estava a perguntar se o outro botão de punho também representava uma motorizada igual (imaginei que podia ser uma cabine telefónica vermelha ou um semáforo no verde). Sim, o outro é igual, mostrou-o. O meu colega que também lá estava, homem mais dado aos resultados do Benfica e ao desporto em geral, que sabe imitar muito bem o Tino de Rans nas suas declarações sobre a visita que fez a Bruxelas, nunca nos contemplaria com botões de punho em dia de trabalho, muito menos daqueles, franziu a testa como quem pensa mas que mariquice é essa. São muito giros, disse eu.
- Os meus filhos é que gostaram deles, pediram-me para comprar estes - os filhos dele, sabemos, são dois rapazes: um com três anos, o outro com quatro.
Se, em vez destes botões de punho, o rapaz ostentasse um par de quadrados bojudos em aço escovado a lembrar chicletes, os quais não me teriam arrancado pergunta alguma nem ao meu colega o consequente franzir de testa, eu não passaria a respeitá-lo ainda mais nem estaria agora a produzir este pequeno post em noite de lua cheia.
- Os meus filhos é que gostaram deles, pediram-me para comprar estes - os filhos dele, sabemos, são dois rapazes: um com três anos, o outro com quatro.
Se, em vez destes botões de punho, o rapaz ostentasse um par de quadrados bojudos em aço escovado a lembrar chicletes, os quais não me teriam arrancado pergunta alguma nem ao meu colega o consequente franzir de testa, eu não passaria a respeitá-lo ainda mais nem estaria agora a produzir este pequeno post em noite de lua cheia.
22/01/2016
Quedas de dois mil e dezasseis, segunda e última parte por enquanto
No
sábado passado já tinha dito que jantei em casa da minha irmã e que ela tem
três filhos digo agora. Para além do marido e de um cão. O filho mais novo vai
nos três anos e tem larga experiência de jogo de bola, chuta tudo o que apanha,
mete sempre golos e até tentou agarrar a lua cheia no verão para meter mais um.
No entanto, de comer não gosta. À hora do jantar, esconde-se debaixo de uma cadeira ou aninha-se
entre o aparador e a parede, que o seu tamanho está de acordo
com o fraco garfo que é. Dado talvez a pesadelos próprios para a idade, o meu sobrinho por
vezes sonha que bebeu vários biberons de leite. Ao acordar, pela manhã, quando lhe
põem à frente o biberon com leite morno - bebe, Rodrigo - protesta e diz eu já bebi cinco leites! Vá lá, bebe então só um golinho desse leite, ele cede e vai um golinho, já 'tá. E agora só mais um,
bebe, Rodrigo. Ele bebe mais um e depois mais outro, sempre a pedido, até que,
distraído, bebe o biberon inteiro e no fim, indignado: Olha p'a isto! bebi tudo! agora vai
doer a barriga!
Mas a barriga que no sábado doeu não foi esta.
Mas a barriga que no sábado doeu não foi esta.
Quando saímos, já tarde, de casa da minha irmã, estava escuro no caminho
que dá acesso ao portão e eu ia com frio por causa daquele vento agreste de
janeiro à noite. Caminhava virada para trás a dizer adeus adeus,
obrigada pelo jantar, a acenar aos meus sobrinhos, de maneira que não vi um concentrado de dor de barriga de cão que tinha sido depositado
ali no meio do caminho às escuras, ela ainda disse cuidado!, a minha irmã, mas
o meu pé assentou-lhe bem em cima deslizando logo de seguida obediente às leis
do costume, era uma dor de barriga recente, o movimento levou-me uma parte
importante do equilíbrio, o outro pé veio acudir ao susto, tentar devolver
verticalidade ao corpo, mas não, espera, vai lá mais três passos em dança acrobática
improvisada, a ver se a coisa se compõe, não se compôs. O chão acabou por me
abraçar firme, com a força de um chão duro me acolheu, especialmente num
joelho. Reergui-me de um salto e num instante devolvi-me as pernas ao sítio, sacudi o casaco e sosseguei todos que tinham vindo ver de perto, não foi nada.
Ficou só a faltar dar um pontinho nos collants que o chão rasgou; dar um pontinho dizia a minha avó que,
se fosse viva e me lesse o blogue, havia de acrescentar assim: abre lá isso dos comentários,
filha, anda.
(as palavras que recebi desde há dois
posts a propósito de ter fechado os comentários, fizeram-me mudar de
ideias; parece que afinal este blogue não é só meu, tornou-se nosso)
21/01/2016
Post nada sexy porém com teaser
Peguei no computador portátil para o fechar e meter na mala de transporte, no momento em que a ponta do cabo se largou à doida para o lado esquerdo num jeito muito rápido e derrubou o camelo amarelo de plástico que está em cima da minha mesa de trabalho a declarar amor ao Qatar desde dois mil e treze. Mas derrubou-o cá de uma maneira que o meu pequeno camelo caiu ao chão com estrondo, aquilo é um plástico amarelo maciço, ou então é uma espécie de massa, agora estou na dúvida, o camelo coitadinho partiu as duas pernas de trás mas como eu ia com pressa para a reunião, deixei-o deitado em cima da mesa a descansar perto das suas pernas, I love Qatar há tanto tempo cansa com certeza, a ver se amanhã peço ao Luís para colar as pernas do camelo, aposto que nem se fica a notar.
Isto foi hoje mas não foi tudo. Depois da tal reunião e de encontrar o vizinho do quarto andar que me fez chegar tarde à aula de ginástica com a conversa dele muito cheia de nove horas, entrei largada no ginásio, pendurei o casaco e a mochila no cabide e fui a correr para o lugar apanhar o exercício de aquecimento onde ele já ia.
- Tenho duas aulas preparadas, preferem bolas ou salsa? - a professora lança a questão no final do aquecimento e eu, que detesto as bolas porque caio delas abaixo e magoo-me nos cotovelos e em outros ossos, as bolas são de borracha, moles mas não muito, e têm de perímetro mais de um metro, não ficam quietas nem sob o meu peso. Fui a primeira a responder, salsa! As outras colegas secundaram-me e os dois homens da classe, cavalheiros, disseram baixinho que preferiam as bolas, mas como estavam em minoria, encolheram os ombros e avançámos alegremente para a salsa. O que eu não contava nos meus cálculos contra as bolas e o esticanço que a professora nos obriga a fazer deitadas em arcos dolorosos para as costas, nada sexy e muito feio aquilo, era que o chão do ginásio estava muito escorregadio. Nas voltas da salsa comecei a escorregar, mas recuperei o primeiro pé. O segundo também e o terceiro. Logo após ter evitado a quinta ou sexta queda, eu já numa salsa contida, muito menos ampla e mais lenta, a professora intervala para irmos beber água. Junto ao cabide onde estão as mochilas com as garrafas de água, perguntei aos outros se estavam a escorregar, estavam. Mas naquele seu sítio é pior, vá para ali, disseram-me, no outro lado escorrega menos. Arrumei a garrafa dentro da mochila, fui. No novo canto larguei-me outra vez, entreguei-me à salsa, confiante no chão dei expressão ao meu corporal, mais expressão, senti o movimento voltar a tomar conta de mim e de repente, num vira dali, sinto o estúpido do chão a espalmar-me a anca esquerda a doer e na cara também e oiço um ahhhhhh... magoou-se?
Se entretanto não me partir toda, amanhã ou depois sou capaz de contar a outra queda que dei, a de sábado passado. Aquilo do camelo foi apenas um aperitivo para preparar o leitor mais desavisado. E a este final chama-se teaser, gosto muito.
Isto foi hoje mas não foi tudo. Depois da tal reunião e de encontrar o vizinho do quarto andar que me fez chegar tarde à aula de ginástica com a conversa dele muito cheia de nove horas, entrei largada no ginásio, pendurei o casaco e a mochila no cabide e fui a correr para o lugar apanhar o exercício de aquecimento onde ele já ia.
- Tenho duas aulas preparadas, preferem bolas ou salsa? - a professora lança a questão no final do aquecimento e eu, que detesto as bolas porque caio delas abaixo e magoo-me nos cotovelos e em outros ossos, as bolas são de borracha, moles mas não muito, e têm de perímetro mais de um metro, não ficam quietas nem sob o meu peso. Fui a primeira a responder, salsa! As outras colegas secundaram-me e os dois homens da classe, cavalheiros, disseram baixinho que preferiam as bolas, mas como estavam em minoria, encolheram os ombros e avançámos alegremente para a salsa. O que eu não contava nos meus cálculos contra as bolas e o esticanço que a professora nos obriga a fazer deitadas em arcos dolorosos para as costas, nada sexy e muito feio aquilo, era que o chão do ginásio estava muito escorregadio. Nas voltas da salsa comecei a escorregar, mas recuperei o primeiro pé. O segundo também e o terceiro. Logo após ter evitado a quinta ou sexta queda, eu já numa salsa contida, muito menos ampla e mais lenta, a professora intervala para irmos beber água. Junto ao cabide onde estão as mochilas com as garrafas de água, perguntei aos outros se estavam a escorregar, estavam. Mas naquele seu sítio é pior, vá para ali, disseram-me, no outro lado escorrega menos. Arrumei a garrafa dentro da mochila, fui. No novo canto larguei-me outra vez, entreguei-me à salsa, confiante no chão dei expressão ao meu corporal, mais expressão, senti o movimento voltar a tomar conta de mim e de repente, num vira dali, sinto o estúpido do chão a espalmar-me a anca esquerda a doer e na cara também e oiço um ahhhhhh... magoou-se?
Se entretanto não me partir toda, amanhã ou depois sou capaz de contar a outra queda que dei, a de sábado passado. Aquilo do camelo foi apenas um aperitivo para preparar o leitor mais desavisado. E a este final chama-se teaser, gosto muito.
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