Olho muito azul por trás dos óculos, sujos. A casa também. E desarrumada, aliás caótica. Cheirando a urina, gritando abandono. Magro, as calças parecem querer cair-lhe. O cabelo, farto, já terminou de branquear, é como neve. São os primeiros passos para a senilidade, dizem-me os meus sensores. Não percebo mais de dez por cento do que ele diz.
Não quer vender a casa: mas divorciou-se e tem de vender a casa. Mostra, orgulhoso, o seu belo jardim. Mesmo ao lado de uma escola primária onde, à hora do recreio, se ouvem os meninos brincar, lançar cristais de palavras imberbes e gritos felizes para o ar. Frio.
- É um sinal de vida – diz-nos, justificando o sorriso.
Há demasiadas terças-feiras que eu vinha achando ela triste.
Não ficava falando o caminho todo, não fazia perguntas nem vinha dando resposta
a ela mesma, não contava do treino, não dava opinião, não reclamava do
treinador, nada. Na última terça-feira, eu quebrei o silêncio e disse
- Joana, tu tens andado triste, o que foi?
- Eu?!
- Sim, tu.
Joana é uma das jogadoras de vóleibol que eu entrego em casa
toda terça-feira à noite depois do treino (se esta postagem estiver parecendo de terras de vera cruz,
está certo). Minha filha Saminhas, que (óbvio) também vem no carro, ficou
me secundando
- É verdade, Joana, tu andas triste.
- Ah… é que eu estou a jogar mal, mesmo mal. E fico irritada
comigo mesma...
Hoje, terça-feira, Joana vinha correndo e saltando, sim, ela é de correr e saltar, até chegar em meu carro. Eu desligo a Antena dois para não
perturbar o papo que vai rolar, ela entra e boa noite!!!!! - óbvio que a nuvem
finalmente se dissipou.
- Olá Joana, vejo que o treino hoje correu melhor…
- Correu!! Falei com o treinador e pedi-lhe para mudar de posição
no campo. Ele ficou admirado com o meu pedido, mas diz que talvez dê para mudar!!
As outras meninas também já sentaram, para além de Saminhas vem a Bárbara junto com ela, apertaram os cintos e eu faço minha parte: pé na tábua (mas
óbvio que pouco).
- Então foi isso que te pôs de novo a Joana que conhecemos?
- Acho que não tanto... Eu já ia assim para o treino… Foi
hoje no ginásio – Joana trabalha num ginásio depois das aulas – a minha
patroa pediu-me para pôr música a tocar, uma música que eu gosto, e eu pus,
adorei!! Fiquei a cantar e a dançar, adoro música brasileira! Foi tão bommmm!!!
E eu, que não oiço só a Antena dois e gosto desta miúda mas
é muito, ligo de novo o rádio do carro e seleciono o CD que está inserido*, coloco
o volume bem no máximo e digo, ou talvez eu grito:
- Vê lá se gostas desta!
O caminho por essa cidade afora foi com as meninas dançando de braços no ar, eu apenas cantando bem alto, meus braços vão
dirigindo. Então a Joana grita
- Não sabia que a mãe da Saminhas também ouvia esta música, pensava
que era só clássica!!
Estamos paradas no semáforo, lembro que a música está bem
alta e as meninas dançando de braços no ar e cantando e então olho o condutor parado do meu lado esquerdo, o
único a esta hora (que já 'tá tarde), quem sabe ele está se incomodando
com a nossa barulheira, apesar de termos os vidros subidos. O condutor olha em
frente, ‘tá nem aí, quietinho, 'tá bem na dele e eu vejo que… olha! Eu conheço
ele!! É tão-só o presidente de um dos meus clientes!… No entusiasmo deste som, tenho o impulso de baixar
o meu vidro, dar uma apitinha na buzina, acenar, dizer olá…..
Mas depois, não. Melhor não.
*
(quando, daí a três músicas mais, a Joana saiu do carro, disse "que pena a viagem ser tão curta")
Vinha a pensar duas coisas ao mesmo tempo enquanto conduzia
o carro. O céu estava daquele azul que dói, de lindo que é. Eu só me dá é vontade
de olhar o céu e não tanto a autoestrada num caso destes. Nas laterais do asfalto, ainda
por cima, pululavam florzinhas de um amarelo estonteante a puxar a vista pelo canto
do olho com tanta força que caramba, não sei se é a primavera. A verdade é
que se registaram as cores de hoje muito lindas. E fazem o piso
alcatroado de um cinzento com laivos tão feio que não dá vontade de olhar para
ele, aliás nenhuma vontade (deve ser por isso que algumas pessoas optam por
olhar para o seu próprio telemóvel suponho que inteligente enquanto conduzem os
carros um bocado aos ziguezagues). Mas a gente poucas vezes pode fazer aquilo
que quer, por isso eu agora quero contar que vinha a pensar, por um lado, que
passo demasiado tempo dentro do carro e estou a ficar completamente farta dele,
por outro lado, ocorreu-me que sou uma pessoa sem glúten há uns vinte dias. E também
sou sem lactose e ainda sem açúcar adicionado. No entanto sobre o açúcar não dou
garantias (por causa da fruta). E isto para quê, mesmo, se faz favor? Para me
livrar dos quilos que eu trazia a mais, dado que não preciso deles. De modo que
devolvi já metade ao mundo, só falta o resto.
Tirando isto, o papagaio tem andado metidinho dentro do quiosque
das flores. É por causa do frio, diz a dona. Ou seja, não tem havido nhéc nhéc a plenos pulmões no bairro. Não
é bem nhéc nhéc, é tchalp tchalp teren tchalp, se estamos
recordados. A dona do papagaio (e das flores) não gosta de mim, o que é
natural. Eu vou lá só para ver o currupaco como quem não quer a coisa mas ela
não é burra e já me topou. Para mais, há dias, fui lá com uma turminha de três sobrinhos dos
mais pequenos que tenho e que vieram encantar esta tia durante uma manhã
inteira, para mostrar o papagaio a eles. Não compro nada no quiosque porque não
sou maluca de gastar balúrdios em flores quando as posso olhar na berma da
autoestrada caso o amarelo estonteante me consiga arrancar os olhos do asfalto,
certo?
Foi espetacular (espetacular é palavra detestável, fútil e
vazia – costumo até derretê-la em banho maria imaginário, que yo maria no soy
cariño, mas podia ser, e recombiná-la em espeta a colher, que também não dói nada),
mas espetacular, dizia eu agora mesmo, conduzi uns 150 km para nada, levando ao
todo quase duas horas e muita vontade de arrancar os meus cabelos, mas não
tirei as mãos do volante. Tecnologia uma merda e telefones inteligentes outra,
é irem com os porcos! (desculpem) Era para eu ter tomado uma certa autoestrada
específica e a inteligência do meu telefone indicou outra de modo que conduzi aquilo
tudo para arejar os pneus (do carro).
Creio que durante todo o ano passado tive talvez uns dois
fins de semana sem trabalhar noite e dia sábado e domingo e este ano claro que
ainda nenhum, incluindo este em que estamos a fazer o presente post espetacular
(toma!). De modo que já de mim ando de humor difícil e deparam-se-me os pedidos
da minha filha jogadora quase profissional de voleibol, que precisa dos meus
serviços como motorista praticamente dia sim dia sim, caso contrário acontecem coisas,
por exemplo serem só as outras mães (que eu saiba são mesmo só mães) a fazer as
vaquinhas e eu rien. Claro que não é justo, mas que me dói, dói. Se há tarefa
na qual eu sou tão boa como deve ser prazeroso espetar garfos nos olhos e
rodá-los, é mesmo em serviços de transporte especializado para lugares que
desconheço.
E depois de recuperar da raiva, de ter encontrado
a minha filha em casa trazida por outra das mães que lavram caminhos
facilmente e lá ter conseguido retomar o meu amado mas a tender para o infinito
trabalho, noto uma perguntinha nojenta e cínica do tal telefone inteligente – o
meu: aquilo muito lindo que se pode ler no título.
Espeta a colher.
(no entanto, avanço desde já que em junho de dois mil e dezoito irei estar - se a maio sobreviver - no TNSC absorvendo La Traviata do grande Giuseppe Verdi, um sonho muito meu - venha lá quem vier)
Na pausa do trabalho como um iogurte natural com a granola
que a minha filha inventou, fez e me recomenda vivamente com os olhos a brilhar.
Enquanto isso, leio uma parte da história de um médico. O médico dirige-se ao
leitor e agora o leitor sou eu por isso com licença (leitora, leitora). Diz o médico que eu
posso viver sem baço. Ou sem um rim ou sem uma parte da bexiga, mas não percebi
que parte é. O que eu não posso, diz o médico do livro, é viver sem o maior órgão interno que é nada mais nada menos que o fígado, o meu
próprio fígado! Um órgão tão sossegadinho se comparado com o coração. A
bexiga também, mas o médico falou foi do fígado. Eu já não sabia que o
maior órgão interno era o fígado. Aliás nunca tinha pensado no meu fígado e portanto
decidi pensar agora mesmo nele. Posso dizer por exemplo que o levo para todo o
lado prontinho e arrumado. E também que hoje ficou em casa o meu fígado. De manhã ouvimos uma gaivota, sim, uma gaivota, para variar do papagaio, e fomos ao lixo esticar
as pernas. No regresso estendemos a roupa que estava à espera na máquina. Não
direi que a roupa esperava pelo fígado porque isso não tem beleza nenhuma. E o fígado está inocente, claro, o fígado não sabe. Por exemplo não sabe que estendemos a roupa porque não temos máquina de secar, devido a uma opção estratégica. Que em Lisboa chove apenas em cinquenta e cinco dias por ano, mais dia
menos dia. E portanto, no fim, chega. Quer dizer, chegamos. (que bom, que bom)