a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

14/03/2018

Também andei à Gisele

À hora de almoço disse às minhas duas filhas que quando daí a pouco chegasse ao Segundo Cliente, o António, ao receber-me, ia perguntar-me queres um café ao que eu iria responder que nunca digo não a essa pergunta específica. Depois disse-lhes que talvez ele já saiba, a tantas páginas, que é sem açúcar o meu café, mas disso não estava eu certa à hora de almoço.

Cheguei ao Segundo Cliente a escorrer chuvas da Gisele que me apanharam pelo caminho entre o estacionamento e o edifício, aquilo deve rondar uns compridos cem metros, sem chapéu-de-chuva. Hoje ninguém andou sem chapéu-de-chuva, mas o meu foi roubado (há dias), por uma das duas protagonistas do parágrafo acima, só não se sabe é qual.

Então o António aproxima-se e começa a cumprir-se
- Queres um café?
Eu sem tempo de dizer palavra, meio sacudo o cabelo, meio disfarço, ele logo continua
- Já sei, a esta pergunta não dizes que não.
E ainda, bem de seguida, eu toda calada atentando
- É sem açúcar, não é?

Quando saí, muitas horas depois, já não chovia a Gisele.

Stephen Hawking

Hoje de manhã, ao ver o nome de Stephen Hawking no título do jornal inglês, o meu coração disse não, numa fração de segundo, não - ele não morreu... Mas a notícia não era sobre mais algum desenvolvimento relativo ao Universo, aos misteriosos Buracos Negros, não era mais uma aposta falhada, ou ganha, uma das suas singularidades. Era mesmo a sua morte.
Vai-nos fazer falta um homem assim, um homem que conseguiu sobreviver 55 anos e não apenas os dois que os médicos lhe prognosticaram, vencendo uma doença que tanto o tentou travar. Estou-lhe grata. E estou-lhe grata não só por ele ter conseguido continuar a construir a sua teoria, a tentar descobrir as loucuras em que andamos metidos neste nosso caprichoso Universo, mas também por ser um modelo de persistência, de luta ganha, de muita vontade de viver. Um daqueles homens que aponto às minhas filhas e digo, vejam, aprendam.

Talvez Stephen Hawking possa encontrar uma outra paz fora do corpo limitado em que viveu tanto tempo e, quem sabe, consiga ainda visitar um Buraco Negro para o cumprimentar.

10/03/2018

Mais um bocado e era Dalí

A máquina é volumosa, tem quase a minha altura e muito mais que a minha largura. Na estrutura superior faz girar um sapato de cor clara e atacador, colocado na vertical, a uma frequência constante. A norte do sapato gira também um carrinho de linhas que me dá a impressão de saber do ofício. Abro a portinhola de cima e verto dentro algumas ervilhas congeladas. Apressado, aproxima-se de mim o Manuel pingando água da chuva, agarrado aos papéis onde faz revisões e revisões de contas. Os papéis também pingam água da chuva e ele diz-me que o atraso se deveu à turbulência, que o voo tinha sido dificílimo. Fecho a portinhola onde deitei as ervilhas e enquanto Manuel passa a mão no cabelo tentando recuperar, estou certa, a compostura, o alarme de um carro estacionado na rua arranca-me ao sono.

E depois ocorreu-me que mais um bocado e isto era Dalí. Mas é evidente que é daqui. Daqui, aliás.

06/03/2018

Há muito tempo que não havia post com café (e tão lindo)

Entre um troço do meu trabalho e o troço seguinte, faço uma pausa preenchida com diversas atividades que vão desde tomar um café com ou sem uma coisa até por exemplo passar roupa a ferro, caso este em que dou descanso adequado à parte de mim sobre a qual me sento. Ora desta vez o intervalo no trabalho incluiu um café com uma coisa. A uma coisa é sobra do Natal passado e era não a última bolacha do pacote mas a última coisa do pacote. Eu não sei como se chama a coisa, isso já se percebeu, mas que é doce é e arredondada e branca também, aliás era. Antigamente quando não havia facilidades eletrónicas prontas a corrigir erros próprios, fazia-se uso da palavra aliás e de vírgulas indicadoras e não se rasurava o erro, tão engraçado isso. Mas a minha pausa deu origem então, dizíamos, a um pacote vazio sem nenhuma das coisas dentro, que eu deixei inadvertidamente em cima da bancada da cozinha antes de o segregar muito bem (depois). E por me ter posto a jeito também inadvertidamente vi o efeito que um fez com a outra sob a luz do sol que a janela deixava passar, efeito que mereceu ou não mereceu uma fotografia e respetivo post dedicado, aliás muito lindo?


28/02/2018

Linha 401 (pronto)

Uma pessoa que faz toda a linha 401 de autocarro na cidade de Eindhoven, linha que podemos dizer que cose… ou fica metida a martelo a metáfora?... que une, pronto, o aeroporto à estação de comboios central, ouve o nome de cada paragem antes da própria cada paragem (sério). E se uma pessoa estiver atenta ao que ouve é difícil não se rir, mesmo que tenha de se rir sozinha (sério sério). Cada uma paragem de completamente toda a linha 401 suprarreferida tem o nome começado por Eindhoven. De modo que uma pessoa se de repente se esquecer imenso de onde está, por exemplo - ah mas qu’é isto, que autocarro é este onde me sentei (ou tipo assim) – é recordada a cada minuto que está em Eindhoven. E isto é fofinho. É fofinho e não é tudo. Mesmo que nenhum passageiro desta linha 401 pretenda sair numa próxima paragem por nenhum passageiro ter pressionado nenhum botão a manifestar nenhuma intenção nesse sentido, a mesma voz que anuncia o nome da que aí vem, Eindhoven van de Veld, vamos imaginar, diz logo depois tenha cuidado ao sair. E isto também é fofinho. É por isso que uma pessoa na linha de autocarro 401 se ri sem qualquer dificuldade, só que depois não consegue o quê, depois não consegue ler o seu livro exatamente como tinha previsto.