O pequeno carro vermelho tem riscos de um lado e do outro e uma amolgadela só de um lado. É o carro da família triste que vive no prédio. O
condutor é invariavelmente o pai. O filho, já homem, nunca sorri. Tem a pele muito
pálida, usa óculos e caminha devagar, um pouco curvado, como se um peso imenso
lhe assentasse nos ombros. Quando o encontro no átrio ou no elevador, digo-lhe
bom dia ou, conforme a hora, boa tarde, e ele olha-me através dos óculos, olhos
muito abertos, como se me tentasse encaixar no seu mundo alheado, ao qual não
pertenço, talvez ninguém pertença. A vizinha do terceiro disse-me uma vez que aquele rapaz tem um atraso. A mãe da família triste sorri constantemente. Vira a cabeça para um lado e
para o outro, como se cumprimentasse o mundo em redor, mundo do qual já talvez
não saiba que ainda faz parte, porém caminha desenvolta. Nunca anda sozinha e vai sempre
de mão dada com o marido ou o filho, como se fosse uma menininha. Tanto
ela como ele, o condutor do pequeno carro vermelho, têm o cabelo todo branco e,
no caso dele, rareando. Tal como o filho, mas por razões diferentes, ele também
pouco sorri. Fico sempre triste quando os vejo. Lembro-me de, há muitos anos,
quando me mudei para o prédio, ter sido ela a primeira vizinha que conheci. Encontrei-a
na entrada, no dia da mudança. Sorriu-me francamente e deu-me as boas-vindas.
Disse-me, então, em que andar morava e que estaria lá se eu precisasse de
alguma coisa, que não me esquecesse. E, antes de se afastar: se aquelas meninas
pequenas eram minhas, que lindas meninas. Há dias, encontrei-os exatamente no
mesmo lugar na entrada do prédio. Estavam os dois, ela sorrindo para o ar, ele segurando-lhe a mão. Perguntou ao marido quem sou, quando os cumprimentei. Respondi
eu. E depois acrescentei, mesmo sabendo ser talvez inútil, um resumo do nosso
encontro no dia da minha mudança, lembra-se, eram as minhas filhas pequenas. Ele
avisou-me então, cordial, de que ela não se lembra de nada, que já cá não está. Mas
lembro-me eu, respondi, lembro-me eu.
23/06/2018
16/06/2018
"Burgueses somos nós todos ou ainda menos"
Estamos na Feira do Livro. Estamos eu e um mar de gente. Entro num dos expositores de um grande espaço comum e oiço um menino mesmo junto de mim (estávamos todos juntos uns dos outros):
- Ó mãe, disseste que não vínhamos ver livros!!
Eh lá. Mas também se vem à Feira sem ser para ver livros?! penso cá comigo eu. O menino, sem obter resposta da mãe, também ela bem juntinha a mim, concentrada com um livro na mão, responde-me sem saber:
- Ó mãe, vá lá, disseste que vínhamos só comer!!
Saio do expositor e deixo-me ir levada para cima e depois para baixo, num embalar uno, esta massa de gente, enquanto aproveito o arrasto para decidir, vou ou não vou. Está, no espaço central a dar autógrafos, Mário de Carvalho. Não é pelo autógrafo, é, antes, para trocar uma ou duas palavras com ele, ver como é de perto um senhor cuja forma de escrever me tem encantado, a sua história de vida, a simplicidade que lhe brota de dentro tantas vezes em forma de candura, o sentido de humor, luminoso. Mas vou ou não vou? Não, não o incomodarei, ainda para mais já levei desta Feira, há dias, um livro dele que está em casa à espera de mim, não vou levar outro e... ou vou?... Desde que incomodei a Clara Ferreira Alves há duas Feiras atrás quando lá fui com o livro dela pedir o autógrafo que o placard dizia ela estar a dar, e no placard não esclarecia nada sobre ela estar a dar mas sem querer, sem querer aturar os leitores, xô leitores!, a andar!, afinal ela tem mais que fazer e está ocupadíssima a conversar com amigos, mudei. Nesse aspeto, mudei. Mas agora, olhando daqui ele não parece estar a despachar os leitores, ele sorri e conversa, talvez Mário de Carvalho esteja mesmo a dar autógrafos por querer. Vou. Tiro um livro da pilha, "Burgueses somos nós todos ou ainda menos", e ponho-me na fila.
- E Susana com Z ou com S?
- Com S, se faz favor.
Escreve com três dedos de um lado da caneta e o polegar do outro, já tenho visto quem escreva com dois dedos de um lado, mas com três nunca. Eu queria dizer-lhe que o admiro, que gosto do que escreve. E disse, devagarinho disse. Ele agradece, olha para mim, sorri. É uma pessoa doce, impossível não simpatizar com ele. Diz-me que espera que eu também goste de "Burgueses somos nós todos ou ainda menos". Levanto-me, dou-lhe dois beijinhos, agradeço, desejo-lhe felicidades e depois, ai, depois vem o inesperado.
- Se quiser escrever-me para o facebook, terei todo o gosto...
- Oh... mas eu não tenho facebook... - e desta vez custou um bocadinho.
Quanto ao livro autografado, vai quase no fim. Ele tinha razão e talvez eu lho diga na próxima Feira, se o lá encontrar. Que eu facebook é que não, isso ainda não.
- Ó mãe, disseste que não vínhamos ver livros!!
Eh lá. Mas também se vem à Feira sem ser para ver livros?! penso cá comigo eu. O menino, sem obter resposta da mãe, também ela bem juntinha a mim, concentrada com um livro na mão, responde-me sem saber:
- Ó mãe, vá lá, disseste que vínhamos só comer!!
Saio do expositor e deixo-me ir levada para cima e depois para baixo, num embalar uno, esta massa de gente, enquanto aproveito o arrasto para decidir, vou ou não vou. Está, no espaço central a dar autógrafos, Mário de Carvalho. Não é pelo autógrafo, é, antes, para trocar uma ou duas palavras com ele, ver como é de perto um senhor cuja forma de escrever me tem encantado, a sua história de vida, a simplicidade que lhe brota de dentro tantas vezes em forma de candura, o sentido de humor, luminoso. Mas vou ou não vou? Não, não o incomodarei, ainda para mais já levei desta Feira, há dias, um livro dele que está em casa à espera de mim, não vou levar outro e... ou vou?... Desde que incomodei a Clara Ferreira Alves há duas Feiras atrás quando lá fui com o livro dela pedir o autógrafo que o placard dizia ela estar a dar, e no placard não esclarecia nada sobre ela estar a dar mas sem querer, sem querer aturar os leitores, xô leitores!, a andar!, afinal ela tem mais que fazer e está ocupadíssima a conversar com amigos, mudei. Nesse aspeto, mudei. Mas agora, olhando daqui ele não parece estar a despachar os leitores, ele sorri e conversa, talvez Mário de Carvalho esteja mesmo a dar autógrafos por querer. Vou. Tiro um livro da pilha, "Burgueses somos nós todos ou ainda menos", e ponho-me na fila.
- E Susana com Z ou com S?
- Com S, se faz favor.
Escreve com três dedos de um lado da caneta e o polegar do outro, já tenho visto quem escreva com dois dedos de um lado, mas com três nunca. Eu queria dizer-lhe que o admiro, que gosto do que escreve. E disse, devagarinho disse. Ele agradece, olha para mim, sorri. É uma pessoa doce, impossível não simpatizar com ele. Diz-me que espera que eu também goste de "Burgueses somos nós todos ou ainda menos". Levanto-me, dou-lhe dois beijinhos, agradeço, desejo-lhe felicidades e depois, ai, depois vem o inesperado.
- Se quiser escrever-me para o facebook, terei todo o gosto...
- Oh... mas eu não tenho facebook... - e desta vez custou um bocadinho.
Quanto ao livro autografado, vai quase no fim. Ele tinha razão e talvez eu lho diga na próxima Feira, se o lá encontrar. Que eu facebook é que não, isso ainda não.
15/06/2018
Enfim o post mínimo
Se chamamos à capa de um livro, capa de um livro, chamamos à
capa da capa do telemóvel, capa da capa do telemóvel. Um esquisito português este,
é certo, mas corretíssimo. E já a seguir usado para expor o seguinte (o post é
mínimo). O meu cartão do cidadão mudou-se da minha carteira que pede adjetivos tais
como velha, gorda, cheíssima, pesadíssima e também disforme se não bojuda, para uma bolsinha do verso da capa da capa do telemóvel. O meu cartão do
cidadão beneficia agora de uma janela, mais arejamento, vai-se virando tanto a
sul como a norte, exposto à luz natural ou eletrónica e percebe-se perfeitamente porquê. Mais: ouve as conversas. É
um cartão do cidadão que prezo apesar de ostentar nele uma
fotografia de mim própria incrivelmente horrenda que está de castigo virada
para o lado de dentro da bolsinha do verso da capa da capa do telemóvel.
Também tenho uma coisa para contar da feira do livro, mas hoje não (este post é mínimo).
09/06/2018
#emboraAíchamarOVerão
Dizem as minhas filhas que para se conseguir ler estas
coisas começadas no símbolo cardinal e caracterizadas pela ausência de espaços,
tem de se pôr maiúsculas que ajuda e eu digo que acentos também.
Este post é de ontem mas ainda está bom. Quer dizer, ainda
se aplica, que bom bom não é absolutamente o caso. Ora vejamos.
(atualização 10.06.2018, 21h00, na sequência do comentário da Cláudia Filipa a este post)
(dentro do nevoeiro está uma parte da serra que ardeu em junho do ano passado - que esta humidade extemporânea seja, agora, preventiva)
02/06/2018
As minhas filhas são parecidas uma com a outra (juro)
Tanto que os vizinhos mais recentes do prédio julgavam tratar-se de uma e a mesma pessoa até que um dia as viram juntas.
- Ah… vocês são duas?!...
- Somos!
- Mas então são gémeas….
- Não. Temos três anos de diferença.
Na verdade não chega a três anos, mas elas não se incomodam
de cometer esse erro de cerca de 16% com os vizinhos sendo que, contados em
anos letivos, são de facto três.
Agora hoje. Estou a dirigir-me à cozinha para começar
a fazer o jantar e vou a apertar o terceiro casaco que vesti em cima de outros
dois (contas, estas, fáceis). Cruzo-me com a mais velha e digo-lhe, estou cheia
de frio, estou farta deste frio. Ela abraça-me e, a rir, opina: ó mãe não está
assim tanto frio! E depois
- Tu estás é a ficar velhinha! – continuando a rir.
- Estou mesmo, olha que hoje de manhã enganei-me e disse à
tua irmã que vou fazer cem anos este ano…
- Mãe… não foi a ela que disseste, foi a mim!
A questão, depois de uma tarde de trabalho que não me correu
bem, que me entristeceu, uma tarde de trabalho em que me senti nada inspirada, coloca-se por exemplo nestes termos:
Tendo eu feito um erro de 100% na minha idade, qual será a
diferença, em meses, entre as idades das minhas filhas?
Subscrever:
Mensagens (Atom)
