a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

03/07/2018

Roubar tesouras em restaurantes é feio ou nojento?

Prefiro escrever sobre as belezas pequenas e grandes se for capaz. Prefiro não escrever sobre as porcarias que as pessoas fazem, ou seja, coisas feias ou nojentas. Mas hoje vai ser.

Sentámo-nos na esplanada porque apesar de estar um julho arraçado de novembro, vamos dar-lhe uma oportunidade. Afinal daqui estamos a ver os barcos a repousar na marina uma vez que o sol ainda não se pôs (por ser julho). Fazemos o pedido, escolhemos as mesmas refeições, temos dez dias de diferença de idade (mas isso não interessa muito para o caso, é só que eu tenho a mania dos números e dez dias não se nota nada), a Júlia e eu. Daí a pouco vem o empregado colocar-nos os pratos iguais à frente de cada uma, só que falta o azeite e o vinagre para temperar a salada, o empregado sabe disso e vai já buscar. Volta então com um copinho metálico pleno de pacotinhos na vertical metidos ali todos, pacotinhos contendo os acessórios alimentares que a gente já conhece, a maionese vem junto, o sal confinado aos mais pequeninos que são do tamanho de uma unha de polegar. Levei imenso tempo a descobrir que thumbnail também é unha de polegar, mas isto interessa ainda menos, ando a rodear devido ao assunto ser deste baixo calibre, ou feio ou nojento. Mas então o copinho metálico. Ele traz lá dentro, a fazer companhia aos pacotinhos, uma tesoura de orelhas de plástico. Uma tesoura?! Eu pergunto sempre tudo o que for preciso, não tem problema nenhum. Mas ao perguntar topei a resposta direto: é para cortar o gargalo dos pacotinhos de azeite, vinagre e companhia, porque já se sabe (de outros carnavais, por exemplo) que são dificílimos de abrir só com os dedos, escorregam imenso e até se pode espetar uma unha no dedo do lado, já me aconteceu isso.
- Mas essa tesoura não presta – o empregado é honesto e informa-nos logo.
A tesoura não presta.
- É do chinês… – alvitra a Júlia.
- É do chinês, sim. Antes tínhamos tesouras boas, mas desapareciam muitas, especialmente na altura do regresso às aulas... As pessoas levavam as tesouras, sabem como é… - ele está resignado, encolhe os ombros.
Não, não sabemos como é. Roubar tesouras em restaurantes não sabemos como é.

Quando nos levantámos, quatro horas depois de conversa tão boa quanto este post é feio ou nojento, já a lua tinha nascido e havia fogo de artifício na outra margem do rio em explosões de verde, vermelho e laranja.

23/06/2018

Se precisasse de alguma coisa

O pequeno carro vermelho tem riscos de um lado e do outro e uma amolgadela só de um lado. É o carro da família triste que vive no prédio. O condutor é invariavelmente o pai. O filho, já homem, nunca sorri. Tem a pele muito pálida, usa óculos e caminha devagar, um pouco curvado, como se um peso imenso lhe assentasse nos ombros. Quando o encontro no átrio ou no elevador, digo-lhe bom dia ou, conforme a hora, boa tarde, e ele olha-me através dos óculos, olhos muito abertos, como se me tentasse encaixar no seu mundo alheado, ao qual não pertenço, talvez ninguém pertença. A vizinha do terceiro disse-me uma vez que aquele rapaz tem um atraso. A mãe da família triste sorri constantemente. Vira a cabeça para um lado e para o outro, como se cumprimentasse o mundo em redor, mundo do qual já talvez não saiba que ainda faz parte, porém caminha desenvolta. Nunca anda sozinha e vai sempre de mão dada com o marido ou o filho, como se fosse uma menininha. Tanto ela como ele, o condutor do pequeno carro vermelho, têm o cabelo todo branco e, no caso dele, rareando. Tal como o filho, mas por razões diferentes, ele também pouco sorri. Fico sempre triste quando os vejo. Lembro-me de, há muitos anos, quando me mudei para o prédio, ter sido ela a primeira vizinha que conheci. Encontrei-a na entrada, no dia da mudança. Sorriu-me francamente e deu-me as boas-vindas. Disse-me, então, em que andar morava e que estaria lá se eu precisasse de alguma coisa, que não me esquecesse. E, antes de se afastar: se aquelas meninas pequenas eram minhas, que lindas meninas. Há dias, encontrei-os exatamente no mesmo lugar na entrada do prédio. Estavam os dois, ela sorrindo para o ar, ele segurando-lhe a mão. Perguntou ao marido quem sou, quando os cumprimentei. Respondi eu. E depois acrescentei, mesmo sabendo ser talvez inútil, um resumo do nosso encontro no dia da minha mudança, lembra-se, eram as minhas filhas pequenas. Ele avisou-me então, cordial, de que ela não se lembra de nada, que já cá não está. Mas lembro-me eu, respondi, lembro-me eu. 

16/06/2018

"Burgueses somos nós todos ou ainda menos"

Estamos na Feira do Livro. Estamos eu e um mar de gente. Entro num dos expositores de um grande espaço comum e oiço um menino mesmo junto de mim (estávamos todos juntos uns dos outros):
- Ó mãe, disseste que não vínhamos ver livros!!
Eh lá. Mas também se vem à Feira sem ser para ver livros?! penso cá comigo eu. O menino, sem obter resposta da mãe, também ela bem juntinha a mim, concentrada com um livro na mão, responde-me sem saber:
- Ó mãe, vá lá, disseste que vínhamos só comer!!

Saio do expositor e deixo-me ir levada para cima e depois para baixo, num embalar uno, esta massa de gente, enquanto aproveito o arrasto para decidir, vou ou não vou. Está, no espaço central a dar autógrafos, Mário de Carvalho. Não é pelo autógrafo, é, antes, para trocar uma ou duas palavras com ele, ver como é de perto um senhor cuja forma de escrever me tem encantado, a sua história de vida, a simplicidade que lhe brota de dentro tantas vezes em forma de candura, o sentido de humor, luminoso. Mas vou ou não vou? Não, não o incomodarei, ainda para mais já levei desta Feira, há dias, um livro dele que está em casa à espera de mim, não vou levar outro e... ou vou?... Desde que incomodei a Clara Ferreira Alves há duas Feiras atrás quando lá fui com o livro dela pedir o autógrafo que o placard dizia ela estar a dar, e no placard não esclarecia nada sobre ela estar a dar mas sem querer, sem querer aturar os leitores, xô leitores!, a andar!, afinal ela tem mais que fazer e está ocupadíssima a conversar com amigos, mudei. Nesse aspeto, mudei. Mas agora, olhando daqui ele não parece estar a despachar os leitores, ele sorri e conversa, talvez Mário de Carvalho esteja mesmo a dar autógrafos por querer. Vou. Tiro um livro da pilha, "Burgueses somos nós todos ou ainda menos", e ponho-me na fila.

- E Susana com Z ou com S?
- Com S, se faz favor.
Escreve com três dedos de um lado da caneta e o polegar do outro, já tenho visto quem escreva com dois dedos de um lado, mas com três nunca. Eu queria dizer-lhe que o admiro, que gosto do que escreve. E disse, devagarinho disse. Ele agradece, olha para mim, sorri. É uma pessoa doce, impossível não simpatizar com ele. Diz-me que espera que eu também goste de "Burgueses somos nós todos ou ainda menos". Levanto-me, dou-lhe dois beijinhos, agradeço, desejo-lhe felicidades e depois, ai, depois vem o inesperado.
- Se quiser escrever-me para o facebook, terei todo o gosto...
- Oh... mas eu não tenho facebook... - e desta vez custou um bocadinho.

Quanto ao livro autografado, vai quase no fim. Ele tinha razão e talvez eu lho diga na próxima Feira, se o lá encontrar. Que eu facebook é que não, isso ainda não.

15/06/2018

Enfim o post mínimo

Se chamamos à capa de um livro, capa de um livro, chamamos à capa da capa do telemóvel, capa da capa do telemóvel. Um esquisito português este, é certo, mas corretíssimo. E já a seguir usado para expor o seguinte (o post é mínimo). O meu cartão do cidadão mudou-se da minha carteira que pede adjetivos tais como velha, gorda, cheíssima, pesadíssima e também disforme se não bojuda, para uma bolsinha do verso da capa da capa do telemóvel. O meu cartão do cidadão beneficia agora de uma janela, mais arejamento, vai-se virando tanto a sul como a norte, exposto à luz natural ou eletrónica e percebe-se perfeitamente porquê. Mais: ouve as conversas. É um cartão do cidadão que prezo apesar de ostentar nele uma fotografia de mim própria incrivelmente horrenda que está de castigo virada para o lado de dentro da bolsinha do verso da capa da capa do telemóvel.

Também tenho uma coisa para contar da feira do livro, mas hoje não (este post é mínimo).

09/06/2018

#emboraAíchamarOVerão

Dizem as minhas filhas que para se conseguir ler estas coisas começadas no símbolo cardinal e caracterizadas pela ausência de espaços, tem de se pôr maiúsculas que ajuda e eu digo que acentos também.
Este post é de ontem mas ainda está bom. Quer dizer, ainda se aplica, que bom bom não é absolutamente o caso. Ora vejamos.

O junho, o presente junho, deve achar-se no outro hemisfério, não neste. Por exemplo olhai os jacarandás, eles veem-se em esforço de florir – veem-se e desejam-se – está na cara, tão fraco vai o evento. Já a feira do livro, por falar em evento, estava brava e agreste, ventosa e fria e isto foi na visita da semana passada quando ainda tínhamos restos de outono. Quanto ao papagaio também não é posto na rua, isto é, fora do quiosque das flores onde vive todo o ano; devido ao frio mantém-se dentro que ele é exótico ou tropical ou coisa assim, deve ter levado muitas vacinas, pelo menos verde ele é, se calhar também biológico, e com o papagaio dentro é um silêncio daqueles lados. E desconfio que a cadela que vive cá em cima anda a dar-lhe umas lições desde que cresceu, embora não tenha sido muito o crescimento que a deixou bem baixinha, mas vai que se põe a ladrar-lhe com força à janela quando ele bota o discurso, que é só um e o mesmo discurso, lá de ideias não muda o papagaio, para o bairro ouvir se quiser. De modo que também ela, a canídea, tem andado meio chocha, lá ladrar ladra, mas não é aquele vigor do estar à janela a indignar-se para o papagaio, isso não é. Eu entretanto voltei à tomada de chás para aquecer, também não escapei à intempérie. Não sei se já contei que eu gosto mesmo é de café, de chá não. Quer dizer, nem gosto nem desgosto, o chá não tem sabor, nem cor, nem ninguém diz ai que cheirinho tão bom a chá, ninguém. Tem, isso sim, mais calor que o café por ser mais crescido, deitar mais corpo. Até preferia gostar mais de chá caso em que teria o prazer prolongado, contudo não me calhou isso. Calhou-me sim querer o verão e não o ter, bem como nenhuma ideia melhor do que esta reclamação para fazer.

(atualização 10.06.2018, 21h00, na sequência do comentário da Cláudia Filipa a este post)


(dentro do nevoeiro está uma parte da serra que ardeu em junho do ano passado - que esta humidade extemporânea seja, agora, preventiva)