a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

07/08/2018

Os chinelos

Fui, na bicicleta, à cidade comprar um par de chinelos. Do tipo havaianas mas sem ser. Os chinelos que eu tinha cederam sob o meu peso, por um lado, integrado em ordem ao tempo em que muito os usei, claro está e, por outro, sob o calor e as voltas a que as tarefas em que tenho andado metida nestas férias obrigam. Rompeu-se a borracha em sítios críticos tendo-se soltado a hastezinha de-enfiar-o-dedo, e tipo assim não dá. Então lá fui. A loja tinha a porta fechadíssima com um recado aos estimados clientes para a manterem assim, se faz favor, sendo muito bem-vindos, entrem, entrem, podem entrar, mas mantenham a portinha fechada devido ao calor fora e ar condicionado dentro, que isto está de ananases (a expressão era do meu avô e agora vem aqui refrescar-se na loja); e a gente assim procede. Digo a gente porque vinha a sair uma mulher com uma menininha de cabelo quase branco de tão loiro, e que segurou a porta para eu entrar com facilidade, dizendo algo simpático, o quê já não sei (ou então não percebi, que é o mais certo) e eu depois a fechei logo bem. Fui direita ao cantinho onde vendem uns poucos fatos de banho e toalhas de praia e lá vi os chinelos. Só há de duas cores e para o meu tamanho só há de uma que é todos pretos. Pode ser, não tem problema (eu preferia um bege nacarado com brilhos espantosos e giros, mas ok). Aumentaram estrondosamente de preço estes chinelos, estou agora a ver. Em vez dos dois euros que paguei pelos outros há uns quatro ou cinco anos nesta mesma cadeia de lojas (destas coisas lembro-me eu completamente, doutras não) passou o preço dos chinelos a quatro euros inteirinhos, ou seja, sofreram um senhor aumento de cem por cento, ah pois é. E agora aproveito que já aqui estamos para introduzir, é tomar nota, que o salário mínimo na Holanda é de mil e seiscentos euros, mil-e-seiscentos-euros, o iogurte e o pão são mais baratos que em Portugal, quanto aos chinelos já estamos a ver o filme e vamos lá continuar como segue. Dirijo-me à caixa para os pagar enquanto os miro de um lado e do outro, todinhos mesmo pretos, e noto de repente a mensagem na etiqueta abonatória quanto à borracha, que foi, sim senhor!, toda reforçada e agora está bem melhorzinha, promete não rebentar tão cedo (?!). Com certeza é mesmo isso.


(Justificado que está o estrondoso aumento de cem por cento no preço, justificação a confirmar a seu tempo, evidentemente, estou por ora bem servida.)

06/08/2018

Meia duzinha (daí talvez o post)

Ou as moscas se aquietaram agora há menos de nada ou tomaram por saída a entrada que optaram por fazer para dentro da mesma sala que eu: as janelas abertas à tarde do verão. (Mas eu foi toda pela porta, óbvio.) Portanto sem insetos zunzentos ficou um silêncio quente. O ar assim calado de leve não dá nada, antes pesa, encaixa ao colo, demora-se. Fui pois inventar uma água fresca como as que se veem nos jarros em revistas muito bonitas sobre decoração e que apetece é logo bebê-la. Tem limão em partes, um pau de canela jeitoso e meia duzinha de folhas de basílico fresco, grandes, cortadas em três por incentivo a darem mais suco. O jarro fica enfeitado de cores assim a deleitar os olhos e a distrair da tarde. O líquido turva-se destes aromas devagar e depois mata a sede. Muito bem. Então invoquei o estado de férias em que me encontro, recostei-me em almofadas do sofá e retomei a leitura de mais uma beldade deste verão. Com esta já são quatro, de seguida. Uma fartura, quer dizer.


(e gosto de escrever meia duzinha, gosto gosto)

01/08/2018

Quatro rodas

O homem que está a reparar o telhado da nova casa perguntou-me, na pausa (dele) para o café oferecido por mim (tomar nota por favor), se a minha bicicleta não tem por acaso quatro rodas. A pergunta ficou no ar ilustrada por um sorriso lateral todo ali, os olhos azuis semicerrados num divertimento, o cabelo em desalinho condizente com as roupas pingadas de tinta e/ou cal, suponho. Eu disse-lhe que a pergunta dele era bastante engraçada, mas que a minha bicicleta tem apenas duas rodas. Grandes. Porém ele achou-se ainda não satisfeito e, mantendo a olhada incisiva, indagou se eu já sabia andar de bicicleta ou aprendi aqui (na Holanda), acrescentando que segundo ele no meu país as pessoas não aprendem a andar de bicicleta. Foi então preciso esclarecer o Senhor Divertido que em Portugal toda a gente sabe andar de bicicleta desde cedo. E bem. E ia acrescentar que também sabemos todos nadar e fazer perguntas mais, digamos, adequadas. Mas depois... oh, para quê?, e deixei ficar assim.

(É capaz é o café da pausa de amanhã atrasar-se bastante. Ou vir muito forte. Ou frio. E é se vier.)

29/07/2018

Um aspirador nos degraus e frigoríficos são imensos

Não pegava no computador há muitos dias. A dor que hoje à tarde me chegou ao ombro direito não é daí, por conseguinte. Atribuí a sua chegada ao muito que aspirei ou que esfreguei. Sobre armários, dentro de armários, gavetas, frigorífico. Sou relativamente eficiente nas limpezas, mas custa-me começar (não é a tarefa que mais adoro). Adio: escrevo uma mensagem no grupo do Whatsapp que a minha mãe inventou e que partilho com as minhas irmãs também. Vou à casa-de-banho. A seguir olho pela janela, procuro um pássaro. Despeço-me do jardim da casa. E depois então começo a limpar. Uso luvas de borracha. As amarelas para a cozinha, as cor-de-rosa para as casas de banho. Erik, meu marido, foi para debaixo da casa reparar qualquer coisa no isolamento do chão. É um trabalho que tem de fazer a rastejar. A altura do espaço não permite mais. Quando de lá saiu vinha cansado e bastante sujo, disse que aquele não é o trabalho mais agradável que se pode fazer. Eu nem sequer conseguiria ali entrar, quanto mais fazer a reparação do chão, por baixo, e trazer as armadilhas para os ratos, por usar, felizmente (uma fechou-se com um estalo que me fez dar um salto). Mas ele quer vender a casa no melhor estado possível e faltava ir lá reparar o isolamento do chão. Aspirei os quatro pisos, dentro dos armários e os três lances de escadas. Não é fácil acomodar o aspirador nos degraus: ou aquele é demasiado largo ou são estes muito estreitos. Uma vez - a propósito - caí numa das escadas com o tabuleiro do café. Nenhuma chávena se partiu e eu fiquei inteira sei lá como. Creio que por a escada ser de madeira, acho mesmo que foi isso que nos salvou, a mim e às chávenas, que a desceram alegremente, inteirinhas até ao fim, logo seguidas pelo tabuleiro, este tendo perdido a corrida. Mas deitei fora, nesse mesmo dia, os sapatos que me fizeram escorregar num dos degraus. Resultou a medida: não voltei a cair. Nem sequer com o aspirador às costas, e o cano, e o tubo, tudo, como hoje.

Mas depois do jantar estendi-me no sofá a ler o meu livro. Comprei-o em Lisboa numa hora feliz na Feira deste ano. Hora feliz é a minha tradução para a happy hour que eles têm lá, uma hora com descontos valentes, porém não estou certa de que na Feira a designem assim. Que é uma hora feliz para mim, é.

Ora cá vai então, diretamente da página 81:
“Estamos, contudo, como povo, preocupados com a efemeridade; há imensos frigoríficos.”

Saul Bellow, “Na corda bamba”, Quetzal


Está a ir muito bem este meu primeiro livro de Saul Bellow. 

16/07/2018

Ensaio dum post da má-língua (férias precisam-se)

Mas afinal quantas são as Kardashians, quem são e o que fazem elas, se não fosse pedir muito? Sou amiúde abalroada por uma Kardashian ao fazer os caminhos no ecrã do computador, o qual trabalha quase tanto como eu e sem queixas, ou seja: oh c'amooor! como diria a minha irmã a imitar as suas alunas, mas dizia eu que vou e esbarro numa Kardashian, pum! Deve ser uma coleção extensa. Todas com visual extraordinário embora parecido. Extraordinário de tão artificial, claro. Mas parecido. Se calhar vamos a ver e é sempre a mesma Kardashian (nesse caso, pobrezinha dela).
No entanto, também temos a Carolina Patrocínio, é verdade. Uma pessoa vai a passar para ler as notícias, com licença, e esbarra também muito nela logo a seguir a ter fintado uma (ou a) Kardashian. Pelo menos a Carolina é nossa, ok. Tirando isso…. Desconheço, mas pode ser de não ver televisão, dou sempre essa hipótese. O que faz então a Carolina Patrocínio? Mistério. Tirando ter filhas, claro, que isso já percebi que ela faz. E é bom, aliás é excelente ter filhas, sei do que falo, mas será que é caso para andar todos os dias naquela canseira, ela e nós, constantemente em fotografias, no meio das notícias? Uma pessoa tem de estar sempre a desviar-se dela (e das chatas das Kardashians), pá! 

Bem, prefiro gatinhos. Ou - melhor dizendo - gatos. Prefiro gatos.