No rádio passam música de Tchaikovsky desde que me sentei ao
computador a matar saudades do trabalho. De repente apercebo-me de que já ouvi imensas vezes ser referida a mais que conhecida homossexualidade deste compositor e ei! Já chega! É que por um lado há este mecanismo meu que se desencadeia automaticamente na
tendência natural de proteger –como se pudesse– as minorias alvo de injustiças,
etc. Por outro, pergunto-me se será verdadeiramente da minha conta e da conta
de quem ouve neste momento o canal holandês de rádio denominado Radio4, tal característica tão íntima de alguém. Sinto-me, até, como se estivéssemos todos
estes ouvintes a invadir a privacidade de Tchaikovsky. E que calha nos ter deixado tão
grande e bela obra, enriquecendo-nos, melhorando-nos os dias. Mas ainda que não nos tivesse deixado nada, não
fosse compositor: dá no mesmo. Temos verdadeiramente este direito? Como ouvi uma vez o Júlio
Machado Vaz dizer ao entrevistador que tinha à frente num programa de televisão
que calhou eu ver, a propósito do hábito que temos de referir alguém pela sua homossexualidade sempre que é esse o caso: você quando se apresenta a uma pessoa que acaba de conhecer e diz o seu
nome, não acrescenta que é heterossexual, pois não?
13/08/2018
Desculpa, Tchaikovsky
07/08/2018
Os chinelos
Fui, na bicicleta, à cidade comprar um par de chinelos. Do
tipo havaianas mas sem ser. Os chinelos que eu tinha cederam sob o meu peso, por um lado,
integrado em ordem ao tempo em que muito os usei, claro está e, por outro, sob o
calor e as voltas a que as tarefas em que tenho andado metida nestas férias obrigam. Rompeu-se a borracha em sítios críticos tendo-se soltado a
hastezinha de-enfiar-o-dedo, e tipo assim não dá. Então lá fui. A loja tinha a
porta fechadíssima com um recado aos estimados clientes para a manterem assim, se
faz favor, sendo muito bem-vindos, entrem, entrem, podem entrar, mas mantenham
a portinha fechada devido ao calor fora e ar condicionado dentro, que isto está
de ananases (a expressão era do meu avô e agora vem aqui refrescar-se na loja); e a gente assim procede. Digo a gente porque vinha a sair uma mulher com
uma menininha de cabelo quase branco de tão loiro, e que segurou a porta para
eu entrar com facilidade, dizendo algo simpático, o quê já não sei (ou então
não percebi, que é o mais certo) e eu depois a fechei logo bem. Fui direita ao cantinho onde vendem uns
poucos fatos de banho e toalhas de praia e lá vi os chinelos. Só há de duas
cores e para o meu tamanho só há de uma que é todos pretos. Pode ser, não tem
problema (eu preferia um bege nacarado com brilhos espantosos e giros, mas ok).
Aumentaram estrondosamente de preço estes chinelos, estou agora a ver. Em vez dos
dois euros que paguei pelos outros há uns quatro ou cinco anos nesta mesma
cadeia de lojas (destas coisas lembro-me eu completamente, doutras não)
passou o preço dos chinelos a quatro euros inteirinhos, ou seja, sofreram um
senhor aumento de cem por cento, ah pois é. E agora aproveito que já aqui
estamos para introduzir, é tomar nota, que o salário mínimo na Holanda é de mil
e seiscentos euros, mil-e-seiscentos-euros, o iogurte e o pão são mais baratos
que em Portugal, quanto aos chinelos já estamos a ver o filme e vamos lá
continuar como segue. Dirijo-me à caixa para os pagar enquanto os miro de um
lado e do outro, todinhos mesmo pretos, e noto de repente a mensagem na etiqueta abonatória
quanto à borracha, que foi, sim senhor!, toda reforçada e agora está bem
melhorzinha, promete não rebentar tão cedo (?!). Com certeza é mesmo isso.
(Justificado que está o estrondoso aumento de cem por cento
no preço, justificação a confirmar a seu tempo, evidentemente, estou por ora bem servida.)
06/08/2018
Meia duzinha (daí talvez o post)
Ou as moscas se aquietaram agora há menos de nada ou tomaram
por saída a entrada que optaram por fazer para dentro da mesma sala que eu: as
janelas abertas à tarde do verão. (Mas eu foi toda pela porta, óbvio.)
Portanto sem insetos zunzentos ficou um silêncio quente. O ar assim calado de
leve não dá nada, antes pesa, encaixa ao colo, demora-se. Fui pois inventar uma água
fresca como as que se veem nos jarros em revistas muito bonitas sobre decoração
e que apetece é logo bebê-la. Tem limão em partes, um pau de canela jeitoso e meia duzinha de
folhas de basílico fresco, grandes, cortadas em três por incentivo a darem mais
suco. O jarro fica enfeitado de cores assim a deleitar os olhos e a distrair da
tarde. O líquido turva-se destes aromas devagar e depois mata a sede. Muito bem. Então invoquei
o estado de férias em que me encontro, recostei-me em almofadas do sofá e
retomei a leitura de mais uma beldade deste verão. Com esta já são quatro, de seguida. Uma fartura, quer dizer.
(e gosto de escrever meia duzinha, gosto gosto)
01/08/2018
Quatro rodas
O homem que está a reparar o telhado da nova casa perguntou-me, na pausa (dele) para o café oferecido por mim (tomar nota por favor), se a minha bicicleta não tem por acaso quatro rodas. A pergunta ficou no ar ilustrada por um sorriso lateral todo ali, os olhos azuis semicerrados num divertimento, o cabelo em desalinho condizente com as roupas pingadas de tinta e/ou cal, suponho. Eu disse-lhe que a pergunta dele era bastante engraçada, mas que a minha bicicleta tem apenas duas rodas. Grandes. Porém ele achou-se ainda não satisfeito e, mantendo a olhada incisiva, indagou se eu já sabia andar de bicicleta ou aprendi aqui (na Holanda), acrescentando que segundo ele no meu país as pessoas não aprendem a andar de bicicleta. Foi então preciso esclarecer o Senhor Divertido que em Portugal toda a gente sabe andar de bicicleta desde cedo. E bem. E ia acrescentar que também sabemos todos nadar e fazer perguntas mais, digamos, adequadas. Mas depois... oh, para quê?, e deixei ficar assim.
(É capaz é o café da pausa de amanhã atrasar-se bastante. Ou vir muito forte. Ou frio. E é se vier.)
(É capaz é o café da pausa de amanhã atrasar-se bastante. Ou vir muito forte. Ou frio. E é se vier.)
29/07/2018
Um aspirador nos degraus e frigoríficos são imensos
Não pegava no computador há
muitos dias. A dor que hoje à tarde me chegou ao ombro direito não é daí, por
conseguinte. Atribuí a sua chegada ao muito que aspirei ou que esfreguei. Sobre armários, dentro de armários, gavetas, frigorífico.
Sou relativamente eficiente nas limpezas, mas custa-me começar (não é a tarefa
que mais adoro). Adio: escrevo uma mensagem no grupo do Whatsapp que a minha mãe inventou e que partilho com as minhas
irmãs também. Vou à casa-de-banho. A seguir olho pela janela, procuro um
pássaro. Despeço-me do jardim da casa. E depois então começo a limpar. Uso
luvas de borracha. As amarelas para a cozinha, as cor-de-rosa para as casas de
banho. Erik, meu marido, foi para debaixo da casa reparar qualquer coisa no isolamento
do chão. É um trabalho que tem de fazer a rastejar. A altura do espaço não
permite mais. Quando de lá saiu vinha cansado e bastante sujo, disse que
aquele não é o trabalho mais agradável que se pode fazer. Eu nem sequer
conseguiria ali entrar, quanto mais fazer a reparação do chão, por baixo, e
trazer as armadilhas para os ratos, por usar, felizmente (uma fechou-se com um
estalo que me fez dar um salto). Mas ele quer vender a casa no melhor estado
possível e faltava ir lá reparar o isolamento do chão. Aspirei os quatro pisos,
dentro dos armários e os três lances de escadas. Não é fácil acomodar o
aspirador nos degraus: ou aquele é demasiado largo ou são estes muito estreitos.
Uma vez - a propósito - caí numa das escadas com o tabuleiro do café. Nenhuma chávena se
partiu e eu fiquei inteira sei lá como. Creio que por a escada ser de madeira,
acho mesmo que foi isso que nos salvou, a mim e às chávenas, que a desceram
alegremente, inteirinhas até ao fim, logo seguidas pelo tabuleiro, este tendo perdido a
corrida. Mas deitei fora, nesse mesmo dia, os sapatos que me fizeram escorregar
num dos degraus. Resultou a medida: não voltei a cair. Nem sequer com o aspirador
às costas, e o cano, e o tubo, tudo, como hoje.
Mas depois do jantar estendi-me no
sofá a ler o meu livro. Comprei-o em Lisboa numa hora feliz na Feira deste ano.
Hora feliz é a minha tradução para a happy hour que eles têm lá, uma hora com descontos
valentes, porém não estou certa de que na Feira a designem assim. Que é uma
hora feliz para mim, é.
Ora cá vai então, diretamente da
página 81:
“Estamos, contudo, como povo, preocupados
com a efemeridade; há imensos frigoríficos.”
Saul Bellow, “Na corda bamba”,
Quetzal
Está a ir muito bem este meu primeiro
livro de Saul Bellow.
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