a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

04/09/2018

Isto não é uma poesia na cidade

Abri a janela para ficar a ouvi-la. Ponho o corpo numa posição de repouso como se não fosse meu, antes pertence de um estar no completo passivo. Para variar. Dentro, o rádio toca um Bruckner, todo capaz de encantar até os espíritos distraídos ou mesmo jovens. Na rua, começaram já as obras no prédio em frente e a porta de um carro bateu. A voz de uma criança ao longe ou um cão ladrar. Em pano de fundo, passam carros, um que buzina. E motas. Às vezes um avião também (num pano de fundo mais elevado, pois).
Concentro-me nos sons. O que quero é isto. O mundo, lá fora, segue existindo, funcionando, vibrando. E é no revelar desta sua ordem que me exclui que posso, finalmente, descansar.

(mas só que então as obras entusiasmam-se e começam os ruídos a doer dentro da cabeça portanto acaba-se logo o descanso, e eu fazia melhor se tentasse inventar máquinas de cortar pedra e vidro ou lá o que é silenciosas e tão potentes como as outras, em vez de fazer postezinhos inúteis como este, não era?)

02/09/2018

Uma espécie de exercício (apetece-me)

Está, há vários dias, uma toalha caída no pátio traseiro do prédio. Ter-se-á soltado de algum estendal ao vento e obedecido sem hesitar à gravidade da sua situação. Não é cá das minhas. Se fosse, já ali não estaria desde o primeiro dia. A mola que prendia a toalha caiu junto com ela. É vermelha e ali deitada ficou, um pouco apartada, no esbranquiçado do chão. Terá sido obra da sua fraqueza de forças que, junto com o vento suposto, para ali a deitou. E à toalha. Ninguém as vai buscar. Hoje de manhã, ao dar os bons dias ao rio, notei a toalha menos aberta, ou seja, mais fechada. A mola não, a mola na mesma. 


(adoraria saber de que cor imaginaste a toalha)

24/08/2018

Histerese com notícias do papagaio

Quando saio de casa para ir ao supermercado comprar uma coisita ou duas meto, à saída do prédio, a chave de casa no bolso a título de a ter bem acessível quando, dentro de alguns minutos, regressar com sacos de compras invariavelmente mais pesados do que inicialmente previsto, evitando pois a mim própria a demorada busca com a mão feita livre à custa de a outra agarrar mais peso, uma busca (louca), dizia, dentro da minha mala de mão (e daí com certeza o nome). Digo louca por ser esta busca acompanhada de pensamentos tais como um-dia-destes-enquanto-lavo-as-costas-engendro-uma-forma-de-abrir-as-portas-todas-com-a-minha-voz-ou-o-meu-olhar raios partam as chaves. E só depois, quando já não aguento a posição de torta e carregada em busca da chave perdida nos fundos da mala (de mão, realmente) e pouso, vencida, os sacos no chão me lembro do bolso. A chave está no bolso! Para te facilitar a vida, não foi? Foi! E depois até costumo esquecer-me ato-contínuo do sucedido, perdoo-me a histerese, no máximo sai-me um suspiro. Só que é sempre assim. Por isso hoje, enquanto subia as escadas com os sacos nas mãos fintando o elevador para fazer o exercício, disse aos meus botões que ia contar isto ao blogue. Disse disse.

(já em casa, enquanto meto as uvas no frigorífico, oiço, pela janela aberta, as cigarras fazendo imenso barulho ao calor, tanto que se nota no papagaio, sobressaindo-lhes a custo com aquela conversa a que já nos habituou, uma certa rouquidão, coitadinho)

(mas vem isto exatamente porquê? porque a minha filha Muzi, quando esteve fora por vários meses, vinha cá ler o blogue para matar saudades, contou-me depois, e os posts de que mais gostava eram os que davam notícias do papagaio - eis porquê)

20/08/2018

All Star aqui também

Logo agora neste verão é que eu fui lá e comprei o meu primeiro par All Star da minha já nada curta vida. Desde aí que me mantenho admirada com isto devido a o par All Star que veio ser meu ser muito lindo todo ele, mesmo muito lindo, e me encantar sempre que me meto lá dentro. Admiro-me também de ninguém vir e dizer a toda a hora ai que sapato tão lindo esse aí!
Ontem estava cá em casa Talissa, amiga de minha filha Saminhas (já tenho dito que esta é a mais nova) e tinha ela, Talissa, também um par All Star em outra cor que não a minha calçado. Fui logo mostrar-lhe o meu par que estava a descansar no chamado closet e ela não reagiu assim muito muito como era de esperar perante beleza assim. Acho que prefere a cor que ela tem.
Entretanto, devido a ter andado a evitar cair da bicicleta metendo os pés na areia de repente sem cuidado nenhum – que eu não posso, nem que a vaca tussa, andar de bicicleta com areia no chão devido a não conseguir isso – o meu par All Star está sujo e eu com medo de o meter na máquina de lavar, medo de ele não gostar. Sacudi o que foi possível com uma esponja muito boa e suavezinha como se lhe fizesse umas festinhas, ao sapato (que é mesmo tão lindo, digo só mais esta vez).

(se este não for o post mais parvinho deste blogue, está um bom candidato - porém a culpa é de quem me inspirou para ele, evidentemente)

(ou também é de estar feliz, se calhar)

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Ena! Temos uma corrente:

* A doce Miss Smile (os meus são ainda mais lindos, mas esses não estão nada mal, não senhor...)

17/08/2018

Sai um cappuccino(zinho)

Creio que apenas uma vez, ou talvez duas, estive num café Starbucks e não por escolha própria, mas por sugestão alheia. Já sei que não me adequo a cadeias de produtos americanos, com muito plástico e papel, barulhentos e que aparecem nos filmes (julgo). Mas quando soube do atraso do meu voo, decidi tomar o tempo e enchê-lo com um cappuccino na cafetaria do primeiro andar do aeroporto já minha conhecida, sossegada, sempre com pouca atividade. Porém, ao assomar a esse tal primeiro andar, indo a subir linearmente na escada rolante agarrada à minha mala azul, vejo que a cafetaria pequena tinha sido substituída por duas enormes cadeiras de massagem que você-não-pode-perder ou lá o que é, das quais eu fujo de entrar não vá de repente a massagem ser mesmo boa de verdade e eu me catapultar para o espaço, perder o voo, por muito atrasado que esteja e tal e tal. E a seguir a este ponto final dizemos que por detrás desse lugar da desaparecida cafetaria toda jeitosinha, está um suntuoso espaço muito bem decorado a paredes pretas e sofás em castanhos vários e mesas próprias, umas redondas outras não, denominado Starbucks. Sim senhor. Hesitei primeiro, claro, mas logo pensei oh, vamos lá abrir a mente a um novo conceito de consumir plástico e papel num produto americano em ambiente barulhento, já que tenho de preencher o atraso do meu voo e já vejo que há tomadas elétricas junto às mesas próprias, podem dar jeito. Suntuoso soa tão fraquinho sem o “m” e o “p” removidos pelo chato do acordo ortográfico, mas por ora fica. Então entrei e pedi um cappuccino na caixa do pré-pagamento. Recebi logo em troca uma enxurrada de perguntas sobre as possíveis variedades do referido cappuccino, uma delas era o tamanho, a outra ainda estou para saber qual era, nem a repetição me esclareceu. Pedi normal e pequeno, ok, pode ser? Podia, mas foi preciso dizer o meu nome. O meu nome?! O meu nome! Disse-o devagar e bem articulado. Eles ali escrevem o nome das pessoas nos copos de papel para depois as chamarem em alta voz quando a bebida estiver pronta, como se aquilo demorasse séculos a preparar, a bebidinha de nada, é que não estamos a falar de uma costeleta de novilho bem passada, ou de um belo bacalhau espiritual, não estamos a falar de um linguado au meunier, não estamos, o que estamos é a falar de um cappuccinozinho pequeno e normal, ponto. Portanto é um marketing todo ali especial e suntuoso (preciso de me habituar a esta palavra). Argh. Odiei ouvir o meu nome desbravado assim à larga por cima de um espaço tão… grande. E mal escrito que ficou. A comunicação com o empregado não foi das boas. Eu fiquei Suzanna. Ele não sei. Não perguntei.