Discutia com o gestor da obra a cor da massa a colocar entre
os ladrilhos da casa-de-banho a refazer toda ela de novo após o desmantelamento global.
Eu não houvera pensado de maneira nenhuma com antecedência na cor da massa para entre os ladrilhos, isto dito por forma a dar a ideia melhor.
- Quer branca, marfim ou mais acastanhada? – pergunta-me o
gestor da obra.
Estou a processar as imagens que me correm na mente mostrando
o efeito de cada uma das cores mencionadas, tentando apurar a vista da
imaginação para detetar as diferenças, e o gestor da obra, com a sua
experiência larga em detalhes semelhantes a este, vem em meu auxílio.
- Olhe que o marfim fica muito bem.
- Pode ser o marfim, então.
Vladimir, o trabalhador que vai colocar a referida massa, aguardava o resultado da conversa em silêncio, coberto de um pó muito
branco que lhe descolora o já russo cabelo e pestanas também.
- Marfim – ele repete – essa é cor quê?
- Marfim, Vladimir, é uma espécie de branco. Branco sujo. –
diz o gestor da obra apontando para a porta da casa-de-banho, presente, e em
branco (sujo?...).
Vejo que para Vladimir o tal de marfim ainda não está claro (mas
claro que deve ser do sujo).
Eu, que já simpatizo com este cidadão russo parcialmente
aportuguesado devido ao tempo, por exemplo por chegar Vladimir dois minutos
antes da hora combinada, impreterivelmente, e trabalhar dez horas seguidas se
não contarmos com a interrupção para o caldo que come aquecido no micro-ondas e
que ainda ninguém conseguiu ver portanto pensamos ser um caldo magro tal como é o
seu comensal, ajudo.
- É a cor dos dentes dos elefantes. O material dos dentes
dos elefantes é que é o marfim… - não posso garantir que não tenha aqui
ilustrado com as mãos o desenho, no ar, dos dois dentes de elefante de que eu
disporia se fosse um.
- Sim – o gestor da obra parece impressionado – é isso
Vladimir, os dentes dos elefantes!
Vladimir está a observar o teto da casa-de-banho, pensativo.
E de repente exclama.
- Ah! Então esse país o Marfim
de Costa, já percebi!
- Costa do Marfim – diz o gestor da obra.
- Isso. Nós dizemos no russo Costa de Dentes do Elefante. Se você traduzir mesmo traduzir.
E, logo a seguir.
- Não. Não é dentes do elefante... Se traduzir mesmo
traduzir é ossos do elefante. Em russo dizemos Costa do Ossos do Elefante. Já percebi!
Depois, parecendo animado, retomou o trabalho. O seu
dispositivo eletrónico pendurado no parafuso sobrevivente do recente desmantelamento
da já conhecida deste post casa-de-banho, segue emitindo, também ele debaixo de uma camada de pó, baixinho, uma música clássica.
Antes de sair, o gestor da obra, que é patrão de Vladimir, para
um segundo à porta e diz-me em voz mais baixa, um nada solene, ele ouve música clássica.
