a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

13/12/2018

Ossos do elefante

Discutia com o gestor da obra a cor da massa a colocar entre os ladrilhos da casa-de-banho a refazer toda ela de novo após o desmantelamento global. Eu não houvera pensado de maneira nenhuma com antecedência na cor da massa para entre os ladrilhos, isto dito por forma a dar a ideia melhor.
- Quer branca, marfim ou mais acastanhada? – pergunta-me o gestor da obra.
Estou a processar as imagens que me correm na mente mostrando o efeito de cada uma das cores mencionadas, tentando apurar a vista da imaginação para detetar as diferenças, e o gestor da obra, com a sua experiência larga em detalhes semelhantes a este, vem em meu auxílio.
- Olhe que o marfim fica muito bem.
- Pode ser o marfim, então.
Vladimir, o trabalhador que vai colocar a referida massa, aguardava o resultado da conversa em silêncio, coberto de um pó muito branco que lhe descolora o já russo cabelo e pestanas também.
- Marfim – ele repete – essa é cor quê?
- Marfim, Vladimir, é uma espécie de branco. Branco sujo. – diz o gestor da obra apontando para a porta da casa-de-banho, presente, e em branco (sujo?...).
Vejo que para Vladimir o tal de marfim ainda não está claro (mas claro que deve ser do sujo).
Eu, que já simpatizo com este cidadão russo parcialmente aportuguesado devido ao tempo, por exemplo por chegar Vladimir dois minutos antes da hora combinada, impreterivelmente, e trabalhar dez horas seguidas se não contarmos com a interrupção para o caldo que come aquecido no micro-ondas e que ainda ninguém conseguiu ver portanto pensamos ser um caldo magro tal como é o seu comensal, ajudo.
- É a cor dos dentes dos elefantes. O material dos dentes dos elefantes é que é o marfim… - não posso garantir que não tenha aqui ilustrado com as mãos o desenho, no ar, dos dois dentes de elefante de que eu disporia se fosse um.
- Sim – o gestor da obra parece impressionado – é isso Vladimir, os dentes dos elefantes!
Vladimir está a observar o teto da casa-de-banho, pensativo. E de repente exclama.
- Ah! Então esse país o Marfim de Costa, já percebi!
- Costa do Marfim – diz o gestor da obra.
- Isso. Nós dizemos no russo Costa de Dentes do Elefante. Se você traduzir mesmo traduzir.
E, logo a seguir.
- Não. Não é dentes do elefante... Se traduzir mesmo traduzir é ossos do elefante. Em russo dizemos Costa do Ossos do Elefante. Já percebi!
Depois, parecendo animado, retomou o trabalho. O seu dispositivo eletrónico pendurado no parafuso sobrevivente do recente desmantelamento da já conhecida deste post casa-de-banho, segue emitindo, também ele debaixo de uma camada de pó, baixinho, uma música clássica.

Antes de sair, o gestor da obra, que é patrão de Vladimir, para um segundo à porta e diz-me em voz mais baixa, um nada solene, ele ouve música clássica.

16/11/2018

Guádadamêndoas

Se não tivesse vindo calhar ou-tra-vez na carruagem do silêncio, não o teria quebrado ao correr o fecho da mala do computador, rrrrrrr, para escrever este post que afinal ainda quis vir.
Mas quer dizer, é coincidências. É, singular, coincidências, plural. E aposto que assim está bem muito obrigada.
A carruagem do silêncio, para além de mim toda caladinha, traz um homem e um gelado Magnum, em que um vai comendo o outro, e traz também o casal metade tatuado que vinha no mesmo voo que eu, logo na linha da frente. A parte tatuada do casal, ele, fala português do Brasil e tem o olhar firme de um homem que sabe o que quer todo o tempo completamente. Ela fala português Europeu, parece que se diz assim, Europeu, que nós não vamos para Lusaexit nenhum, e que se veja ela não tatuou ainda nada. Falavam, no avião, acerca das tatuagens (dele). Apontando para os dedos, ele explicou que essas doeram. Nos dedos. Nas mãos e nos braços não tanto. Mal sobrava pedaço de braço dele, escrutinei, mas sobrava ainda o suficiente para ele esclarecer que ali mesmo, junto ao pulso, vai fazer um padrão, que ainda cabe um padrão e ele gosta muito de padrões. Ela ouvia, atenta. Para além das tatuagens e do olhar de quem não acomoda dúvida nenhuma, ele tem alargadores nas orelhas. Aquilo faz-me uma impressão muito grande olhar e quando sem querer olhei enquanto comia a sanduíche de avião, tive de esperar um bocado antes de continuar a comer. Mas depois lá foi a sanduíche, que em Português do Brasil é masculino, o sanduíche, por ali fora sem tanto problema. Estou a ficar mais ao jeito bom, é o que é. Mas então agora vêm na mesma carruagem do silêncio que eu, o casal metade tatuado. Só que eles na deles e sem fazerem o silêncio qual quê. Claro que ignoram que esta quasi-velhota com um casaco maior do que era preciso compreende muito bem os seus portugueses, o Europeu e o Americano, e lhes ouve a conversa sobre uma ida muito especial às Amoreiras e tal e tal.
Antes de fechar, anotamos que os caixotes do lixo em formato de gaveta metálica desta carruagem do silêncio fazem tanto barulhão a abrir e a fechar como os das outras carruagens. Quando o homem sentado à minha frente lá meteu, primeiro, o papel do Magnum de amêndoas que vinha a comer e, depois, o pau, é que eu reparei.

Para alindar este final que ficou um bocado esquisito sem querer, acrescentamos a doçura saudosa de a minha filha mais nova, em pequena, chamar “Guádadamendoas” ao mencionado gelado.

26/10/2018

Cascas da sopa às cabras

O ex-vizinho inglês, aliás, um dos ex-vizinhos ingleses da aldeia da serra, é de notar que sendo esta uma aldeia de Portugal, quando cá estou sou a muito única portuguesa se não contarmos com o padeiro mas só à hora do padeiro, óbvio, o ex-vizinho inglês, dizia eu, voltou. Tinha sido o último habitante permanente, logo depois da mulher checa sem dentes e com um cão louco que me metia cá um medo, portanto o último a abandonar a aldeia à intempérie, seja aos ventos seja ao sol, aos pássaros, às martas, sim, há martas, javalis, veados, pirilampos em junho e gafanhotos nesta altura do ano. Voltou e trouxe a família que, entretanto, aumentou. Mulher, filho que já começou a ir à escola e uma filha novinha. Tem um problema de bronquite a menina e os ares de Portugal são mais favoráveis a pulmões frágeis do que os daquela ilha que ou sai ou não sai da Europa, dá-me a mim ideia que no fundo no fundo não quer sair mas finge que quer, estes nativos de que falamos não saem, pronto, até voltaram para ela. Está mais gordo, o vizinho inglês. Nem o reconheci quando, há dias, o vejo passar na rua com uma cabra agarrada por dois pés, a cabra de cabeça para baixo chateada que eu sei lá, a avaliar pelos gritos que vinha dando rua abaixo. Parecia a aflição de um gato mas era a aflição de uma cabra (só que a dos gatos é mais conhecida). O vizinho é bastante forte de força, agora não digo forte de gordo, é de força que digo, porque erguia a cabra acima do seu ombro, que a bicha de pequena não tem nada, ou seja, para não vir a cabra a varrer a rua com o focinho, coitadinha. Mas fiquei na dúvida. Na altura recolhi a minha espreitadela para dentro e hoje é que soube que o vizinho é ele, o mesmo, o John, olá John, então de volta? E a cabra?
- Ah, as cabras estão finas, não são para comer nem nada, são de estimação.
- As cabras?!
- Sim, já temos quatro, ontem fui buscar mais duas.
O vizinho inglês faz portanto coleção de cabras e não vamos ficar por aqui.
- E cinco cães.
- Cinco?!
- Sim, mas são mínimos – John dispõe as suas mãozorras em prancha vertical, paralelas e próximas entre si – são Chihuahua.
- Ah.
Está, então, uma família bastante composta a repovoar esta aldeia quase sempre toda deserta.

Mais tarde, após a noite cair em cima das cabras e dos Chihuahua (fui ver como se escreve Chihuahua), fiz uma sopa e o jantar. Então veio de repente a mim uma ternura proveniente da coleção de cabras do vizinho e pus-me a guardar as cascas todas da sopa. Oh c’amoooor!, como diria a minha irmã Ana, que me faz sempre rir quando imita as suas alunas. Batata, cenoura, curgete, alho francês, o alho francês não tem cascas mas eu fiz por lhe arranjar uma espécie dalgumas, alface, idem relativamente a cascas, e ainda coentros, novamente idem. As cabras vão gostar. As da cebola reservei para o caixote do lixo, colam-se a tudo e esvoaçam, podem engasgar as cabras, de maneira que lixo. Depois fui e juntei as cascas da maçã que compôs a salada para o jantar, acho até que inclinei a cabeça com a ternura que me bateu. Oh c’amor!

10/10/2018

A bola

Ainda usufruindo da boa-disposição proveniente da boa disposição da corvina com batatas no forno do post anterior, é desculpar a insistência, fui hoje ao ginásio sofrer. Toma. É que devido à minha escassa comparência do tipo quê, do tipo uma ida por mês (o que é isso), quando vou, vou sofrer. Ora hoje a professora mandou-nos ir buscar as bolas. As bolas são uma para cada pessoa e grandes, de borracha. A gente deita-se, senta-se e rebola nas bolas. Não tem graça nenhuma. Também temos de nos equilibrar em cima delas. Devo acrescentar que uma pessoa não fica nada sexy em cima da bola. Pelo menos eu não fico, recuso-me. Ora uma bola tem forma de bola, daí o nome, tornando-se difícil equilibrar um corpo ainda para mais dorido e cada vez menos novo em cima dela. Nunca gosto das aulas com as bolas. Normalmente ou estou em posição errada ou doem-me os músculos praticamente todos ou, ainda, caio da bola abaixo e ela aproveita para fugir, rebolando. Porém hoje, a determinada altura dos exercícios, não senti dor nenhuma e primeiro ia ficando contente, mas depois caí na real e pensei que devia estar numa posição toda mal feita, porque as posições bem feitas doem realmente. Se bem pensei, melhor ouvi a professora dizer, Susana é mais para trás! Logo vi. Ajeitei-me mais para trás em cima da bola até a professora ficar satisfeita com a minha prestação e eu com as dores musculares que me eram devidas todas no sítio, evidentemente. Não caí logo, pelo menos foi isso uma evolução e até fiz os levantamentos à medida do solicitado. Pernas, braços, cabeça. Correu bem se descontarmos as dores até à parte em que era preciso descontrair as cervicais e eu descobri nesse momento que não me lembro onde estão as minhas cervicais. Nem as minhas nem as de ninguém. Então resolvi descontrair praticamente tudo o que encontrei, de modo a englobar as cervicais. Mas claro que uma decisão destas tem o seu preço e eu comecei a cair da bola porque ao descontrair-me assim toda fui-me esquecendo dela. Levantei-me num instante e tornei a postar-me em cima da bola antes que fugisse a rebolar como é costume das bolas em geral. Ganhei. Mas continuo sem me lembrar onde estão exatamente as cervicais.

Esguichadas

Eu não gosto da peixaria e só lá vou porque muitas vezes quero peixe. Peixe sem ser salmão nem perca, os quais, juntos, representam quase toda a oferta do lugar. Não sei porquê. No entanto, com olhares cirúrgicos, bem orientados, descobrem-se outros pescados mais especiais. Vi pois as corvinas e gostei logo delas. De uma em especial. Tirei então a senha de vez da máquina de senhas de vez. Tinha um número à minha frente, só-um-número-ena-pá, de modo que ganhei esperança, pus-me a aguardar e a olhar para os peixes. Mas a esperança foi cedo gorada devido a 1) o rapaz que estava a atender a freguesa antes de mim ser todo ele lentinho como sei lá o quê e 2) a sua única colega visível andar a dar mangueiradas no chão por baixo do balcão dos peixes em vez de se dispôr a dar-me a corvina. As mangueiradas foram tais que eu senti os esguichos nos meus pés deste lado. Não estando descalça estava a calçar uma espécie de sandálias, totalmente à verão. Eu disse, está a dar-me banho aos pés. E dei um passo atrás porque aquela água esguichada com aromas florais é que não vinha.
- Ah, desculpe, querida.
O moço que não devia nada à rapidez continuava a tratar de várias douradas ao mesmo tempo e por aquele andar quando eu pegasse na minha corvina, ou já seria Natal, e eu de sandálias, ou a corvina já se teria passado completamente. Isto é, resolvi agir.
- Olhe, se faz favor – disse para a senhora das mangueiradas que não parava com aquilo, só esguichos – por acaso não haverá aí mais ninguém para atender, não?!
Neste momento eu já contava com uma meia hora de espera e umas quantas esguichadas nos pés.
- Minha querida, já vai, é só acabar isto.
Podiam ter posto o menininho a dar as esguichadas e a senhora, que era mais valente, a tratar dos peixes, mas quem sou eu. Finalmente, quando ela se despachou e arrumou a mangueira cansadíssima, aposto, de tanto esguichar para ali, veio ter comigo, então querida o que vai ser?
Como nós já sabemos o que vai ser, vou saltar esta parte. Comi-a hoje. Corvina no forno com batatas às rodelas em redor. Às rodelas em redor é uma boa disposição. Tanto que eu, depois de a ter comido, (ainda) mais bem-disposta fiquei.

04/10/2018

Conjunto de cabeça

Na cafetaria junto ao terraço de ver aviões, no pequeno aeroporto de Eindhoven, escolhi uma mesa com vista para uma tomada elétrica ao alcance da minha mão, o que pode dar jeito. Vou poder trabalhar largo nas muitas horas de espera que tenho para embarcar de regresso a Lisboa. Na mesa atrás de mim está um homem que parece alemão e que está mesmo a falar alemão com alguém, algures, através do seu headset. Como se pode dizer headset em português? Conjunto de cabeça? Conjunto de cabeça. Aprovado (e não soa mesmo nada mal). Ora bem, então o rapaz – é um homem, mas novo, novo, tipo rapaz – fala o seu alemão do qual eu posso extrair uma ou outra palavra caso atente. Mas não é bonito ouvir as conversas dos outros, mesmo que só delas perceba uns 2%, penso. Então que faço eu? Deito a minha mala no chão, abro-a, e de lá retiro o computador, coloco-o em cima da mesa, volto à mala aberta no chão que jaz meio atrás de mim, digamos que às 17 horas atrás de mim, e o alemão que se senta às 18 horas mas mais longe do que a mala, ufa que ainda tenho esperança de um dia conseguir escrever conciso, de repente cala-se lá com os seus ich und não-sei-quê, levanta-se da cadeira de um salto e já sem o seu conjunto de cabeça posto, olha para mim e abre um grandessíssimo de um sorriso, sim, para mim. Quem sabe terei mostrado alguma surpresa, pois ele diz-me logo depressa, em inglês, acabei de ter uma entrevista de emprego (e aponta para o seu próprio computador) e, desculpe, mas tenho de dizer a alguém (parecia estar na iminência de se pôr aos saltos, de pé, ao lado da mesa, eu sentada, ainda torcida para as 17 horas da minha mala no chão), é que estou tão feliz porque este é o emprego que eu quero e acho que eles gostaram de mim! E continua, levantando uma perna, apontando para ela, e olhe como estou, estou assim! Para uma entrevista de emprego! (está em calções), mas eles só podiam ver daqui para cima (agora indica a camisa, um tanto amachucada) e correu tão bem! estou tão feliz!! Perguntei-lhe onde é o emprego, se é na Alemanha. Sim, é em Colónia. E depois explicou-me a função, o tipo de empresa, eles são mesmo bons e eu quero fazer parte do projeto, é uma empresa super! Ele não podia parar, desculpe, é que estou mesmo feliz!
Quando se acalmou e tornou a sentar-se, pude retirar-me da função de ouvinte, voltar-me para o meu trabalho que me espera em cima da mesa às 12 horas, e fazer as minhas até à do embarque, ao passo que ele lá continua nas 18 tornando a dar uso ao seu conjunto de cabeça pelo qual transmite um alemão feliz, fluente, e agora num tom mais baixo, do qual nada, nem 2%, eu ouvi.

Errata: onde se lê "17" deve ler-se "5" e onde se lê "18" deve ler-se "6".
(Graças a AFRODITE, a quem agradeço a correção)

27/09/2018

Post de oferta em andamento

O comboio está, parece-me, mais sujo. Que os comboios na Holanda são muito sujos, já sabemos. Mas hoje, este, está no top mais dos comboios sujos. Sento-me num banco único, sem lugar ao lado, para melhor gerir a minha pouca mas ainda assim bagagem em torno de mim não interferindo com espaço que pode vir a ser tomado por outra pessoa mais tarde ou mais cedo. Em princípio mais tarde. Surpreendentemente, o comboio vai quase vazio em termos de passageiros. Mas está um cheiro no ar. Um cheiro relacionado com casas de banho também no espectro do sujo. Mudo de lugar para um dos duplos uma vez que dos simples já não há, em busca de um cheiro melhor. Rearranjo a bagagem em torno de mim. Mas o cheiro continua. Deve estar a ser este emitido por qualquer coisa orgânica dentro da gaveta metálica sempre pronta a recolher o lixo dos passageiros, que há junto a cada fila de lugares. A gaveta mais próxima de mim vai um pouco aberta e deve levar uma fraldinha dentro. É uma boa hipótese, uma hipótese fácil de imaginar. Mudo de lugar pela segunda vez ainda na senda de um cheiro melhor e paramos em Amsterdam Zuid. A voz masculina no altifalante do comboio (será que ainda se pode atribuir sexo, perdão, género, a vozes que ouvimos em altifalantes dentro de comboios?), a voz masculina, arrisco lá então, anuncia a estação presente. E depois continua, conferindo certa urgência no seu troar, quase talvez cómica, uma urgência de professor avisando alunos distraídos, este não é o comboio pára-em-todas para Amersfoort, este é o comboio rápido para… e enuncia todas as estações do rápido em que estamos, eu e o cheiro a fraldinha (vamos assumir). No meu terceiro novo lugar a situação está, mesmo assim, mais otimista quanto ao cheiro e lá fora noto que faz sol. A nota do sol vem trazer um bocadinho de alívio ao contexto em que estamos de comboio sujo e mal-cheiroso, é uma cortesia da casa. O comboio, porém, ainda não arrancou todo-porco de Amsterdam Zuid. Está agora a ouvir a repetição da mensagem acima, nomeadamente com a urgência avisadora mais agudizada, oiçamos, este comboio não é o pára-em-todas para Amersfoort!, este comboio é o rápido para… e desfia de novo toda a estação vindoura, bem articulada a voz masculina (só mais esta vez), pausada, considerando que alunos aqui sentados, apesar de poucos, não estão suficientemente atentos. Eu penso que é então agora que vamos lá embora, já estou ansiando pelo duche que me espera, mas não. Agora vamos é ouvir a nova mensagem no altifalante que já está a sair, diz ela assim: “É a última vez que estou a avisar!”
Eu ri-me, esqueci-me da fraldinha na gaveta, do cheiro no ar, o comboio arrancou e ainda não parou.


Pára-em-todas leva acento em pára neste post. De oferta.

22/09/2018

Verstá

Fica este blogue tão lindo com o título do último post a benvindar quem cá entra, que eu tenho andado a deixá-lo estar, mas já chega de mimos. E por acaso pensava que a palavra "benvindar" não existia, porém ao escrevê-la agora não veio a sinusoidezinha vermelha sublinhando a falha. Ai ai.

A páginas tantas do meu Tchékov (ah sim, voltei para ele), fui à procura do significado da palavra "verstá" no dicionário e esbarrei com este artigo de Marco Neves, que li até ao fim. Uma pessoa na internet distrai-se muito. E eu distraí-me recordando - ao ler o Marco Neves - quem diz "colocar" no lugar de "pôr" porque "quem põe são as galinhas". Ou seja: "colocar a mesa" quando se refere a pôr os pratos, copos, talheres e outros básicos nos lugares da mesa para o jantar. Colocar o cinto de segurança, colocar a tampa na caneta. Depois eu quis lá comentar no artigo do referido tradutor e autor mas aquilo pedia o meu facebook e eu continuo sem ter um facebook. Isto, meus amigos, é uma baita de uma discriminação. Quem tem um facebook pode comentar o artigo, quem não tem ou não pode comentar o artigo (e se tiver blogue vem fazer queixinhas para o blogue) ou então que faça um facebook e é já imediatamente. Bar-da-merda. A trabalheira de fazer um facebook só para comentar o Marco Neves. Querias.

E entretanto almocei, pela terceira vez consecutiva, terceira vez, e isto sim, é tema, o almoço do revisor do livro mais lindo que li de Saramago. São todos lindos os que li, todos, mas este último transbordou-me as medidas de tal modo que o deixo influenciar-me o almoço e não é pouco. Almoço eu então o mesmo que o revisor e protagonista d' A História do Cerco de Lisboa. Vou mais longe: há uma eu antes d'A História (do Cerco de Lisboa) e outra eu depois dela. Ah é desta envergadura é! Portanto para quem ainda não leu o livro: leia. Poooor favoooooor.

Mas lá encontrei "verstá". Só que em contradição, ou melhor, em dois comprimentos: 1500 metros e 1067 metros. Não sei em que ficamos. Ou sei, ficamos já aqui.

17/09/2018

Rinoceronte

Há dias almocei na Mensagem. Ao primeiro embate, e o primeiro embate encontra-me sempre em modo automático, invoquei Fernando Pessoa ali para os fundos do subconsciente. Mensagem, Fernando Pessoa. Mantive-me assim enquanto escolhíamos a mesa e decidíamos sentar dentro e não fora, na esplanada. Éramos quatro (e ainda somos se nos tornarmos a juntar as mesmas). Depois, num continuar, é que vi o Rinoceronte. Aliás meio Rinoceronte, que o resto não cabia em lado nenhum. Nem no vidro à entrada da cafetaria - Mensagem é o nome de uma cafetaria que parece um restaurante - nem na capa do menu, nem no seu verso nem onde quer que fosse que ele aparecesse, o Rinoceronte era só a metade (da frente). Mas percebe-se. Uma coisa é uma gaivota, ou uma coisa é um gato, outra coisa é um Rinoceronte. E foi finalmente sentadas à mesa, as minhas amigas e eu, de menu na mão, que li o que havia lá para ler depois de ler o que havia lá para comer, acho que se percebe. Delícias à parte, eu queria saber mais da Mensagem. Um cérebro está a invocar o Fernando Pessoa e só vê em redor metades da frente de um Rinoceronte, assim não dá e leva tempo. Ainda por cima, vou ter mesmo de introduzir uma informação. Este era um menu não nojento. Era um menu aliás bastante raro que se deixa ficar nas mãos à vontade sem qualquer tipo de pressa querendo ser largado, deixa-me! Deixa-me em paz! Eu e as minhas bactérias, os meus germes! Não. Este é um menu recomendável e limpo, sublinho limpo, ainda que não grande o suficiente para caber o Rinoceronte inteiro, mas isso ok não tem problema. A metade da frente do Rinoceronte já é completamente espetacular. E leio então a Mensagem.

Era sobre D. Manuel. Não teria se calhar D. Manuel uma gaivotazinha a jeito ou um gato que fosse e que nos dias de hoje haveria de caber inteirinho na capa do menu. Opta o nosso D. Manuel por escolher um Rinoceronte para mandar para Roma. Sério. Para Roma no sentido de o oferecer ao Papa. No entender de D. Manuel havia de ser um Rinoceronte, pronto (é lá com ele). Um bicho de grande porte e maljeitoso para meter inteiro em capas de menus (mas naquele tempo não havia menus). Pelo caminho, o animal descansou algures em França num porto qualquer. O rei francês achou-o tão giro que não deu ordem de o bicho continuar a viagem logo a seguir a ter chegado porque ele estava a atrair muita gente curiosa e encantada ao porto, tipo espera aí um bocadinho. Ora eu, se tivesse sido uma francesa desse tempo, também teria corrido a ver o Rinoceronte ao porto, como é evidente. A história, contudo, acaba super bem. O Rinoceronte, que era não só uma Mensagem como era uma Mensagem de paz ele próprio, chegou são e salvo a Roma, apesar de com certeza cansado ou quem sabe um bocado enjoado. Quanto a nós as quatro, pelo contrário, comemos uma refeição supimpa, umas sobremesas soberbas de um design que desencadeava duelos entre os olhos e a barriga, e tanto foi que quando as quatro de lá saímos eram as quatro da tarde.

16/09/2018

Sem título

Quando terminei a leitura do conto “Enfermaria Nº 6” de Tchékhov ia no terceiro golo de café. Então fechei o livro para me dedicar exclusivamente à digestão do torcido no estômago, ainda que aconchegado nos três golos de café quente, mais quente. Não é cedo nem é tarde, é domingo. E esta é a forma boa, digo perfeita, de não entrar sozinha num dia estéril, vaporizado e dorido. Em cheio.


15/09/2018

Se me quiseres aborrecer de verdade

Fala-me de como é potente o teu carro e gaba-te de não cumprires nunca o limite de velocidade, conta-me como fizeste bom negócio a comprar e vender imobiliário e detém-te nos detalhes, usa roupa só de marca fazendo questão de o mostrar ainda que pareça que não, faz por denegrir a imagem dos outros aproveitando para te enalteceres mesmo que subtilmente, diz estrangeirismos a cada duas frases, pronuncia “ponhamos” com a acentuação na primeira sílaba e não te corrijas logo a seguir.

(com os devidos créditos a Pipoco Mais Salgado)

14/09/2018

Caldos de galinha

- Ó mãe, da próxima vez que vires o Sr. Valério podias comentar os ovos que ele nos deu. Dizias que já acabaram e depois fazias uma pausa. A seguir dizias que eram mesmo muuuuuuuito bons!... Pode ser que ele nos dê mais, ele tem muitos?
- As galinhas dele. Sim, diz que põem vinte e tal por dia.

A minha filha Saminhas está convertida à boa mesa ou à mesa boa, dependendo do ponto de vista. Quem a viu e quem a vê. Em pequena era um desassossego. Uma vez que cá em casa não havia oreos ou bolicaos, donuts ou iogurtes com açúcar adicionado, ela fazia investidas na despensa da minha irmã Ana, cujo recheio ia muito no sentido dos seus interesses: de chocolates para cima havia lá de tudo – quando desaparecia a minha filha mais nova em casa da tia, toda a gente sabia onde a encontrar. Porém saudável é hoje para ela a palavra de ordem, verde a cor. Na nossa cozinha, já habitam três vasos de manjericão na variedade viçoso e bem hidratado, isto nomeadamente. Muito embora divergindo do espetro do verde, os ovos do Sr. Valério, voltemos à vaca fria, ou das suas galinhas, foram muito bem acolhidos cá em casa. Ele apareceu-me lá na serra com “uma coisa para mim” que se materializava num saco cheio deles. “Tenha cuidado para não se partirem”, advertiu. “Ponha-os no meio da roupa quando for para Lisboa.” E ainda acrescentou, como se eu precisasse de um incentivo para tanto ovo ali tão bom “São uma maravilha, a gema não tem nada a ver, esta é muito mais amarelinha!”. Não os meti no meio da roupa, não fosse o diabo tecê-las, fiz de outra maneira que deu. Isto quer dizer que chegou a Lisboa - com muitos cuidados e caldos de galinha para nos mantermos no contexto - chegou então a Lisboa sã e salva a dúzia e meia de ovos contada por ele e confirmada por mim. E os primeiros exemplares claro que já cá cantam, daí o diálogo encimando o post. Confirma-se realmente o amarelo da gema a tender para o laranja (não tem nada a ver). De modo que optei por não esperar encontrar o Sr. Valério da próxima vez que for à serra. Tomei o telefone e escrevi-lhe comentando os ovos. Dei-lhe razão. A ver se ele me dá resposta. Resposta e... hum… quer dizer... isso.

12/09/2018

MAKE TODAY GREAT (pode ser um smoothie)

São tantos os projetos de post que vão ficando por aí em águas de bacalhau ou a ver navios, tanto faz, que mais tarde ou mais cedo algum haveria de vir à tona. Verificou-se. Ia eu lançada pelo caderno de tomar notas do trabalho quando dou de caras com um destes projetos na última folha. Oh, estás aí? Então diz lá! E ele diz! (As vantagens de escrever em caderno de papel. Gosto imenso.)

Tem dois meses o projeto. E passa-se na cafetaria de um hospital. Eu estou sentada aqui e ali está uma mulher com óculos de massa vermelha. É por causa dos óculos que eu estou a olhar para ela. Não consigo decidir se gosto mais de óculos de massa azuis ou vermelhos, acho lindos ambos. Ela tem vermelhos e usa uma camisola com letras. Aqui não costumo escrever T-shirt porque muita gente distraída vai e chama T-shirt a tudo o que for de usar na parte superior do corpo, à exceção talvez de soutien ao qual chamam soutien, mas de resto é T-shirt no geral mesmo que seja uma camisola de alças, que tem mais a forma de um saco de ir ao supermercado do que a de um T. E isto incluindo, valha-me deus, as lojas de roupa, T-shirts! tudo a 3 euros!, e vamos a ver e são as tais camisolas de alças, ali mesmo onde a malta devia saber da poda não sabe, mas estamo-nos a desviar. Portanto a mulher dos óculos vermelhos enverga uma camisola em forma de T, ou seja, com mangas curtas, e neste caso letras grandes. Afino a vista e leio: “MAKE TODAY GREAT”. É uma grande ideia, fico atenta. Vou bebendo o meu suavezinho de frutas cor-de-rosa que de certa forma está a fazer o meu dia grande, e de vez em quando olho na direção da utilizadora dos óculos vermelhos, a ver se de lá vem alguma indicação sobre o MAKE TODAY GREAT em sua opinião. De repente levanta-se, (é agora!), diz qualquer coisa à senhora com quem está e caminha numa direção que a leva para um campo de visão fora do meu (bolas). Mas MAKE TODAY GREAT viu-se maior quando ela passou por aqui. A ver no que dá.

Quando regressa ao meu campo de visão, ela traz um belo gelado na mão.


Já sei por que não promovi logo este projeto a post. É fraquinho. Um gelado na mão, mesmo sendo belo, é fraquinho (e com uma rima, fu!). A mulher havia de ter trazido outra coisa mais, sei lá, mais vantajosa, mais vibrante, mais tcharam! na mão. Aí tinha valido o post. Assim não.

07/09/2018

Nem um saltinho nem um aizinho

A barata que ontem caminhava pelo chão azul clarinho do meu cliente hoje não veio. Pelo menos que eu visse. Olhei bem em frente, à esquerda e à direita, foi varrimento ou varredura. Não estava. Bom dia, a barata está? Não, ela não está. Vem mais tarde? Nem isso, não vem mais tarde. A verdade é que não estamos a cair numa fábula, este diálogo não vai por aí, ok? Este diálogo é imaginário decorrente da situação e do meu medinho de hoje não me segurar como ontem me segurei na hora de a barata aparecer em casa do meu cliente. Eu estando ali a prestar serviço não havia de tomar tempo para reagir que nem uma barata tonta a outra bastante vivaça, segura de si, em modo de passeio. Porém não tirei os olhos dela. Uma pessoa tem de manter controlada a situação enquanto está toda profissional a fazer uma conversa. Mas o cliente vê a minha fixação na bicha: Faz-lhe diferença?... Não! – menti - desde que ela não venha cá ter comigo… Pois portei-me lindamente, é o que digo. Nem um saltinho nem um aizinho eu dei, nada. A barata seguiu na direção do gabinete do fundo, ciao. Eu optei pelo lado oposto que dá para a casa de banho. Anunciei já volto, na boa. E assim fiz: voltei. Aí, o chão azul clarinho já estava livre da barata. Uma grande barata que era, bem alimentada, as antenas no ar, todas mexendo. Não aprecio. Portanto hoje atravessei o chão azul clarinho quatro vezes e quatro vezes procedi ao varrimento ocular proximal, distal, bilateral supra indicado. Varrimento ou varredura, nunca sei. Mas não interessa, correu lindamente.

04/09/2018

Isto não é uma poesia na cidade

Abri a janela para ficar a ouvi-la. Ponho o corpo numa posição de repouso como se não fosse meu, antes pertence de um estar no completo passivo. Para variar. Dentro, o rádio toca um Bruckner, todo capaz de encantar até os espíritos distraídos ou mesmo jovens. Na rua, começaram já as obras no prédio em frente e a porta de um carro bateu. A voz de uma criança ao longe ou um cão ladrar. Em pano de fundo, passam carros, um que buzina. E motas. Às vezes um avião também (num pano de fundo mais elevado, pois).
Concentro-me nos sons. O que quero é isto. O mundo, lá fora, segue existindo, funcionando, vibrando. E é no revelar desta sua ordem que me exclui que posso, finalmente, descansar.

(mas só que então as obras entusiasmam-se e começam os ruídos a doer dentro da cabeça portanto acaba-se logo o descanso, e eu fazia melhor se tentasse inventar máquinas de cortar pedra e vidro ou lá o que é silenciosas e tão potentes como as outras, em vez de fazer postezinhos inúteis como este, não era?)

02/09/2018

Uma espécie de exercício (apetece-me)

Está, há vários dias, uma toalha caída no pátio traseiro do prédio. Ter-se-á soltado de algum estendal ao vento e obedecido sem hesitar à gravidade da sua situação. Não é cá das minhas. Se fosse, já ali não estaria desde o primeiro dia. A mola que prendia a toalha caiu junto com ela. É vermelha e ali deitada ficou, um pouco apartada, no esbranquiçado do chão. Terá sido obra da sua fraqueza de forças que, junto com o vento suposto, para ali a deitou. E à toalha. Ninguém as vai buscar. Hoje de manhã, ao dar os bons dias ao rio, notei a toalha menos aberta, ou seja, mais fechada. A mola não, a mola na mesma. 


(adoraria saber de que cor imaginaste a toalha)

24/08/2018

Histerese com notícias do papagaio

Quando saio de casa para ir ao supermercado comprar uma coisita ou duas meto, à saída do prédio, a chave de casa no bolso a título de a ter bem acessível quando, dentro de alguns minutos, regressar com sacos de compras invariavelmente mais pesados do que inicialmente previsto, evitando pois a mim própria a demorada busca com a mão feita livre à custa de a outra agarrar mais peso, uma busca (louca), dizia, dentro da minha mala de mão (e daí com certeza o nome). Digo louca por ser esta busca acompanhada de pensamentos tais como um-dia-destes-enquanto-lavo-as-costas-engendro-uma-forma-de-abrir-as-portas-todas-com-a-minha-voz-ou-o-meu-olhar raios partam as chaves. E só depois, quando já não aguento a posição de torta e carregada em busca da chave perdida nos fundos da mala (de mão, realmente) e pouso, vencida, os sacos no chão me lembro do bolso. A chave está no bolso! Para te facilitar a vida, não foi? Foi! E depois até costumo esquecer-me ato-contínuo do sucedido, perdoo-me a histerese, no máximo sai-me um suspiro. Só que é sempre assim. Por isso hoje, enquanto subia as escadas com os sacos nas mãos fintando o elevador para fazer o exercício, disse aos meus botões que ia contar isto ao blogue. Disse disse.

(já em casa, enquanto meto as uvas no frigorífico, oiço, pela janela aberta, as cigarras fazendo imenso barulho ao calor, tanto que se nota no papagaio, sobressaindo-lhes a custo com aquela conversa a que já nos habituou, uma certa rouquidão, coitadinho)

(mas vem isto exatamente porquê? porque a minha filha Muzi, quando esteve fora por vários meses, vinha cá ler o blogue para matar saudades, contou-me depois, e os posts de que mais gostava eram os que davam notícias do papagaio - eis porquê)

20/08/2018

All Star aqui também

Logo agora neste verão é que eu fui lá e comprei o meu primeiro par All Star da minha já nada curta vida. Desde aí que me mantenho admirada com isto devido a o par All Star que veio ser meu ser muito lindo todo ele, mesmo muito lindo, e me encantar sempre que me meto lá dentro. Admiro-me também de ninguém vir e dizer a toda a hora ai que sapato tão lindo esse aí!
Ontem estava cá em casa Talissa, amiga de minha filha Saminhas (já tenho dito que esta é a mais nova) e tinha ela, Talissa, também um par All Star em outra cor que não a minha calçado. Fui logo mostrar-lhe o meu par que estava a descansar no chamado closet e ela não reagiu assim muito muito como era de esperar perante beleza assim. Acho que prefere a cor que ela tem.
Entretanto, devido a ter andado a evitar cair da bicicleta metendo os pés na areia de repente sem cuidado nenhum – que eu não posso, nem que a vaca tussa, andar de bicicleta com areia no chão devido a não conseguir isso – o meu par All Star está sujo e eu com medo de o meter na máquina de lavar, medo de ele não gostar. Sacudi o que foi possível com uma esponja muito boa e suavezinha como se lhe fizesse umas festinhas, ao sapato (que é mesmo tão lindo, digo só mais esta vez).

(se este não for o post mais parvinho deste blogue, está um bom candidato - porém a culpa é de quem me inspirou para ele, evidentemente)

(ou também é de estar feliz, se calhar)

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Ena! Temos uma corrente:

* A doce Miss Smile (os meus são ainda mais lindos, mas esses não estão nada mal, não senhor...)

17/08/2018

Sai um cappuccino(zinho)

Creio que apenas uma vez, ou talvez duas, estive num café Starbucks e não por escolha própria, mas por sugestão alheia. Já sei que não me adequo a cadeias de produtos americanos, com muito plástico e papel, barulhentos e que aparecem nos filmes (julgo). Mas quando soube do atraso do meu voo, decidi tomar o tempo e enchê-lo com um cappuccino na cafetaria do primeiro andar do aeroporto já minha conhecida, sossegada, sempre com pouca atividade. Porém, ao assomar a esse tal primeiro andar, indo a subir linearmente na escada rolante agarrada à minha mala azul, vejo que a cafetaria pequena tinha sido substituída por duas enormes cadeiras de massagem que você-não-pode-perder ou lá o que é, das quais eu fujo de entrar não vá de repente a massagem ser mesmo boa de verdade e eu me catapultar para o espaço, perder o voo, por muito atrasado que esteja e tal e tal. E a seguir a este ponto final dizemos que por detrás desse lugar da desaparecida cafetaria toda jeitosinha, está um suntuoso espaço muito bem decorado a paredes pretas e sofás em castanhos vários e mesas próprias, umas redondas outras não, denominado Starbucks. Sim senhor. Hesitei primeiro, claro, mas logo pensei oh, vamos lá abrir a mente a um novo conceito de consumir plástico e papel num produto americano em ambiente barulhento, já que tenho de preencher o atraso do meu voo e já vejo que há tomadas elétricas junto às mesas próprias, podem dar jeito. Suntuoso soa tão fraquinho sem o “m” e o “p” removidos pelo chato do acordo ortográfico, mas por ora fica. Então entrei e pedi um cappuccino na caixa do pré-pagamento. Recebi logo em troca uma enxurrada de perguntas sobre as possíveis variedades do referido cappuccino, uma delas era o tamanho, a outra ainda estou para saber qual era, nem a repetição me esclareceu. Pedi normal e pequeno, ok, pode ser? Podia, mas foi preciso dizer o meu nome. O meu nome?! O meu nome! Disse-o devagar e bem articulado. Eles ali escrevem o nome das pessoas nos copos de papel para depois as chamarem em alta voz quando a bebida estiver pronta, como se aquilo demorasse séculos a preparar, a bebidinha de nada, é que não estamos a falar de uma costeleta de novilho bem passada, ou de um belo bacalhau espiritual, não estamos a falar de um linguado au meunier, não estamos, o que estamos é a falar de um cappuccinozinho pequeno e normal, ponto. Portanto é um marketing todo ali especial e suntuoso (preciso de me habituar a esta palavra). Argh. Odiei ouvir o meu nome desbravado assim à larga por cima de um espaço tão… grande. E mal escrito que ficou. A comunicação com o empregado não foi das boas. Eu fiquei Suzanna. Ele não sei. Não perguntei.

15/08/2018

O velhote, o sudoku e o café (há séculos que não havia post com café)

Na loja tipo supermercado das coisas baratas que vende tudo e que podia ser comparada a uma loja chinesa caso tivesse lá chineses, não tem, comprei uma nova lata para o café moído. É substancialmente preta com motivos de café mais ou menos giros e em baixo relevo e a palavra COFFEE na vertical, portanto especial para café. Havia lá outra lata da mesma família dizendo açúcar, ou melhor, SUGAR. Não comprei. Mas admirei-me que não dissesse, ao invés de SUGAR, TEA. Junto com o café as pessoas costumam arrumar o chá (normalmente).
Já na caixa de pagamento, eu, a lata para o café e um utensílio para limpar o chão melhor ainda do que faz o aspirador, surge por trás de mim, proveniente de um dos corredores da loja tipo supermercado das coisas baratas, um velhote com um livro de sudoku na mão trémula. O velhote dispõe porém de uma voz bastante potente, a qual destoa da tremura da sua mão. Fazendo uso daquela e erguendo esta acima da sua cabeça para que se veja bem o livro de sudoku, avisa a empregada que só há três na prateleira e todos do mesmo nível de dificuldade. E logo acrescenta que ele este nível de dificuldade já tem, precisava de outro nível de dificuldade do sudoku. Depois desaparece outra vez por um dos corredores, caminhando um pouco trôpego levando o livro da dificuldade errada já conhecido deste post. Quando a empregada da caixa despacha as minhas parcas compras, deseja-me um bom resto de dia, levanta-se da sua cadeira e, piscando-me o olho, anuncia que vai dar uma ajuda ao velhote com os livros de sudoku. Não havia clientes para atender a seguir a mim.
Quando cheguei a casa, a lata vinha ovalizada devido às pressões sofridas dentro da minha mala de compras enfiada na traseira da bicicleta. Endireitei-a devolvendo-lhe a circularidade na boa, lavei-a, sequei-a muito bem e deitei-lhe dentro, devagar, o café moído, podendo absorver todo o seu aroma.