Vladimir, o cidadão russo que deixou a casa de banho nova toda bem-feitinha e agora começou nas pinturas das paredes e tetos, trabalhou com o afinco habitual, falou sozinho como também é habitual, ouviu a sua música bem baixinho para não incomodar (o habitual) e não sorriu o dia todo (idem). Mas esta parte de Vladimir não sorrir pura e simplesmente eu ainda não tinha informado (no blogue). Não sendo antipático de todo, o sorriso não aparece nem por nada no seu rosto eslavo, anguloso. Penso que para Vladimir trabalho é trabalho e sorrisos não são para aí chamados (ou o sentido do dever apuradíssimo). Despediu-se quando chegou a hora dele fazendo uso do também muito dele sotaque especial, até amanhã!
- Amanhã à mesma hora, Vladimir? Oito e meia? - isto eu, só para confirmar (na verdade seria às oito e vinte e oito).
Vladimir diz um sim arrastado demais para ser apenas do sotaque, e num modo hesitante. Creio que percebi a cena como diriam as minhas filhas. E por isso incentivei:
- Se quiser vir mais cedo, pode ser mais cedo.
Então aconteceu: abriu-se um sorriso no rosto já referido como eslavo e anguloso, composto com as pestanas ainda mais brancas por causa do alisamento que fez às paredes com lixa e portanto mais pó.
- Mais cede? - o sorriso iluminou-se agora mais.
- Sim! Quer vir às oito?
- Oito? Posse? Não problema?
- Não tem problema nenhum, pode vir às oito.
Ainda foi preciso insistir mais uma ou duas vezes, ele parecia incrédulo. E feliz. O sorriso não o tirou mais.
- Amanhã. Oitoras. Adeus. Obrigade, obrigade!
Ou seja, amanhã, pelas sete e cinquenta e oito, já eu estarei de mão na maçaneta para abrir a porta, evidentemente, nem vai ser preciso que soe a campainha.
(A minha filha ficou radiante e admirada: ele sorriu! E ó mãe, ele tem um sorriso bonito! Mas nós, que lemos blogues, sabemos que qualquer sorriso que seja de verdade é bonito.)
10/01/2019
09/01/2019
Células há muitas
A minha filha mais nova diz que hoje estudou perto de doze horas para o exame de sexta feira e amanhã ainda se vai levantar mais cedo para estudar mais por causa das páginas que lhe faltam. O seu caderno de estudo está coberto da letra toda bem-feitinha da minha filha e desenhos coloridos que são representativos de células. Têm uns designs muito próprios, cada uma o seu, original, não obedecendo a geometrias certinhas, porém em alguns casos com certa simetria.
- Ó mãe, as células são tão fofinhas! Tu já viste o que elas fazem?
Ver propriamente não vi, filha (mas por vezes sinto). Então depois conta sobre a célula que está ali mais à mão a ouvir a conversa da gente e que já a encantou completamente com as suas habilidades de célula. Que são habilidades de alto lá com elas se fazem favor.
Mas eu ia escrever bem outra coisa. Ia escrever sobre as obras nesta casa nunca mais terem fim à vista e eu me encontrar pelos cabelos que não os tenho nada curtos com pó e as coisas da cozinha na varanda e as da varanda no quarto e as da casa-de-banho na sala, as da sala a caminho do corredor. Tudo desarrumado e a partir do momento em que terminar este textozinho de nada, vou dar mais uma desarrumada ainda, que amanhã começam as pinturas: tirar os meus queridos quadros das paredes, as fotografias, as velas, as jarras de vidro colorido de cima das estantes (o senhor das obras chamou-lhes bibelots, argh! eu não tenho bibelots essa palavra detestável, eu tenho objetos com alma e giros e úteis), os candeeiros, as molduras com fotografias quase todas das minhas bebés bebés (é mesmo duas vezes bebés: na primeira temos um substantivo na segunda temos um adjetivo... penso eu), o tapete que será enrolado e metido ainda estou para decidir onde.
- Ó mãe, as células são tão fofinhas! Tu já viste o que elas fazem?
Ver propriamente não vi, filha (mas por vezes sinto). Então depois conta sobre a célula que está ali mais à mão a ouvir a conversa da gente e que já a encantou completamente com as suas habilidades de célula. Que são habilidades de alto lá com elas se fazem favor.
Mas eu ia escrever bem outra coisa. Ia escrever sobre as obras nesta casa nunca mais terem fim à vista e eu me encontrar pelos cabelos que não os tenho nada curtos com pó e as coisas da cozinha na varanda e as da varanda no quarto e as da casa-de-banho na sala, as da sala a caminho do corredor. Tudo desarrumado e a partir do momento em que terminar este textozinho de nada, vou dar mais uma desarrumada ainda, que amanhã começam as pinturas: tirar os meus queridos quadros das paredes, as fotografias, as velas, as jarras de vidro colorido de cima das estantes (o senhor das obras chamou-lhes bibelots, argh! eu não tenho bibelots essa palavra detestável, eu tenho objetos com alma e giros e úteis), os candeeiros, as molduras com fotografias quase todas das minhas bebés bebés (é mesmo duas vezes bebés: na primeira temos um substantivo na segunda temos um adjetivo... penso eu), o tapete que será enrolado e metido ainda estou para decidir onde.
29/12/2018
Crème brûlée
Admirei-me de ver o cão entrar no TGV para Paris, tal qual a gente. E depois admirei-me, lá por alturas de Bordeaux, de ter obrigado a sua dona a apanhar com um plástico as coisinhas que depositou ele própio no chão alcatifado. Não sabia que se podia.
Mais tarde, já em Paris e ao jantar, também me admirei de ver outro cão entrar no restaurante cheio de confiança de cão, com seu dono, e a seguir enroscar-se aos pés deste assim todo todo. Porém neste caso não se registou aparentemente a situação de o dono apahar coisas do chão, o que foi muito bom para mim. Lá ficou pois de focinho entre as patas, deitado quieto, ouvindo, como nós, os Beatles, os Beach Boys e ainda alguns Jingle Bells especiais que enchiam o ar iluminado por luzinhas de Natal dispostas à vontade, umas piscando outras não. Penso que o cão não deu pelas baratas que apareceram, uma na parede, outra a correr pelo chão, à hora da sobremesa. Eu ajeitei-me no banco almofadado de modo a aumentar a distância entre mim e a que cirandava pela parede com as antenas a dar a dar, a meu lado. Estava no fim do melhor crème brûlée que alguma vez comi em toda a minha vida, ou seja, a barata que espere. Prossegui devagar porque foi imperativo fazer render aquela delícia toda ela irreal. E isto (rebobinemos a refeição) já na sequência de uma dourada grelhada proveniente do mercado do dia, diziam, apresentada sobre um arranjo de canas de aspeto natural, que eram para enfeitar, acho eu, uma vez que não tentei trincar nenhuma. A dourada secundada por um ratatouille que me fez duvidar se não estaria eu mas é cheia de fome, senão por que razão este ratatouille suplantaria largo todos os meus (ensaios de, mas empenhados) ratatouilles? e que só veio ficar um pouco mais esquecido na hora de meter a colher na lâmina superior do já referido insuportável crème brûlée, que estalou e se deixou misturar com o creme que lhe dava o sustento e que agora revela a minha ausência de possibilidades para descrever tal semelhante aquilo, de tão bom que era. Só me está a faltar mencionar o vinho. Um tinto de uma das castas que a gente ouve falar por aí e que eu desdramatizava cá para comigo (vinho é vinho, ora!) achando que por muito magrot não-sei-quê que seja, não se irá destacar de um qualquer Alentejano bem colhido, mas afinal tanto me enganei! Destacou-se bravo o tal vinho, uma suavidade, uma leveza, uma altitude.
De tanto esperar, a barata da parede escondeu-se atrás de uma fenda que acompanhava a tomada elétrica mais próxima, a do chão fugiu e eu esqueci-me logo imediatamente mas foi das duas.
Mais tarde, já em Paris e ao jantar, também me admirei de ver outro cão entrar no restaurante cheio de confiança de cão, com seu dono, e a seguir enroscar-se aos pés deste assim todo todo. Porém neste caso não se registou aparentemente a situação de o dono apahar coisas do chão, o que foi muito bom para mim. Lá ficou pois de focinho entre as patas, deitado quieto, ouvindo, como nós, os Beatles, os Beach Boys e ainda alguns Jingle Bells especiais que enchiam o ar iluminado por luzinhas de Natal dispostas à vontade, umas piscando outras não. Penso que o cão não deu pelas baratas que apareceram, uma na parede, outra a correr pelo chão, à hora da sobremesa. Eu ajeitei-me no banco almofadado de modo a aumentar a distância entre mim e a que cirandava pela parede com as antenas a dar a dar, a meu lado. Estava no fim do melhor crème brûlée que alguma vez comi em toda a minha vida, ou seja, a barata que espere. Prossegui devagar porque foi imperativo fazer render aquela delícia toda ela irreal. E isto (rebobinemos a refeição) já na sequência de uma dourada grelhada proveniente do mercado do dia, diziam, apresentada sobre um arranjo de canas de aspeto natural, que eram para enfeitar, acho eu, uma vez que não tentei trincar nenhuma. A dourada secundada por um ratatouille que me fez duvidar se não estaria eu mas é cheia de fome, senão por que razão este ratatouille suplantaria largo todos os meus (ensaios de, mas empenhados) ratatouilles? e que só veio ficar um pouco mais esquecido na hora de meter a colher na lâmina superior do já referido insuportável crème brûlée, que estalou e se deixou misturar com o creme que lhe dava o sustento e que agora revela a minha ausência de possibilidades para descrever tal semelhante aquilo, de tão bom que era. Só me está a faltar mencionar o vinho. Um tinto de uma das castas que a gente ouve falar por aí e que eu desdramatizava cá para comigo (vinho é vinho, ora!) achando que por muito magrot não-sei-quê que seja, não se irá destacar de um qualquer Alentejano bem colhido, mas afinal tanto me enganei! Destacou-se bravo o tal vinho, uma suavidade, uma leveza, uma altitude.
De tanto esperar, a barata da parede escondeu-se atrás de uma fenda que acompanhava a tomada elétrica mais próxima, a do chão fugiu e eu esqueci-me logo imediatamente mas foi das duas.
28/12/2018
Qual pouca terra pouca terra (kadum kadum)
Então, pelo andar da carruagem, concluí que me estava seriamente a candidatar a finalmente cumprir aquilo que foi, pela sua ausência no meu currículo à data, objeto de gozação pelos meus colegas de faculdade: fazer uma direta. Ou seja, não dormir toda a noite e seguir em frente para o dia. Deitada perpendicular ao comprimento do comboio, o kadum kadum ininterrupto e todo ele tão sonoro, levou-me, a meio da noite, a colocar esperançosa as espuminhas nos ouvidos a ouvir que tal. Diz na caixa que reduzem em 36 decibéis o ruído exterior, o que não é nada de se deitar fora. E de facto, depois de se ajeitarem dentro dos ouvidos, expandindo-se, as espuminhas realmente fizeram um serviço: o ruído estrondoso passou a tipo cantar de rouxinol ao longe. Todavia, kadum kadum Espanha fora quer dizer que nem só o ruído esteve presente. Houve também o chocalhar constante do referido andar da carruagem que quase me virava na cama sem eu querer, em cada travagem. Nessa altura lembrei-me que talvez um bebé chorão se acalmasse naquelas condições agitantes. Aliás, posso dizer que há dias, numa paragem acidental em frente a uma montra de artigos para bebé num centro comercial de Lisboa, vi uma novidade muito estranha. A novidade consistia num dispositivo semelhante a um berço dependurado de um pé alto que subia, descia, dava um jeitinho à esquerda e outro à direita e tornava a subir e a descer e assim sucessivamente sempre igual, isto tudo com um bebé de plástico dentro para a gente perceber a ideia. Era uma embaladora de bebés, olha que engraçado. Bah!, disse eu cá para os meus botões. Os bebés vão perceber perfeitamente que este embalar mecânico nada tem de braços quentes de mãe, pai, avó, etc. Vão ainda berrar mais alto, estou em crer. Não comprei.
Dediquei-me então, voltando à noite passada perpendicularmente ao comboio, a escrever mentalmente este post e o anterior para agora, a estas horas, os dar pois à luz.
(mais tarde, o andar da carruagem amainou e eu consegui pregar olho já o sol raiava; ainda não foi desta a direta, é o que é)
Dediquei-me então, voltando à noite passada perpendicularmente ao comboio, a escrever mentalmente este post e o anterior para agora, a estas horas, os dar pois à luz.
(mais tarde, o andar da carruagem amainou e eu consegui pregar olho já o sol raiava; ainda não foi desta a direta, é o que é)
Uma precisão
O vizinho inglês que se não-brexitou, tendo voltado até, com toda a família, a habitar a serra que houvera abandonado dois anos atrás, pintou, entretanto, a sua casa. Desta maneira, toda de branco para quem vê de fora, a casa quase se podia referir como casinha. Para acolher um melhor cenário, a designação casinha incluiria uma chaminé a fumegar e alguns vasos de sardinheiras de um vermelho vivo alindando o rodapé. Não é o caso, porém. A casa, isso sim, abandonou o ar de estou-aqui-estou-uma-ruína, tem dois pisos e nenhuma flor que se veja (ou cheire). As portadas das janelas parecem agora, verdade seja dita, muito mais à esquadria e, até, os vidros se apresentam lavados. Foi uma grande melhoria! Não avistei o vizinho para lhe dizer, vizinho que bonita ficou a casa (e não casinha). Nem sequer o vi passando, como da outra vez, com uma cabra pendurada por dois pés a berrar chateada que nem um perú, isto a propósito de Natal. Aliás, das cabras deste vizinho, que já sabemos serem quatro, nada se pôde ouvir, mesmo estando à coca. Contudo há esperança de se encontrarem estes caprinos de plena saúde, a avaliar pelos seus pequenos detritos sob a forma de bolinhas pretas muito bem feitinhas que pululam rua abaixo e das quais me dediquei a desviar respeitosamente os pés com uma precisão.
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