29/04/2026

O Douro faz destas à gente

Entrei na livraria de Miranda com o intuito de adquirir um livro em Mirandês. Qualquer um, por interesse. Para me divertir com o artigo definido em L e os vês trocados por bês, com toda essa sonoridade que nos lembra amizades das boas, entre outros encantos ancestrais. 
Pois saí da livraria - saí não, pá, fugi! - com quatro livros mirandeses nos braços, a marcação para um copo com a autora de um deles e a possibilidade de um novo marido arranjado ali no próprio dia e com o selo da terra, completamente garantido. 
Só parei no seio de uma das hordas de espanhóis sem querer, tão azamboada esta pobre lisboeta ficou que quase não dava pela algaraviada em redor.

Abrimos um parêntesis para notar que em Miranda do Corvo, toda ali mais a sul, a identificação da vila vem sempre completa, nunca falhando a menção ao rio que lhe dá nome, nem que abreviado. Miranda sempre do Corvo.

Já essa outra Miranda ali de cima, essa esgrouviada desavergonhada, mãe do Mirandês e dadora de maridos assim de repente numa linda manhã de primavera, dispensa apresentações mais detalhadas, deixando o Douro de lado: é só Miranda que se lê nas tabuletas todas.
Metamo-nos à estrada, senhores, e verifiquemos o fenómeno pessoalmente, okay? 

Porém, aqui a pobre lisboeta - não tendo optado pelo marido da região de origem controlada - não se salvou de um valente enamoramento e fez-se madrinha de um burranco*. Ah pois. Escovou-lhe o pêlo na lateral, enquanto ele tentava saborear a manga do casaco de algodão cardado que esta pobre envergava contra os frescos mirandeses, já um bocado velhinho.

Suspirando em fundo, atesta-se que os encantos dourenses suplantam as doidas marotices e aligeiram as hordas espanholas. 

Difícil foi sair dali.

______
*burro mirandês bebé

5 comentários:

  1. Uma fotografia em forma de palavras. É impossível não sentir vontade de nos metermos à estrada depois de ler este "enamoramento" mirandês. A prova de que a melhor bagagem de viagem são sempre as histórias inesperadas que trazemos de volta.

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    1. Daniel, certamente a sua Honda adoraria levá-lo lá. É aproveitar a primavera e fazer-se à estrada para colher as suas histórias também.
      Obrigada pelo amável comentário. Bom fim de semana!

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  2. Gostei do texto, é leve e divertido, e transmite bem o encanto da experiência em Miranda. Lê-se com facilidade e deixa uma sensação simpática. Até uma vontade de passar por lá.

    PS: Levei aquela frase, aquela mesmo por baixo da imagem do blog, há muito me prende a atenção. Vou usá-la como base, não como cópia. Posso? Não a usarei se não me der permissão.

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    1. Olá noname, que bem sabe esta visita!
      Claro que pode levar a frase.
      Dá-me até muito gosto que o faça.
      Um beijinho e bom fim de semana!

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