O novo forno micro-ondas tem dois botões de regulação manual. Não desodoriza. Não se liga ao wi-fi, nem traz códigos QR. Não tem relógio incorporado (nunca certo), não exige instalação de apes*.
Mas senhores, acima de tudo, para minha enormíssima felicidade, para minha grande e diária alegria, sossego e deslumbramento, o novo forno micro-ondas não apita.
Lemos bem: ele não a-pi-ta!
Apenas e só emite a ondinha micro lá no seu âmago, destinada à absorção pela molécula de água do alimento a aquecer.
(É que nem aspira a casa, leva os miúdos à escola ou dá aulas de francês.)
O novo forno micro-ondas de certezinha que está fora das normas, que é clandestino, ilegal, fugido à polícia.
Uma alegria, portanto, já disse.
*ou apps, aplicações, aplicativos
Que maravilha de crónica! É um verdadeiro manifesto a favor da paz mental e da "tecnologia burra" — aquela que, ironicamente, é a mais inteligente de todas porque sabe exatamente qual é o seu lugar.
ResponderEliminarHoje em dia parece que todos os objetos sofrem de uma carência extrema de atenção: querem apitar, querem bipar, querem ligar-se à rede e mandar notificações a meio da noite a dizer que o ciclo terminou. Encontrar um sobrevivente dessa era em que as coisas apenas faziam aquilo para que foram desenhadas (e em silêncio!) é quase como encontrar um tesouro arqueológico numa rotunda de Miranda do Corvo.
Viva o "deslumbramento" do analógico e os aparelhos que não aspiram a ser mais do que aquilo que são. Que aqueça muitos cafés e sopas nessa gloriosa clandestinidade!
Numa era em que até as escovas de dentes querem conversar connosco e enviar relatórios para o telemóvel, encontrar um aparelho que cumpre a sua função em silêncio e sem exigir atenção constante é quase um ato de resistência.
Vamos fazer um manifesto a favor dos eletromésticos simples?! No outro dia na casa da minha filha tentei uma dessas que apitam e dão instruções...e tive de desistir! Voltei ao tacho e a essa coisa antiga chamada varinha mágica. Beijinhos e dias bons.
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