11/09/2013

Pimentos amarelos

Ontem no caminho para casa depois do trabalho, parei no supermercado para comprar maçãs.

Enquanto caminhava em direcção às portas deslizantes, vejo que têm coladas nos vidros fotografias de maçãs verdes, em tamanho enorme, que boas devem ser, talvez as veja lá dentro, de verdade, ainda para mais com as gotas de água salpicadas na casca reluzente, a deslizar, agora enfiam-se dentro da porta fixa e lá vou eu.

Eu detesto, detesto profunda e genuinamente, fazer compras. De supermercado, de roupas, de sapatos, de farmácia, de coisas que não servem para nada, de perfumes, de chapéus de chuva, lá em casa consomem-se muitos não sei porquê, de cházinhos gourmet, de sabonetes, de lâmpadas, de papel de embrulho para o Natal, de espremedores de citrinos, detesto.

Com uma excepção, mas já lá vamos, ainda estamos a entrar no supermercado e ia eu a pensar.

Em detestando compras de tal maneira, não se compreende porque cruzo tantas vezes por semana as portas envidraçadas com maçãs verdes gigantes que no mês passado exibiam sardinhas prateadas também em tamanho familiar, postas por ordem, inteiras e não às postas, não confundamos os peixes, leve quatro pague três, ou não era aqui?

Gostava bem mais de quando lá tinham colados às portas os pimentos amarelos, de um tom torrado, tão bonito, em tamanho imenso, lá está, é a imagem de marca: produtos gigantes para alarmar os clientes, estimular-lhes a curiosidade. Ora os pimentos faziam lá melhor figura que os peixes de prata (como na canção, quem se lembra?) e as maçãs sugestivamente suculentas. Só não mordi um daqueles, porque as portas nunca deixaram, as egoístas.

Portanto, vamos lá outra vez, ontem entrei para comprar maçãs. Demorei-me apenas o tempo suficiente para encontrar produto cá da terra, pus-me na fila de pagamento que é sempre tão demorada que me faz bocejar muitas vezes por minuto enquanto leio as capas das revistas do escaparate de topo, ao lado das pastilhas elásticas, a contar os desfechos dos amores e dos ódios em vigor nas novelas, pago as maçãs, finalmente, e saio a tentar fintar as verdes, que são sempre mais rápidas, cá vou eu, boa tarde.

Sobre o mistério que me leva a ir tão frequentemente ao supermercado, não posso mais fazer que declarar que, por enquanto, não o resolvi.

O que resolvi foi voltar à loja de Moscavide no próximo sábado. Nessa loja nem sempre se fazem compras, e eu dessa gosto mesmo, ora oiçam.

Visitei-a quando precisei de um fecho de correr, novo, para a almofada das costas do velho sofá lá de casa. Enquanto esperava a minha vez, vejo aproximar-se do balcão um velho, um velhote, que segurava um saco de plástico azul dentro do qual estavam três lanternas, nenhuma funcionava, a combinação de pilhas não estava a dar certo. Precisava de uma delas, pelo menos, o senhor sabe como é, para à noite ir à casa de banho. O senhor sabia, reagrupou as pilhas, pôs-lhe uma lanterna a funcionar, não sei como fez, daqui não vejo muito bem, mas sei que não vendeu nenhuma pilha, nada, não foi preciso. O velhote que voltasse assim que a luz começasse a falhar.

A minha vez. Pedi um fecho novo, está a ver, deste comprimento, tem que se medir se faz favor. Menina, dê cá isso, o fecho está bom, eu vou ali e já venho e não precisa de fecho novo. Ele foi ali, ele voltou e eu saí da loja com o mesmo fecho e com vontade de lá ficar. Para ver como ia ele tratar os clientes seguintes. Se algum lhe conseguiria comprar alguma coisa, qualquer coisa.

No próximo sábado, está decidido, volto lá. O fecho da mochila da Mafalda está estragado, mesmo estragado, e eu quero ver como vai ser.

Depois, quando sair da loja de fechos de Moscavide, vou entrar numa livraria, uma qualquer. E só de lá arredarei pé com um livro. Meto-o na mochila com fecho novo, para testar o fecho e trazer o livro para casa.

Detesto fazer compras, com uma excepção. Não, duas.

Fechos de correr na loja de Moscavide e livros.

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