02/10/2013

Pintado de fresco

Não vou contar isto em tom de queixa, prometo.

O trabalho hoje foi a rasgar pano, tinha de terminar o apanhado de um fenómeno que nos caiu na sopa para engolirmos quer gostemos ou não, lá na empresa. E foi mesmo a cem à hora e não sem hora, porque às dezoito e quinze havia a reunião na escola da outra filha.

Desta vez tenho de agradecer aos anjos o ter participado finalmente numa reunião de pais em que todos, mas todos, pais, mães e uma irmã, disseram coisas pertinentes, interessantes, interessados, e educadamente! Todos! E - cereja no topo - a mostrar o amor pelos educandos, coisa que nem sempre está patente.

Saí da reunião com a bexiga a reclamar a hora do alívio, aguenta aí só mais um bocadinho, está quase.

Ainda precisava de comprar o jantar e mais umas coisas imprescindíveis para sexta feira e como amanhã é dia de ginásio e ontem também foi, só sobrou hoje.

Estacionei à porta do supermercado às dezanove e cinquenta e voltei a entrar no carro com os sacos cheios (e a bexiga também, não esquecer) às vinte horas e catorze minutos. Sorri no escuro do habitáculo, satisfeita com a eficiência da operação.

Até casa eram só mais umas poucas centenas de metros, onde me esperavam as minhas filhas, uma delas a estalar de curiosidade para saber como foi a reunião, mãe?

Pressionei o botão do lado esquerdo do comando do portão da garagem (o botão do lado direito está lá, mas não tem serventia) e assim que o espaço na vertical permitiu passar o meu automóvel e mais um milimetrozinho para a margem, lancei-me rampa abaixo entusiasmada com a chegada a casa. Mas na curva, bolas, na curva do Seat que está lá a coleccionar pó às camadas, ouvi um som de rrrrrrrrrr que não me deixou nem o tal milímetro de margem para dúvidas.

Boa. Raspei o carro do vizinho do oitavo andar.

Estacionei no meu lugar, irritada com o aperto da garagem, a posição dos outros carros, a dos planetas e também com a natureza, que me encheu a bexiga desta maneira, logo na altura em que mais precisava de não raspar carro nenhum. Escusado será referir que a satisfação que trazia da operação-supermercado-fulminante sumiu-se por causa do Seat da curva da garagem.

Saí do carro, do meu, e dei a volta a ver o estrago. Nada, com o dedo retirei as vinte e três camadas de pó sobrepostas numa linha de cor indefinida que roubei ao Seat. Voltei a ver a cor preta do meu carro, em todo o seu esplendor.

Carregada com os sacos para não ter de voltar atrás, já se sabe as urgências que trazia, dirigi-me à curva onde está o Seat, que fica a caminho do elevador, e observei a zona da linha de pó que lhe fiz o favor de limpar. Estava lá. E estava também o risco preto, pintado de fresco por mim.

Mas eis que foco melhor a visão, pouso os sacos pesados, e verifico que a minha marca tem companhia.

Havia lá outras, assinaturas de todas as cores, branco, vermelho e uma de um azul pálido que conheço vagamente da mesma garagem.

De volta à sensação de não estar só no mundo, e já em casa, escrevi ao vizinho do oitavo andar a dar-lhe conta de que também eu lhe assinei o carro. De preto, vizinho, acho que ficou bonito.

De certeza que ele vai ficar contente. Eu já estou.

É que, entretanto, passei pela casa-de-banho.

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