a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

05/01/2026

Café, maçãs e sopinha

Depois da fulgurante gripe que me baixou no virar do ano, a febre tendo-se já retirado e a bigorna sobre a cabeça também, restam ainda alguns companheiros de jornada típicos. Como a falta de apetite. É que nem para café ele aparece. Café! esse meu querido amor quentinho. Mas enfim, não quero queixar-me. 
Até porque, ao consultar o encadeamento das estações para esta noite, ficaram-me os olhos presos em Chão de Maçãs - Fátima, e não foi por Fátima não senhor. Que rica peça de fruta suculenta agora eu comia lindamente. 
O jantar resumiu-se a uma sopa com ovo. Uma sopa consumida devagar, uma sopa dada a pensamentos iluminados assim: quem declara "já comi a minha sopinha", enquanto esfrega as mãos do frio e sorri para a gente, é pessoa boa. 
É pessoa que não precisa de fazer maldades para ter mais coisas, mais terras, mais sopinhas. Melhor, é pessoa que está a salvar o mundo como os justos de Jorge Luis Borges. Sim, é pessoa que está a salvar o mundo. 

24/12/2025

Um Natal muito contente e feliz, alegre e ternurento

Há imenso tempo que certos estares de alma parecem completamente obsoletos. O que tem cada vez mais ocupado os lugares cimeiros da admiração pública é a raiva, o desprezo, a invejazinha 'saudável' na melhor das hipóteses.
Ah! E o querido ódio, claro, esse eficaz desfeador de interiores. 
Acabo de chegar do artigo de opinião de Luís Pedro Nunes, publicado no Expresso. Diz que estamos viciados em raiva.
Eu digo que é coisa mesmo agradável ler a lucidez alheia. Dá-nos a impressão de a termos nós também. De sermos bons ou mesmo uns amores, de nos apetecer logo desejar um Santo Natal a torto e a direito do fundo do coração. De garantirmos ao espelho que nós coiso. Ao menos isso. 
Especialmente nesta quadra em que nos muito encontramos, em que é quase admissível tirar-se do fundo da gaveta uma dose de alegria, pá, de tolerância, de amabilidade e - ai como se chama a outra - ah, sim, de fraternidade! Sai uma de fraternidade para a mesa seis! Ó filhos, que possamos mas é navegar mais a fundo, que não nos dediquemos tanto à desarte de chapinhar à superfície. 
Pensemos, pois. Com a cabeça. Com a própria cabeça. 

04/12/2025

Como se diz agora, pedimos compreensão pelos incómodos causados

Sento-me viajando de costas. Vou carregada como nos tempos do liceu: livros, cadernos, pastas de plástico de cores fortes a somar ao computador, claro. E aos transportes públicos. 
O pavimento está molhado, choveu de noite. Há mais carros nas ruas da cidade, o trânsito inferniza-se, emite buzinadelas. Não sei se é o Natal com os efeitos perniciosos de nos instar às pressas na direção das promoções, agora que finalmente nos livrámos da sexta-feira preta, uma estranha e longuíssima sexta-feira. 
Ou se é de mim que estou mais olhuda. Acabada de sair de dois livros que li sofregamente, um a seguir ao outro, e até a roubar tempo ao estudo, estou em penas. Queria ficar numa história onde se cabe tão bem. 
Com a vista desfocada numa poça de água sobre o asfalto lá fora, ocorre-me outra vez que a vida é mas é brutal. Existir, ser aqui, mesmo chocalhada pelos arrancos do autocarro em hora de ponta metido entre um condutor nervoso e outro chateado. 
Para baixar um pouco a intensidade disto, evitar sorrir parvamente do meu assento para o ar húmido que embacia os vidros, enuncio mentalmente três coisas que não me ajeito a fazer, nem passado tanto tempo. 

Compor flores numa jarra. 

Escolher os cortinados certos, muito lindos. 

Fazer belíssimas resenhas de livros.

22/11/2025

Se a aspirina pode

Era uma vez uma farmacêutica muito grande que patenteou a aspirina para quê? Para aliviar uma dorzinha ou outra (consegue várias) e ainda, se a febre nos chegar, fazer baixá-la. 
Os anos passaram e uns médicos expeditos descobriram que a aspirina ainda dá para outra função: tornar mais líquido um sangue com queda para engrossar e formar os indesejáveis grumos sanguíneos.
Ora esses médicos tão reconhecidos foram que patentearam este novo uso da aspirina! Sim, patentear usos também se pode. 
O caso muito polémico do remédio para a diabetes que também combate a doença da obesidade só é feioso porque o Estado Português não tinha ainda concordado em arcar com parte das custas dele para livrar as pessoas desta doença, mas apenas para aliviá-las daquela. Consequência: o fármaco não chega para as encomendas e entretanto encheu os bolsos errados.
Mas pensando bem, o Estado Português vai poder poupar uns cobres por ter menos obesidade e maleitas associadas na população.
A polémica resolvia-se com um senhor aumento na oferta do químico ao mercado, por um lado, e uma revisão urgente da lista dos medicamentos comparticipados, por outro. 
Ou a obrigação das gentes é sempre sofrer e sofrer, meus senhores?

16/11/2025

Ó pá, sim.

Então o que temos hoje?
Temos o Astérix na Lusitânia sob investigação. 
Adquiri o meu exemplar no coração de Coimbra e li-o quase todo dentro da loja ainda sem o pagar. Havia lá uns sofás jeitosos onde leitores e acompanhantes podem descansar os ossos e dar alimento à cabeça.

E foi ali mesmo que decidi iniciar uma investigação baseada numa curiosidadezinha: como raio será que nas outras línguas traduzem o nosso muito querido e abundante "Ó pá"?

Os resultados da investigação já estão disponíveis para dois casos:
_#ocasoespanhol: "Ó pá" não traduzido, simplesmente ignorado,
_#ocasoholandês: idem, idem.

Estamos lindos. 
(mas em princípio continua)