a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

20/08/2017

Ah, o Algarve em Agosto...

Imprimi numa folha de papel branco que fica arroxeado quando o sol lhe incide de viés à volta das três e meia nesta altura de agosto, isto porque a impressora está sempre a postos com o papel metidinho no alimentador dela e está à janela (ai que ia rimando), mas então imprimi numa folha um quadrado preto com um A aberto a branco, porquê? Porque, devido à intensidade com que uso o meu teclado (sem fios) para escrever o trabalho que é todo ele muito de se escrever este trabalho, o A já foi e o S está para ir também (para onde não sabemos). De modo que imprimi o quadrado e ando a ver de que modo o acomodo ('tá querendo rimar) na tecla com jeitinho que é para não ficar sem tecla, que já uma vez fiquei sem uma, mas não era o A, por causa de tentar arrancar uma migalha de grande porte que estava um pedaço debaixo dessa tal tecla e outro pedaço estendia-se num interstício a caminho de teclas vizinhas e eu torci o teclado um bocado para incentivar a migalha a desalojar-se com a ajuda da gravidade, o teclado de cabeça para baixo a abanar vigorosamente, claro, mas o que foi acontecer foi que eu arranquei a tecla (e depois a migalha) e mesmo com vários vídeos tutoriais visionados posteriormente sobre “Cuide do seu teclado: como reencaixar aquela tecla que se soltou!”, não foi possível repor a tecla, aqueles vídeos são uma treta tão boa como os cremes rejuvenescerem as mulheres (os homens não sei). Ela estava disposta a encaixar só de um lado, a tecla, ou só de outro, só de um lado, ou só de outro, só de um lado, ou só de outro, mas como isso não queremos, acabou dentro da gaveta de cima, num cantinho, no final do dia. Isto foi há dois teclados atrás, no tempo em que eu comia bolachas e ainda não tinha incorporado estes quatro quilos que agora não me largam e não são meus, são para devolver. Vou tentar colar o A na tecla que perdeu o dela e como, por um lado, o vizinho S também está de saída, o assunto dá em post.  

Por outro, ainda não fui à praia. 
(um título da série "Ah, o Algarve em Agosto...", por causa do A, evidentemente, e de prometer uma coisa e depois não ser nada isso)

15/08/2017

Um bocado esquisito este post

Havia pousado em Lisboa há poucas horas quando torno a sair de casa lançando-me na rua a pé ignorando o carro na garagem numa continuação já de muitos dias sem se mexer, quero crer. Nem sequer o vou visitar, a garagem é um lugar tão feio. Há estes momentos em que me chega um rasgo de vontade de não ter carro nenhum. Vou assim nesta filosofia descartável à primeira necessidade, evidentemente, pelo meio do agosto macio e quentinho, quase deserto, e vou com os pés a escorregar nas sandálias que me estão um pedaço largas mas foram caríssimas e são mesmo lindas. Já sabemos que sapato de mulher ou é lindo (e todo desconfortável, chegando mesmo a proporcionar o desconforto de nos atirar ao chão se for preciso) ou é um conforto muito doce mas parece sapato de homem, mesmo que cheio de purpurinas cor de rosa, que isso não interessa. Então vou assim pela rua a escorregar nas sandálias e a entreter-me com o meu telefone esperto, que anda todo queriduras comigo não sei porquê, mas tipo talvez para fazer pirraça ao carro lá sozinho no escuro e na companhia das caixas de caçar ratos. Hoje por exemplo recebo nele uma mensagem muito linda sobre uma promoção a começar amanhã numa espécie de loja e eu mesmo a precisar duma compra daquelas, ai jesus, logo eu que sou contra promoções por causa dos nervos que me dá tanto lixo informativo. Este post está um bocado esquisito, mas é posts destes que eu mais gosto de escrever, que engraçado. É que a gente andando no carro vê um pior nas pessoas, não vê? Eu mesmo a pé e a esforçar-me para continuar dentro das sandálias, vejo. E vejo um automobilista a irritar-se imenso, imenso, imenso com um taxista ali à frente porque este parou para largar duas passageiras que iam lá dentro e as senhoras já não eram assim tão novas. O automobilista naquele excesso de irritado pespega-se parado ao lado do taxista a largar gritos incompreensíveis (felizmente) e a seguir acelera para dentro do meu próprio bairro a uma velocidade para aí quase o dobro do limite indicado na tabuleta. Portanto pensei no âmbito da minha filosofia, ora cá está, ao volante a pessoa revela-se pior: este exemplar histérico quer regras para o taxista cumprir mas para ele próprio não é preciso nada disso, é primeiro parar na via a importunar enquanto larga a gritaria dele e segundo é acelerar para dentro do bairro feito autoestrada.

Terceiro e por falar em sapatos, tive esta boa ideia ainda dentro das sandálias: automobilistas dedicando-se muito a serem ridículos talvez lhes caia bem um tratamentozinho adequado do género do abaixo sugerido.

09/08/2017

O Steinway, a gola e o ferro

Anton veio jantar. Chegou com a habitual pontualidade que se fosse britânica não seria mais exata. Ajudei-o a despir o casaco fino de verão, que pendurei no vestíbulo. Entrou e, quando se sentou na cadeira que lhe estendi, notei-o cansado.
- Estás cansado – verbalizei.
- Sim, um pouco – riu-se – estou a ficar velho – acrescentou.
Nasceu em Amesterdão há noventa e seis anos e de vez em quando diz que está a ficar velho.
- Hoje despedi-me dum cliente de mais de quarenta e cinco anos – anuncia.
Eu tenho de traduzir os quarenta e cinco mentalmente, que em holandês se diz ao contrário, cinco e quarenta.
- Quarenta e cinco - repeti.
- Sim. É um belo piano de cauda, aquele, um Steinway. Mas foi a última vez.
- E sentes-te triste? – perguntei.
- Sim, claro. É triste. Agora cada cliente que visito é a ultima vez.
Ainda trabalha no seu ofício de sempre, pianos. Mas desde há uns meses anda a despedir-se: de cada vez que vai afinar um piano, comunica ao cliente que já não volta.
Falámos ainda um pouco sobre o seu trabalho na fábrica de pianos, que fechou há décadas. Fazia controlo de qualidade e arranjou no chefe da produção um inimigo, ele queria produzir muito, mas era preciso rejeitar os pianos que não estavam bons, diz Anton.
Hoje, por ser verão, vem sem gravata. A camisa de manga curta tem gola de abotoar, mas noto que os botões estão fora das casas. Mentalmente revejo a senhora baixinha, asiática, que lhe faz a limpeza do apartamento desde que vive sozinho depois de ter enviuvado, há uns anos. Cruzei-me com ela uma ou duas vezes, e agora lanço sobre ela a responsabilidade desta pequena falha que, num homem que usa gravata todos os dias exceto quando o calor aperta um bocadinho, é uma considerável falha. Mas para não ser injusta com a senhora asiática nem sequer mentalmente, e porque sei dizer passar a ferro em holandês, perguntei:
- Quem é que te passa a roupa a ferro, Anton?
- Eu mesmo.
Terei certamente aberto muito os olhos e levantado as sobrancelhas, porque ele se chegou um pouco mais a mim e querendo talvez amenizar a minha admiração, baixando a voz, confidencia:
- Mas não passo cuecas nem meias…

Lembro-me de já ter ouvido, a algumas pessoas com um terço desta idade, dizer que não sabem passar a ferro. Tirando o esquecimento de abotoar a gola, é possível aprender-se a passar a ferro aos noventa anos. Caso se queira, evidentemente.

02/08/2017

Esgadanhei-me é tão feia

Quando eu era miúda, e durante uns anos, ia na “carrinha” do colégio para casa, depois das aulas. Havia umas quatro ou cinco “carrinhas” (daqui em diante designadas apenas por carrinhas) cada uma destinada à sua volta na zona da cidade que lhe fora atribuída. Aguardavam por nós, passageiras, no pátio traseiro do terreno do colégio. A minha era a da dona Efigénia. Cada carrinha tinha a sua dona e isto embora possa parecer, não se trata dum café, repare-se que dona está a sair sem maiúscula se faz favor. A dona Efigénia, vamos lá a ela, era muito feia e era má. Eu preferia ir na carrinha da dona Glória, onde ia a minha amiga Ângela, mas essa não passava pela minha casa. A dona Efigénia também não gostava de mim. Um dia foi dizer à minha mãe, a estúpida, não sei como, já que a minha mãe nunca estava em casa quando a carrinha chegava, foi dizer que eu era uma mosquinha morta. E porquê uma mosquinha morta?! Porque era sempre a última a entrar na carrinha. 
- Porque és sempre a última a entrar na carrinha, Susana?
- Porque fico à espera que as outras raparigas entrem.
- À espera porquê?...
- Porque elas dão empurrões e puxões e encontrões, todas querem ser a primeira a entrar. E por isso eu espero.
Quando entrava, em último, havia lugares vagos de sobra, a carrinha era mesmo comprida. Sentava-me e ia olhando o caminho, que não era curto. Como não tinha amigas nessa carrinha da dona Efigénia, olhava pela janela sem falar. Quando passava pela casa em ruínas, uma casa grande e medonha que havia no cimo de uma pequena colina ao lado da estrada, pensava que era ali a casa do papão. Toda a gente sabia da existência do papão, que era tão mau e perigoso como hábil a esconder-se. Mesmo que eu espreitasse muito para dentro da casa em ruínas e virasse a cabeça para trás o mais que podia até a casa desaparecer ao longe, nunca o consegui ver.
Lembro-me que no dia seguinte àquele em que calhou o diálogo com a minha mãe acima reproduzido o melhor possível, pus-me à frente à porta da carrinha da dona Efigénia, e mal a porta abriu, esgadanhei-me toda (esgadanhei-me é tão feia como a dona Efigénia) e fui a primeira a entrar. Levei umas caneladas e cotoveladas, empurrões, mas ia preparada, retribui cotovelos com força e entrei. Desejei que ela me tivesse visto, para perceber as coisas, mas não sei se viu. Depois, nos outros dias todos e até conseguir crescer e livrar-me daquela carrinha odiosa, voltei aos meus costumes e a ser a última a entrar. E não houve mais recados da dona Efigénia. A burra (claro que ela também era burra).


(Mas porquê isto agora? Porque estava a notar o meu blogue ainda ali com o post de há imenso tempo, um post que desencadeou outros também servidos em hashtag, muito bonitos, e depois todos esses outros autores já escreveram mais coisas, várias, bastantes, boas, e eu ainda assim.)

25/07/2017

#parecesasvelhotas

- Ó mãe, pareces as velhotas!
Trabalho muito tempo junto a uma das minhas janelas. Uma ou duas, mas mais uma. E enquanto penso – o meu trabalho requer um mergulho interno, ora agora, ora mais tarde, para pensar. Por acaso adoro. E enquanto penso, dizia eu, deixo os olhos caírem lá em baixo na rua, eles parece que pedem um alongamento destes e digo assim (hoje disse assim), olha lá vai o vizinho das luvas outra vez, tem a mesma camisola de ontem!
- Ó mãe, pareces as velhotas!
O vizinho das luvas é das-luvas porque muda os pneus furados dos seus carros calçando luva branca de algodão, que eu meti uma vez conversa para chegar perto, então vizinho teve um furo, e poder confirmar o algodão. Até contei no blogue porque achei aquilo tão giro.
- Ó filha, vê-se que é a mesma camisola por causa da cor! Eu não digo que seja mal ele usar a mesma camisola, mas com aquela cor vê-se logo e isso é o que eu digo.
Também observei da janela que ele (a cor é um rosa clarinho), ao passar por um dos seus carros – que não cabendo na garagem está na rua, todo lavadinho, estão sempre lavadinhos aqueles carros – olha muito o carro, muito o carro, e até dá uma boa meia volta em torno da viatura (para não repetir carro) a ver qualquer coisa, mas isso, da meia volta, já não disse à cachopa minha filha, para não, de novo,
- Ó mãe, pareces as velhotas!
E pareço, por acaso pareço.

Mas não sou, se fosse #nãotinhaumamodernicedestasnofimdumpostnemnotítulopoisnão?

(próximo post pode bem ser: E tu, já tens o teu próprio #[oteupróprio] ?)

20/07/2017

That's life

Enquanto aguardo que o portão da garagem percorra, lentamente e com um nhéééééc muito conhecido, o curso vertical que fez sabe-se lá quantas vezes (ninguém sabe), deixo o olhar assentar numa gota de água que desliza do lado de fora do vidro do carro. Não choveu: a gota resta do esguicho que ali impus para o para-brisas ir limpinho arrumar-se no lugar dele. O portão toma o seu tempo e eu largo a gota quando ela se espraia na horizontal da borracha limpadora que ali repousa e viro-me para o ouro lado – lá vêm o pai cego com a filha adolescente passeando o cão branco de braço dado, conversam. No céu azul um avião segue subindo. O rádio do carro, que vem ligado desde o centro da cidade, emite a canção que veio ajustar-se a este quadro e que se pode encontrar abaixo. O momento está no ponto e a cereja do seu topo dentro da mala: levo, quietinha ali, encostada à carteira, à caixa dos óculos e ao pacote de lenços, “A Sibila” de Agustina Bessa-Luís. Ando deste modo antecipando o prazer que lhe adivinho há dias, porque ainda não demos início ao enlace da leitura eu e ela. Mas, na primeira página esquerda que não foi deixada em branco, posso avançar, leem-se as palavras “Fixação do Texto”. Não lhes conhecendo o significado exato, ensaio imaginá-lo e é certo que acabarei a pesquisá-lo. Por agora: foram Manuel Vieira da Cruz e Luís Abel Ferreira os autores dessa outra arte, que o portão já alcançou o fim do seu curso e o carro deixo-o deslizar rampa abaixo, ele vai muito bem.


(esta canção também me lembra um filme de quinze minutos que vi no verão de 1992, em Sevilha, no intervalo de um calor abrasador que fazia no recinto da chamada Expo, dentro do pavilhão dos Estados Unidos da América - chorei quase convulsivamente, palavra que foi, eu, e acho que toda a gente - gostava tanto de encontrar esse filme)

18/07/2017

A seguir a um café

Por causa da novidade que este ano foi, primeiro, cobrar iva aos meus clientes e depois aprender a entregá-lo a quem de direito, o estado, quer dizer, Estado - sendo composto por tanta gente o melhor é não lhe negar a maiúscula – arranjei uma contabilista. Por acaso até arranjei duas, que da primeira não gostei. Dispensei-a logo mais ou menos à cabeça, ela ficou um bocado zangada comigo (mas não tanto como eu com ela), e de maneira que procurei a segunda. Encontrei-a num escritório mesmo ao lado de uma fieira de prédios, um deles tem um café.
Entrei, empurrando a porta diretamente da rua. Dentro o espaço é amplo. Tem pilhas de papéis em todas as secretárias à exceção de uma e dentre elas vejo surgir a minha nova contabilista, que traz um sorriso cordial. Cumprimentamo-nos, é a primeira vez que nos vemos. Ela encaminha-me para uma sala de reuniões e tratamos dos meus assuntos. O que a mim parecia um molho de brócolos num leque de incertezas, a ela apresenta-se como uma situação do tipo velha amiga e, com muita calma, segurança, tranquilidade e sempre formal, desatou a minha contabilista ali os nós para mim. Saí toda aliviada, afinal a autoridade tributária talvez não me odeie nem me queira castigar por exemplo por eu ter nascido, ou seja, aquilo não é por mal. Entretanto vamos na terceira reunião e a formalidade continua mas eu já sei ao que vou. Uma paz assente em pilhas de papel, as secretárias, o espaço amplo, a tranquilidade, a possibilidade de acreditar, quando de lá saio, que sou uma contribuinte feliz, digamos com futuro sorridente. A minha relação com a autoridade tributária, grande nome, que até há pouco tempo se pautou por abundante estabilidade pode dizer-se a roçar a monotonia, tem agora altos e baixos e nos baixos eu vou lá a correr à minha contabilista. Ela sorri ligeiramente mantendo-se tranquila, formal já disse, portanto não se assustando com nada. Sentamo-nos e depois guia-me no preenchimento dos campozinhos no sítio lá do portal, vai falando baixo, está sempre serena (adoro ver e com sua licença também tomo notas). Voltei lá na semana passada. Como cheguei uns minutos antes da hora marcada apesar das voltas para estacionar o carro decentemente, fui ao café da fieira de prédios tomar um. Dali são meia dúzia de passos até alcançar a porta, que empurrei, lá vem ela do fundo dos papéis, o sorriso cordial, boa tarde, como está? Cumprimentamo-nos, já se sabe que é beijinho beijinho mesmo na formalidade, eu parece que com receio de a incomodar na sua paz.
- Esteve a tomar café.  
- Estive…
- Nota-se, cheira.
- Ah, desculpe…
- Desculpe nada, que eu adoro esse cheiro, adoro! Uma pessoa até fica com outra disposição!
E depois, sim, claro que desatou os nós que eu levava, a carta da AT que agora não escrevo por extenso e que vinha bastante amachucada de eu tanto a estudar, pois então preenchemos os campozinhos, escrevemos uma situação, ela explicou-me por que motivo recebi aquilo, é normal, nada a temer, saio daqui sempre mais leve. Mas desta vez teve Ricardo Araújo Pereira, mixórdia de temáticas, Facebook, Facebook!, férias e afins, idades dos filhos respetivos e características inerentes, uma ou outra cena familiar, enfim, estive vai não vai para lhe dizer que adoro óculos de massa vermelha, ela tem uns, mas isso fica para a próxima.

Que não sei quando é. Só sei que a seguir a um café.

(Este post tem um erro, mas é difícil de descobrir - não tendo sido propositado, não o corrijo, a ver se alguém o quer encontrar)

13/07/2017

Oito minutos

Fui encontrar as duas no quarto de Muzi, a mais velha, em conversas de irmãs. Posso entrar ou são segredos?, não, disseram, podes entrar, mãe. Logo Saminhas, a mais nova, me pediu que lhe massajasse as costas, mãe faz-me lá uma massagem nas costas. Então põe-te a jeito. Ela pôs-se e os meus olhos, enquanto os dedos pressionam músculos e o que houver em redor, nas costas, bateram nos objetos pendurados que a irmã espalhou pela parede, recordações de momentos e outros temas bastante importantes.
- O que é aquilo? – apontei com o queixo para um destes objetos que não sei descrever convenientemente, uma coisa pendurada com letras.
- Aquilo? Foi da festa das flores, lembras-te?... – responde Muzi.
- Lembro. Aquela festa à qual te fui buscar e fiquei de mau humor? – era uma festa em tempo de aulas, a meio da semana, até tarde, sou contra - mas hoje em dia os universitários festejam muito muito tudo tudo e nada nada também festejam.
- Sim… - confirma Muzi a inclinar a cabeça e levantando as sobrancelhas em desaprovação do meu mau humor.
(não nos esqueçamos que a massagem está em curso na outra filha)
- Claro, chegaste oito minutos atrasada ao carro – recordei-lhe.
- Mãe, por oito minutos, oito! – ainda lhe dói, não foi assim há tanto tempo.
E então a dona das costas sofrendo massagem usa da palavra dirigindo-se à irmã.
- A mãe precisava era de um grupo de apoio para pais de adolescentes.


(Isto traduzido em português quer dizer que a mãe, eu, precisava de ver casos graves na adolescência para não ficar de mau humor com um atraso de oito minutos a seguir à meia-noite)

Não temos apps para isto

Aborrece-me de cozer o bacalhau. Mas apanho-me sozinha a jantar, que é muitas vezes que me apanho, e vai de cozer uma posta de bacalhau do salgado e depois dessalgado (não se percebe lá muito bem, mas é assim que se faz ao bicho) que só eu é que gosto de o comer cá em casa. Então de cada vez que me deito a cozer uma posta deste belo fruto do mar com uma batata no tacho ao lado, temos o caldo entornado (não o da batata). Temos porque ponho a posta na água, dentro do tacho, ligo o fogão e depois opto: ou espero um tempão ali em pé a contemplar o bacalhau aquecendo-se todo despacito e a aborrecer-me que nunca mais acaba, ou, boa ideia, vou-me embora sem observar o processo, otimista género vou-mas-é-estender-a-roupa-e-já-cá-venho-seu-maroto, mas a roupa é mais que a conta, e o caldo entorna sempre, o do bacalhau, evidentemente, sempre. No seguimento, vem o fogão para limpar da água peganhenta e malcheirosa, não adoro lá muito. Nem adoro lá muito, nem há apps para isto não sei porquê. Se fosse ao almoço, ainda me punha à janela enquanto vigiava a fervura da água, engendrando modos de ver o papagaio que segue entretendo o bairro com a sua palração ininterrupta o dia in-tei-ro e eu continuo querendo ir arrancar-lhe uma pena das verdes para castigo, que ele doutras não arranja, só que isto do bacalhau dá-se mais ao jantar. A essa hora está o papagaio recolhido dentro do quiosque das flores, fechado à chave, caladinho que nem um rato, sozinho no meio das rosas, gladíolos, gerbérias de várias cores, vendem-se muito bem, margaridas, agora também em azul, petúnias nesta altura do ano e coroas imperiais. Mas coroas imperiais não tenho a certeza.

05/07/2017

O quadro

Não sei que efeitos terá uma infância sem quadros nas paredes. A minha, feliz de mim, teve-os. Neles muito viajei, nalguns ancorei ensaios de eu (tinha escrito de mim mas ficava mal a repetição) em versões paralelas.

No quarto dos meus avós, um quinto andar de uma perpendicular à avenida da República de Lisboa, havia um quadro fascinante. Não era grande nem pequeno, mas era fundo. Sempre que me apanhava sozinha com ele, fixava-o bem e entrava. Era um quadro silencioso e escuro, um quadro só e triste. Era também perfeito para uma tal versão paralela porque era a antítese de mim. Além disso, ninguém, absolutamente ninguém, parecia reparar nele (só eu); era portanto um quadro ignorado. Estava numa parede por cima da cómoda que ficava aos pés da cama. Mostrava uma pequena casa de pedra sem janelas (e não tendo janelas não tinha nada), em avançado estado de ruína (quer dizer, tinha de certeza bichos) e toda escuridão (por exemplo, cobras e ratos). Havia também uma nora, totalmente perra, inerte, junto à casa (a nora não tinha importância). A fazer-lhes uma sombra permanente estava uma frondosa árvore em grande plano, cheia de folhas verde-escuro, quase preto, secundada por muitas mais que se desvaneciam para longe (o fundo do quadro) desenhando a margem de um rio que banhava a casa e explicava a nora. O rio, esse, corria vivo (óbvio), a água tinha espuma branca aqui e ali e claro que era fria ou completamente gelada. O céu estava carregado de nuvens escuras mas ainda não tinha começado a chover (nos quadros nunca chove) e eu ficava cheia de frio e de tristeza, de medo, de solidão, ficava perdida e quase morta dentro desse quadro. Mesmo assim, mantinha-me lá. Ganhava coragem e entrava para dentro da casa, para encontrar os bichos que não se viam (cobras, já disse, e ratos), alguns mortos. Também para sentir o cheiro a mofo podre e o frio gelado nos meus ossos. Ficava no quadro até já não aguentar mais o ensaio de bravura a que me submetia. E então tomava a saída. Deslizava o olhar para a moldura dourada que o aprisionava, toda trabalhada em muitos relevos, refletindo brilhos nas curvas da madeira pintada. Aí, respirava fundo primeiro. Depois, ia a correr para junto da minha avó.

(este post nasceu deste outro, que me reavivou a memória, embora o tema se desvie um bocado, não muito)

01/07/2017

Oldeberkoop (no supermercado)

Quando o barco entra, a deslizar, no pequeno porto, reconheço o lugar. Já cá estive há sete anos, precisamente. Lembro-me de uma particularidade do supermercado que na altura me ficou por explorar, mas de hoje não passa. O pequeno porto oferece serviços de apoio de lavandaria e duche quente, entre outros, e podem levar-se bicicletas emprestadas ao centro da pequena cidade para, por exemplo, ir ao tal supermercado. Escolho a bicicleta que tem o selim na posição mais baixa: se em Portugal terei estatura média, na Holanda o caso é diferente. Mesmo assim, preciso da ajuda do lancil do passeio para me pôr em cima dela e começar a pedalar. No máximo chego com uma biqueira de sapato ao chão, uma de cada vez. Os velhinhos passam por mim a pedalar depressa, trrimm trrimm, ok eu espero. Dou umas guinadelas no arranque devido ao desajuste de alturas, mas depois vai. Lembrava-me muito bem deste sistema de travagem, interessantíssimo, que é o de pedalar para trás, incentivador de uma queda lateral no fim da viagem para uma pessoa como eu: ou se trava ou se põe um pé no chão – para quem pode – ainda em andamento, claro. Mas o supermercado não fica longe. As casas em pedra escura, telhado preto, ajardinadas, janelas e portas floridas, são belíssimas. A cidade está em ordem, tudo arrumado no seu lugar e isto, curiosamente, confere-me certa confiança em cima da bicicleta demasiado alta e a travar daquela maneira maluca, é como se aqui ninguém pudesse cair, nem sequer eu. Antigas e algumas com dizeres em letras serifadas por cima da porta principal, as casas atraem-me o olhar. Porém, não estou capaz de ver nada com vagar, muito menos ler, preciso de pedalar a olhar para a frente não vá vir do outro lado um velhinho disparado, ou velhinha, e zás ou coisa assim, deus me livre. E parar é o cabo dos trabalhos. E depois recomeçar também.
Chegando ao supermercado, ensaio a travagem com sucesso, alço uma perna por cima do quadro da bicicleta e salto para o outro lado ainda um pouco em andamento, é o melhor que consigo. Depois abro o descanso já com o veiculozinho parado, finalmente, e tranco a roda traseira, meto a chave no bolso. Adoro isto de trancar uma bicicleta para ninguém a roubar quando na verdade podia roubá-la eu se quisesse, a chave foi só tirá-la lá do sítio onde se lava a roupa, mas claro que não quero. Entro no supermercado e levo dois fitos, o óbvio: materializar a curta lista de compras em produtos para dentro do carrinho, e o outro: observar os empregados deste estabelecimento - há sete anos, quando cá estive, eram todos pessoas com deficiência. Faço então o percurso de acordo com a lista que levo na mão, bananas, maçãs, tomate, iogurte, pão e cruzo-me com um empregado que está a fazer reposição numa prateleira. Tem seguramente mais de dois metros de altura, é incrivelmente magro e sim, é portador de deficiência, não há dúvida. Falta ver na caixa. Só há uma caixa e estão lá duas pessoas: um rapaz a passar os produtos no registador e uma rapariga sentada atrás dele aparentemente a aprender o ofício. Coloco as compras em cima do tapete e antes de ter oportunidade de olhar bem para eles, não quero ser indiscreta, já o rapaz se está a levantar, leva os sacos de maçãs e tomates e o cacho de bananas nas mãos, diz qualquer coisa como era-preciso-pesar-as-frutas, e vai ao centro da loja, vejo-o daqui, fazer as pesagens que eu devia ter feito na balança que lá está para o efeito. Peço desculpas à rapariga aprendiza que aqui ficou à minha frente e ela diz que não tem importância, sorri. São ambos, também estes, pessoas com deficiência.
Acomodo as compras pendurando-as no guiador da bicicleta, que está onde a deixei tal como se fosse minha, destranco a roda traseira e uso de novo o lancil para o arranque da viagem. Não sem antes deixar passar a carrinha branca que lá vem, preciso da estrada toda para cumprir os ziguezagues iniciais.


(depois de devolver a bicicleta ao lugar de onde a tirei e pendurar a chave na casa das máquinas do pequeno porto, fui consultar: trata-se de uma cadeia de supermercados com lojas pequenas, fora dos grandes centros, que emprega pessoas com certo grau de deficiência, pessoas que têm mais dificuldade que as outras em encontrar trabalho - curiosamente, nunca antes me tinha acontecido um colaborador de caixa se levantar do lugar e ir de imediato fazer a pesagem da fruta por mim)

28/06/2017

Carga de água parece um bom título

A tarde instalou-se numa tranquilidade plana a perder de vista como se costuma dizer, ou pelo menos a minha mãe costuma dizer (mas não foi hoje). Contemplo o movimento oscilatório do barco relativamente à firmeza de solo onde pasta uma pluralidade de vacas. Eu estou sentada na linha de transição de estado a deixar-me hipnotizar pelo movimento já referido, penso em como é tudo tão mais lento quando se está num barco e depois lembro-me de Herberto. Ele escreveu que um poeta estava sentado na Holanda contemplando vacas, se não foram estas as palavras que usou, são estas as que uso eu. E é agora que toca o meu telefone. Atendo o número, que desconheço, mas de Portugal nunca se sabe, estou sim? Do outro lado uma voz masculina pergunta se sou eu que aqui estou, sou. E depois diz que fala do banco Fixtín.
Não percebi bem o nome do banco, Fixtín?, e pergunto: como disse que se chama o banco?
- Fixtín, minha senhora – mostrando indignação, continuou – tem aparecido publicidade nossa em horário nobre na televisão e na rádio!
Continuei a perceber Fixtín e abstive-me de o inteirar, a este senhor que interrompe a contemplação em que eu estava mergulhada, sobre os meus parcos hábitos de televisão e, ultimamente, também de rádio. Entretanto já vai ele lançado a explicar-me aquele aborrecimento sobre ir ser gravada a chamada, quando eu esclareço, para poupar tempo, que não preciso de mais bancos, que já tenho o suficiente relativamente a bancos e contas, muito obrigada, uma boa tarde e…
- Mas eu não venho falar-lhe de contas!!!!, eu venho falar-lhe de um cartão!!!!!!
- Mas cartões eu também já tenho e boa tarde e…
- Mas este é um cartão grátis!!!!! GRÁ-TIS!!!!! Não tem anuidade, não paga nada, minha senhora!!
Esta é a parte em que me seguro para não lhe dizer que “não sou a sua senhora”, mas ele continua, provavelmente sem parar para respirar.
- E, para além de ser GRÁ-TIS tem!! ainda!!! até 70%!!!! 70%!!!!! de descontos nos nossos parceiros!!!!!
- Muito obrigada, eu não estou interessada, desejo-lhe de novo uma boa tarde, com sua licença.

Ele emitiu qualquer coisa com maus modos, como se eu o tivesse ofendido. Mas na verdade a ofendida fui eu. Por que carga de água iria eu – ou alguém com mais de seis anos de idade – acreditar nestas investidas enganosas camufladas de incentivos ao consumo que de qualquer maneira é desnecessário?

Mas retomo a contemplação a tempo de ver uma das vacas voltar-se e começar a afastar-se de mim.


(eu ia mostrar as vacas dessa tarde de há dois dias ou três, que fotografei, mas pareceu-me mais interessante, ainda que de qualidade duvidosa, pôr aqui a carga de água já que falei nela - e esta é de agora mesmo)


21/06/2017

Muita caralhão!

Tenho uma relação esquisita com os balcões da carne e do peixe inseridos num supermercado, que os outros não é costume visitar. Ou gosto ou não gosto. Os da carne não me agradam à vista, quer dizer, não me agrada imaginar comê-la, dá-me arrepios os coelhos. Os do peixe demoram imenso porque há amanhar o dos outros fregueses que chegaram antes de mim e eu espero e vou olhando, vou olhando o peixe. E disto gosto, é esquisito.

Pedi robalos como se fossem bons, naturais e selvagens, arranja-me estes robalinhos, se faz favor? pedi lombos de bacalhau fresco que hoje havia-os e pedi só mais uma coisa, filetes de peixe espada preto, quer que tire a pele, menina?, não, deixe ficar a pele, a gente tira no prato. Mas olhei para o cherne às fatias. Cherne. O cherne é estupidamente caro. Como diria a minha irmã Ana quando era pequenina e sabia pouco da língua portuguesa, por exemplo "tugaluga" era tartaruga, lembro-me tão bem, diria então a minha irmã em pequenina sobre o cherne assim: o cherne é muita caralhão! Passo os dias à procura de palavras para o meu trabalho, os últimos tenho-os passado a buscar também outras, filhas da indignação, da tristeza, da revolta, umas que conseguissem explicar o incompreensível, e perco-as depois aqui no blogue. É postas. É cherne às postas.


(telefonaram-me da seguradora à qual está entregue o seguro da casa da serra, perguntando se precisávamos de alguma coisa, se o fogo tinha lá chegado, se havia perdas a registar, que estavam a ligar a todos os clientes com casas seguradas na área ardida, se haveria indemnizações a dar, indemnizações! – eu, estupefacta, incrédula, disse que não, que a nós não, o fogo passou perto mas à casa só chegou fumo, e desliguei a pensar que se não tivesse sido comigo este telefonema eu teria tido dificuldade em acreditar nele)

13/06/2017

Teresinha

Ponho uma sequência de valsas a tocar para mim. Compasso ternário e por isso facílimas de dançar, mas não danço uma, agora não. Agora vou contar isto.

Saio de casa para ir ao multibanco. Quando acabo de atravessar a rua, levo a mão ao cabelo ainda molhado e penso que tenho o cabelo ainda molhado mas com o calor da rua não por muito tempo. E noto, ainda com a mão na cabeça, que a senhora que caminha em sentido contrário ao meu e vai cruzar-se comigo já a seguir, me olha por um certo tempo. Penso se estarei toda encasacada como por vezes acontece quando me esqueço que é verão e saio para a rua desajustada. Mas não, casaco nenhum me está cobrindo, talvez o cabelo ainda molhado...
- Olhe, desculpe!
É ela, e a voz vem já de trás de mim, viro-me.
- Diga.
- Ah….. – olhou-me mais fixamente – desculpe, mas não é a Teresinha?...
- Não… não sou.
- Oh… é muito parecida com a Teresinha e eu não a vejo há anos, mas ela também mora aqui e pensei… não é a Teresinha, pois não?
- Não… sou Susana. (nem mesmo na minha panóplia de irmãs se encontraria uma Teresinha, por muito que se procurasse, mas isto a senhora não precisou de saber)
- Ai eu gostava tanto de ver a Teresinha, por isso é que agora a chamei, pareceu-me mesmo. Pronto, desculpe.
- Não tem importância, um bom dia.
- Bom dia. Tudo a correr-lhe bem, sim?
Sim, tudo a correr-me bem. Mas também tive pena de não ser a Teresinha, de não dar uma alegria à senhora e saber da sua vida, contar-lhe da minha, rebobinar os últimos anos, ali, no meio da rua, debaixo de um jacarandá em flor. Quem seria eu se fosse a Teresinha? Continuei o meu caminho, entrei no centro comercial, levantei dinheiro no terminal multibanco e tornei à rua tomando o caminho inverso para casa. Ao subir as escadas junto à paragem do autocarro, escorreguei e caí. Tenho caído muito ultimamente. Mas levanto-me logo. 

(e agora é que danço a valsa, uma destas que continuam a tocar para mim)

11/06/2017

Haviões (um post praticamente científico)

Quando deixo o blogue abandonado por uma temporada, como tem acontecido largo nesta primavera luxuriante, bem trabalhada, ele recebe muitas visitas de países longínquos e origens não decifráveis, que são tudo mentira: serão sim os robots. É uma espécie de como quando fica a casa, a real, deixada só. Ainda que de portas e janelas trancadas, a natureza começa, devagar, a entrar. Pode ser na forma de formigas, aranhas, centopeias, um rato, ou dois, uma lagartixa, diversos bichos indefinidos que serão encontrados mortos e, claro, uma data de pó. Também se pode chamar a este processo o aumento da entropia, que é de aplicação genérica e certa como a morte e os impostos e, segundo um meu cunhado, igualmente certa como as mulheres pintarem o cabelo a partir de certa idade, e a partir de outra idade pintarem-no de amarelo (ele quer dizer louro, mas percebe pouco de tons).
E há dias, levei, sob o sol da tarde, os olhos ao céu azul riscado de branco pelos aviões. Aí ocorreu-me sem querer que deviam estes – mas é – ser designados totalmente de acordo com as suas elevadas potencialidades: haviões. Com propriedade, elevando-os ainda mais a uma conjugação especial do verbo haver, em superlativo, tendo em mente a dificuldade que foi trazê-los de uma ideia muito boa para uma real e complexa, repito elevada, existência.

Andava, porém, a evitar falar nisto (apesar de o blogue entregue aos robots). Até que hoje de manhã, ao saber da última tuitada da Casa Branca, achei que, sinceramente, este post que se escondia envergonhado, tímido, quase agonizante, afinal, roça praticamente o científico. 

(na verdade, tanto disparate junto assusta bastante)

05/06/2017

A terra também cresceu (mas foi de propósito)

É por estas e por outras que as minhas irmãs e outras pessoas de bem não gostam de mim (mas no blogue ainda se aguenta).

Hoje não saí de junto do cato suculento, pode ser Catus Suculentus Citrinus, o Citrinus já se vai ver, não saí de junto dele todo o dia.

Tinha transplantado o Catus Citrinus (primeiro e último nome) há tempos, na verdade há dois meses, que era abril a começar, até fiz para aí um post em que by the way expliquei a plantação, transplantação, deste e do outro, são dois, mas só a este demos agora nome, o by the way como se fosse pouco plantar dois catinhos e não é. Eu sofro de amor agudo por catos e outras produções naturais. É tudo tão lindo. Até a minha filha pequenina, pelos quatro anos de idade, não me esquecerei, disse uma vez à beira da Marginal que liga Lisboa a Cascais no sentido contrário, eram umas sete da manhã e a praia cheia de gaivotas no chão da maré baixa, pensativas, o céu cor de rosa e eu a conduzir as duas filhas com sono para a escola, mas "meninas, olhem que lindo" e ela "mãe tu achas tudo lindo". Estava, e estou, ciente de que um cato não é planta que deva muito ao dinamismo da mudança, mas sim à resistência-a-adversidades, característica pela qual trouxe os dois exemplares para a casa da serra, que está mais desabitada do que habitada, as hortenses faleceram, os coentros evaporaram-se junto com a salsa, ficou o plástico do vaso a dar sopa, a batata doce não deu nem isso, é a vez dos catos mostrarem a fibra de que são feitos.

E então ontem, ao chegar ao terraço que lhes serve, aos catos, de morada, tinha-me o Catus Citrinus esta surpresa: um ramo de flores laranja (é agora que se vê) tão lindo quanto isto.

Mas só agora me ocorreu: e para que quero eu um blogue?

Para mostrar o antes


e o depois.

04/06/2017

O pato

- Ó mãe, tu estás rija que nem um figo! – a mais velha.
- Não é um figo, não percebes nada, é rija que nem uma alface!… – a mais nova.

O almoço era um arroz de pato acabado em casa. O pato deu entrada já em pedaços longilíneos, cozinhados em parte incerta, e nem sequer veio o pato todo, mas adiante, que veio acompanhado de um robalo grande no outro saco com duas postas de garoupa muito boas, desta vez não havia pescada, couve-coração havia, tenho dificuldades em retirar uma couve-coração do expositor só com uma mão, a couve-coração caiu nas graças da mais nova, nas minhas já havia caído há muito, o pão, iogurtes dos brancos, morangos, e não sei se tem interesse continuar. Quase tudo material com seis por cento de iva, que eu tenho estas manias – quanto mais comprar a seis por cento de iva, menos processado é o que trago para casa e mais saudável e conceitos assim tipo (até eu me canso de mim às vezes). Mas portanto o pato já chegou em estado avançado de preparação, claro que nesta situação qual seis por cento qual quê, paciência, eu avanço e dou-lhe somente a volta final, o arroz. O almoço está pronto, chouriço nada que andamos em dietas (consideráveis).
Foi perante esta iguaria nos pratos e a minha ladainha sobre sentir-me cansada de não parar de trabalhar nem um diazinho há muitos seguidos, mas também feliz como nunca antes estive com trabalho nenhum, tão feliz que nem dá bem para acreditar, discurso que – à palavra cansada – desencadeou o diálogo acima exposto.

- Meus amores, diz-se “rija que nem um pero” e se quisermos alface é “fresca que nem uma alface”.
Mas continuo
- O figo vem no “chamei-lhe um figo” e ainda há a variante “caiu-me que nem ginjas”.

Quem souber mais é avançar, se fizesse favor, para ensinar às garotas da próxima vez, por exemplo frente ao robalo.

(com licença, só uma pergunta, ao ler-se ali em cima "O pato" deu ou não deu para ouvir de imediato aquela canção brasileira, "o pato, vinha cantando alegremente, quém quém", deu?)

01/06/2017

Selinho Blog em Bom - lançado por Pipoco Mais Salgado

Se eu fosse um Blog em Bom gostaria de ser – não vou ser original, mas isto é para ser sincera ou então não viria cá – o blogue da Mãe Preocupada. Porque sempre que lá entro e me sento confortável a ler o novo texto, sou invadida por uma estranha tranquilidade. Digo estranha por ser constante, haja o que houver, seja qual for a leitura. Lá, parece que encontro o mundo no lugar. Encontro uma honestidade que me encanta. Encontro-me a mim também. Respiro e leio devagar para ficar mais tempo. Aliás, para ser completamente sincera, já não é só gostar de ser, eu sou o blogue da Mãe Preocupada. Sou, na medida em que já me aconteceu dar comigo, quando perante situações difíceis, duras, dolorosas, a pensar: como faria uma pessoa como a MP no meu lugar?

Mas também gostaria de ser de vez em quando o blogue do Pipoco Mais Salgado. Uma espécie de gluão. Uma partícula que une naturalmente as outras como se conduzisse uma orquestra que primeiro pode entrar desafinada e no fim toca uma peça lindíssima. No Pipoco confirmo que vale a pena ter um bom coração. E depois, é ele o primeiro a aplaudir os músicos.



Os cinco blogues que escolho para darem seguimento a esta corrente tão bonita e com um selinho maravilhoso da série Senhora dos Papagaios, Tarântulas e Caniche, porém na variante Cisne com Bebé, que é ainda mais fofinho (Ah, Grande Palmier!); são estes:








(contei com uma tolerância de vinte por cento, para não abusar)

Instruções:
"Foste envolvida(o) no movimento "selinho Blog em bom", tens agora vinte e quatro horas para escolher um blog que gostasses de ser, explicando-nos porque é que aquele blog é mesmo um blog em bom e para desafiares mais cinco bloggers para este interessante desafio que pretende promover o convívio entre todos os bloggers, ou então um panda bebé morrerá e todos sabemos que os pandas são animais fofinhos que não merecem falecer só porque alguém não responde a um desafio"

A Carta

Subimos juntas nas escadas rolantes do centro comercial. Ela já leva a carteira preparada na mão e encosta-se um pouco a mim, gosto tanto da minha mãe. É mais alta do que eu há muito tempo. Vejo-lhe, pelo canto do olho, a curva do pescoço que o rabo de cavalo revela e ponho-a no meu colo só um bocadinho, reduzindo-lhe o tamanho à escala de há quase vinte anos. Ficamos assim até o mecanismo rolante nos entregar ao piso superior e a obrigar a endireitar-se. Dirigimo-nos à caixa multibanco, ela mete o cartão de plástico na ranhura da máquina, digita o código. Eu fico um passo atrás ainda com ela ao colo, é só mais um bocadinho, só para relembrar o cheiro de bebé, os sons, o riso que lhe saía até a dormir.
- Gosto tanto de ver esta tirinha aqui a espreitar, mãe, esta que diz “esa”, olha – voltara-se para mim.
- O quê, filha? – regresso ao piso superior do centro comercial.
Do compartimento apertado da carteira aberta aguardando o retorno do cartão ainda ocupado a tratar de assuntos seus no terminal multibanco, puxa a carta de condução. Ao fazê-la deslizar, “esa” cresce para “Portuguesa” e depois para "República Portuguesa”. 
- Sinto-me tão crescida, mãe - declara, enquanto acaricia o documento, condómino acolhido no outono passado.
O terminal multibanco atrai-lhe de novo a atenção, a Carta acariciada volta para o lugar de onde saíra, fica o “esa” à janela e a minha filha devolve-me as costas, a curva do pescoço, a parte de trás das orelhas. Aproveito e torno a pô-la no colo. Só mais um bocadinho. 
Que aquele "esa” já a leva para longe de vez em quando.

24/05/2017

Três chichis no mesmo post

Ainda havia tempo de chegar ao supermercado do bairro antes da hora do fecho. E antes da hora próxima da hora do fecho, aquela em que o dono da pequena superfície, guardião permanente da entrada, não tem ainda aposta no rosto a expressão que diz estamos-quase-a-fechar-não-podia-ter-vindo-mais-cedo-não e me faz sentir pessoa culpada que vive à beira do atraso (é feio). Não sou de voluntariamente me levantar muito muito cedo, o que sempre me revestiu de um secreto sentimento de culpa, especialmente perante as pessoas que estão prontas ainda o sol não nasceu, prontas e frescas, ao dia um têm feito o trabalho que era para o dia três, tive um colega assim. Escrevi não sou, mas a verdade é que não era. Não era de voluntariamente me levantar muito muito cedo desde que durante os três primeiros anos de maternidade não dormia duas horas seguidas, não podia mesmo deitar-me antes das quatro ou cinco da manhã porque a minha bebé primeira, a Muzi, linda que não sei dizer, aquilo foi um bebé de querer logo ter mais bebés, mas adorava brincar a essa hora comigo, era pela noite adentro, ela lhalhá e eu a cair. Que brincar eu lá brincava, mas depois era para ir trabalhar carregando um cansaço do qual tenho a impressão de ter levado décadas a livrar-me. Dizia então que vou a tempo de entrar no supermercado com margem de segurança, já sou mesmo pessoa de chegar cedo a qualquer hora do dia, gosto muito. Portanto, antes de atravessar a estrada parei junto do Renato, o rapaz que passeia os cães, esperei que ele removesse os grandes óculos escuros do seu rosto cicatrizado pela vida, e deixei-o espetar-me aqueles beijos sonoros nas faces, olá Renato, como estás? O Renato leva pela trela um só cão e o bicho olha para cima, para mim, parece que traz olhos tristes mas não traz, é mesmo dele estes olhinhos, os cães adoram o Renato porque vice-versa. Sai então um chichi para o muro que ladeia o passeio, enquanto o Renato me responde franzindo a testa, cansado, ando sempre a fazer diretas.
- Então mas o trabalho no bar agora é todas as noites?
- É. E eu não durmo, tenho de ir buscar os cães a partir das seis.

Finjo que tenho um bocado de pena dele por estar assim privado do sono, pois isso custa, pois custa, respeito muito quem não pode dormir como quer, evidentemente, mas digo finjo porque sabemos ambos que ele ama esta sua vida de andar com os cães, vê-se pelos cães, este já fez uns três chichis de três ângulos diferentes para o mesmo muro e no mesmo post, está a marcar o território diz o Renato. Noto-lhe uma tatuagem que ainda não conhecia, composta por uma flor entrelaçada em nome de mulher no braço magro que a manga do blusão, arregaçada, revela. Falo ou não falo na tatuagem, não falo. Que ainda falta algum tempo de segurança para o supermercado fechar mas não o bastante para a tatuagem abordar (pois rimou). Não vá este nome de mulher ser da namorada que as minhas filhas lhe viram, mãe, o Renato tem uma namorada, e isto dar conversa para eu entrar no supermercado sob o olhar supradescrito do dono, ainda por cima agora, que de levantar cedo e não me atrasar até já sou.

12/05/2017

Fechos para janelas (uma espécie de sonho)

- Lisboa está cansadíssima. Dá pena, se olhares bem. Respira aos arrancos, tem tosse aqui e tem ali. Coça-se a sul e a norte, que é um modo de falar das obras. A lama, ok, não é que seja lama lama com a chuva de maio. É uma pasta cinzenta, estás a ver, bastante homogénea. Forma o avesso das protuberâncias das lagartas, as lagartas das máquinas, tudo, por ali fora. Podes admirá-las no campo das cebolas, se quiseres.
- Ui.
- E não perguntes do metro.
- E do autocarro?
- Não se respira, é tudo fechado. Eu não sabia. Diz nas janelas que não se podem abrir, acreditas? Eu não acreditei logo, li várias. Pensei: a primeira está a brincar, a doida, mas depois a segunda janela dizia o mesmo, todas, li todas para confirmar: não se podem abrir.
- Mas tipo quê?
- Tipo castigo, acho, mesmo para quem paga os impostos e pede fatura, aquilo é assim, muito hermético. E devido às obras, lá está, o trajeto demora, a carreira estica muito. Muuuuuuuito. E a gente, ouve lá, a gente sufoca ali dentro, janelas fechadas de o-ri-gem. Não se aguenta.
- Credo.
- Mesmo. Porque se olhares bem, junto a cada uma vai um martelozinho em vermelho, pendurado, nem sequer é feio o martelo, e vai ali a jeito para quem quiser, de repente, abrir a janela.
- Mas parte o vidro.
- Parte.
- Pá…
- Pois. Era mais fácil a janela abrir com fecho, não é. Daqueles fechos mesmo próprios de janelas, há imensos.
- Tipo com manípulo.
- Tipo.


(a verdade é que ando sempre a falar contigo, mesmo quando os meus hemisférios cerebrais carecem bastante de oxigénio e descem a isto)

05/05/2017

De bestial a besta

- Eu acho um exagero. É só Fátima, Fátima.
Enquanto a senhora da livraria diz isto, abana a cabeça e digita no terminal multibanco o valor da minha compra antes de virar o aparelho para me incentivar a digitar eu o verde código verde, agora até já nem é isto que se ouve, agora ouve-se imenso é o nosso próprio número de contribuinte dito em modo automático e será assim até ao final da vida, não sabemos, mas diz aquilo a senhora ao meu comentário que ainda não entrou no post e que foi assim: agora é tudo sobre Fátima. E é mesmo, aqui à beira da zona de pagamento da livraria é tudo livros sobre Fátima, pequenos e grandes, infantis e para crescidos, é muitos.
- Então e aquele terço enorme da Joana Vasconcelos? – a voz é a desta senhora, eu digitando no terminal.
- Eu não acho graça nenhuma ao que ela faz, sinceramente – continua – mas também, quer dizer, era preciso uma pessoa ir assim de bestial a besta? Agora só a atacam, só a atacam! As pessoas exageram!

Portanto eu tive logo vontade de dissertar sobre este e outros assuntos parecidos com este, ainda por cima gosto de conversar com esta senhora, mas hoje houve que optar. Optei por pegar nos livros, emitir que me agradam algumas obras da Joana Vasconcelos e já outras não, as do croché a revestir animais de loiça por exemplo não, enquanto os meto no meu saco próprio, aos livros, saio da loja desejando bom fim de semana e rumo ao supermercado para comprar cebolas, morangos biológicos, bananas, pão e pensos higiénicos. Os pensos higiénicos eram capazes de tirar completamente a poesia ao post, se ele a tivesse.

30/04/2017

A noite da má língua

Certa vez, enquanto limpava o pó, ouvi na rádio a Rita Blanco dizer que ser mãe a fez sentir-se mais pessoa. Nada a ver com o Fernando, entenda-se (a propósito, a feira do livro de Lisboa está aí, é tomar nota, arranca dia 1 de junho), mas limpava então o pó quando oiço a Rita Blanco dizer aquilo. Foi há mais de muito tempo, eram as minhas próprias filhas tão pequeninas que com certeza dormiam a sesta para andar eu na faxina, caso contrário mãe isto e mãe aquilo, não dava. A Rita Blanco era já, ao momento em que fui buscar o pano do pó ao armário pensando vou limpar o pó, era já, dizia, pessoa do meu agrado desde as noites da má língua, que eu nesse tempo via um nadinha de televisão. Mesmo com a voz estridente da Júlia Pinheiro, eu via. Por causa da Rita Blanco e dos outros, era o Rui Zink, e o Manuel Serrão, parece que estou a vê-lo, há que anos que foi, e ainda o Miguel Esteves Cardoso, de quem eu só gostava às vezes, ele era demasiado disruptivo para mim só que na altura não se sabia desta palavra disruptivo. Mas parei. O pano do pó não me caiu da mão, eu é que fiquei ali a ouvir o resto da conversa que vinha do rádio muito quietinha. Sintonizei-me, portanto, ainda mais com a Rita Blanco, ela nem sonha, sabe lá que eu existo (nem eu às vezes tenho a certeza de existir). Tornei a vê-la muito depois no maravilhoso filme denominado “A Gaiola Dourada” que levou a minha caçula, aí já a deitar corpinho crescido, a comentar à saída do cinema “Mãe, tu choravas que nem uma Margarida”. É Madalena, corrigi, mas então a rir.
Isto tudo porque me deu logo hoje para pensar ah e porque não um cineminha quando acabar o trabalho? Fui ver que tal de exibições e encontrei de novo a Rita Blanco anunciada num trailer, ora deixa cá ver, é Fátima. Fátima. Em 2017, maio a querer chegar lá o mais cedo possível, mas que maio tão cheio vai ser este nosso. Vi as salas, os horários disponíveis, variedade não falta e depois a data de estreia. Estreou há dois dias o Fátima. Pá... pensando bem, neste quase maio cem anos depois, não. As salas vão estar cheias de pipocas. Fechei a janela do computador onde consultava a informação, sacudi a ideia da cabeça, tornei ao trabalho e depois mais nada para dizer. Tirando isto: lá para o final do ano, maio passado, Fátima devolvida ao seu sossego, já de novo esquecida, e o filme em exibição numa sala perto de mim. Tipo a minha. É completamente pipocas-free.

(quem teve a ideia de concatenar a sétima arte com milho explodido e seu abominável ruído mastigatório inerente, fez muito muito mal – e agora ficarei, está bem, uns meses sem voltar a este tema, acho que sou capaz, vá)

25/04/2017

Aroma natural (pode ser cabras e ovelhas)

Recentemente apercebi-me de que ando numa fase das melhores, mais felizes de sempre. É bastante inadequado e estranho, foleiro e parolo, porém absolutamente verdade. Mas pelo sim pelo não, para testar a veracidade de tamanha felicidade e seus eventuais impactos no mundo exterior, aproveitei hoje o almoço com a Marina que me conhece desde antes de lermos as duas Os Maias ao mesmo tempo e disse-lhe assim: ando muito feliz, sabes? A ver se ela revirava os olhos ou me chamava maluca, como já tem acontecido (especialmente o chamar maluca) ou se atirava a cabeça para trás a rir. Mas não. Limitou-se a sorrir calmamente enquanto tudo em nosso redor deu continuidade à existência que já vinha tendo no minuto anterior e depois disse, ai sim? que bom! Portanto vamos continuar.

Tinha começado o dia pela reunião no edifício branco e luminoso que já visitara uma vez e ao entrar, bom dia. Bom dia soa sempre bem. A Doutora Maior com quem combinei a reunião está ali mesmo no corredor junto à copazinha e diz-me que vai tomar café, se eu quero café. Aceito, café aceito sempre. Enquanto corre na máquina o líquido quente e aromático (para não repetir café) a Doutora Outra com quem também vou reunir vem lá de dentro da sala contígua cumprimentar-me, como está. Estou bem (mas não lhe contei que ando assim tão feliz). Beijinho, beijinho. Eu não gosto muito de beijinho beijinho em contexto profissional, mas está enraizada a moda e prefiro segui-la abdicando do muito melhor e mais eficaz aperto de mão do que ser antipática, ainda por cima o cliente aqui são as Doutoras e a felizarda já sabemos que sou eu (para reforçar). E pergunta-me a Doutora Outra se conheço a Doutora Dentro da Sala que está ali a olhar para nós e eu não conheço. Então apresentou-nos e vem a Doutora Dentro da Sala beijinho beijinho, muito prazer. Mas eis que foi completamente diferente. A Doutora Dentro da Sala diz-me logo de repente assim: ai que bem que cheira! é o Escada? (e eu cá para mim, olha a vantagem do beijinho beijinho)
- Não, não é o Escada.
- Deve ser o aroma natural – diz a Doutora Maior que ainda está aqui a beber o seu café e eu o meu (com licença) e se calhar não achou muito apropriada a conversa, mas informou-me prontamente que a Doutora Dentro da Sala é meio francesa e bastante espontânea.
- E eu gosto de pessoas espontâneas e francesas mas este não é o meu aroma natural.
Depois enfiei o nariz na xícara para me entreter com o café e me subtrair a dizer que perfume é o meu, enquanto olho através da janela para a erva lá fora, que está alta e a pedir para ser cortada, e me ocorre uma ideia do tipo startup: um negócio de aluguer de cabras e ovelhas para temporadas em jardins como este onde fariam de cortadores de erva naturais. Serão silenciosas (tirando um ou outro bééé), ecológicas, decorativas, transportam a erva cortada sozinhas e essas sim, seguramente, com aroma natural.

Sei. É da felicidade. E a reunião correu lindamente.

20/04/2017

Postas de pescada (um post melhorzinho)

Lá fui dar àquele balcão do supermercado onde se passam temporadas com frio. O sargo anunciado selvagem numa tabuletazinha espetada no gelo limítrofe, mas foi para a pescada que me virei, uma inteira, se faz favor, depois partida em postas assim - aos meus dedos impus configuração de largura de postas, umas senhoras postas.
- Para cozer?
Para cozer. Engraço muito com os laivos nacarados, acho que é nacarados, que o teor de ferro confere à superfície do naco branquinho, depois, já no prato. É só inclinar a cabeça e vê-se perfeitamente, são azuis, são verdes, são lilases. Mas aguardo ao balcão desta temporada ao frio bastante bem vestida. São duas camisolas de gola alta, ó se faz favor, uma sobre a outra e depois o sobretudo cinzento ao qual recentemente preguei um botão caduco. Normalmente é ai que frio, ai que frio, mas hoje pude observar os peixinhos com vagar. A minha filha vinha distrair-me a espaços perguntando que mais vai ser, mãe, ela não tão bem vestida quanto eu, nem por sombras, ia abastecendo o carrinho de compras que me secundava, os ovos, uma garrafa de vinho branco, o pedaço de abóbora que a esta hora já virou sopa, o louro, os iogurtes. É algures entre os ovos e a abóbora que torno a olhar a minha pescada inteira ainda não partida, porém já sem cabeça, e a vejo toda abandonada por baixo da torneira móvel extensível que lava balcões de tripas e o chão e as raparigas que trabalham o peixe se for preciso mas não foi, portanto pergunto, então a minha pescada? Estou meio a querer zangar-me daquele abandono, mas só meio por causa do agasalho que me mantém quente a paciência, admirada de ver a moça a descascar as escamas doutro bicho que até deita corpo de pescada mas eu daqui não tenho a certeza. Então a minha pescada?, repito, ao que ela diz já vai, já vai e a cigana que está aqui ao meu lado no balcão chega-se mais perto e explica-me que eu estava distraída a conversar, e estava, sobre os ovos, e não vira que a primeira pescada não estava boa, que estava moída. Interessei-me. Moída?! Moída, querida. A cigana chamou-me querida. A rapariga do outro lado do balcão, que largou por momentos a pescada segunda, sempre era pescada o bicho supracitado, vem então ilustrar a conversa com a pescada primeira nos braços, mas já sabemos que sem cabeça, vê, está moída. Pressiona com os dedos o lombo descoberto e diz, não podemos dar o peixe assim aos clientes.

Quando a pescada segunda, em postas, foi colocada suavemente no tapete rolante da caixa de pagamento, perguntam-me se tenho cartão de cliente.
- Ter tenho, mas está em casa. Vim direta do aeroporto, aterrei mesmo há bocadinho.

E foi muito o que disse; explicar que esta minha filha já me vai buscar de carro onde eu precisar, que o sobretudo e as camisolas de gola alta deram um jeitão à beira do pescado para que não me zangasse sem razão e que estas postas, minha senhora, podem muito bem ir dar em post é que já não fiz.

14/04/2017

Amêndoa amarga

Não quero ver a palavra mãe na mesma frase que a palavra bomba. Não se pertencem. Não há mães de bombas. As mães são alimento, são vida, são amor. Na maioria das vezes, felizmente. Se eu mandasse nesses jornais abolia a palavra mãe dessa frase. Não houve, durante toda a minha vida, outro presidente dos estados unidos (ainda se diz unidos?) da américa que tivesse sido capaz de chegar ao meu coração e nele depositar um tanque de raiva, uma quantidade q.b. de ódio e quilos de medo.

Além de me levar a pensar que a mulher dele deve precisar de muitas caixas de comprimidos para o enjoo. Vendas nos olhos, molas no nariz e tampões nos ouvidos. Repelente asqueroso.

13/04/2017

O meu Amarante era Duque

Também eu tive um cão fiel na minha infância. Infância, infância: a última vez que me lembro de brincar com o Duque sei que tinha quatro anos. Eu andava sempre a pensar agora tenho três anos, agora tenho quatro, etc. Queria crescer e ia contando o tempo que, naquela altura, arrastava-se lento (agora é ao contrário). Então o Duque era um Pastor Alemão todo preto no qual o meu pai confiava muito, parece que falava com o cão sem falar e o cão percebia tudo. Mas quando um dia, corria eu pela casa ainda de fraldas e entrei na cozinha a alta (bem… não muito) velocidade, o Duque se levantou de um salto lá do repouso aos pés do dono, correu, ultrapassou-me na cozinha e depois atirou-me ao chão com um empurrão de focinho na minha barriga, o meu pai não percebeu logo. Levantou-se e foi averiguar dos intentos do cão, mas para quê tanta violência, o que andas a fazer, seu maluco, eu a chorar no chão em cima das fraldas, e então percebeu que o Duque sabia o que ele, meu pai, houvera esquecido. O forno estava ligado a cozinhar qualquer coisa e eu levava talvez interesse na corrida a velocidade, vá, moderada, de ir experimentar o vidro do forno com as mãos ou o nariz, fito que o Duque telepaticamente captou e, por ter discordado, foi interromper-me a corrida deitando-me ao chão, como já foi dito.

Mas já andava eu livre de fraldas há muito, tinha os tais quatro anos e estávamos na casa de férias dos meus avós. O Duque tinha uma casota só dele, onde eu calculava que à noite ele dormia.
- Duque, vamos brincar às casinhas, faz de conta que eu também moro aí!
Mas só cabia lá um de nós de cada vez, e se fosse eu era agachada e quieta que cabia, correr nesta casa não se consegue. Só que para além de exígua, a casinha do Duque cheirava um bocado mal a cão e eu não aguentei o cheiro por muito tempo, portanto mudei a brincadeira de “às casinhas” para “aos cavalos” e o Duque não se opôs (aparentemente).
- Duque, tu és o cavalo.
Montei no dorso do Duque, que ele era mesmo bom para meu cavalo, e disse, anda cavalinho, para ele perceber os papeis. Mas ele não percebeu nada. O Duque sentou-se mal me sentiu em cima dele e eu escorreguei pelo dorso abaixo, apeada à força.
- Duque! Põe-te em pé! Tu és o cavalo!
Indignava-me ele ter brincado tão bem às casinhas, sermos tão amigos eu e ele, e agora não querer brincar de cavalo, um cão destes tão lindo!, eu achava-o lindo e o meu pai dizia que ele era lindo porque era todo preto e não preto e castanho como é habitual nesta raça. Quando o Duque se pôs em pé, eu montei-o outra vez, ele outra vez se sentou e eu tzzzz pelo Duque abaixo. Pá, ó Duque, vá lááá! Mas nada, ele não queria brincar de cavalo.
Tentei apanhá-lo noutras horas, noutros dias, apanhava-o de costas, distraído, eu devagarinho alçava a perna, ele percebia tão bem o meu pai também tinha de perceber-me a mim, era para brincar de cavalo e correr comigo às costas, anda cavalinho, mas ele sentava-se sempre e eu sempre escorregava. O Duque nunca quis ser cavalo.

É mesmo como diz a Teresa: é um cão fiel o que temos no jardim da nossa infância.

08/04/2017

Orquídeas morrem a toda a gente

Lavei os dois potes de pedra do terraço, que acolheram todo o inverno com a concavidade que os caracteriza, e ainda guardaram algumas folhas outonais que os escolheram e neles quiseram apodrecer. Podia também dizer-se uma poesia aqui, mas nesse caso estaríamos no blogue errado. No fundo, os potes de pedra continuam à espera de uma planta que lhes não morra dentro completamente. Eu sou de poucas artes no que respeita a exercer o amor pelas plantas, isto é, a tratar delas com sucesso garantido. Já me morreram hortenses, orquídeas (mas essas morrem a toda a gente), flores diversas de todas as cores desde que em vaso, gerânios muito lindos e coentros. Lembro-me até de que estava a experimentar na marquise de Lisboa onde vivia à época, uns enxertos estufados em sacos de plástico de uma planta que me encantava cujo nome perdi, mas entretanto nasceu-me uma filha e os enxertos pereceram antes de ela chegar às sopas. Houve que interromper, portanto, os amores às plantas para tratar de um banho, de um bolsado, de uma ida ao hospital, do pediatra ou, até, do IRS. E os potes não foi só lavar, os potes foi desentupir o buraquinho do fundo cheio das folhas apodrecidas já mencionadas, para amanhã, atenção. Amanhã dar início a mais uma tentativa de me lançar em jardinagem caseira. Enchê-los-ei de terra que estava em promoção no supermercado mas só comprando vinte quilos, que arrastei para casa, e lá plantarei um cato muito bonito em cada um. Cato agora é sem c.
Podia tirar antes os vinte quilos do solo aqui do monte beirão, não podia? Podia, mas não me lembrei.

(este post é capaz de ter amanhã atualização com os catos plantados a deitar para a serra, ao menos bonitos eles, caramba, eles são)

***
segue-se a atualização prevista do dia seguinte, mas agora não tenho a certeza de isto serem catos, que picar eles não picam.


04/04/2017

P'trúgal Cuqui

Finalmente encontrei o tipo de letra que eu queria. Já tinha procurado umas vezes, não muitas. E é assim grandão porquê, porque eu entretanto, nestes quatro anos de blogue, já engordei quatro quilos não sei como porque não como (olha que giro) assim tanto, e os meus olhos empobreceram bastante, para não falar no esquerdo que tem chorado muito ao vento. Mas nada a temer, estou envelhecendo com alegria, e não tenciono plastificar-me nadinha.

Portanto vou usar desta nova letra tão boa para contar uma história que foi antes do blogue, dos quatro quilos e disto dos olhos, etc., e para se perceber aquele título ali.

Eu estava anfitriã de dois cidadãos chineses no meu contexto de trabalho. Um cidadão chinês de cabelo todo espetado que parecia ter dez anos de idade mas tinha uns vinte e dois e outro cidadão chinês, esse engenheiro, que já ia nos trinta mas sombra de barba nenhuma. Sabendo eu que os cidadãos chineses andavam a comer porcarias ao jantar nas lojas de comida rápida que apanhavam por aí e sendo eu um bocado maternal, pensei, coitadinhos vou convidá-los para jantar cá em casa num sábado e convidei. Usei do meu inglês o mais bem articulado possível, como tinha que ser, e eles muitas exclamações fizeram quando entenderam o convite. O cidadão chinês de cabelo espetado saca do seu dispositivo achatado do bolso das calças, que era também um dicionário, e põe a palavra chinesa que foi traduzida para "bother" querendo dizer que me iriam incomodar. Passando este na na na da cerimónia, consegui que eles aceitassem e para enriquecer a situação e não ser apenas eu e duas menininhas de cabelos encaracolados, pedi à minha irmã mais velha para vir juntar-se a nós, com seu marido e filhos, dois rapazes dentro da faixa etária das minhas. Não me lembro o que cozinhei, só me lembro que a minha irmã não aprovou a minha escolha, mas sendo ela uma dona de casa exímia e eu uma dona de casa esforçada, é de esperar. Servi o vinho que era tinto e, antes de começarmos a refeição erguemos os copos, os cidadãos chineses imitaram-nos, dissemos tipo Cheers! e nós um golo e pousamos os copos e eles um golo e todos os golos de seguida até ao fim, esvaziam os copos de uma vez. Ninguém se riu, nem os meninos, que olhavam muito sérios. Comemos então a tal refeição que a minha irmã não aprovou (ela queria uma mão de vaca, uma dobrada, um cozido à portuguesa, mas eu sei lá fazer essas coisas) e no final, eles já com segundo copo de vinho servido e agora tomado aos golinhos (aprenderam), veio a sobremesa. Eu tinha feito uma tarte de maçã com massa folhada que recebeu muitos aaaaa's por parte dos meus convidados chineses, ao que lhes disse, satisfeita com a aceitação, que não era difícil de fazer. Não acreditaram que tinha sido eu a fazer a tarte. Fui. Arralhááá! Fui, fui. Alhálhááá! A sério que fui eu. Aaaalhá háá!
Mau. Levantei-me e fui buscar o livro de receitas de onde tirei esta, folheei-o à frente dos cidadãos chineses até encontrar a fotografia da mesma tarte que estamos a comer, mas eis que pelo caminho, a páginas tantas literalmente, eles os dois ao mesmo tempo lançam um grande ralháááá!!!! e apontam com muita veemência para o livro. Voltei folha a folha para trás, mais devagar, até ficar à vista a página que exibia o nosso, o único, o suculento e delicioso pastel de nata. Os dois chineses gritam mais ou menos em uníssono "P'trúgal Cuqui!!!" (eles queriam dizer uma coisa do tipo "Cookie from Portugal" ou isso). Jesus. O que se seguiu foi o meu cunhado a dizer-lhes imediatamente que sim, que é um bolo muito português, que aliás estando nós a uns quilómetros da fábrica, da genuína, autêntica, centenária, ninguém sabe a receita do original, o verdadeiro, ninguém-sabe-a-receita, ele frisou, podíamos ir lá, ainda deve estar aberto, diz o Mário olhando para o relógio e olhando para mim a obter consentimento, claro que sim, vamos já lá (eu mentalmente a preparar-me para a fila que não desmancha nunca naquela porta). Voltaram-se um para o outro e iniciaram a discussão para decidirem se aceitavam ou não mais este convite, nós suspensos a aguardar o desenlace, o fumo branco, a conclusão.
Foram uns minutos de
- Alhááa!!!!
- Arralhááá!!
- Lhálhalhááá!!!
E vocábulos do género, mas muitos, que aquilo se durou.

Quando finalmente se calam, vira-se o mais velho para mim e diz:

- No need, no need, many P'trúgal Cuqui in China, many many.

(claro que desde esse dia, na minha família, passou o pastelinho de nata a chamar-se P'trúgal Cuqui)

31/03/2017

Lugar 56

Quando comprei o bilhete de comboio, escolhi um lugar à janela para me oferecer os campos, as florzinhas amarelas que me encantam nas primaveras e as lilases, tão lindas as lilases. O verde sei-o garantido, tal como sei o sol que me dá um raio ao rosto, enquanto não passa a nuvem que o vai tapar ou um prédio muito feio e alto que fará o mesmo efeito. Tomo o comboio nesta manhã de Lisboa e rumo ao meu lugar. O Alfa já vem composto de Santa Apolónia, e continua a encher a oriente, sexta feira, o habitual. Descubro o meu lugar à janela ao lado de outro já ocupado por uma mulher jovem.
- Dá-me licença, por favor? - mas logo vejo que passo facilmente e corrijo - deixe estar, eu consigo passar - sento-me. A mulher jovem dá-me os bons dias.
- Bom dia - e é jovialmente que o faz. Retribuo, agradada com a comunicação.
- Vai sair em que estação? - pergunta-me.
- Em Coimbra.
- Então sai primeiro que eu; vou para o Porto.
Olhei-a agora no rosto e vi-lhe os olhos vagos, não me olhando de frente, notei-lhes as longas pestanas apontando ligeiramente para baixo que, como me disse uma vez a Márcia, indicam a presença de um bom coração (eu não sabia).
Talvez apercebendo-se da minha estranheza quanto a tanta comunicação, esclareceu sorrindo, continuando a olhar na diagonal.
- Era só para saber, obrigada.

Começo então a escrever o post que antecede este, para dar livre curso à indignação que trazia dos últimas dias, agravada pelas notícias da manhã, pensando que algumas pessoas, aliás a maioria, têm de cumprir todos os seus deveres profissionais à risca para terem direito ao seu salário no final do mês enquanto outras andam a gozar, etc, pronto já chega, quando oiço a minha vizinha dizer que está muito barulho no comboio, vai buscar os fones. E foi então que reparei na bengala, dobrável e dobrada, aos seus pés. Baixou-se, pegou nela e desdobrou-a produzindo cliques até a bengala ficar retilínea. Os seus olhos não podiam mesmo ter focado os meus. Levantou-se e foi a tatear o espaço com a bengala, em busca da carruagem-bar onde são fornecidos os auriculares a quem os solicitar. Quando regressou, perguntou se era ali o lugar 56. Era sim. Sentou-se e devolveu a bengala ao estado de repouso dobrado aos seus pés. Antes de colocar os fones nos ouvidos para se alhear do barulho, tirou um papelinho do bolso, desdobrou agora este e estendeu-mo.
- Importa-se de confirmar que este papel é o meu bilhete, por favor?
Pego no papel e leio alto o que lá está escrito, incluindo o preço deste bilhete, que é muito diferente do preço do meu.
Devolvo-o à mão estendida no ar para o receber. Obrigada, disse a mulher jovem sorrindo. Quando o fiscal passou, pedindo os bilhetes aos passageiros, furou o dela com o dispositivo metálico, mecânico e próprio que trazia na mão, não lhe devolvendo os bons dias que ela, também a ele, deu, não reparando na bengala, não vendo o olhar vago que mesmo assim lhe sorria, nem sequer parecendo notar que um bilhete de oito euros não podia ser o de uma passageira que, como eu, pôde ver o amarelo das flores, o lilás primaveril, o verde dos campos, a luz da manhã e os prédios altos e feios.

Uns amores (que somos)

Nós, portugueses, somos uns amores.

Toleramos tudo, perdoamos, é o tipo fofinhos. Por exemplo, é super querido pretendermos aliviar aquela senhora que tinha um cargo horrivelmente transcendente em termos de exigência no que toca a presenças em inúmeras reuniões, inúmeras, as reuniões da câmara municipal de Lisboa, coitadinha da senhora. E então propomos-lhe um cargo muito mais levinho, com menos responsabilidade e menos exigência em termos das tais presenças, que é para a senhora poder descansar, uns amores, nós.
E ela, coitadinha, está tão agradecida, tão agradecida com o aligeirar de tarefas que a esperam se, claro, ganhar as eleições – felizmente ainda há eleições e ainda há quem vá votar – que teve a ideia giríssima de pôr o imposto denominado IMI a zero em Lisboa, uma querida.

Bardamerda era, na verdade, o que me apetecia dizer a isto.

Mas ao invés cito a minha irmã Ana, que tem tanta graça a imitar as suas alunas quando veem gatinhos nos telemóveis umas das outras: “Oh, c’amoooooor!!”.

29/03/2017

Para além do pechisbeque

Estava há pouquíssimo tempo naquele trabalho e tinha documentos para ler, notas para tirar, outras para deixar estar. Aproveitei-me e li tudo o que apanhei com boa cara, incluindo o que era preciso e uma ou outra coisa do que não (todavia irresistível). Mas teria de interromper a leitura para uns dias fora em formação. Ora na véspera de ir, quis o acaso que viesse aconchegar-se-me na mão a definição da unidade de tempo que dá pelo nome de segundo. Li-a todinha. Eu, que aprecio pintura e arte em geral, mas que não creio haver obra mais bela que a tabela periódica dos elementos, fiquei aqui bastante bem impressionada. Não vou ver aos sítios em linha, vou escrever de cabeça, portanto cuidado: o segundo é o tempo equivalente a multiplicar por nove seguido de muitos algarismos o tempo de decaimento entre dois estados de energia do isótopo de Césio 133. Achei isto lindo, bolas.
Bem, no dia seguinte a esse entrei na tal formação, da qual faziam parte muitas pessoas desconhecidas, umas quarenta pessoas desconhecidas. E não é que a páginas tantas, estou a tentar encurtar o post, que estava a esticar-se o safado, não é que o orador, homem visivelmente cheio de si próprio, ok, não é que ele precisou de um exemplo giro para ilustrar o que estava a dizer e lembrou-se de ir buscar para ali o quê exatamente? A definição de segundo! E vai, todo vaidoso: o segundo é nove tal tal tal com muitos algarismos vezes o tempo de decaimento entre dois estados de energia de um qualquer isótopo de Césio. Ora uma pessoa saber isto ali assim, de cabeça e de repente, e descontextualizado – porque estava descontextualizado – não é pouco, é muito. Foi então uma onda de admiração na audiência, um silêncio inteiro, suspenso, que unificou as quarenta pessoas. O orador por dois segundos ou três dando tempo ao impacto de se fazer, ahá, apanhei-vos!, porém compreende-se. E eu agora?... Faço o quê?... Ele não sabe o isótopo, mas eu sei. Fico quietinha ou aproveito também eu para impactar um bocado? Pois tem de ser. Levanto o braço e, com licença, do fundo da sala, quebrando o silêncio inteiro, uno, todo ali: 
- É o Césio 133.


Por ter sido esta a única vez em toda a minha vida que fiz virar cabeças, muitas e ao mesmo tempo, por ter sido a única e ainda por cima tão fruto da sorte ou do acaso, isso agora não sei ao certo, esta vez em que brilhei para além do pechisbeque do anel ou dos brincos, por tudo isso, deixo-a aqui contada em quatrocentas e cinquenta palavras bem espremidas, que havia mais, paciência. Obrigada pela paciência.

23/03/2017

Peito de bacalhau fresco

Então esta semana lá voltei ao ginásio. Pagar a mensalidade não chega, é preciso ir e obedecer às ordens para que o efeito se dê, doa lá o que doer, que dói. A meio da aula de ontem, a professora, digo professora, não digo s’tôra, nem personal trainer, que não é pessoal, é um grupo ali de gente, portanto a professora, dizia, manda-nos apanhar um colchãozinho da pilha de colchõezinhos e ir para o chão fazer exercícios dos maus. Eu obediente, disponho-me no colchãozinho, mas é de modo a ver o relógio de parede pendurado no alto da parede (daí o nome) e que visto do chão ainda mais no alto fica: para ir contando os minutos que faltam para acabar. Ela, a professora, manda também, como se fácil fosse, desarrumar as pernas e os braços, à vez, muitas vezes, levantar o pescoço e baixá-lo repetidamente, as costas no colchão ora sim ora não, mesmo aborrecido. Para dizer toda a verdade, eu bocejo enquanto faço isto, apesar das dores, que dói já disse. A professora, então, topa-me, olha-me lá do colchãozinho dela e diz, Susana é das faltas (falto muito, sim). Mas ainda estou a olhar para o relógio de parede quando o pescoço me deixa e, quando não deixa, fito as placas feitas de um material de construção que se pode encontrar nas lojas da especialidade em várias espessuras e tamanhos, em branco, que forram o teto e têm embutidas lâmpadas muito brilhantes. E quando, por fim, o relógio de parede mostra a hora almejada, o corpo põe-se então em trânsito de voltar ao lugar, arrumado e suficientemente dorido. Rumo a casa muito mais contente, levando urgente a vontade de um duche quente, que será toda satisfeita enquanto Muzi, a minha filha mais velha, está concluindo o jantar. Curgete laminada com alho francês em tiras finas, salteados em conjunto na wok; no forno, jaz o grande e suculento naco ao qual se pode também chamar lombo de bacalhau fresco em cama de cebola diz a cozinheira, anunciando também no finzinho, já depois de tudo comido e à laia de conclusão,
- Estava mesmo bom o peito de bacalhau.


(acho que é de não levar as garotas com mais frequência ao balcão do peixe, lombo, filha, lombo)

16/03/2017

O ovo e a galinha (ou histerese de um amor, sei lá eu)

Há um livro que eu simplesmente amo. O livro tem luz dentro e por um tempo viveu na mesa da cozinha para combinar a sua luz com a da manhã; na minha pequena ideia seria esse o melhor presente para o livro (e também porque eu queria que as minhas filhas pegassem nele e lhe vissem a luz, mas elas não pegaram e se for eu a ler para elas não funciona - já tentei). Penso que o livro gostou da cozinha. E não se importou, mais tarde, que o levasse para o quarto. Levei-o para o quarto porque eu queria dormir com o livro. E acordar com o livro também queria. E quero. Mas tem acontecido que acordo dentro dele. Não me assusto com isso, posso sair deixando-me fluir de novo para fora do livro, entrando no dia assim, fluida daquela sua luz, e isto não é mentira, é verdade. Tanto é, que hoje tomei a hora do meu almoço e trouxe-a para dentro do livro comigo. Abri-o devagarinho e entrámos nele, a hora do almoço e eu, para darmos um passeio lá. Quase fiz um piquenique no livro. Mas não é isso que quero dizer, quero dizer que há tempos ouvi uma entrevista (por sorte minha) concedida pela autora deste livro que eu amo (entrevista muito antiga). O entrevistador perguntou-lhe qual o conto dela de que mais gostou. Após um momento pensativa, ela disse muito séria “O ovo e a galinha”. Porquê “O ovo e a galinha”?, ele quis saber. Porque eu não entendi nada desse conto, ela respondeu. Ora isto sou eu. Sou eu porque me faz dar um salto escrever-se um conto do qual não se entende nada. É soberbo. Claro que fui buscar o livro de contos seus – que não é o livro que amo, é outro – e li o conto “O ovo e a galinha”: também não entendi nada, fiquei feliz. Estou, então, a passear no meu livro amado junto com a minha hora de almoço e encontramos alguma coisa sobre o ovo e a galinha, que não me parece o tal conto, parece diferente, leio: “O ovo é o grande sacrifício da galinha. O ovo é a cruz que a galinha carrega na vida. O ovo é o sonho atingível pela galinha. A galinha ama o ovo. Ela não sabe que existe realmente ovo. Se soubesse que tem em si mesma um ovo, ela se salvaria? Se soubesse que tem em si mesma um ovo, perderia o estado de galinha.” … “A galinha tem um ar constrangido.” O meu coração bate mais depressa, é do amor ao livro. Extinguiu-se a hora do almoço muito antes de conseguir fechá-lo, tornar a fluir de dentro dele para fora. Saí, mas saí precisada de vir direta escrever isto que ficou a fervilhar na minha cabeça. Não há nada em mim de Elis Regina, que eu tenha notado, não há Patti Smith, não há em mim nada de Sylvia Plath, também não há em mim Assunção Cristas ou Catarina Martins, nada, talvez um pouco de Gabriela Canavilhas haja em mim, talvez também um nada de Amy Winehouse, talvez um nadinha. Mas há em mim carradas de Clarice Lispector. Carradas. Nunca vou acabar de ler este livro que amo, nunca. Pela minha saúde.


(A Descoberta do Mundo, Crónicas, Clarice Lispector, Relógio d’Água)

10/03/2017

Ontem, hoje e a mesa livre de ecrãs

Leio ontem num artigo que nós, os pais e mães de hoje, sofremos do chamado fenómeno-do-rosto-imóvel, isto numa tradução de trazer por casa feita por mim. Sem nos apercebermos, diz o artigo, mantemos o rosto isento de expressão durante as muitas horas em que mergulhamos nos nossos ecrãs de trazer por casa, na rua e em qualquer lugar, são móveis (os ecrãs, nós, imóveis). Sofremos então desse fenómeno. E este sofrer, segundo o mesmo artigo, vai limitar os nossos filhos pequenos, bebés e por aí acima, que nos rodeiam e nos observam, vai limitá-los, é tomar nota, na aprendizagem da interpretação das expressões faciais de que os privamos, imóveis, nos ecrãs. Ontem.

Hoje o dia foi melhor e eu até já estava bastante contente a meio da tarde quando ainda fui ficar mais, devido ao que a minha filha mais nova me contou em resposta à pergunta do costume como foi a escola hoje?
- Mãe, a s’tôra Adelaide disse-me que um menino lá da escola lhe perguntou o meu nome.
- Hã? Que menino?
- Ó mãe, é um menino novo que me viu na sala de estudo e foi perguntar à s’tôra Adelaide, aquela, sabes, que é super fofinha e é tipo a nossa avozinha?
- Sei.
- Então ele perguntou o meu nome à s’tôra, disse que era a menina que estava ao pé da janela, e a s’tôra, a Joana? Mas ele sabe quem é a Joana e disse não, a outra, aquela que sorri com os olhos! E era eu, mãe, a s’tôra diz que era eu! Fiquei tããããão contente!! E ele é suuuper giro, mãe!! Eu sei quem ele é!!!!



E eu pensei logo que os pais deste menino não terão sofrido do fenómeno-do-rosto-imóvel, lhe souberam mostrar o que é sorrir com os olhos e ele, caramba, ele aprendeu.

(o artigo sugere que, ao menos, deixemos a mesa, ao jantar, livre de ecrãs)

05/03/2017

Duzentos e setenta e oito quilómetros por hora, e a viatura

(enquanto me passeio de comboio, a Alemanha passa muito depressa na minha janela - de acordo com o ecrãzinho junto à carruagem-bar passa a 278 km/h, e eu conto uma história que já fez rir muita gente)


Saiu do bar já de madrugada sabendo-se, como tantas vezes depois de uma noitada com amigos, bêbedo. Porém, sentindo-se protegido pelo hábito, mete-se no carro e começa a conduzir para casa. A meio do percurso, depara-se com uma operação stop, especialmente instalada para detetar condutores alcoolizados, isso é certo. Foi mandado parar, parou. Um dos polícias ou, vamos dizer corretamente, um dos agentes da autoridade ordenou-lhe que saísse do carro para que fosse submetido ao famoso teste do balão, precisamente o teste que ele não estava interessado em fazer. Mas, no momento em que está fora do carro, pensando que o teste vai ter maus resultados, dá-se um acidente ali mesmo, uns metros mais à frente. Os agentes da autoridade pedem-lhe para aguardar um pouco, "não saia daqui, nós já voltamos", e correm ambos para o local do acidente. Vendo-se só, ele e o seu índice de álcool no sangue, candidatando-se a punição certa após o regresso dos dois agentes, toma a decisão: mete-se no carro e segue para casa.
Na manhã seguinte, dois agentes da autoridade, muito provavelmente os mesmos, tocam à campainha da sua moradia. Ele vai abrir e, ao vê-los, pensa “agora já não me apanham”.
- Bom dia. É o Sr. Almeida de Sousa?
- Sou sim.
- Muito bem. O Sr. Almeida de Sousa pode dizer-nos onde está a sua viatura, por favor?
- A minha viatura?...
- A sua viatura.
- Está aqui, na garagem.
- Podemos ver a viatura, por favor? – perguntam os agentes.
- Com certeza, vou abrir o portão.
Almeida de Sousa apanha o comando de abertura do portão que está na mesa da entrada, pergunta-se por que razão quererão os agentes visitar-lhe a viatura, aponta o comando para o portão da garagem anexa à moradia e pressiona o botão. Enquanto anuncia aos agentes “aqui está a minha viatura”, o portão vai abrindo e mostra que lá dentro, estacionado, está o carro da polícia.

(embora não pareça, a história é mesmo verdadeira – à exceção do nome do protagonista, claro)