a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

21/06/2017

Muita caralhão!

Tenho uma relação esquisita com os balcões da carne e do peixe inseridos num supermercado, que os outros não é costume visitar. Ou gosto ou não gosto. Os da carne não me agradam à vista, quer dizer, não me agrada imaginar comê-la, dá-me arrepios os coelhos. Os do peixe demoram imenso porque há amanhar o dos outros fregueses que chegaram antes de mim e eu espero e vou olhando, vou olhando o peixe. E disto gosto, é esquisito.

Pedi robalos como se fossem bons, naturais e selvagens, arranja-me estes robalinhos, se faz favor? pedi lombos de bacalhau fresco que hoje havia-os e pedi só mais uma coisa, filetes de peixe espada preto, quer que tire a pele, menina?, não, deixe ficar a pele, a gente tira no prato. Mas olhei para o cherne às fatias. Cherne. O cherne é estupidamente caro. Como diria a minha irmã Ana quando era pequenina e sabia pouco da língua portuguesa, por exemplo "tugaluga" era tartaruga, lembro-me tão bem, diria então a minha irmã em pequenina sobre o cherne assim: o cherne é muita caralhão! Passo os dias à procura de palavras para o meu trabalho, os últimos tenho-os passado a buscar também outras, filhas da indignação, da tristeza, da revolta, umas que conseguissem explicar o incompreensível, e perco-as depois aqui no blogue. É postas. É cherne às postas.


(telefonaram-me da seguradora à qual está entregue o seguro da casa da serra, perguntando se precisávamos de alguma coisa, se o fogo tinha lá chegado, se havia perdas a registar, que estavam a ligar a todos os clientes com casas seguradas na área ardida, se haveria indemnizações a dar, indemnizações! – eu, estupefacta, incrédula, disse que não, que a nós não, o fogo passou perto mas à casa só chegou fumo, e desliguei a pensar que se não tivesse sido comigo este telefonema eu teria tido dificuldade em acreditar nele)

13/06/2017

Teresinha

Ponho uma sequência de valsas a tocar para mim. Compasso ternário e por isso facílimas de dançar, mas não danço uma, agora não. Agora vou contar isto.

Saio de casa para ir ao multibanco. Quando acabo de atravessar a rua, levo a mão ao cabelo ainda molhado e penso que tenho o cabelo ainda molhado mas com o calor da rua não por muito tempo. E noto, ainda com a mão na cabeça, que a senhora que caminha em sentido contrário ao meu e vai cruzar-se comigo já a seguir, me olha por um certo tempo. Penso se estarei toda encasacada como por vezes acontece quando me esqueço que é verão e saio para a rua desajustada. Mas não, casaco nenhum me está cobrindo, talvez o cabelo ainda molhado...
- Olhe, desculpe!
É ela, e a voz vem já de trás de mim, viro-me.
- Diga.
- Ah….. – olhou-me mais fixamente – desculpe, mas não é a Teresinha?...
- Não… não sou.
- Oh… é muito parecida com a Teresinha e eu não a vejo há anos, mas ela também mora aqui e pensei… não é a Teresinha, pois não?
- Não… sou Susana. (nem mesmo na minha panóplia de irmãs se encontraria uma Teresinha, por muito que se procurasse, mas isto a senhora não precisou de saber)
- Ai eu gostava tanto de ver a Teresinha, por isso é que agora a chamei, pareceu-me mesmo. Pronto, desculpe.
- Não tem importância, um bom dia.
- Bom dia. Tudo a correr-lhe bem, sim?
Sim, tudo a correr-me bem. Mas também tive pena de não ser a Teresinha, de não dar uma alegria à senhora e saber da sua vida, contar-lhe da minha, rebobinar os últimos anos, ali, no meio da rua, debaixo de um jacarandá em flor. Quem seria eu se fosse a Teresinha? Continuei o meu caminho, entrei no centro comercial, levantei dinheiro no terminal multibanco e tornei à rua tomando o caminho inverso para casa. Ao subir as escadas junto à paragem do autocarro, escorreguei e caí. Tenho caído muito ultimamente. Mas levanto-me logo. 

(e agora é que danço a valsa, uma destas que continuam a tocar para mim)

11/06/2017

Haviões (um post praticamente científico)

Quando deixo o blogue abandonado por uma temporada, como tem acontecido largo nesta primavera luxuriante, bem trabalhada, ele recebe muitas visitas de países longínquos e origens não decifráveis, que são tudo mentira: serão sim os robots. É uma espécie de como quando fica a casa, a real, deixada só. Ainda que de portas e janelas trancadas, a natureza começa, devagar, a entrar. Pode ser na forma de formigas, aranhas, centopeias, um rato, ou dois, uma lagartixa, diversos bichos indefinidos que serão encontrados mortos e, claro, uma data de pó. Também se pode chamar a este processo o aumento da entropia, que é de aplicação genérica e certa como a morte e os impostos e, segundo um meu cunhado, igualmente certa como as mulheres pintarem o cabelo a partir de certa idade, e a partir de outra idade pintarem-no de amarelo (ele quer dizer louro, mas percebe pouco de tons).
E há dias, levei, sob o sol da tarde, os olhos ao céu azul riscado de branco pelos aviões. Aí ocorreu-me sem querer que deviam estes – mas é – ser designados totalmente de acordo com as suas elevadas potencialidades: haviões. Com propriedade, elevando-os ainda mais a uma conjugação especial do verbo haver, em superlativo, tendo em mente a dificuldade que foi trazê-los de uma ideia muito boa para uma real e complexa, repito elevada, existência.

Andava, porém, a evitar falar nisto (apesar de o blogue entregue aos robots). Até que hoje de manhã, ao saber da última tuitada da Casa Branca, achei que, sinceramente, este post que se escondia envergonhado, tímido, quase agonizante, afinal, roça praticamente o científico. 

(na verdade, tanto disparate junto assusta bastante)

05/06/2017

A terra também cresceu (mas foi de propósito)

É por estas e por outras que as minhas irmãs e outras pessoas de bem não gostam de mim (mas no blogue ainda se aguenta).

Hoje não saí de junto do cato suculento, pode ser Catus Suculentus Citrinus, o Citrinus já se vai ver, não saí de junto dele todo o dia.

Tinha transplantado o Catus Citrinus (primeiro e último nome) há tempos, na verdade há dois meses, que era abril a começar, até fiz para aí um post em que by the way expliquei a plantação, transplantação, deste e do outro, são dois, mas só a este demos agora nome, o by the way como se fosse pouco plantar dois catinhos e não é. Eu sofro de amor agudo por catos e outras produções naturais. É tudo tão lindo. Até a minha filha pequenina, pelos quatro anos de idade, não me esquecerei, disse uma vez à beira da Marginal que liga Lisboa a Cascais no sentido contrário, eram umas sete da manhã e a praia cheia de gaivotas no chão da maré baixa, pensativas, o céu cor de rosa e eu a conduzir as duas filhas com sono para a escola, mas "meninas, olhem que lindo" e ela "mãe tu achas tudo lindo". Estava, e estou, ciente de que um cato não é planta que deva muito ao dinamismo da mudança, mas sim à resistência-a-adversidades, característica pela qual trouxe os dois exemplares para a casa da serra, que está mais desabitada do que habitada, as hortenses faleceram, os coentros evaporaram-se junto com a salsa, ficou o plástico do vaso a dar sopa, a batata doce não deu nem isso, é a vez dos catos mostrarem a fibra de que são feitos.

E então ontem, ao chegar ao terraço que lhes serve, aos catos, de morada, tinha-me o Catus Citrinus esta surpresa: um ramo de flores laranja (é agora que se vê) tão lindo quanto isto.

Mas só agora me ocorreu: e para que quero eu um blogue?

Para mostrar o antes


e o depois.

04/06/2017

O pato

- Ó mãe, tu estás rija que nem um figo! – a mais velha.
- Não é um figo, não percebes nada, é rija que nem uma alface!… – a mais nova.

O almoço era um arroz de pato acabado em casa. O pato deu entrada já em pedaços longilíneos, cozinhados em parte incerta, e nem sequer veio o pato todo, mas adiante, que veio acompanhado de um robalo grande no outro saco com duas postas de garoupa muito boas, desta vez não havia pescada, couve-coração havia, tenho dificuldades em retirar uma couve-coração do expositor só com uma mão, a couve-coração caiu nas graças da mais nova, nas minhas já havia caído há muito, o pão, iogurtes dos brancos, morangos, e não sei se tem interesse continuar. Quase tudo material com seis por cento de iva, que eu tenho estas manias – quanto mais comprar a seis por cento de iva, menos processado é o que trago para casa e mais saudável e conceitos assim tipo (até eu me canso de mim às vezes). Mas portanto o pato já chegou em estado avançado de preparação, claro que nesta situação qual seis por cento qual quê, paciência, eu avanço e dou-lhe somente a volta final, o arroz. O almoço está pronto, chouriço nada que andamos em dietas (consideráveis).
Foi perante esta iguaria nos pratos e a minha ladainha sobre sentir-me cansada de não parar de trabalhar nem um diazinho há muitos seguidos, mas também feliz como nunca antes estive com trabalho nenhum, tão feliz que nem dá bem para acreditar, discurso que – à palavra cansada – desencadeou o diálogo acima exposto.

- Meus amores, diz-se “rija que nem um pero” e se quisermos alface é “fresca que nem uma alface”.
Mas continuo
- O figo vem no “chamei-lhe um figo” e ainda há a variante “caiu-me que nem ginjas”.

Quem souber mais é avançar, se fizesse favor, para ensinar às garotas da próxima vez, por exemplo frente ao robalo.

(com licença, só uma pergunta, ao ler-se ali em cima "O pato" deu ou não deu para ouvir de imediato aquela canção brasileira, "o pato, vinha cantando alegremente, quém quém", deu?)

01/06/2017

Selinho Blog em Bom - lançado por Pipoco Mais Salgado

Se eu fosse um Blog em Bom gostaria de ser – não vou ser original, mas isto é para ser sincera ou então não viria cá – o blogue da Mãe Preocupada. Porque sempre que lá entro e me sento confortável a ler o novo texto, sou invadida por uma estranha tranquilidade. Digo estranha por ser constante, haja o que houver, seja qual for a leitura. Lá, parece que encontro o mundo no lugar. Encontro uma honestidade que me encanta. Encontro-me a mim também. Respiro e leio devagar para ficar mais tempo. Aliás, para ser completamente sincera, já não é só gostar de ser, eu sou o blogue da Mãe Preocupada. Sou, na medida em que já me aconteceu dar comigo, quando perante situações difíceis, duras, dolorosas, a pensar: como faria uma pessoa como a MP no meu lugar?

Mas também gostaria de ser de vez em quando o blogue do Pipoco Mais Salgado. Uma espécie de gluão. Uma partícula que une naturalmente as outras como se conduzisse uma orquestra que primeiro pode entrar desafinada e no fim toca uma peça lindíssima. No Pipoco confirmo que vale a pena ter um bom coração. E depois, é ele o primeiro a aplaudir os músicos.



Os cinco blogues que escolho para darem seguimento a esta corrente tão bonita e com um selinho maravilhoso da série Senhora dos Papagaios, Tarântulas e Caniche, porém na variante Cisne com Bebé, que é ainda mais fofinho (Ah, Grande Palmier!); são estes:








(contei com uma tolerância de vinte por cento, para não abusar)

Instruções:
"Foste envolvida(o) no movimento "selinho Blog em bom", tens agora vinte e quatro horas para escolher um blog que gostasses de ser, explicando-nos porque é que aquele blog é mesmo um blog em bom e para desafiares mais cinco bloggers para este interessante desafio que pretende promover o convívio entre todos os bloggers, ou então um panda bebé morrerá e todos sabemos que os pandas são animais fofinhos que não merecem falecer só porque alguém não responde a um desafio"

A Carta

Subimos juntas nas escadas rolantes do centro comercial. Ela já leva a carteira preparada na mão e encosta-se um pouco a mim, gosto tanto da minha mãe. É mais alta do que eu há muito tempo. Vejo-lhe, pelo canto do olho, a curva do pescoço que o rabo de cavalo revela e ponho-a no meu colo só um bocadinho, reduzindo-lhe o tamanho à escala de há quase vinte anos. Ficamos assim até o mecanismo rolante nos entregar ao piso superior e a obrigar a endireitar-se. Dirigimo-nos à caixa multibanco, ela mete o cartão de plástico na ranhura da máquina, digita o código. Eu fico um passo atrás ainda com ela ao colo, é só mais um bocadinho, só para relembrar o cheiro de bebé, os sons, o riso que lhe saía até a dormir.
- Gosto tanto de ver esta tirinha aqui a espreitar, mãe, esta que diz “esa”, olha – voltara-se para mim.
- O quê, filha? – regresso ao piso superior do centro comercial.
Do compartimento apertado da carteira aberta aguardando o retorno do cartão ainda ocupado a tratar de assuntos seus no terminal multibanco, puxa a carta de condução. Ao fazê-la deslizar, “esa” cresce para “Portuguesa” e depois para "República Portuguesa”. 
- Sinto-me tão crescida, mãe - declara, enquanto acaricia o documento, condómino acolhido no outono passado.
O terminal multibanco atrai-lhe de novo a atenção, a Carta acariciada volta para o lugar de onde saíra, fica o “esa” à janela e a minha filha devolve-me as costas, a curva do pescoço, a parte de trás das orelhas. Aproveito e torno a pô-la no colo. Só mais um bocadinho. 
Que aquele "esa” já a leva para longe de vez em quando.

24/05/2017

Três chichis no mesmo post

Ainda havia tempo de chegar ao supermercado do bairro antes da hora do fecho. E antes da hora próxima da hora do fecho, aquela em que o dono da pequena superfície, guardião permanente da entrada, não tem ainda aposta no rosto a expressão que diz estamos-quase-a-fechar-não-podia-ter-vindo-mais-cedo-não e me faz sentir pessoa culpada que vive à beira do atraso (é feio). Não sou de voluntariamente me levantar muito muito cedo, o que sempre me revestiu de um secreto sentimento de culpa, especialmente perante as pessoas que estão prontas ainda o sol não nasceu, prontas e frescas, ao dia um têm feito o trabalho que era para o dia três, tive um colega assim. Escrevi não sou, mas a verdade é que não era. Não era de voluntariamente me levantar muito muito cedo desde que durante os três primeiros anos de maternidade não dormia duas horas seguidas, não podia mesmo deitar-me antes das quatro ou cinco da manhã porque a minha bebé primeira, a Muzi, linda que não sei dizer, aquilo foi um bebé de querer logo ter mais bebés, mas adorava brincar a essa hora comigo, era pela noite adentro, ela lhalhá e eu a cair. Que brincar eu lá brincava, mas depois era para ir trabalhar carregando um cansaço do qual tenho a impressão de ter levado décadas a livrar-me. Dizia então que vou a tempo de entrar no supermercado com margem de segurança, já sou mesmo pessoa de chegar cedo a qualquer hora do dia, gosto muito. Portanto, antes de atravessar a estrada parei junto do Renato, o rapaz que passeia os cães, esperei que ele removesse os grandes óculos escuros do seu rosto cicatrizado pela vida, e deixei-o espetar-me aqueles beijos sonoros nas faces, olá Renato, como estás? O Renato leva pela trela um só cão e o bicho olha para cima, para mim, parece que traz olhos tristes mas não traz, é mesmo dele estes olhinhos, os cães adoram o Renato porque vice-versa. Sai então um chichi para o muro que ladeia o passeio, enquanto o Renato me responde franzindo a testa, cansado, ando sempre a fazer diretas.
- Então mas o trabalho no bar agora é todas as noites?
- É. E eu não durmo, tenho de ir buscar os cães a partir das seis.

Finjo que tenho um bocado de pena dele por estar assim privado do sono, pois isso custa, pois custa, respeito muito quem não pode dormir como quer, evidentemente, mas digo finjo porque sabemos ambos que ele ama esta sua vida de andar com os cães, vê-se pelos cães, este já fez uns três chichis de três ângulos diferentes para o mesmo muro e no mesmo post, está a marcar o território diz o Renato. Noto-lhe uma tatuagem que ainda não conhecia, composta por uma flor entrelaçada em nome de mulher no braço magro que a manga do blusão, arregaçada, revela. Falo ou não falo na tatuagem, não falo. Que ainda falta algum tempo de segurança para o supermercado fechar mas não o bastante para a tatuagem abordar (pois rimou). Não vá este nome de mulher ser da namorada que as minhas filhas lhe viram, mãe, o Renato tem uma namorada, e isto dar conversa para eu entrar no supermercado sob o olhar supradescrito do dono, ainda por cima agora, que de levantar cedo e não me atrasar até já sou.

12/05/2017

Fechos para janelas (uma espécie de sonho)

- Lisboa está cansadíssima. Dá pena, se olhares bem. Respira aos arrancos, tem tosse aqui e tem ali. Coça-se a sul e a norte, que é um modo de falar das obras. A lama, ok, não é que seja lama lama com a chuva de maio. É uma pasta cinzenta, estás a ver, bastante homogénea. Forma o avesso das protuberâncias das lagartas, as lagartas das máquinas, tudo, por ali fora. Podes admirá-las no campo das cebolas, se quiseres.
- Ui.
- E não perguntes do metro.
- E do autocarro?
- Não se respira, é tudo fechado. Eu não sabia. Diz nas janelas que não se podem abrir, acreditas? Eu não acreditei logo, li várias. Pensei: a primeira está a brincar, a doida, mas depois a segunda janela dizia o mesmo, todas, li todas para confirmar: não se podem abrir.
- Mas tipo quê?
- Tipo castigo, acho, mesmo para quem paga os impostos e pede fatura, aquilo é assim, muito hermético. E devido às obras, lá está, o trajeto demora, a carreira estica muito. Muuuuuuuito. E a gente, ouve lá, a gente sufoca ali dentro, janelas fechadas de o-ri-gem. Não se aguenta.
- Credo.
- Mesmo. Porque se olhares bem, junto a cada uma vai um martelozinho em vermelho, pendurado, nem sequer é feio o martelo, e vai ali a jeito para quem quiser, de repente, abrir a janela.
- Mas parte o vidro.
- Parte.
- Pá…
- Pois. Era mais fácil a janela abrir com fecho, não é. Daqueles fechos mesmo próprios de janelas, há imensos.
- Tipo com manípulo.
- Tipo.


(a verdade é que ando sempre a falar contigo, mesmo quando os meus hemisférios cerebrais carecem bastante de oxigénio e descem a isto)

05/05/2017

De bestial a besta

- Eu acho um exagero. É só Fátima, Fátima.
Enquanto a senhora da livraria diz isto, abana a cabeça e digita no terminal multibanco o valor da minha compra antes de virar o aparelho para me incentivar a digitar eu o verde código verde, agora até já nem é isto que se ouve, agora ouve-se imenso é o nosso próprio número de contribuinte dito em modo automático e será assim até ao final da vida, não sabemos, mas diz aquilo a senhora ao meu comentário que ainda não entrou no post e que foi assim: agora é tudo sobre Fátima. E é mesmo, aqui à beira da zona de pagamento da livraria é tudo livros sobre Fátima, pequenos e grandes, infantis e para crescidos, é muitos.
- Então e aquele terço enorme da Joana Vasconcelos? – a voz é a desta senhora, eu digitando no terminal.
- Eu não acho graça nenhuma ao que ela faz, sinceramente – continua – mas também, quer dizer, era preciso uma pessoa ir assim de bestial a besta? Agora só a atacam, só a atacam! As pessoas exageram!

Portanto eu tive logo vontade de dissertar sobre este e outros assuntos parecidos com este, ainda por cima gosto de conversar com esta senhora, mas hoje houve que optar. Optei por pegar nos livros, emitir que me agradam algumas obras da Joana Vasconcelos e já outras não, as do croché a revestir animais de loiça por exemplo não, enquanto os meto no meu saco próprio, aos livros, saio da loja desejando bom fim de semana e rumo ao supermercado para comprar cebolas, morangos biológicos, bananas, pão e pensos higiénicos. Os pensos higiénicos eram capazes de tirar completamente a poesia ao post, se ele a tivesse.

30/04/2017

A noite da má língua

Certa vez, enquanto limpava o pó, ouvi na rádio a Rita Blanco dizer que ser mãe a fez sentir-se mais pessoa. Nada a ver com o Fernando, entenda-se (a propósito, a feira do livro de Lisboa está aí, é tomar nota, arranca dia 1 de junho), mas limpava então o pó quando oiço a Rita Blanco dizer aquilo. Foi há mais de muito tempo, eram as minhas próprias filhas tão pequeninas que com certeza dormiam a sesta para andar eu na faxina, caso contrário mãe isto e mãe aquilo, não dava. A Rita Blanco era já, ao momento em que fui buscar o pano do pó ao armário pensando vou limpar o pó, era já, dizia, pessoa do meu agrado desde as noites da má língua, que eu nesse tempo via um nadinha de televisão. Mesmo com a voz estridente da Júlia Pinheiro, eu via. Por causa da Rita Blanco e dos outros, era o Rui Zink, e o Manuel Serrão, parece que estou a vê-lo, há que anos que foi, e ainda o Miguel Esteves Cardoso, de quem eu só gostava às vezes, ele era demasiado disruptivo para mim só que na altura não se sabia desta palavra disruptivo. Mas parei. O pano do pó não me caiu da mão, eu é que fiquei ali a ouvir o resto da conversa que vinha do rádio muito quietinha. Sintonizei-me, portanto, ainda mais com a Rita Blanco, ela nem sonha, sabe lá que eu existo (nem eu às vezes tenho a certeza de existir). Tornei a vê-la muito depois no maravilhoso filme denominado “A Gaiola Dourada” que levou a minha caçula, aí já a deitar corpinho crescido, a comentar à saída do cinema “Mãe, tu choravas que nem uma Margarida”. É Madalena, corrigi, mas então a rir.
Isto tudo porque me deu logo hoje para pensar ah e porque não um cineminha quando acabar o trabalho? Fui ver que tal de exibições e encontrei de novo a Rita Blanco anunciada num trailer, ora deixa cá ver, é Fátima. Fátima. Em 2017, maio a querer chegar lá o mais cedo possível, mas que maio tão cheio vai ser este nosso. Vi as salas, os horários disponíveis, variedade não falta e depois a data de estreia. Estreou há dois dias o Fátima. Pá... pensando bem, neste quase maio cem anos depois, não. As salas vão estar cheias de pipocas. Fechei a janela do computador onde consultava a informação, sacudi a ideia da cabeça, tornei ao trabalho e depois mais nada para dizer. Tirando isto: lá para o final do ano, maio passado, Fátima devolvida ao seu sossego, já de novo esquecida, e o filme em exibição numa sala perto de mim. Tipo a minha. É completamente pipocas-free.

(quem teve a ideia de concatenar a sétima arte com milho explodido e seu abominável ruído mastigatório inerente, fez muito muito mal – e agora ficarei, está bem, uns meses sem voltar a este tema, acho que sou capaz, vá)

25/04/2017

Aroma natural (pode ser cabras e ovelhas)

Recentemente apercebi-me de que ando numa fase das melhores, mais felizes de sempre. É bastante inadequado e estranho, foleiro e parolo, porém absolutamente verdade. Mas pelo sim pelo não, para testar a veracidade de tamanha felicidade e seus eventuais impactos no mundo exterior, aproveitei hoje o almoço com a Marina que me conhece desde antes de lermos as duas Os Maias ao mesmo tempo e disse-lhe assim: ando muito feliz, sabes? A ver se ela revirava os olhos ou me chamava maluca, como já tem acontecido (especialmente o chamar maluca) ou se atirava a cabeça para trás a rir. Mas não. Limitou-se a sorrir calmamente enquanto tudo em nosso redor deu continuidade à existência que já vinha tendo no minuto anterior e depois disse, ai sim? que bom! Portanto vamos continuar.

Tinha começado o dia pela reunião no edifício branco e luminoso que já visitara uma vez e ao entrar, bom dia. Bom dia soa sempre bem. A Doutora Maior com quem combinei a reunião está ali mesmo no corredor junto à copazinha e diz-me que vai tomar café, se eu quero café. Aceito, café aceito sempre. Enquanto corre na máquina o líquido quente e aromático (para não repetir café) a Doutora Outra com quem também vou reunir vem lá de dentro da sala contígua cumprimentar-me, como está. Estou bem (mas não lhe contei que ando assim tão feliz). Beijinho, beijinho. Eu não gosto muito de beijinho beijinho em contexto profissional, mas está enraizada a moda e prefiro segui-la abdicando do muito melhor e mais eficaz aperto de mão do que ser antipática, ainda por cima o cliente aqui são as Doutoras e a felizarda já sabemos que sou eu (para reforçar). E pergunta-me a Doutora Outra se conheço a Doutora Dentro da Sala que está ali a olhar para nós e eu não conheço. Então apresentou-nos e vem a Doutora Dentro da Sala beijinho beijinho, muito prazer. Mas eis que foi completamente diferente. A Doutora Dentro da Sala diz-me logo de repente assim: ai que bem que cheira! é o Escada? (e eu cá para mim, olha a vantagem do beijinho beijinho)
- Não, não é o Escada.
- Deve ser o aroma natural – diz a Doutora Maior que ainda está aqui a beber o seu café e eu o meu (com licença) e se calhar não achou muito apropriada a conversa, mas informou-me prontamente que a Doutora Dentro da Sala é meio francesa e bastante espontânea.
- E eu gosto de pessoas espontâneas e francesas mas este não é o meu aroma natural.
Depois enfiei o nariz na xícara para me entreter com o café e me subtrair a dizer que perfume é o meu, enquanto olho através da janela para a erva lá fora, que está alta e a pedir para ser cortada, e me ocorre uma ideia do tipo startup: um negócio de aluguer de cabras e ovelhas para temporadas em jardins como este onde fariam de cortadores de erva naturais. Serão silenciosas (tirando um ou outro bééé), ecológicas, decorativas, transportam a erva cortada sozinhas e essas sim, seguramente, com aroma natural.

Sei. É da felicidade. E a reunião correu lindamente.

20/04/2017

Postas de pescada (um post melhorzinho)

Lá fui dar àquele balcão do supermercado onde se passam temporadas com frio. O sargo anunciado selvagem numa tabuletazinha espetada no gelo limítrofe, mas foi para a pescada que me virei, uma inteira, se faz favor, depois partida em postas assim - aos meus dedos impus configuração de largura de postas, umas senhoras postas.
- Para cozer?
Para cozer. Engraço muito com os laivos nacarados, acho que é nacarados, que o teor de ferro confere à superfície do naco branquinho, depois, já no prato. É só inclinar a cabeça e vê-se perfeitamente, são azuis, são verdes, são lilases. Mas aguardo ao balcão desta temporada ao frio bastante bem vestida. São duas camisolas de gola alta, ó se faz favor, uma sobre a outra e depois o sobretudo cinzento ao qual recentemente preguei um botão caduco. Normalmente é ai que frio, ai que frio, mas hoje pude observar os peixinhos com vagar. A minha filha vinha distrair-me a espaços perguntando que mais vai ser, mãe, ela não tão bem vestida quanto eu, nem por sombras, ia abastecendo o carrinho de compras que me secundava, os ovos, uma garrafa de vinho branco, o pedaço de abóbora que a esta hora já virou sopa, o louro, os iogurtes. É algures entre os ovos e a abóbora que torno a olhar a minha pescada inteira ainda não partida, porém já sem cabeça, e a vejo toda abandonada por baixo da torneira móvel extensível que lava balcões de tripas e o chão e as raparigas que trabalham o peixe se for preciso mas não foi, portanto pergunto, então a minha pescada? Estou meio a querer zangar-me daquele abandono, mas só meio por causa do agasalho que me mantém quente a paciência, admirada de ver a moça a descascar as escamas doutro bicho que até deita corpo de pescada mas eu daqui não tenho a certeza. Então a minha pescada?, repito, ao que ela diz já vai, já vai e a cigana que está aqui ao meu lado no balcão chega-se mais perto e explica-me que eu estava distraída a conversar, e estava, sobre os ovos, e não vira que a primeira pescada não estava boa, que estava moída. Interessei-me. Moída?! Moída, querida. A cigana chamou-me querida. A rapariga do outro lado do balcão, que largou por momentos a pescada segunda, sempre era pescada o bicho supracitado, vem então ilustrar a conversa com a pescada primeira nos braços, mas já sabemos que sem cabeça, vê, está moída. Pressiona com os dedos o lombo descoberto e diz, não podemos dar o peixe assim aos clientes.

Quando a pescada segunda, em postas, foi colocada suavemente no tapete rolante da caixa de pagamento, perguntam-me se tenho cartão de cliente.
- Ter tenho, mas está em casa. Vim direta do aeroporto, aterrei mesmo há bocadinho.

E foi muito o que disse; explicar que esta minha filha já me vai buscar de carro onde eu precisar, que o sobretudo e as camisolas de gola alta deram um jeitão à beira do pescado para que não me zangasse sem razão e que estas postas, minha senhora, podem muito bem ir dar em post é que já não fiz.

14/04/2017

Amêndoa amarga

Não quero ver a palavra mãe na mesma frase que a palavra bomba. Não se pertencem. Não há mães de bombas. As mães são alimento, são vida, são amor. Na maioria das vezes, felizmente. Se eu mandasse nesses jornais abolia a palavra mãe dessa frase. Não houve, durante toda a minha vida, outro presidente dos estados unidos (ainda se diz unidos?) da américa que tivesse sido capaz de chegar ao meu coração e nele depositar um tanque de raiva, uma quantidade q.b. de ódio e quilos de medo.

Além de me levar a pensar que a mulher dele deve precisar de muitas caixas de comprimidos para o enjoo. Vendas nos olhos, molas no nariz e tampões nos ouvidos. Repelente asqueroso.

13/04/2017

O meu Amarante era Duque

Também eu tive um cão fiel na minha infância. Infância, infância: a última vez que me lembro de brincar com o Duque sei que tinha quatro anos. Eu andava sempre a pensar agora tenho três anos, agora tenho quatro, etc. Queria crescer e ia contando o tempo que, naquela altura, arrastava-se lento (agora é ao contrário). Então o Duque era um Pastor Alemão todo preto no qual o meu pai confiava muito, parece que falava com o cão sem falar e o cão percebia tudo. Mas quando um dia, corria eu pela casa ainda de fraldas e entrei na cozinha a alta (bem… não muito) velocidade, o Duque se levantou de um salto lá do repouso aos pés do dono, correu, ultrapassou-me na cozinha e depois atirou-me ao chão com um empurrão de focinho na minha barriga, o meu pai não percebeu logo. Levantou-se e foi averiguar dos intentos do cão, mas para quê tanta violência, o que andas a fazer, seu maluco, eu a chorar no chão em cima das fraldas, e então percebeu que o Duque sabia o que ele, meu pai, houvera esquecido. O forno estava ligado a cozinhar qualquer coisa e eu levava talvez interesse na corrida a velocidade, vá, moderada, de ir experimentar o vidro do forno com as mãos ou o nariz, fito que o Duque telepaticamente captou e, por ter discordado, foi interromper-me a corrida deitando-me ao chão, como já foi dito.

Mas já andava eu livre de fraldas há muito, tinha os tais quatro anos e estávamos na casa de férias dos meus avós. O Duque tinha uma casota só dele, onde eu calculava que à noite ele dormia.
- Duque, vamos brincar às casinhas, faz de conta que eu também moro aí!
Mas só cabia lá um de nós de cada vez, e se fosse eu era agachada e quieta que cabia, correr nesta casa não se consegue. Só que para além de exígua, a casinha do Duque cheirava um bocado mal a cão e eu não aguentei o cheiro por muito tempo, portanto mudei a brincadeira de “às casinhas” para “aos cavalos” e o Duque não se opôs (aparentemente).
- Duque, tu és o cavalo.
Montei no dorso do Duque, que ele era mesmo bom para meu cavalo, e disse, anda cavalinho, para ele perceber os papeis. Mas ele não percebeu nada. O Duque sentou-se mal me sentiu em cima dele e eu escorreguei pelo dorso abaixo, apeada à força.
- Duque! Põe-te em pé! Tu és o cavalo!
Indignava-me ele ter brincado tão bem às casinhas, sermos tão amigos eu e ele, e agora não querer brincar de cavalo, um cão destes tão lindo!, eu achava-o lindo e o meu pai dizia que ele era lindo porque era todo preto e não preto e castanho como é habitual nesta raça. Quando o Duque se pôs em pé, eu montei-o outra vez, ele outra vez se sentou e eu tzzzz pelo Duque abaixo. Pá, ó Duque, vá lááá! Mas nada, ele não queria brincar de cavalo.
Tentei apanhá-lo noutras horas, noutros dias, apanhava-o de costas, distraído, eu devagarinho alçava a perna, ele percebia tão bem o meu pai também tinha de perceber-me a mim, era para brincar de cavalo e correr comigo às costas, anda cavalinho, mas ele sentava-se sempre e eu sempre escorregava. O Duque nunca quis ser cavalo.

É mesmo como diz a Teresa: é um cão fiel o que temos no jardim da nossa infância.

08/04/2017

Orquídeas morrem a toda a gente

Lavei os dois potes de pedra do terraço, que acolheram todo o inverno com a concavidade que os caracteriza, e ainda guardaram algumas folhas outonais que os escolheram e neles quiseram apodrecer. Podia também dizer-se uma poesia aqui, mas nesse caso estaríamos no blogue errado. No fundo, os potes de pedra continuam à espera de uma planta que lhes não morra dentro completamente. Eu sou de poucas artes no que respeita a exercer o amor pelas plantas, isto é, a tratar delas com sucesso garantido. Já me morreram hortenses, orquídeas (mas essas morrem a toda a gente), flores diversas de todas as cores desde que em vaso, gerânios muito lindos e coentros. Lembro-me até de que estava a experimentar na marquise de Lisboa onde vivia à época, uns enxertos estufados em sacos de plástico de uma planta que me encantava cujo nome perdi, mas entretanto nasceu-me uma filha e os enxertos pereceram antes de ela chegar às sopas. Houve que interromper, portanto, os amores às plantas para tratar de um banho, de um bolsado, de uma ida ao hospital, do pediatra ou, até, do IRS. E os potes não foi só lavar, os potes foi desentupir o buraquinho do fundo cheio das folhas apodrecidas já mencionadas, para amanhã, atenção. Amanhã dar início a mais uma tentativa de me lançar em jardinagem caseira. Enchê-los-ei de terra que estava em promoção no supermercado mas só comprando vinte quilos, que arrastei para casa, e lá plantarei um cato muito bonito em cada um. Cato agora é sem c.
Podia tirar antes os vinte quilos do solo aqui do monte beirão, não podia? Podia, mas não me lembrei.

(este post é capaz de ter amanhã atualização com os catos plantados a deitar para a serra, ao menos bonitos eles, caramba, eles são)

***
segue-se a atualização prevista do dia seguinte, mas agora não tenho a certeza de isto serem catos, que picar eles não picam.


04/04/2017

P'trúgal Cuqui

Finalmente encontrei o tipo de letra que eu queria. Já tinha procurado umas vezes, não muitas. E é assim grandão porquê, porque eu entretanto, nestes quatro anos de blogue, já engordei quatro quilos não sei como porque não como (olha que giro) assim tanto, e os meus olhos empobreceram bastante, para não falar no esquerdo que tem chorado muito ao vento. Mas nada a temer, estou envelhecendo com alegria, e não tenciono plastificar-me nadinha.

Portanto vou usar desta nova letra tão boa para contar uma história que foi antes do blogue, dos quatro quilos e disto dos olhos, etc., e para se perceber aquele título ali.

Eu estava anfitriã de dois cidadãos chineses no meu contexto de trabalho. Um cidadão chinês de cabelo todo espetado que parecia ter dez anos de idade mas tinha uns vinte e dois e outro cidadão chinês, esse engenheiro, que já ia nos trinta mas sombra de barba nenhuma. Sabendo eu que os cidadãos chineses andavam a comer porcarias ao jantar nas lojas de comida rápida que apanhavam por aí e sendo eu um bocado maternal, pensei, coitadinhos vou convidá-los para jantar cá em casa num sábado e convidei. Usei do meu inglês o mais bem articulado possível, como tinha que ser, e eles muitas exclamações fizeram quando entenderam o convite. O cidadão chinês de cabelo espetado saca do seu dispositivo achatado do bolso das calças, que era também um dicionário, e põe a palavra chinesa que foi traduzida para "bother" querendo dizer que me iriam incomodar. Passando este na na na da cerimónia, consegui que eles aceitassem e para enriquecer a situação e não ser apenas eu e duas menininhas de cabelos encaracolados, pedi à minha irmã mais velha para vir juntar-se a nós, com seu marido e filhos, dois rapazes dentro da faixa etária das minhas. Não me lembro o que cozinhei, só me lembro que a minha irmã não aprovou a minha escolha, mas sendo ela uma dona de casa exímia e eu uma dona de casa esforçada, é de esperar. Servi o vinho que era tinto e, antes de começarmos a refeição erguemos os copos, os cidadãos chineses imitaram-nos, dissemos tipo Cheers! e nós um golo e pousamos os copos e eles um golo e todos os golos de seguida até ao fim, esvaziam os copos de uma vez. Ninguém se riu, nem os meninos, que olhavam muito sérios. Comemos então a tal refeição que a minha irmã não aprovou (ela queria uma mão de vaca, uma dobrada, um cozido à portuguesa, mas eu sei lá fazer essas coisas) e no final, eles já com segundo copo de vinho servido e agora tomado aos golinhos (aprenderam), veio a sobremesa. Eu tinha feito uma tarte de maçã com massa folhada que recebeu muitos aaaaa's por parte dos meus convidados chineses, ao que lhes disse, satisfeita com a aceitação, que não era difícil de fazer. Não acreditaram que tinha sido eu a fazer a tarte. Fui. Arralhááá! Fui, fui. Alhálhááá! A sério que fui eu. Aaaalhá háá!
Mau. Levantei-me e fui buscar o livro de receitas de onde tirei esta, folheei-o à frente dos cidadãos chineses até encontrar a fotografia da mesma tarte que estamos a comer, mas eis que pelo caminho, a páginas tantas literalmente, eles os dois ao mesmo tempo lançam um grande ralháááá!!!! e apontam com muita veemência para o livro. Voltei folha a folha para trás, mais devagar, até ficar à vista a página que exibia o nosso, o único, o suculento e delicioso pastel de nata. Os dois chineses gritam mais ou menos em uníssono "P'trúgal Cuqui!!!" (eles queriam dizer uma coisa do tipo "Cookie from Portugal" ou isso). Jesus. O que se seguiu foi o meu cunhado a dizer-lhes imediatamente que sim, que é um bolo muito português, que aliás estando nós a uns quilómetros da fábrica, da genuína, autêntica, centenária, ninguém sabe a receita do original, o verdadeiro, ninguém-sabe-a-receita, ele frisou, podíamos ir lá, ainda deve estar aberto, diz o Mário olhando para o relógio e olhando para mim a obter consentimento, claro que sim, vamos já lá (eu mentalmente a preparar-me para a fila que não desmancha nunca naquela porta). Voltaram-se um para o outro e iniciaram a discussão para decidirem se aceitavam ou não mais este convite, nós suspensos a aguardar o desenlace, o fumo branco, a conclusão.
Foram uns minutos de
- Alhááa!!!!
- Arralhááá!!
- Lhálhalhááá!!!
E vocábulos do género, mas muitos, que aquilo se durou.

Quando finalmente se calam, vira-se o mais velho para mim e diz:

- No need, no need, many P'trúgal Cuqui in China, many many.

(claro que desde esse dia, na minha família, passou o pastelinho de nata a chamar-se P'trúgal Cuqui)

31/03/2017

Lugar 56

Quando comprei o bilhete de comboio, escolhi um lugar à janela para me oferecer os campos, as florzinhas amarelas que me encantam nas primaveras e as lilases, tão lindas as lilases. O verde sei-o garantido, tal como sei o sol que me dá um raio ao rosto, enquanto não passa a nuvem que o vai tapar ou um prédio muito feio e alto que fará o mesmo efeito. Tomo o comboio nesta manhã de Lisboa e rumo ao meu lugar. O Alfa já vem composto de Santa Apolónia, e continua a encher a oriente, sexta feira, o habitual. Descubro o meu lugar à janela ao lado de outro já ocupado por uma mulher jovem.
- Dá-me licença, por favor? - mas logo vejo que passo facilmente e corrijo - deixe estar, eu consigo passar - sento-me. A mulher jovem dá-me os bons dias.
- Bom dia - e é jovialmente que o faz. Retribuo, agradada com a comunicação.
- Vai sair em que estação? - pergunta-me.
- Em Coimbra.
- Então sai primeiro que eu; vou para o Porto.
Olhei-a agora no rosto e vi-lhe os olhos vagos, não me olhando de frente, notei-lhes as longas pestanas apontando ligeiramente para baixo que, como me disse uma vez a Márcia, indicam a presença de um bom coração (eu não sabia).
Talvez apercebendo-se da minha estranheza quanto a tanta comunicação, esclareceu sorrindo, continuando a olhar na diagonal.
- Era só para saber, obrigada.

Começo então a escrever o post que antecede este, para dar livre curso à indignação que trazia dos últimas dias, agravada pelas notícias da manhã, pensando que algumas pessoas, aliás a maioria, têm de cumprir todos os seus deveres profissionais à risca para terem direito ao seu salário no final do mês enquanto outras andam a gozar, etc, pronto já chega, quando oiço a minha vizinha dizer que está muito barulho no comboio, vai buscar os fones. E foi então que reparei na bengala, dobrável e dobrada, aos seus pés. Baixou-se, pegou nela e desdobrou-a produzindo cliques até a bengala ficar retilínea. Os seus olhos não podiam mesmo ter focado os meus. Levantou-se e foi a tatear o espaço com a bengala, em busca da carruagem-bar onde são fornecidos os auriculares a quem os solicitar. Quando regressou, perguntou se era ali o lugar 56. Era sim. Sentou-se e devolveu a bengala ao estado de repouso dobrado aos seus pés. Antes de colocar os fones nos ouvidos para se alhear do barulho, tirou um papelinho do bolso, desdobrou agora este e estendeu-mo.
- Importa-se de confirmar que este papel é o meu bilhete, por favor?
Pego no papel e leio alto o que lá está escrito, incluindo o preço deste bilhete, que é muito diferente do preço do meu.
Devolvo-o à mão estendida no ar para o receber. Obrigada, disse a mulher jovem sorrindo. Quando o fiscal passou, pedindo os bilhetes aos passageiros, furou o dela com o dispositivo metálico, mecânico e próprio que trazia na mão, não lhe devolvendo os bons dias que ela, também a ele, deu, não reparando na bengala, não vendo o olhar vago que mesmo assim lhe sorria, nem sequer parecendo notar que um bilhete de oito euros não podia ser o de uma passageira que, como eu, pôde ver o amarelo das flores, o lilás primaveril, o verde dos campos, a luz da manhã e os prédios altos e feios.

Uns amores (que somos)

Nós, portugueses, somos uns amores.

Toleramos tudo, perdoamos, é o tipo fofinhos. Por exemplo, é super querido pretendermos aliviar aquela senhora que tinha um cargo horrivelmente transcendente em termos de exigência no que toca a presenças em inúmeras reuniões, inúmeras, as reuniões da câmara municipal de Lisboa, coitadinha da senhora. E então propomos-lhe um cargo muito mais levinho, com menos responsabilidade e menos exigência em termos das tais presenças, que é para a senhora poder descansar, uns amores, nós.
E ela, coitadinha, está tão agradecida, tão agradecida com o aligeirar de tarefas que a esperam se, claro, ganhar as eleições – felizmente ainda há eleições e ainda há quem vá votar – que teve a ideia giríssima de pôr o imposto denominado IMI a zero em Lisboa, uma querida.

Bardamerda era, na verdade, o que me apetecia dizer a isto.

Mas ao invés cito a minha irmã Ana, que tem tanta graça a imitar as suas alunas quando veem gatinhos nos telemóveis umas das outras: “Oh, c’amoooooor!!”.

29/03/2017

Para além do pechisbeque

Estava há pouquíssimo tempo naquele trabalho e tinha documentos para ler, notas para tirar, outras para deixar estar. Aproveitei-me e li tudo o que apanhei com boa cara, incluindo o que era preciso e uma ou outra coisa do que não (todavia irresistível). Mas teria de interromper a leitura para uns dias fora em formação. Ora na véspera de ir, quis o acaso que viesse aconchegar-se-me na mão a definição da unidade de tempo que dá pelo nome de segundo. Li-a todinha. Eu, que aprecio pintura e arte em geral, mas que não creio haver obra mais bela que a tabela periódica dos elementos, fiquei aqui bastante bem impressionada. Não vou ver aos sítios em linha, vou escrever de cabeça, portanto cuidado: o segundo é o tempo equivalente a multiplicar por nove seguido de muitos algarismos o tempo de decaimento entre dois estados de energia do isótopo de Césio 133. Achei isto lindo, bolas.
Bem, no dia seguinte a esse entrei na tal formação, da qual faziam parte muitas pessoas desconhecidas, umas quarenta pessoas desconhecidas. E não é que a páginas tantas, estou a tentar encurtar o post, que estava a esticar-se o safado, não é que o orador, homem visivelmente cheio de si próprio, ok, não é que ele precisou de um exemplo giro para ilustrar o que estava a dizer e lembrou-se de ir buscar para ali o quê exatamente? A definição de segundo! E vai, todo vaidoso: o segundo é nove tal tal tal com muitos algarismos vezes o tempo de decaimento entre dois estados de energia de um qualquer isótopo de Césio. Ora uma pessoa saber isto ali assim, de cabeça e de repente, e descontextualizado – porque estava descontextualizado – não é pouco, é muito. Foi então uma onda de admiração na audiência, um silêncio inteiro, suspenso, que unificou as quarenta pessoas. O orador por dois segundos ou três dando tempo ao impacto de se fazer, ahá, apanhei-vos!, porém compreende-se. E eu agora?... Faço o quê?... Ele não sabe o isótopo, mas eu sei. Fico quietinha ou aproveito também eu para impactar um bocado? Pois tem de ser. Levanto o braço e, com licença, do fundo da sala, quebrando o silêncio inteiro, uno, todo ali: 
- É o Césio 133.


Por ter sido esta a única vez em toda a minha vida que fiz virar cabeças, muitas e ao mesmo tempo, por ter sido a única e ainda por cima tão fruto da sorte ou do acaso, isso agora não sei ao certo, esta vez em que brilhei para além do pechisbeque do anel ou dos brincos, por tudo isso, deixo-a aqui contada em quatrocentas e cinquenta palavras bem espremidas, que havia mais, paciência. Obrigada pela paciência.

23/03/2017

Peito de bacalhau fresco

Então esta semana lá voltei ao ginásio. Pagar a mensalidade não chega, é preciso ir e obedecer às ordens para que o efeito se dê, doa lá o que doer, que dói. A meio da aula de ontem, a professora, digo professora, não digo s’tôra, nem personal trainer, que não é pessoal, é um grupo ali de gente, portanto a professora, dizia, manda-nos apanhar um colchãozinho da pilha de colchõezinhos e ir para o chão fazer exercícios dos maus. Eu obediente, disponho-me no colchãozinho, mas é de modo a ver o relógio de parede pendurado no alto da parede (daí o nome) e que visto do chão ainda mais no alto fica: para ir contando os minutos que faltam para acabar. Ela, a professora, manda também, como se fácil fosse, desarrumar as pernas e os braços, à vez, muitas vezes, levantar o pescoço e baixá-lo repetidamente, as costas no colchão ora sim ora não, mesmo aborrecido. Para dizer toda a verdade, eu bocejo enquanto faço isto, apesar das dores, que dói já disse. A professora, então, topa-me, olha-me lá do colchãozinho dela e diz, Susana é das faltas (falto muito, sim). Mas ainda estou a olhar para o relógio de parede quando o pescoço me deixa e, quando não deixa, fito as placas feitas de um material de construção que se pode encontrar nas lojas da especialidade em várias espessuras e tamanhos, em branco, que forram o teto e têm embutidas lâmpadas muito brilhantes. E quando, por fim, o relógio de parede mostra a hora almejada, o corpo põe-se então em trânsito de voltar ao lugar, arrumado e suficientemente dorido. Rumo a casa muito mais contente, levando urgente a vontade de um duche quente, que será toda satisfeita enquanto Muzi, a minha filha mais velha, está concluindo o jantar. Curgete laminada com alho francês em tiras finas, salteados em conjunto na wok; no forno, jaz o grande e suculento naco ao qual se pode também chamar lombo de bacalhau fresco em cama de cebola diz a cozinheira, anunciando também no finzinho, já depois de tudo comido e à laia de conclusão,
- Estava mesmo bom o peito de bacalhau.


(acho que é de não levar as garotas com mais frequência ao balcão do peixe, lombo, filha, lombo)

16/03/2017

O ovo e a galinha (ou histerese de um amor, sei lá eu)

Há um livro que eu simplesmente amo. O livro tem luz dentro e por um tempo viveu na mesa da cozinha para combinar a sua luz com a da manhã; na minha pequena ideia seria esse o melhor presente para o livro (e também porque eu queria que as minhas filhas pegassem nele e lhe vissem a luz, mas elas não pegaram e se for eu a ler para elas não funciona - já tentei). Penso que o livro gostou da cozinha. E não se importou, mais tarde, que o levasse para o quarto. Levei-o para o quarto porque eu queria dormir com o livro. E acordar com o livro também queria. E quero. Mas tem acontecido que acordo dentro dele. Não me assusto com isso, posso sair deixando-me fluir de novo para fora do livro, entrando no dia assim, fluida daquela sua luz, e isto não é mentira, é verdade. Tanto é, que hoje tomei a hora do meu almoço e trouxe-a para dentro do livro comigo. Abri-o devagarinho e entrámos nele, a hora do almoço e eu, para darmos um passeio lá. Quase fiz um piquenique no livro. Mas não é isso que quero dizer, quero dizer que há tempos ouvi uma entrevista (por sorte minha) concedida pela autora deste livro que eu amo (entrevista muito antiga). O entrevistador perguntou-lhe qual o conto dela de que mais gostou. Após um momento pensativa, ela disse muito séria “O ovo e a galinha”. Porquê “O ovo e a galinha”?, ele quis saber. Porque eu não entendi nada desse conto, ela respondeu. Ora isto sou eu. Sou eu porque me faz dar um salto escrever-se um conto do qual não se entende nada. É soberbo. Claro que fui buscar o livro de contos seus – que não é o livro que amo, é outro – e li o conto “O ovo e a galinha”: também não entendi nada, fiquei feliz. Estou, então, a passear no meu livro amado junto com a minha hora de almoço e encontramos alguma coisa sobre o ovo e a galinha, que não me parece o tal conto, parece diferente, leio: “O ovo é o grande sacrifício da galinha. O ovo é a cruz que a galinha carrega na vida. O ovo é o sonho atingível pela galinha. A galinha ama o ovo. Ela não sabe que existe realmente ovo. Se soubesse que tem em si mesma um ovo, ela se salvaria? Se soubesse que tem em si mesma um ovo, perderia o estado de galinha.” … “A galinha tem um ar constrangido.” O meu coração bate mais depressa, é do amor ao livro. Extinguiu-se a hora do almoço muito antes de conseguir fechá-lo, tornar a fluir de dentro dele para fora. Saí, mas saí precisada de vir direta escrever isto que ficou a fervilhar na minha cabeça. Não há nada em mim de Elis Regina, que eu tenha notado, não há Patti Smith, não há em mim nada de Sylvia Plath, também não há em mim Assunção Cristas ou Catarina Martins, nada, talvez um pouco de Gabriela Canavilhas haja em mim, talvez também um nada de Amy Winehouse, talvez um nadinha. Mas há em mim carradas de Clarice Lispector. Carradas. Nunca vou acabar de ler este livro que amo, nunca. Pela minha saúde.


(A Descoberta do Mundo, Crónicas, Clarice Lispector, Relógio d’Água)

10/03/2017

Ontem, hoje e a mesa livre de ecrãs

Leio ontem num artigo que nós, os pais e mães de hoje, sofremos do chamado fenómeno-do-rosto-imóvel, isto numa tradução de trazer por casa feita por mim. Sem nos apercebermos, diz o artigo, mantemos o rosto isento de expressão durante as muitas horas em que mergulhamos nos nossos ecrãs de trazer por casa, na rua e em qualquer lugar, são móveis (os ecrãs, nós, imóveis). Sofremos então desse fenómeno. E este sofrer, segundo o mesmo artigo, vai limitar os nossos filhos pequenos, bebés e por aí acima, que nos rodeiam e nos observam, vai limitá-los, é tomar nota, na aprendizagem da interpretação das expressões faciais de que os privamos, imóveis, nos ecrãs. Ontem.

Hoje o dia foi melhor e eu até já estava bastante contente a meio da tarde quando ainda fui ficar mais, devido ao que a minha filha mais nova me contou em resposta à pergunta do costume como foi a escola hoje?
- Mãe, a s’tôra Adelaide disse-me que um menino lá da escola lhe perguntou o meu nome.
- Hã? Que menino?
- Ó mãe, é um menino novo que me viu na sala de estudo e foi perguntar à s’tôra Adelaide, aquela, sabes, que é super fofinha e é tipo a nossa avozinha?
- Sei.
- Então ele perguntou o meu nome à s’tôra, disse que era a menina que estava ao pé da janela, e a s’tôra, a Joana? Mas ele sabe quem é a Joana e disse não, a outra, aquela que sorri com os olhos! E era eu, mãe, a s’tôra diz que era eu! Fiquei tããããão contente!! E ele é suuuper giro, mãe!! Eu sei quem ele é!!!!



E eu pensei logo que os pais deste menino não terão sofrido do fenómeno-do-rosto-imóvel, lhe souberam mostrar o que é sorrir com os olhos e ele, caramba, ele aprendeu.

(o artigo sugere que, ao menos, deixemos a mesa, ao jantar, livre de ecrãs)

05/03/2017

Duzentos e setenta e oito quilómetros por hora, e a viatura

(enquanto me passeio de comboio, a Alemanha passa muito depressa na minha janela - de acordo com o ecrãzinho junto à carruagem-bar passa a 278 km/h, e eu conto uma história que já fez rir muita gente)


Saiu do bar já de madrugada sabendo-se, como tantas vezes depois de uma noitada com amigos, bêbedo. Porém, sentindo-se protegido pelo hábito, mete-se no carro e começa a conduzir para casa. A meio do percurso, depara-se com uma operação stop, especialmente instalada para detetar condutores alcoolizados, isso é certo. Foi mandado parar, parou. Um dos polícias ou, vamos dizer corretamente, um dos agentes da autoridade ordenou-lhe que saísse do carro para que fosse submetido ao famoso teste do balão, precisamente o teste que ele não estava interessado em fazer. Mas, no momento em que está fora do carro, pensando que o teste vai ter maus resultados, dá-se um acidente ali mesmo, uns metros mais à frente. Os agentes da autoridade pedem-lhe para aguardar um pouco, "não saia daqui, nós já voltamos", e correm ambos para o local do acidente. Vendo-se só, ele e o seu índice de álcool no sangue, candidatando-se a punição certa após o regresso dos dois agentes, toma a decisão: mete-se no carro e segue para casa.
Na manhã seguinte, dois agentes da autoridade, muito provavelmente os mesmos, tocam à campainha da sua moradia. Ele vai abrir e, ao vê-los, pensa “agora já não me apanham”.
- Bom dia. É o Sr. Almeida de Sousa?
- Sou sim.
- Muito bem. O Sr. Almeida de Sousa pode dizer-nos onde está a sua viatura, por favor?
- A minha viatura?...
- A sua viatura.
- Está aqui, na garagem.
- Podemos ver a viatura, por favor? – perguntam os agentes.
- Com certeza, vou abrir o portão.
Almeida de Sousa apanha o comando de abertura do portão que está na mesa da entrada, pergunta-se por que razão quererão os agentes visitar-lhe a viatura, aponta o comando para o portão da garagem anexa à moradia e pressiona o botão. Enquanto anuncia aos agentes “aqui está a minha viatura”, o portão vai abrindo e mostra que lá dentro, estacionado, está o carro da polícia.

(embora não pareça, a história é mesmo verdadeira – à exceção do nome do protagonista, claro)

27/02/2017

Carnaval (zinho, é um postezinho)

Entre ir ao sofá estabelecer-me por duas horas a ver um filme com a minha filha caçula ou escrever um postezinho en el blogue, decido-me pela primeira. Todavia, carece registar sobre o cheiro a coisas guardadas que paira aqui em redor de cada vez que a minha outra filha, a primogénita, vem à sala desfilar os costumes de carnaval que enverga, um após outro, para aprovação caseira antes de sair para a noite (ai que bom ficar em casa). Já se viu passar uma chinesa de quimono vermelho que recentemente tipo há quinze minutos se converteu em diversas versões modificadas de palhaços encimados por cabeleiras que fazem estágios prolongados demais na arrecadação e óculos que davam para fazer ula-upe ou lá o que é com os aros. Entre coisas estranhas e quase mortas, à exceção dos bichos vagamente castanhos que sobrevivem a tudo estabelecidos ali em casulos agarrados às paredes, da árvore de natal e da panela das couves que tinha desaparecido e entretanto apareceu, o cheiro destes objetos habitantes da tal arrecadação é um composto químico com partículas em suspensão de certeza... mau. Por exemplo ácaros crescidos à sua vontade em cultura de escuridão (oh coitadinhos, diria a minha caçula que acha tudo o que se assemelha a célula fofinho).

(Se com este post não perder nenhum leitor, então tenho leitores mesmo mesmo queridos.)

Mas está na hora de ir espirrar para o sofá que o filme vai começar. 

24/02/2017

Entre beijos e abraços (o botão)

Por um lado, procurei na internet um restaurante numa zona de Lisboa que vibra de um modo ressonante comigo. Encontrei, telefonei e marquei mesa para jantar no dia seguinte. Informei depois as restantes comensais sobre as possibilidades de estacionamento na área que, não sendo perfeitas, não requerem mais de dez minutos a pé e neste escorvar de primavera o que é isso senão um momento de vibração citadina e prazerosa.
Por outro lado, o botão de cima do meu casaco cinzento está a ameaçar cair vai para semanas, e eu aguardo que ele caia à sua vontade; quero saber onde e quando vai ele escolher o momento e só nessa altura darei seguimento ao processo que urge, pregar o botão de volta ao sítio dele se conseguir, se não fica um nadinha ao lado, como de costume.
Depois de ter enviado o email às minhas amigas com os detalhes para o jantar, visto o casaco e saio de casa para ir comprar fruta e legumes frescos. No caminho cruzo-me com a vizinha do segundo, que vem do cabeleireiro e está bonita. Quem sabe já terá recuperado, pelo menos talvez em parte, da morte do marido.
- Que bonita está a minha vizinha!
Ela devolve-me um elogio por cortesia, que não me serve, e ao mesmo tempo lança a mão ao meu botão pendurado. Pega na farripa de linha que sobra, caída, e enrola-a com vigor em torno do chamado pé, no local entalado entre o botão e a fazenda, prevenindo-me para a queda iminente e consequente perda daquele, que depois não consegue arranjar igual e é o cabo dos trabalhos, tem de mudar os botões todos ao casaco.
- Bem sei, bem sei... muito obrigada – e continuamos ambas os nossos caminhos, a queda do botão assim adiada, a vizinha é prudente e estará certa, mas eu escolho observar o aumento de entropia dos fenómenos inofensivos sem os interromper, é tão mais divertido assim.

No dia seguinte, depois de estacionar num dos locais recomendados às minhas companheiras de jantar, subo a avenida inspirando a primavera anoitecida, ali nascida em florinhas brancas numa árvore pregada à calçada lisboeta e sou a primeira a chegar ao restaurante. Sento-me na zona do bar onde aguardo apenas alguns minutos. Quando as minhas amigas surgem, entrando juntas de encontro casual lá fora, eu levanto-me, distribuo beijos e abraços e o botão cai no chão.

20/02/2017

A bicha

Hoje de manhã, quando passavam alguns minutos sobre a hora a que eu achava que abriam os correios, arrumei o meu telefone, no qual estivera a ler blogues muito bons enquanto tomava café, levantei-me, fui colocar a minha chávena vazia em cima do balcão e dirigi-me à estação dos correios, que fica na rua do café. À porta está Emília como quem espera, e eu - olha queres ver - estico o pescoço para o autocolante colado no vidro da porta, com o horário inscrito, e exclamo, ah, só abre às dez!
- Pois só, o horário mudou desde que os correios têm banco. - isto diz Emília, denotando um certo aborrecimento pelo aparente esquecimento quanto ao novo horário - antes era às nove e meia.
Dou uma olhada ao relógio e vejo que vamos ter de esperar vinte minutos. Não conhecia Emília até este momento, e só por um capricho do universo é que o nome desta senhora é mesmo Emília e não outro qualquer. Mas Emília fica-lhe bem. Ali à porta dos correios por abrir, e mediante a troca destas palavras, parece-me ser mulher serena, perspicaz, firme. Tem idade para receber cartas escritas pelo punho ainda incerto de netos eventuais.
- Vai ver que daqui a pouco se forma aqui uma bicha de pessoas. - Emília, topando ser mais conhecedora dos acontecimentos inerentes à estação de correios do que eu, informa-me de acordo com a estatística pessoalmente comprovada.
- Ah sim?...
Não passa um minuto, aproxima-se Maria dos Ais, que se junta a nós, terceiro lugar na bicha de gente, afinal parece ser verdade. Traz com ela alguns tiques que me parecem nervosos e nítida vontade de conversar, mas isto abre a que horas?!
- Às dez - dizemos Emília e eu em coro.
- Ai valha-me deus! - e faz tsc tsc com a boca enquanto abana a cabeça em sinal notório de reprovação.
Maria dos Ais, a ter netos, tê-los-á de pulso mais firme na escrita e é diferente de Emília, assentando-lhe bem o nome composto que acabo de escolher.
- Então o Benfica? Ganhou? - Maria dos Ais dirige a pergunta vagamente a Emília ou talvez a quem a apanhar, que já estão mais duas pessoas na bicha. Emília responde afirmativamente, o Benfica ganhou.
- Ai graças a deus! - e ao dizer isto, Maria dos Ais junta as mãos, que ergue ao céu, e diz ainda qualquer coisa sobre deus nosso senhor a ter ouvido nas orações.
Emília olha-a de frente e declara que o futebol não lhe interessa nada, tanto dá ganhar um como outro e às vezes ficam uns contentes e outras outros e assim é que está certo. Eu mantenho-me em silêncio e em silêncio ficamos agora as três por um momento. A bicha vai crescendo.
De repente Maria dos Ais retoma o discurso, eu disse que ela trazia vontade de conversar mas afinal é vontade de falar que traz, e atira com isto: este mundo está de pernas para o ar! os novos fazem cada coisa que põem o mundo de pernas para o ar!! Não colheu qualquer resposta. Já estamos sete, faz-me notar Emília em voz baixa, que parece não estar agradada com a conversa de Maria dos Ais e aproveita para validar a sua profecia quanto à bicha. Mas a outra continua, como se "os novos" estivessem carregados de culpas e ela uma sua vítima, viraram o mundo de pernas para o ar, não sei onde isto vai parar!
Não esclarecendo o que fizeram os novos para terem conseguido tamanha façanha, avança para o exemplo com que nos brindou.
- Os meus filhos não saíram assim, graças a deus, agora os meus sobrinhos...
E mesmo não tendo havido ali registo de incentivo para que ela desenrolasse de que sofrem os sobrinhos, continua.
- Os meus sobrinhos da França, quando me vieram cá visitar, tiraram os brinquinhos, aquelas porcarias que eles usam, já sabem que eu não gosto, tiraram tudo antes de me entrarem em casa, era o que mais faltava! Os meus filhos, graças a deus, nunca foram assim! Só riam, os meus filhos! Gozavam com os primos! Mas aquilo tem alguma beleza!? Homens de brinquinhos! Este mundo está de pernas para o ar!
Dentro da estação dos correios, o funcionário aproximou-se da porta e abriu-a com a chave. Antes de entrar, olhei para trás e contei rapidamente: catorze pessoas na bicha. Emília tinha razão.
Quanto a Maria dos Ais, também. O mundo, o dela, está de pernas para o ar.

19/02/2017

Amorosos coraçõezinhos

Uma estadia curta ou longa encostada ao balcão da carne pode ter muito recheio, suco e tutano. Longa é mais de quinze minutos, esta foi curta, que são dois bifes de peru se faz favor. Há muito tempo que eu acho a carne cómica. Assim em partes nomeadas, etiquetas espetadas no lombo ou no pernil, no piano ou na febra, espetadas. Normalmente, seja em estadia curta seja em longa, não confesso que desconheço a que se destinam as partes - se é para ir ao forno se para estufar ou cozer, etc - da maior parte das carnes. Mas estamos na estadia curta dos bifes de peru e antes que o senhor talhante se despache com a facada longitudinal, lenta e cuidada no naco da ave referida, vamos lá contar que me aterraram os olhos no expositor refrigerado com carnes embaladas que está ao lado deste balcão cómico, e se o balcão é cómico, o expositor mete-o a um canto no que respeita a comicidade. O primeiro impacto foi quase como se as embalagenzinhas refrigeradas quisessem saber quem sou, tu quem és?, tal a estranheza ali instaurada. Mas dei-lhes eu antes a volta, inclino-me para as ditas, e vós quem sois, ó embalagens? Amorosos coraçõezinhos? Sim sim, amorosos. E mais: de fazer apaixonar! É evidente que lhes tirei uma fotografia, má, mas tirei, ó.



Continuo desconhecendo a que se destinam amorosos coraçõezinhos de frango português, mas reconheço que quase este magnífico golpe de marketing me captura e eu os trago, toda amorosa, para casa.

18/02/2017

Silêncio em silêncio ou pipocas à javali

Sei perfeitamente que estou a ficar obsoleta. E não é por resistir às pressões da atualidade para que troque pessoas por tecnologia ou por continuar a negar-me a prescindir de certa reflexão interior privilegiando a superficialidade que se consome num instante. Nem estou a ficar obsoleta por preferir uma agenda em papel a mais alguns bits na memória dum dispositivo eletrónico organizados num calendário também eletrónico (os eletrões do papel servem perfeitamente), não é isso. Estou a ficar nitidamente obsoleta porque deixei de saber comportar-me numa sala de cinema. Aos dezoito anos, quando ia pelo menos duas vezes por semana ver um filme no grande ecrã e nada me fazia sentir desajustada, sabia. Mas entretanto desaprendi. Desencaixei-me ou o que foi. Por exemplo, não levo apetite para comer um balde de pipocas nem sorver líquidos ricos em açúcar por palhinhas, não levo. Portanto não estou em condições de mastigar ali nada, chomp chomp. Também não me tenho lembrado de deixar o meu telefone tocar audivelmente durante o filme ou tampouco me dá jeito passar o tempo todo a escrever no ecrãzinho iluminado: esqueço-me imenso destas normas atualizadas de comportamento nas salas de cinema. E achava simpático enturmar-me, é isso que quero dizer (para não incomodar as pessoas).

Fui ver o filme intitulado “Silêncio”. Já vai há largas semanas num cinema perto de si, daí ter arriscado, pensei: talvez não haja muita gente na sala e ninguém se aperceba da minha obsolescência: o meu silêncio e o do meu telefone e ainda me perdoem a falta do mastiganço de pipocas à javali (por exemplo). E não me enganei, havia pouca gente na sala. Apenas contei três telefones a tocar o que, em três horas de filme, não está mau, um mensagista compulsivo com o ecrã e sua luzinha mesmo perto de mim e pipoqueiros não eram todos todos, vá, só alguns, chomp chomp.

Mas, tal como os padres jesuítas portugueses que pretendiam fundar raízes num país pantanoso como o Japão – palavras do guião – e foram aniquilados, em vez de me embuchar com os desajustes que me estão a manter fora dos padrões de bom comportamento no cinema, tive uma ideia muito boa. Da próxima vez - se houver próxima vez - vou berrar um pedido de desculpas por estar a incomodar os demais com o meu silêncio a cada toque de telemóvel alheio, por exemplo. Ah e tipo com um megafone. Acho que a malta vai aplaudir e a minha mãe orgulhar-se de mim.

(tirando o detalhe de o português falado pelos padres Rodrigues e Ferreira ser tal qual inglês, gostei muito do filme; mas preferia tê-lo visto em silêncio)

14/02/2017

Rt5&j1K8G%4njEg&3di (linguagem máquina)

Ontem lembrei-me da minha avó de uma maneira diferente, aliás das duas avós, por causa da evolução dos tempos e disto que sucedeu.

Eu compro de vez em quando coisas na Internet, a sério que compro. Ou livros ou bilhetes de avião. E tenho um problema, indo já direta ao assunto, que é, na ótica da utilizadora, esquecer-me com-ple-ta-men-te das passwords que me são dadas, grátis e só a mim. Dadas em linha (online) pelos sítios das compras que faço também em linha, e que consistem em coisas tipo Nhj7b%cvF509MJr4b%#.
Aparentemente fáceis de memorizar, por exemplo através de mnemónicas simples, as passwords querem-se inesquecíveis. Todavia eu, q’isto já me irrita, torno, uma e outra vez, a delas me esquecer completa e totalmente. Ou seja, mereço levar com a perguntazinha de novo, sarcástica, a barrar-me o início do processo de compra: “did you forget your password?” Epá, sim, I did! De modo que, para castigo, ontem, só à n-ésima vez consegui eu ultrapassar as barreiras de cem metros obstáculos em passwords, conseguiu aquilo irritar-me a mim, e muda a password e torna a mudar, e recebe mails e desbloqueia a conta, que se passou também, toda ela bloqueadíssima, e a verdade é que foi para lá de um trabalhão que eu tive, um trabalhão! Incluindo depois para me desirritar, claro. E para quê? Para adquirir um bilhete de avião. A minha avó, não nos estávamos a esquecer dela, pois não?, aliás delas, na verdade, nunca andou de avião, num caso, e no outro, comprou os bilhetes sem ter aprendido a palavra password, quanto mais memorizado tipo isto assim HJ76gt5bdfO&nat54LkjjTvs3.
Ia ali num instantinho ao balcão de uma agência de viagens a sentir o fresquinho no rosto, como ela dizia, e pronto.

E onde queremos nós chegar? Queremos chegar à declaração, não nós, vá, mas eu, abaixo praticamente assinada, que não, que as máquinas não nos vão tirar trabalho, à gente, pessoas. Antes no-lo estão a dar mais.

O que, ok, vamos lá ver, é bom.

10/02/2017

Um post relativamente anti

Hoje de manhã li no meu telefone que há ali umas desavenças muito convenientes entre a matéria e a antimatéria, protagonizadas por uma particulazinha e sua anti, as lindinhas, que podem perfeitamente ser as verdadeiras responsáveis por haver blogues. E pessoas. E casas. E bactérias. E luz. E fogo. E tu e eu (e o amor!) e chega. Percebe-se. Por haver o tudo. E não o nada.

E eu, que adoro adoro quando vejo notícias destas no jornal e que ainda fui verificar se é mesmo Grande Colisor de Hadrões, como o jornal escreveu, e não Grande Colisionador de Hadrões, como eu costumo dizer para quem quiser ouvir - o jornal não está errado mas eu aposto que uma coisa tão grande prefere ser Colisionador a ser apenas Colisor (óbvio), eu, dizia, pensei assim: se, na sequência do Big Bang, em vez de ter ganho a batalha a matéria, tivesse ganho a antimatéria, a antimatéria chamava-se matéria e a matéria antimatéria. E nós éramos antipessoas mas achando que éramos pessoas. Que engraçado.

07/02/2017

Figos, bananas, pepinos e frango assado

Mesmo assim estou um bocado cansada. Ser patroa de mim mesma é do género esquisito; eu sou má. Má quer dizer, chata e nham nham nham. Não me deixo intervalar, tomar um tempinho, um chopinho (adoro esta palavra chopinho) ver um episódio dos Maydays no youtube, já descobri que no youtube há muitos que eu ainda não vi, não preciso mesmo da televisão para nada (agora é que é seus malandros!), e tenho o serviço a abarrotar de canais – até me ligaram na semana passada, eu toda a trabalhar e eles a dizer que me oferecem mais canais como se isso fosse bom, eu disse-lhes com licença eu detesto canais, nem sei ligar os canais (é as minhas filhas, elas gostam e eu por enquanto vá ). De modo que agora saí do meu trabalho para vir sentar-me aqui no blogue, gosto tanto do blogue. Fui ver aos ficheiros e já acumulei quatro posts em ideias para escrever, nenhum saiu. Vai sair o mais antigo antes que fuja.

Fui, recentemente e por convite, a uma prova de vinhos. Nunca tinha ido a uma prova de vinhos. Calhou inserir-me num grupo de dezasseis pessoas, todos prontos para visitar as caves, a prova começava com uma visita às caves. Primeiro a guia fez uma narração da história da cave (é melhor dizer cave no singular porque a história é só uma), um frio, uma humidade, as pipas em silêncio alinhadas ao longo das paredes, a perder de vista as pipas, as pessoas atentas. Contei as pessoas num momento em que não estava a perceber nada do que a guia dos vinhos dizia. Ela falava holandês e quando percebeu que eu não estava completamente ali e me fez então confessar-me portuguesa, deu um salto de entusiasmo e disse que tinha ido a Portugal mesmo há pouco tempo lá às caves (afinal é plural) do vinho do Porto, e adorou adorou e Portugal é lindo lindo (e é mesmo).
Só muito depois nos sentámos enfim para fazer a prova. São três vinhos, um branco e dois tintos. Ocupamos duas mesas redondas, cada conviva com três copos e um guardanapo de papel à sua frente (digo conviva porque me diverti muito nisto). O guardanapo é para ver o vinho: a prova começa por olhar o vinho e ver-lhe muito bem a cor contra a brancura do guardanapo. Inclinar sem entornar e o vinho será velho ou será novo, diz a cor. Depois agita-se o copo de modo a fazer o vinho enlouquecer lá dentro e libertar os aromas: é quando se o cheira, cheira-se o vinho daquela maneira que se vê nos filmes, de preferência com os olhos fechados. E só depois é que o vinho está pronto a ser provado. Dá-se um gole e deixa-se em princípio o vinho ficar na boca uma data de tempo, fazer uns bochechos – não é bonito o processo, só para avisar. E depois de deglutirem ou cuspirem, são duas as opções possíveis para o vinho provado, as dezasseis pessoas foram incentivadas a informar sobre os sabores que encontravam no vinho. Álcool! diz alguém, muito bem! diz a guia dos vinhos, madeira!, muito bem!, chocolate! (juro), muito bem!, café! (café?!), muito bem!!, baunilha! (baunilha??!!..) muito bem!, (muito bem??!!), amoras! (amoras???????????.....), muito bem!!.....

E eu estava já mesmo perdida de riso e juro que este post não tinha visto a luz deste dispositivo eletrónico se alguém ali tivesse dito o que eu quis o tempo todo dizer caso a coragem não me tivesse abandonado entretanto perante o aparente elevado nível de conhecimento dos outros quinze convivas e a minha total estupefação com o que encontraram eles no vinho: uvas!


(mas para a próxima vou arriscar figos, bananas, pepinos ao segundo copo e, porque não, ao terceiro copo, frango assado! só para ver se o muito bem! continua)

02/02/2017

Hipótese

Do ponto de vista da mãe natureza, a eutanásia é tão válida como o é a indução de um trabalho de parto que, segundo critérios, está atrasado. 

27/01/2017

Mais medíocres à chuva

Hoje de manhã precisava mesmo de atravessar o rio e escolhi a ponte vinte e cinco de abril para o efeito. No caminho que tomei até lá, ora à chuva ora ao sol ora à chuva ora ao sol, havia muito congestionamento de tráfego como já se espera que suceda, mas hoje foi pior: fui abrandando cada vez mais até parar e parada para ali ficar. Claro que tinha havido um acidente lá à frente feito por condutores que também queriam chegar à ponte. Compreendi então que a meia hora de avanço que eu levava para o início da reunião ia ser ali toda consumidinha e talvez mesmo ultrapassada, pelo não andar da carruagem para dizer as coisas como deve ser. Aproveito pois para fazer um telefonema que já tardava, ligo para a Carla. E como foi a Carla a primeira pessoa com quem falei hoje, descobrimos as duas ao mesmo tempo que estou sem voz; veio de noite uma rouquidão para mim sem eu saber. Portanto, ai a tua voz!, ai a minha voz!, em uníssono. A Carla gosta tanto da dona Esmeralda como eu, mas talvez ela goste um bocadinho mais, porque continua lá no trabalho a almoçar da cantina onde a dona Esmeralda serve os pratos e eu não, eu estou parada nesta via de não acesso temporário a lado nenhum, aquém rio, à espera de escoar para lá do acidente. Portanto falámos, quer dizer, eu arranhei, ela falou, durante um bocado. Como está a dona Esmeralda? A dona Esmeralda, para além de ter pintado o cabelo, e ter mudado de óculos, ouve lá isto, prepara-me a Carla, agora tem facebook! A dona Esmeralda!
- A sério, Carla? Facebook?
- A sério, e queria pedir-me amizade lá no facebook, mas eu disse-lhe dona Esmeralda sua amiga já eu sou e além disso não tenho facebook.

Desligámos e pouco depois cruzo a zona do acidente, dois ou três ou quatro carros acidentados, sei lá, um estardalhaço tão triste. Acelero finalmente, entro na ponte, assisto a outro estardalhaço tão triste de um outro acidente, este no sentido contrário ao meu, vamos lá todos parar a olhar e ficar mais um bocadinho na ponte, e chego à reunião com meia hora de atraso. Depois de mim muito mais gente chegou, todos fora de horas, todos foi a ponte. Foi a ponte não: foi nós sermos condutores medíocres ao sol e ainda mais medíocres à chuva.

Isto não disse eu na reunião, mas digo aqui, que no blogue a voz está boa: em vez de andarem para aí a fazer os cartazes inúteis do post anterior, criavam escolas de reciclagem da carta de condução. Com aulas obrigatórias. Burros.

24/01/2017

Vamos lá para a frente

Vou a conduzir o meu carro pela avenida fora, até podemos dizer que é a avenida da república porque assim toda a gente a visualiza, é uma avenida onde já se podem encontrar uns dois ou três prédios bonitos, bo-ni-tos, coisa tão rara no restante da cidade, mas não era isto, era que vou a conduzir, já dissemos, pela avenida da república fora. Levo no carro o rádio ligado, o som a viajar dentro do habitáculo à velocidade lá dele (isto faz-me lembrar alguém) e nós vamos a menos de cinquenta, evidentemente, que eu tenho filhas para criar, quer dizer, acabar de criar, que começadas vê-se logo que já estão as minhas filhas, e está o locutor a anunciar situações em que estará patente ao público, em futuro próximo, música feita por jovens; são os nossos jovens músicos. Esta é a parte em que vejo à boca do túnel onde vou a entrar com o carro a cinquenta à hora, ou menos, e a música a muito mais, e agora somamos ou subtraímos as velocidades?, e vislumbro um cartaz gi-gan-te, tipo a toda a largura do túnel, ou seja, a valer aí uns dois carros lado a lado mais o intervalo, todo ele, o cartaz, de um vermelho em fundo e letras para aí pretas ou brancas, isso já não sei, dizendo mal de qualquer coisa que o governo fez, não retive devido à velocidade resultante que aqui vai ou então à ausência de respeito que levo por cartazes destes, do tipo oposição política a mal dizer o poder atual, como aliás é costume sejam quem forem uns e outro, a importantíssima absoluta e imprescindível prioridade política é dizer mal sempre e sem parar.

E nós também não paramos, que vamos dentro do carro, o carro já dentro do túnel, o cartaz lá para trás, os jovens músicos lá para a frente.


(Portanto: enquanto uns chapinham em maledicência e deitam dinheiro fora a fazer cartazes inúteis, o chamado desperdício visual, poluição também - aquilo é para quê?, outros compõem música e vão imprimindo beleza a este mesmo nosso pobre mundo. Bem hajam.)

19/01/2017

Wouldn’t it be good?

A propósito de uma coisa qualquer, lembrei-me disto (que vou contar a seguir). Primeiro hesitei, não, essa história não interessa nada, o blogue não precisa saber. Lá isso não precisa. Mas que a vida nos traz histórias assim, traz, confirmas? Absolutamente, traz. Então porque não?

Quando era adolescente ia de vez em quando a festas nas quais dançava até ao último acorde, dançava muito. Lembro-me de Queen (Crazy Little Thing Called Love), SuperTramp (It’s Raining Again), de Rod Stewart (Da Ya Think I’m Sexy?), The Cars (Tonight She Comes), lembro-me do Nick Kershaw (Wouldn’t it be good?), dançava isto tudo e muito mais; não dançava os slows (havia os slows). Nos slows ficava sentada. Não para descansar que disso eu não carecia, mas porque a ideia era virem os rapazes pedir a dança e eles não vinham. Eu, pelo meu lado, nunca me atrevi a ir tentar a sorte, porque podia muito bem ser azar e não queria levar uma risada na cara. Portanto ficava sentada até acabarem os slows. Mas houve uma vez, numa festa em casa de uns amigos – atenção - dos meus pais - aquilo era festa com pais mas os pais ficavam noutra sala - em que um dos rapazes que lá estava se dirigiu para mim logo no início do primeiro slow. E eu cá para os meus botões, olha queres ver que…? E era mesmo: perguntou-me se eu por acaso quereria dançar com ele. Disse que sim, evidentemente, está aqui uma raridade, etc, fui. Pelo menos aquela dança não a passava sentada como de costume, às vezes até me punha a fingir muito entretida com uma coisa qualquer na palma da minha mão ou na costura da saia, para disfarçar o desapontamento. Enquanto dançávamos o slow, esse rapaz e eu, andava por lá um homem com idade para ser meu pai, ou pai dele, ou seja, fora da sala onde deviam estar todos os pais e afins, e andava a fazer ligações destas: ia buscar um rapaz e levava-o a uma rapariga que estivesse sentada para os pôr a dançar, depois outro e assim sucessivamente, ia emparelhando quem ainda não se tinha emparelhado. Eu estava a achar aquilo pindérico, pífio, não quereria eu ser alvo daqueles arranjinhos nem por nada, mesmo sendo o meu costume aquilo que agora já se sabe, e disse ao meu par este homem é um bocado parvo. Sempre era uma forma de meter conversa para quebrar a falta dela, como é que se faz isto dos slows, não se fala?..., parecia-me esquisito dançar assim sem falar. Ele não respondeu, e eu pensei que talvez não me tivesse ouvido, a música tocava alto. Repeti, mais para encher o vazio de conversa do que por má índole: este homem é um bocado parvo. Nada. Será que ele não ouve bem, este rapaz? Esperei um bocadinho, a dança continuava, conversa nenhuma, o rapaz calado e eu tornei: este homem…
- Este homem é o meu pai.

O resto do slow foi dificílimo e depois desse é fácil adivinhar que fiquei sentada em todos os outros.

16/01/2017

Nesse dia ficou sem carica

Era ainda nitidamente criança quando o meu avô me levou, a mim e às minhas irmãs, a visitar a fábrica da Laranjina C onde também se produzia o Trinaranjus de laranja, nessa altura ainda só de laranja. Eu não gostava lá muito de Trinaranjus, era sem borbulhas, isso é verdade que sim, bebida lisa, fácil de engolir, mas gostava mais um bocadinho de Laranjina C que recebia as borbulhas que o Trinaranjus não tinha, apesar de me fazer lágrimas nos olhos do esforço de beber as borbulhas.

O meu avô conhecia alguém da fábrica e quis levar-nos lá, mostrar-nos como “se fazem coisas”. Eu achei tudo uma sujeira logo à entrada, para começar. Depois, havia tanto barulho que quase não se ouvia nada do que o senhor amigo ou conhecido do meu avô nos estava a dizer, e o sítio também cheirava esquisito; os meus sentidos levaram portanto certo tempo a adaptar-se (não muito).

Deixei de tentar ouvir as explicações do senhor amigo ou conhecido do meu avô quando a minha atenção foi capturada pelos movimentos estranhos que havia ali. Certos, precisos, repetitivos, contínuos também: estranhos. Eram garrafas de Trinaranjus, olá!, que passavam por nós em fila, umas atrás das outras, impossível distingui-las (tipo eram todas iguais), iam com pressa e eu achei-lhes cá uma graça, ainda vazias, alinhadas num tapete rolante, apertadas em calhas, assim claro que não caem. Depois, mais à frente, sigo-as junto à linha, era linha de montagem mas eu isto não sabia porque não ouvia nada do que o senhor amigo ou conhecido do meu avô dizia, sigo-as então junto à linha e mais à frente, já cá estamos, são preenchidas as garrafas com o Trinaranjus de laranja propriamente dito e não é que ficam todas com a quantidade igual, mesmo igualzinha, faz um risquinho contínuo a superfície do Trinaranjus de laranja que se agita ligeiramente nos gargalos dentro das garrafas em fila e em andamento, a sério. Continuamos - venham - ao longo da linha, que agora dá uma curva para trás senão o edifício tinha de ser muito comprido, elas não param, as garrafas, todas direitinhas parece que sabem ao que vão, e é para levarem com a carica na cabeça, olha as caricas!, há uma espécie de braço mecânico, damos-lhe só agora o nome de braço mecânico, que desce a todos os gargalos a enfiar uma carica, tchoncponc, o som já não posso garantir, isto é uma barulheira, mas seria tipo tchoncponc, movimentos tão certinhos, a começar e a parar sempre no mesmo sitio, não se engana o braço mecânico num único gargalo, deve, tchoncponc, ter olhos.

Creio que foi nesse dia que me inaugurei no fascínio por fábricas e hoje de manhã, tantos milhares de manhãs depois, quando observei com atenção os meus óculos novos e me inquiri como teriam sido feitas as hastes, se moldadas, se quê, de um lado pretas do outro transparentes a deixar ver dentro um motivo colorido que não se percebe o que é, lembrei-me daquela visita à fábrica da Laranjina C, pousei os óculos no colo um momento, a dar-me tempo para ir e voltar e agora resta só acrescentar, já que aqui estamos, que nenhuma garrafa daquelas que passaram à minha frente nesse dia ficou sem carica.

(não digo que a minha memória não tenha sido reavivada ao ler isto)

12/01/2017

Noite de lua cheia (um post intragável)

Este blogue está a ficar quase todo fora de moda desde há… bué (com licença). Mas tenho pouco tempo para ele, queria ter mais só que há o telefone esperto que me arrebata os dedos de manhã à noite a espaços, quase me apaixonei, isto desde o dia, eu sei em que dia foi mas não interessa, sei imensas coisas em que dia foi, é estúpido, ninguém vai acreditar em mim, etc, também dou largo tempo ao computador, ele é o meu único colega de trabalho, agora não tenho mais nenhum mas tenho tempo, garantido, para a minha coleção de chávenas de café, às quais só falta é poesia. E afinal estou o quê?! Estou a precisar de mais tempo para desmanchar a árvore de natal completamente (sério, e isto é um post sobre o tempo).

Também me ocorre (ai jesus) - principalmente quando não me lembro doutras coisas - escrever dissertações à vontade sem medo nenhum sobre o que gosto tanto dos outros blogues, um de cada vez, uma dedicação mesmo boa. Só que depois enfim (vou trabalhar).

(hoje há peixe espada para o jantar, mas não sei como)

11/01/2017

Silêncio

Entro numa das carruagens que traz o dois pintado para não calhar na primeira classe e assim estar de acordo com o preço que paguei pelo bilhete de comboio; é de segunda. Está um bocado de frio mas não muito, a neve que caiu há dias nesta parte da Holanda já derreteu. As luvas até acabei de as meter no bolso, fica um alto de lado no casaco que não dá jeito nenhum mas vou já transferir o alto para dentro da mala, é só sentar-me. Estou de volta a casa, a Lisboa, e ainda me faltam uns dois mil quilómetros. A carruagem com o dois pintado do lado de fora que me calhou é a do silêncio. Eu não faço planos de fazer barulho algum durante a viagem que vai durar pouco mais de uma hora, por isso não faz mal ir na carruagem do silêncio e tiro-lhe uma fotografia (para se ver o silêncio). Logo a seguir à fotografia entram duas jovens mulheres muito iguais, que se sentam à minha frente, viradas para mim. Uma de cabelo liso e outra encaracolado, mas é só isso, de resto iguais. Roupa igual, maquiagem muito carregada igual, exclamações iguais, gargalhadas são as mesmas (para não dizer sempre iguais), telemóveis também. Partilham uma excitação, falam sobre alguém, desdenham. Mostram mutuamente assuntos nos respetivos telemóveis, assuntos a que acham muita graça. Parecem umas parvinhas, mas podem não ser. De qualquer modo não se portam de acordo com a carruagem, silêncio. Têm as calças rasgadas nos joelhos, nos quatro joelhos de modo igual, já disse, são iguais. Concluo que trabalham numa loja moderna daquelas que impõe um outfit padrão às empregadas não vá elas quererem andar de calças sem buracos e cara lavada, tipo lanchonete. Ou talvez perfumaria, sabe-se lá. Cá para mim estão a caminho do trabalho, arrumo-as assim. Cada uma delas, nos intervalos das gargalhadas, dá dentadas na respetiva sandes de salmão que desembrulhou da embalagem, também em nada diferentes as sandes. Não se engasgam, não borram o batom, que é marrom. Continuam com as gargalhadas a cada novo ecrã que visualizam uma no telefone da outra. Já estou a ficar farta. Penso: vou dizer-lhes que estamos no silêncio. Mas não foi preciso. Um senhor altíssimo, de cabelo grisalho apanhado num rabo de cavalo e óculos redondos, sai lá de trás e chega aqui à frente dizendo silêncio às barulhentas, e depois aponta para a indicação silêncio. Este senhor quer trabalhar e assim não pode. E eu quero ler. A do cabelo liso pediu desculpa, a outra não. A do cabelo liso baixou o tom, a outra não. A do cabelo liso pôs a embalagem da sandes de salmão no pequeno recipiente para o lixo, a outra deixou a dela em cima da mesa. 

Afinal não eram iguais.