a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

13/06/2017

Teresinha

Ponho uma sequência de valsas a tocar para mim. Compasso ternário e por isso facílimas de dançar, mas não danço uma, agora não. Agora vou contar isto.

Saio de casa para ir ao multibanco. Quando acabo de atravessar a rua, levo a mão ao cabelo ainda molhado e penso que tenho o cabelo ainda molhado mas com o calor da rua não por muito tempo. E noto, ainda com a mão na cabeça, que a senhora que caminha em sentido contrário ao meu e vai cruzar-se comigo já a seguir, me olha por um certo tempo. Penso se estarei toda encasacada como por vezes acontece quando me esqueço que é verão e saio para a rua desajustada. Mas não, casaco nenhum me está cobrindo, talvez o cabelo ainda molhado...
- Olhe, desculpe!
É ela, e a voz vem já de trás de mim, viro-me.
- Diga.
- Ah….. – olhou-me mais fixamente – desculpe, mas não é a Teresinha?...
- Não… não sou.
- Oh… é muito parecida com a Teresinha e eu não a vejo há anos, mas ela também mora aqui e pensei… não é a Teresinha, pois não?
- Não… sou Susana. (nem mesmo na minha panóplia de irmãs se encontraria uma Teresinha, por muito que se procurasse, mas isto a senhora não precisou de saber)
- Ai eu gostava tanto de ver a Teresinha, por isso é que agora a chamei, pareceu-me mesmo. Pronto, desculpe.
- Não tem importância, um bom dia.
- Bom dia. Tudo a correr-lhe bem, sim?
Sim, tudo a correr-me bem. Mas também tive pena de não ser a Teresinha, de não dar uma alegria à senhora e saber da sua vida, contar-lhe da minha, rebobinar os últimos anos, ali, no meio da rua, debaixo de um jacarandá em flor. Quem seria eu se fosse a Teresinha? Continuei o meu caminho, entrei no centro comercial, levantei dinheiro no terminal multibanco e tornei à rua tomando o caminho inverso para casa. Ao subir as escadas junto à paragem do autocarro, escorreguei e caí. Tenho caído muito ultimamente. Mas levanto-me logo. 

(e agora é que danço a valsa, uma destas que continuam a tocar para mim)

15 comentários:

  1. Para a próxima faça de conta que é:) Como se fosse uma actriz...(digo isto mas não sei se seria capaz, embora já tenha siso várias vezes a prima, a tia, a irmã... quando vou a instituições de idosos em que alguns têm alzheimer).
    ~CC~

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    1. Ainda me passou isso pela cabeça, porque assim de repente empatizei com aquela senhora que viu em mim a Teresinha... mas não seria capaz. :-)

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  2. eu acho que são as pessoas felizes e luminosas que põem valsas a tocar para si mesmas logo de manhã. acho que era de manhã?

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    1. uh... era assim já depois da meia-noite, digamos que uma espécie de manhã :-) (pus a valsa a tocar enquanto escrevi o post - para dar balanço)

      mas tanto quanto sei não sou a única a pôr música para si própria... dançar, verdade? :-)

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  3. Aposto que era a D Augusta, faz tempo que não a vejo.
    Deve ser isso de andarmos sempre a cair e erguer que está a deixar-nos parecidas...

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    1. Ahhhhh então essa saudosa Teresinha és tu!
      Já sabes, se alguém na rua te abordar perguntando se não serás a Susana.... :-) (é porque continuamos ambas a cair e a levantar-nos)

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  4. Também caí! Foi uma queda à velha, péssima. Odiei cair!

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  5. Sabias (não sabias :)) que estive para ser Maria Teresinha, assim mesmo?

    ______
    (abençoado pai que, à última hora, pensou na alternativa que ambos ponderaram: Alexandra, Maria :)

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    1. Mas Alexandra fica-te melhor. O teu pai sabia.

      :-)

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  6. Eu gostava de ser Teresa; Teresinha para alguns ou mesmo todos que me conhecessem bem. Mas não sou. Teresa é nome agradável. Mas Susana também:). E não sou Teresa e nem Susana. Mas é verdade que meço o grau de intimidade de quem me chama pelo nome que usa para fazê-lo:).

    Também levo o tempo a cair o que é um bocado aborrecido, dói e deixa nódoas negras. Um dia destes caí nos degraus exteriores; de vingança, aqueles não vão morrer ali, a velhice sobe melhor uma rampa.

    A gente cai mas, se se levanta de seguida, é bom sinal. Quando alguém nos tem de levantar, pode ser pior:).

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    1. Bem, bea, eu a si imagino-a desde o primeiro dia Beatriz. Que é um nome muito bonito, também.
      Regra geral gosto de Teresas, costumam ser mulheres com caráter e ao mesmo tempo serenidade, que é uma qualidade que muito aprecio.
      Vá-se lá perceber estas coisas :-)

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    2. ah, ah, ah...tive uma vizinha a quem o marido sempre chamou Veva. Julgava eu que se chamasse Genoveva. Mas o nome dela era tão outra coisa...quando a interroguei, apenas sorriu, chamou-me sempre Veva.
      Para a Susana sou Beatriz, pois claro. Que também acho agradável. Pensei sobretudo na italiana por quem Dante Alighieri desceu aos quintos dos infernos:).

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    3. Ah sua marota, aqui a fintar-nos e eu sempre convencida que todas as beas são Beatrizes :-)

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