a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

30/06/2020

Geometrias

Casados fez sessenta anos em plena pandemia, os vizinhos da casa em frente estão atarefados a cuidar do seu jardim holandês. As folhas do chão são varridas e reunidas. Não utilizam máquinas, fazem eles enquanto acenam a quem passa, ou a mim, que estou a espiá-los detrás da janela da cozinha. A sebe poliédrica perimétrica é aparada mantendo as superfícies lisas, os ângulos retos. As ervas supérfluas, indesejadas, são removidas com mãos experientes dentro de luvas de entre as flores escolhidas em amarelo, lilás, branco. Os canteiros de novo intactos. É um jardim bonito e bem cuidado, como era de esperar, mas falta-lhe uma coisa para ser promovido a quintal: a roupa estendida entre a qual se vê uma toalha de piquenique aos quadrados vermelhos e brancos a esvoaçar na brisa da tarde como nos livros de histórias. As toalhas deste tipo têm a especialidade de não ficar estiradas, hirtas, em direção ao chão. Elas atraem a brisa da tarde de propósito para ficarem bonitas nas ilustrações dos livros. Não há roupa estendida em toda a rua, aliás; feito que terá origem na proliferação já antiga das máquinas de secar. O contentor de tampa verde informando sobre a sua espécie de conteúdo está ali por perto, aberto e quase cheio, bem alimentado pelos resíduos colhidos no jardim da casa em frente. Deve estar para breve o dia de passar o carro-camião-mas-limpinho que com o seu braço mecânico vai, apanha e vira os contentores da tampa verde de rodas para o ar, dois a dois, agita-os esvaziando-os e volta a pousá-los. É só preciso, na véspera, colocá-los alinhados lado a lado, estimando razoavelmente o alcance do braço mecânico, direitinhos. Todos os moradores da rua sabem isto e eu também, que venho de passagem. Eles não falham: eu só me enganei uma vez.

23/05/2020

Rentrée (acho que não dá para itálicos nos títulos)

A rapariga da caixa do supermercado perguntou-me se eu pretendia não sei quê que não percebi por causa da máscara dela para o banco alimentar. Numa fração de segundo passei do estado de pensar que não tinha trazido nada das prateleiras para alimentar o banco e portanto ia dizer que desta vez não, para logo perceber que me bastaria adquirir ali um cupão em papel que fazia as vezes do produto real, este representado em fotografia no seu rosto, seu, do cupão. A escrever é que isto demora mais. Perguntei quanto era o cupão e a que correspondia a oferta daquele exemplar específico que a empregada já tinha subtraído à pilha de cupões no gesto de me incentivar. Salsichas, diz. Mas saber quanto vale ela não sabe e nem virando o cupão de um lado e do outro repetidamente a resposta vem. Então eu lancei o olho para o segundo cupão da fila, que exibia um belíssimo pacote de arroz na fotografia. Prefiro o arroz, então, se faz favor, salsichas não. Só depois de passar o código de barras do cupão do arroz foi possível à rapariga da caixa ver o seu valor, seu, do cupão. Está a divertir-me escrever cupão. Passada uma boa meia hora, já eu estou devolvida à minha secretária de trabalho para pegar nele, ponho-me a pensar nas Salsichas, alguma vez eu ia oferecer salsichas! Se não prestam para mim!... A realidade nua e crua é que eu já comi salsichas no passado, pois, antes de saber do que são feitas as mesmas. Suponho que então acreditava ser fruto de misteriosa magia especial das fábricas a produção de tão fabuloso sabor num tom cor-de-rosinha perfeito e homogéneo. Mas isto, claro, foi há muito, muito tempo, tu e eu duas crianças.

13/05/2020

Dois metros (continuando numa espécie de matemática)

Quando me aproximei da entrada da loja, vi que ia com a sorte de estar apenas uma freguesa a ser atendida pela dona do estabelecimento de venda de ferragens e artigos do género, do outro lado do acrílico. Levo no bolso um comando de portão de garagem com a pilha exaurida. A olho, calculei os tais dois metros entre mim e a freguesa única que está entretida, noto agora, com o seu telemóvel enquanto a dona do estabelecimento aguarda que lhe seja dispensada a atenção necessária ao processo de atendimento que já vai na fase de pagamento.
- Ai, desculpe, estava aqui a mandar uma mensagem à minha filha – diz finalmente a freguesa única enquanto arruma o dito móvel na mala e retoma o processo que tinha ficado suspenso.
A dona do estabelecimento faz um leve sorriso que os seus olhos revelam e abana ligeiramente a cabeça como quem diz não tem problema.
A freguesa única continua, dois metros a olho à minha frente.
- É que ontem fiz o teste à COVID, recebi agora mesmo o resultado e estava a contar à minha filha.
A dona do estabelecimento abriu um bocadinho mais os olhos detrás do acrílico e eu apurei os ouvidos, que dois metros ainda é mais ou menos longe. Ela claro que continuou.
- Deu negativo – uma gargalhada – e eu ia para dizer à minha filha que tinha dado positivo, mas depois não a quis assustar! – segunda gargalhada, maior.
Eu a primeira gargalhada compreendi perfeitamente.

12/05/2020

Seis horas

Foi esquisito sair com o carro para fora do perímetro bairrista pela primeira vez em mais de dois meses. Como se estivesse a explorar novos horizontes, eu bem amarela para não dizer branquinha, como achou a vizinha do terceiro ao ver-me passar. Depois, da primeira vez que saí do automóvel, que branquinho não consegue estar devido a ser preto, contudo se pudesse era capaz disso, grande contradição, mas iamos a sair do automóvel já arrumado no estacionamento longínquo, não me esqueci de me mascarar. As minhas orelhas não se têm revelado suficientemente firmes no desempenho das novas funções, que eu já as topei: os elásticos de vez em quando querem sair dali à elástico, tóin, é preciso apanhá-los desprevenidos para os dissuadir de escapar. Porém não terá sido por este motivo que, das duas ou três e se calhar quatro vezes posteriores à primeira em que hoje saí do carro, sempre no mesmo estacionamento, deixei a querida máscara, querida por ela cheirar inesperadamente muito bem enquanto me protege dos males do corona, deixei-a, repito, dentro da viatura inadvertidamente. Foi preciso exclamar um ah! A máscara!, e dar meia volta para ir buscar a peça valiosa. Caso contrário, nem pensar em circular por ali como se em trajes menores eu andasse, isto é que vai uma crise, e este post está que parece sei lá o quê. E vão seis. Seis horas no mesmo estacionamento. Ou seja, é com certeza por isso.

06/05/2020

Espécie de matemática

E cá temos mais uma contribuição da Catarina! (O título dei-lho eu, que adoro.)

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Passo os dias ao computador... Já não o suporto e acredito que nem ele a mim. Hoje, depois de uma agarração de quatro aulas, achei de devíamos "dar um tempo". Deixei-o na sala e vim cá para fora apanhar uns raios de sol.

Mas como os e-mails não se respondem sozinhos, decidi fazê-lo no telemóvel... Uma vez que, nesta fase, os e-mails se reproduzem como coelhos e que eu fiquei inibida de lhes dar avanço por causa das aulas, digamos que o trânsito das mensagens por ler estava ao nível do IC19 em hora de ponta de época pré-covid, e o cenário, na caixa de entrada, estava bera. 

Tudo muito bem até aqui. O problema é que eu nasci com o termostato avariado e o S. Pedro não se mostrou muito cooperante com a minha vontade de apanhar sol. Solução: umas luvas da Decathlon que, apesar de feiosas, são práticas, eficazes e munidas de uma tecnologia fantástica que permite, simultaneamente, dar ao dedo no touch screen e ter as mãos quentinhas. E assim foi: toca a responder aos e-mails de luvas (depois de ser gozada pelos meus filhos - hoje não jantam), luvas essas que aumentam a dimensão dos meus dedos para o triplo. Digamos que é um tremendo desafio tentar acertar nas teclas certas com dedos felpudos de elefante... Não há pontaria que valha! 

Uma salva de palmas para quem inventou o corretor automático que me ajudou bastante! Ou melhor, meia salva de palmas porque a eficácia do mesmo para adivinhar o que tenciono escrever não foi maior do que uns míseros 35% e fez com que não conseguisse escrever este texto em menos do que a proporcionalidade de tempo equivalente ao tamanho dos meus dedos: o triplo.

Catarina Rodrigues