a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

17/07/2019

A raposa, o cartão do cidadão e o espetro do fofinho (é escolher)

Sento-me no terraço ao sol, uma vez que o nevoeiro já fez a gentileza de se retirar e dou conta do cheiro das cabras do vizinho inglês que o vento me traz. Elas cheiram ao próprio queijo, mas em mais levezinho. As galinhas da família destas cabras foram todas roubadas, uma a uma, por uma raposa, disse o vizinho para explicar por que razão já não nos dá ovos. As cabras é que a raposa ou não as conseguiu convencer ou não se interessa por elas, agora não sei.
A minha filha Saminhas estava com o cartão de cidadão para renovar, e como os lugares de culto para o efeito em Lisboa só se fossemos para lá de véspera e passássemos o dia todo seguinte a olhar para o quadro dos números de chamada uma vez que não tivemos jogo de cintura pela Páscoa, no máximo, para marcar vez no sistema, viemos para a quietude da serra tratar do assunto. Ficámos despachadas em vinte minutos e ainda tivemos tratamento personalizado no espetro do fofinho, se quisermos usar as suas palavras.

14/07/2019

Dia de folga

Vou, pela terceira vez hoje, espetar uma agulha de ponta esterilizada na chama de um fósforo numa bolha do pé. Nesta bolha é a segunda espetada. Uma autotarefa que não me agrada fazer, mas se quero andar mais ligeira, pago o preço. De manhã correu bem, a bolha de então esvaziou, desinfetei-a completamente e pus um penso por cima, calcei os ténis, fui. O rio estava tão próprio, a encher, tranquilo, a brilhar. Uma garça real a molhar nele os pés, ali toda toda, eu a passar-lhe ao lado.
Duas horas depois, quando voltei a casa, já se notava o mundo mais agreste no pisar, mais acutilante, traduzindo-se, ao retirar as meias, em mais uma bolha ali, afinal. No outro pé! E portanto vamos lá, agulha, fósforo, chama, espetada, desinfeção, penso por cima. Mas não resultou. Horas de arrumação depois, gavetas, caixas, mais gavetas, capas dos sofás, aspirador, closet, idas ao lixo, à arrecadação, carro a arrumar na garagem (de caminho) para os vizinhos que têm três carros ou quatro poderem arrumar lá fora e eu que tenho só um carro ocupar um lugar fora deixando o meu lugar vazio na garagem não é fofinho da minha parte e ontem esqueci-me dele, a bolha, era aí que íamos chegar, a bolha está de volta!
Mas gostei imenso do meu dia. Especialmente porque não trabalhei uma única linha, uma única letra, um numerozinho, zero. Sabe tão bem uma folga.

13/07/2019

A sério

A festa das crianças tem insuflável com um motor para o enchimento com ar que trabalha em permanência fazendo um ruído em conformidade. Em concorrência, há música de palhaços com batida quadrada mesmo ao lado do motor em permanência incluindo não se perceber a cantiga devido à distorção. Um homem adulto, jovem, está vestido como se fosse um mágico e tenta animar as crianças fazendo-lhes perguntas extremamente entusiasmadas e recebendo respostas do tipo tiradas a ferros, como se costuma dizer. Há também uma mulher adulta, jovem, com metade da cara pintada, que se debruça incentivando as crianças a divertir-se no insuflável, ora as puxa para escorregarem ora as instiga a pular. Alguns pais e mães bebem cerveja pela garrafa nas laterais do recinto e olham para telemóveis na outra mão. As crianças estão relativamente paradas. Sentada na beira de uma cadeira, aguardando pacientemente que outra mulher jovem termine uma pintura no seu pequeno rosto, está uma menina. Nenhuma criança ri, salta, corre ou brinca por iniciativa própria.

No final da festa, sobrou o chão do pátio polvilhado de papelinhos coloridos. Alguns, no canto, rodopiam num tufãozinho de vento que ali se deixou ficar a brincar.

A sério.

11/07/2019

Estupe, por favor

Houve uma hora em que pus a cabeça descansando nas mãos, os cotovelos apoiados na mesa nova, tão bonita, e senti que agora era estupe, quero estupe.

***
- Rodrigo, o que diz ali naquelas letras pretas?
- Diz... en...tra...da. Entrada!

O meu sobrinho mais novo passou para o segundo ano e já sabe ler muito bem, segundo o próprio, embora não tudo tudo. Há palavras difíceis, tia!

Fizemos o percurso de ida e volta na telecabine. Vimos uma alforreca deitada na água. Vimos cardumes de peixes. Pretos, disse a Maria. Uns grandes, outros pequenos. Cinzentos, corrigiu o Rodrigo. Os peixes são cinzentos! Vimos as árvores de cima e as casinhas dos gelados. Vimos um fumo a subir, ao fundo. Seria talvez fogo. Falámos sobre o nome deste rio, o Tejo, e de outros dois, o Douro e o Mondego.

No fim da volta, a telecabine devolvendo-nos a terra firme, tornei

- E ali naquelas letras o que diz?
- Saí...da. Primeiro era entrada e agora saída!

Ao subirmos no elevador do prédio, já recolhendo a casa, não precisei de lhe perguntar o que podia ler ali, o Rodrigo adiantou-se: estupe, leu, junto ao botão de stop do elevador.

***
Então, tirei a cabeça das mãos sacudindo a vergonha e fui abrir a porta ao pequeno novo probleminha.

Estupe, realmente, não existe. Não está nas minhas mãos.

10/07/2019

#azapes

Estou em meio de dois mil e dezanove a incluir apps nos meus hábitos. Não sei se finalmente ou se isso não interessa a ninguém (tipo). Apps dos horários dos comboios já as trato por tu, ora pour toi ora door jij, consoante. A última, então, é perfeita, toda facilzinha, espertíssima, dou-me lindamente.
Em segundo lugar estão as apps de dicionários, mais paradinhas e menos urgentes, é verdade, um pouco menos exatas, ok, mas também valeu. Alinham-se na segunda fila do ecrã principal à direita de quem vai, tipo.
Mas aquela que verdadeiramente me traz aqui hoje é a belezinha da última aquisição. Capaz, a danada, de me pôr feita num oito. É a app de 7 - sete! - minutos de exercício diário! Tipo como quem não quer a coisa. Eu vou e dou-lhe um toque, aciono a modalidade básica, na boa, e começo a obedecer aos comandos. Faça o exercício, no belo português do Brasil. Sete minutos de arraso, saio dali (da app que, no finzinho, me dá os parabéns, hã?) e vou direta para o chuveiro, posso dizer, bastante necessitada. Não parece, mas é. Ai esta appezinha!

Próxima app desejável (por favor): descarregável para as lentes de contacto que dê para ver bem tudo, focado, legível, tá?, a lente ajustada para a necessidade em tempo real, mudando à velocidade da luz o ajuste, chovesse ou fizesse sol, para visão ao perto, ao meio e ao longe.

E ainda esta outra, muito querida app (lembrei-me de tarde e já agora vai): descarregável para as rodas do carro diretamente, estacionando-o ela direitinho enquanto eu já me ocupava, na livraria, de pedir o livro de Stephen King que a minha sobrinha de doze anos agora ensaiou de ler e querer mais. Doze! (e não é a única, pois o referido livro já só havia em armazém todo ali a querer esgotar-se o maluco)

(Tipo adoro.)

E tu, com que nova app sonhas?