a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

01/12/2016

E sai mais um post fofinho

Dizem que é para ter autoconfiança. Eu não vou dissertar o que há a dissertar sobre os outros dizerem: tenha autoconfiança. Do tipo conselho. A intenção é boa, claro, de modo que vá, não dissertando nada, faço agulha uns graus à minha esquerda, para onde ela está sentada. Estamos na sessão do curso que andamos a fazer, ela, eu e mais pessoas, e estamos na pior sessão de formação a que já me foi dado assistir. Tão má que achei, à cabeça, que era aquilo a brincar. 

A minha colega, esta que está à minha esquerda, mais assertiva do que eu que já estou a entediar-me e a indignar-me com a sessão medíocre e hesito entre dizer já ou dizer depois que a sessão é medíocre, está segurando com ambas as mãos muito bem arranjadas o seu telefone esperto a uns centímetros – acho que uns dez centímetros – acima da mesa de fórmica da fria sala de formação. Vai pondo a escrita de mensagens em dia: entre mensagens rápidas, o seu dedo corre a lista geral, a cada linha uma fotografia associada, ou então aquele desenho padrão de recorte de cabeça sem cabelo para quem foto não tem, vejo pelo canto do olho isto e o correr de mensagens, mas enfim, tento espremer a sessão a ver se dali tiro alguma coisa, lembro-me de quanto paguei para aqui estar, e concentro-me na muito pobre formadora. Mas de repente a minha colega espirra violentamente, o telefone cai em cima da mesa catapabum! e eu dou um salto. Este ar condicionado é realmente muito forte, também eu teria frio não fosse estar dentro do casaco.

- Ai… desculpa – na sequência do meu salto.
- Não faz mal, saúde. – e olho de novo para o telefone, que já regressou às suas mãos, acima do nível da mesa, a lista de mensagens agora quietinha. E então, sem querer, os meus olhos leem o nome que está junto à fotografia de homem jovem, óculos escuros, sorridente, céu azul por trás, é a fotografia com mais ocorrências na lista, aliás quase todas as ocorrências da lista: “Mor”.

Desviei os olhos num instante para não prolongar a invasão ainda que não intencional e antes que um sorriso me denunciasse o enternecimento que deveras senti. "Mor”. 

Tanto, que deixei para dizer da porcaria da sessão depois.


(esta minha colega é das pessoas com mais entusiasmo, espírito são e atitude construtiva que me foi dado conhecer nos últimos tempos)

26/11/2016

Carro azul sem luvas

Não é que isto tenha interesse. Quer dizer, não a historiazinha em si. O que tem interesse, para mim, é faltar ainda uma hora para aterrar o avião em que sigo e eu puxar do computador para ver se sou capaz de fazer um texto antes de pousarmos no chão.

Ontem já o sol tinha descido abaixo do horizonte e deixado de breve herança uns braços azulados por cima da cidade, paro o carro na estação de serviço e dirijo-me sozinha ao edifício para fazer o pagamento prévio do combustível que pretendo consumir. Como é muito costume nestes lugares, está uma fila de pessoas unidas pela intenção de pagamento prévio, atrás das quais eu me posiciono, cada um terá a sua vez. Quando já falta pouco para a minha, ouço a mulher espanhola ali à frente dizer à funcionária da estação de serviço, “es el carro azul” (não disse coche, disse carro). Assim é identificada a bomba de onde vai sair o combustível para o carro azul, a combinar com os braços herdados do sol, após o pagamento prévio estar concluído. Nesta estação de serviço as pessoas têm de pagar previamente os combustíveis que hão de consumir, situação mais do que agradável, acho até bastante fofinha, já que assim ficamos todos livres de, uma vez o carrinho atestado, e quiçá fruto dos vapores à base de combustíveis fósseis, nunca mais ganha a eletricidade esta guerra, mas já não falta tudo, ai que confusão, se não me despacho daqui a pouco ainda mandam fechar os electronic devices que vamos aterrar, uma vez atestado o carrinho, dizia, a gente vai-se embora todos lampeiros e cheios de potência no carro e esquecemo-nos de proceder ao pagamento, falha que ninguém quer cometer. A nossa espanhola está agora a debitar os seus números de contribuinte, não sei onde contribui ela, mas que os disse, disse, dos, ocho, cuatro, uno e tal, não vou dizer os outros que é aborrecido para a senhora, já basta contar ao mundo que ela tem um carro azul. A funcionária registou tudinho, um a um, compreendeu o espanhol, uma lindeza aquilo, quem é o português que não compreende espanhol?, nenhum, esteja onde estiver o português compreende o espanhol, já o inverso não se verifica, mas adiante, paciência, a operação quase terminada, a espanhola arrumou a carteira, parecia mesmo o desfecho todo quase ali, vamos lá embora, não fosse ter a espanhola levantado a mão direita, sacudindo-a ligeiramente no ar, os dedos abertos, e dito guante?  Mas por esta não esperava a funcionária, que devia achar aquilo ser um adeus, boa tarde, disse, porém a mão espanhola no ar, guante? outra vez. Ao terceiro aceno de guante, boa tarde, próximo por favor, coitada da funcionária, a mão espanhola já a afrouxar, ela vai desistir, mas estou cá eu, que tenho a mania de preencher as lacunas que vêm ter comigo, e ligar dois fios para que dois entes comuniquem é coisa a que não me nego, luva! levanto a minha voz o suficiente para a funcionária ouvir e digo luva, a senhora quer uma luva!

- Luvas?… ah… não temos. – a funcionária tão admirada como eu, que sendo toda a favor da higiene, desde que sem exageros, nunca meti gasolina no carro com luvas.

A espanhola encolheu os ombros, deu meia volta e seguiu para o abastecimento do seu carro azul sem luvas.


Consegui. Ainda sobrevoamos uma data de nuvens.

19/11/2016

Ne pas oublier, o café e um recado

Hoje de manhã era sábado e eu levanto-me e vou pôr café na cafeteira, e água também e um filtro, que é de filtro este meu café. A cafeteira lembro-me que custou oito contos e uns quatrocentos escudos há exatamente vinte e quatro anos. Exatamente, porque foi num mês de novembro que a minha avó me perguntou, do que precisas para a tua casa, filha? (ela dizia filha), de uma cafeteira, avó, então compra à tua vontade e depois dizes quanto foi. Comprei a cafeteira. Escolhi um modelo branco, já disse de filtro. Uso-a ainda hoje todos os dias ou praticamente e todos os dias ou praticamente preparo o café pensando na minha avó. Ao escrever isto vêm lágrimas à minha garganta como se não houvesse razões mais atuais para chorar. Mas hoje o caso é outro.

Recentemente procedi a uma mudança de provedor de serviços de internet e claro que a palavra passe de acesso à grande teia do mundo (já alguém traduziu isto direitinho?) que estava há anos na primeira folha do bloco notas colado no frigorífico, para quem precisasse, ficou obsoleta. E então foi arrancada, e raac, e lixo dos papéis. Esta sequência de eventos tão simples fez emergir a segunda folha do bloco que, sem querer, foi dada à luz da cozinha, passou para a frente de mansinho, tanto que ninguém a viu. 

Enquanto o café corre, esta manhã de sábado, aquele cheirinho tão bom, as miúdas ainda a dormir e a minha avó no pensamento, compra à tua vontade, filha, e depois dizes quanto foi, ainda lhe oiço a voz, pousei ao acaso os olhos na segunda folha do bloco, agora primeira, e finalmente vi-a. Nela, um recado para mim. Um recado que veio em julho pelo punho de um amigo da minha filha Saminhas, que é a mais nova (ó mãe, porque é que me deste um nome se me chamas Saminhas?), o amigo cá ficou hospedado uma noite por razões inesperadas da vida dele (inesperadas mas não graves).

E eu, caramba, eu tenho um blogue. E um blogue é para estas coisas, não é? Eu vou mostrar o recado.



16/11/2016

"Sabes o que fizeste na Blogosfera?"



 De manhã, a primeira coisa que fazia era ler o post de José Saramago. Eu fui uma dessas pessoas.

excerto da entrevista de Pilar del Río a José Saramago, Revista Única, outubro 2008
(faz hoje 94 anos que José Saramago nasceu)

15/11/2016

O pequeno almoço grande numa alegria (mas tipo)

(Se alguém me pedisse para me definir numa frase, acho que me iria sair do tipo "sou uma entidade aprendente”. Portanto mastigar palha dá-me muito sono. Tenho precisado de ler uns manuais que têm uma grande quantidade de palha e eu ainda há pouco adormeci a páginas tantas, embuchada, que foi na página oito de um manual de cinquenta e uma, imensas. Acordei e entretanto já li até à trinta, mas muitos bocejos depois solto-me para aqui neste blogue que me faz um bem que deve ser mais do que eu penso e o postezinho que ficou esboçado ontem vai sair. Isto anda cá uma produção que nem parece minha. Entretanto, para quem ainda se aguentar, abaixo, onde se lê hoje deve ler-se ontem.)

Hoje o meu carro deu-me uma alegria. Conduzi-o até à oficina para o deixar lá a lubrificar as pecinhas, trocar o óleo, limpar tubinhos, afinar conjuntos, eliminar folgas, alinhar o rumo, dar um polimentozinho nos riscos que pessoas fizeram na minha ausência e eu não sei que pessoas são essas, só sei que foi com carros brancos que fizeram, agora há muitos, parece que os carros brancos é que são giros, pelo menos lá riscos nos outros carros fazem eles, e eu ia dizendo que o meu carro me deu a tal alegria hoje. Porque ficando sem ele tomei o serviço de transporte cortês da oficina e esse deixou-me à beira do rio, todo central, a uns passos de um pequeno almoço, caramba, um pequeno almoço que foi grande (é a alegria). Ainda se sentiam no ar, juro, as vibrações do crocante disruptivo (disruptivo agora usa-se muito, é tipo os carros brancos) psicadélico e estonteante Lisbon Web Summit (‘tamos uns vaidosos!), ao qual não tive o prazer de ir for reasons, ora ali viam-se esta manhã, sentados pela fresca na espécie de deck, o meu pequeno almoço e eu. E também as pombas, uma surpresa, mas de pé. Ou com os pés pendurados se em modo de voo, aqueles dedinhos encarnados fechados em pinça (as pombas não se sentam). Era eu em potencial produção de migalhas a estar ali um alvo e foi preciso defender o meu pequeno almoço, caramba, grande, a alegria que o carro me deu, foi por isso que cá viemos ao blogue, das pombas (defender das pombas). Até tirei uma fotografia toda indignada, para fazer prova tipo onde é que já se viu isto suas malucas, e naquele nano de segundo do disparo, houve que lançar o braço num golpe de rins muito bom para segurar o alimento no prato, que uma terceira pomba me atacava tipo pelo flanco direito e o resto da matilha captei, mal, mas captei. Ó.


(como se chama então um conjunto de pombas que querem roubar o pequeno almoço a pessoas num dia sem carro?)