a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

20/07/2017

That's life

Enquanto aguardo que o portão da garagem percorra, lentamente e com um nhéééééc muito conhecido, o curso vertical que fez sabe-se lá quantas vezes (ninguém sabe), deixo o olhar assentar numa gota de água que desliza do lado de fora do vidro do carro. Não choveu: a gota resta do esguicho que ali impus para o para-brisas ir limpinho arrumar-se no lugar dele. O portão toma o seu tempo e eu largo a gota quando ela se espraia na horizontal da borracha limpadora que ali repousa e viro-me para o ouro lado – lá vêm o pai cego com a filha adolescente passeando o cão branco de braço dado, conversam. No céu azul um avião segue subindo. O rádio do carro, que vem ligado desde o centro da cidade, emite a canção que veio ajustar-se a este quadro e que se pode encontrar abaixo. O momento está no ponto e a cereja do seu topo dentro da mala: levo, quietinha ali, encostada à carteira, à caixa dos óculos e ao pacote de lenços, “A Sibila” de Agustina Bessa-Luís. Ando deste modo antecipando o prazer que lhe adivinho há dias, porque ainda não demos início ao enlace da leitura eu e ela. Mas, na primeira página esquerda que não foi deixada em branco, posso avançar, leem-se as palavras “Fixação do Texto”. Não lhes conhecendo o significado exato, ensaio imaginá-lo e é certo que acabarei a pesquisá-lo. Por agora: foram Manuel Vieira da Cruz e Luís Abel Ferreira os autores dessa outra arte, que o portão já alcançou o fim do seu curso e o carro deixo-o deslizar rampa abaixo, ele vai muito bem.


(esta canção também me lembra um filme de quinze minutos que vi no verão de 1992, em Sevilha, no intervalo de um calor abrasador que fazia no recinto da chamada Expo, dentro do pavilhão dos Estados Unidos da América - chorei quase convulsivamente, palavra que foi, eu, e acho que toda a gente - gostava tanto de encontrar esse filme)

18/07/2017

A seguir a um café

Por causa da novidade que este ano foi, primeiro, cobrar iva aos meus clientes e depois aprender a entregá-lo a quem de direito, o estado, quer dizer, Estado - sendo composto por tanta gente o melhor é não lhe negar a maiúscula – arranjei uma contabilista. Por acaso até arranjei duas, que da primeira não gostei. Dispensei-a logo mais ou menos à cabeça, ela ficou um bocado zangada comigo (mas não tanto como eu com ela), e de maneira que procurei a segunda. Encontrei-a num escritório mesmo ao lado de uma fieira de prédios, um deles tem um café.
Entrei, empurrando a porta diretamente da rua. Dentro o espaço é amplo. Tem pilhas de papéis em todas as secretárias à exceção de uma e dentre elas vejo surgir a minha nova contabilista, que traz um sorriso cordial. Cumprimentamo-nos, é a primeira vez que nos vemos. Ela encaminha-me para uma sala de reuniões e tratamos dos meus assuntos. O que a mim parecia um molho de brócolos num leque de incertezas, a ela apresenta-se como uma situação do tipo velha amiga e, com muita calma, segurança, tranquilidade e sempre formal, desatou a minha contabilista ali os nós para mim. Saí toda aliviada, afinal a autoridade tributária talvez não me odeie nem me queira castigar por exemplo por eu ter nascido, ou seja, aquilo não é por mal. Entretanto vamos na terceira reunião e a formalidade continua mas eu já sei ao que vou. Uma paz assente em pilhas de papel, as secretárias, o espaço amplo, a tranquilidade, a possibilidade de acreditar, quando de lá saio, que sou uma contribuinte feliz, digamos com futuro sorridente. A minha relação com a autoridade tributária, grande nome, que até há pouco tempo se pautou por abundante estabilidade pode dizer-se a roçar a monotonia, tem agora altos e baixos e nos baixos eu vou lá a correr à minha contabilista. Ela sorri ligeiramente mantendo-se tranquila, formal já disse, portanto não se assustando com nada. Sentamo-nos e depois guia-me no preenchimento dos campozinhos no sítio lá do portal, vai falando baixo, está sempre serena (adoro ver e com sua licença também tomo notas). Voltei lá na semana passada. Como cheguei uns minutos antes da hora marcada apesar das voltas para estacionar o carro decentemente, fui ao café da fieira de prédios tomar um. Dali são meia dúzia de passos até alcançar a porta, que empurrei, lá vem ela do fundo dos papéis, o sorriso cordial, boa tarde, como está? Cumprimentamo-nos, já se sabe que é beijinho beijinho mesmo na formalidade, eu parece que com receio de a incomodar na sua paz.
- Esteve a tomar café.  
- Estive…
- Nota-se, cheira.
- Ah, desculpe…
- Desculpe nada, que eu adoro esse cheiro, adoro! Uma pessoa até fica com outra disposição!
E depois, sim, claro que desatou os nós que eu levava, a carta da AT que agora não escrevo por extenso e que vinha bastante amachucada de eu tanto a estudar, pois então preenchemos os campozinhos, escrevemos uma situação, ela explicou-me por que motivo recebi aquilo, é normal, nada a temer, saio daqui sempre mais leve. Mas desta vez teve Ricardo Araújo Pereira, mixórdia de temáticas, Facebook, Facebook!, férias e afins, idades dos filhos respetivos e características inerentes, uma ou outra cena familiar, enfim, estive vai não vai para lhe dizer que adoro óculos de massa vermelha, ela tem uns, mas isso fica para a próxima.

Que não sei quando é. Só sei que a seguir a um café.

(Este post tem um erro, mas é difícil de descobrir - não tendo sido propositado, não o corrijo, a ver se alguém o quer encontrar)

13/07/2017

Oito minutos

Fui encontrar as duas no quarto de Muzi, a mais velha, em conversas de irmãs. Posso entrar ou são segredos?, não, disseram, podes entrar, mãe. Logo Saminhas, a mais nova, me pediu que lhe massajasse as costas, mãe faz-me lá uma massagem nas costas. Então põe-te a jeito. Ela pôs-se e os meus olhos, enquanto os dedos pressionam músculos e o que houver em redor, nas costas, bateram nos objetos pendurados que a irmã espalhou pela parede, recordações de momentos e outros temas bastante importantes.
- O que é aquilo? – apontei com o queixo para um destes objetos que não sei descrever convenientemente, uma coisa pendurada com letras.
- Aquilo? Foi da festa das flores, lembras-te?... – responde Muzi.
- Lembro. Aquela festa à qual te fui buscar e fiquei de mau humor? – era uma festa em tempo de aulas, a meio da semana, até tarde, sou contra - mas hoje em dia os universitários festejam muito muito tudo tudo e nada nada também festejam.
- Sim… - confirma Muzi a inclinar a cabeça e levantando as sobrancelhas em desaprovação do meu mau humor.
(não nos esqueçamos que a massagem está em curso na outra filha)
- Claro, chegaste oito minutos atrasada ao carro – recordei-lhe.
- Mãe, por oito minutos, oito! – ainda lhe dói, não foi assim há tanto tempo.
E então a dona das costas sofrendo massagem usa da palavra dirigindo-se à irmã.
- A mãe precisava era de um grupo de apoio para pais de adolescentes.


(Isto traduzido em português quer dizer que a mãe, eu, precisava de ver casos graves na adolescência para não ficar de mau humor com um atraso de oito minutos a seguir à meia-noite)

Não temos apps para isto

Aborrece-me de cozer o bacalhau. Mas apanho-me sozinha a jantar, que é muitas vezes que me apanho, e vai de cozer uma posta de bacalhau do salgado e depois dessalgado (não se percebe lá muito bem, mas é assim que se faz ao bicho) que só eu é que gosto de o comer cá em casa. Então de cada vez que me deito a cozer uma posta deste belo fruto do mar com uma batata no tacho ao lado, temos o caldo entornado (não o da batata). Temos porque ponho a posta na água, dentro do tacho, ligo o fogão e depois opto: ou espero um tempão ali em pé a contemplar o bacalhau aquecendo-se todo despacito e a aborrecer-me que nunca mais acaba, ou, boa ideia, vou-me embora sem observar o processo, otimista género vou-mas-é-estender-a-roupa-e-já-cá-venho-seu-maroto, mas a roupa é mais que a conta, e o caldo entorna sempre, o do bacalhau, evidentemente, sempre. No seguimento, vem o fogão para limpar da água peganhenta e malcheirosa, não adoro lá muito. Nem adoro lá muito, nem há apps para isto não sei porquê. Se fosse ao almoço, ainda me punha à janela enquanto vigiava a fervura da água, engendrando modos de ver o papagaio que segue entretendo o bairro com a sua palração ininterrupta o dia in-tei-ro e eu continuo querendo ir arrancar-lhe uma pena das verdes para castigo, que ele doutras não arranja, só que isto do bacalhau dá-se mais ao jantar. A essa hora está o papagaio recolhido dentro do quiosque das flores, fechado à chave, caladinho que nem um rato, sozinho no meio das rosas, gladíolos, gerbérias de várias cores, vendem-se muito bem, margaridas, agora também em azul, petúnias nesta altura do ano e coroas imperiais. Mas coroas imperiais não tenho a certeza.

05/07/2017

O quadro

Não sei que efeitos terá uma infância sem quadros nas paredes. A minha, feliz de mim, teve-os. Neles muito viajei, nalguns ancorei ensaios de eu (tinha escrito de mim mas ficava mal a repetição) em versões paralelas.

No quarto dos meus avós, um quinto andar de uma perpendicular à avenida da República de Lisboa, havia um quadro fascinante. Não era grande nem pequeno, mas era fundo. Sempre que me apanhava sozinha com ele, fixava-o bem e entrava. Era um quadro silencioso e escuro, um quadro só e triste. Era também perfeito para uma tal versão paralela porque era a antítese de mim. Além disso, ninguém, absolutamente ninguém, parecia reparar nele (só eu); era portanto um quadro ignorado. Estava numa parede por cima da cómoda que ficava aos pés da cama. Mostrava uma pequena casa de pedra sem janelas (e não tendo janelas não tinha nada), em avançado estado de ruína (quer dizer, tinha de certeza bichos) e toda escuridão (por exemplo, cobras e ratos). Havia também uma nora, totalmente perra, inerte, junto à casa (a nora não tinha importância). A fazer-lhes uma sombra permanente estava uma frondosa árvore em grande plano, cheia de folhas verde-escuro, quase preto, secundada por muitas mais que se desvaneciam para longe (o fundo do quadro) desenhando a margem de um rio que banhava a casa e explicava a nora. O rio, esse, corria vivo (óbvio), a água tinha espuma branca aqui e ali e claro que era fria ou completamente gelada. O céu estava carregado de nuvens escuras mas ainda não tinha começado a chover (nos quadros nunca chove) e eu ficava cheia de frio e de tristeza, de medo, de solidão, ficava perdida e quase morta dentro desse quadro. Mesmo assim, mantinha-me lá. Ganhava coragem e entrava para dentro da casa, para encontrar os bichos que não se viam (cobras, já disse, e ratos), alguns mortos. Também para sentir o cheiro a mofo podre e o frio gelado nos meus ossos. Ficava no quadro até já não aguentar mais o ensaio de bravura a que me submetia. E então tomava a saída. Deslizava o olhar para a moldura dourada que o aprisionava, toda trabalhada em muitos relevos, refletindo brilhos nas curvas da madeira pintada. Aí, respirava fundo primeiro. Depois, ia a correr para junto da minha avó.

(este post nasceu deste outro, que me reavivou a memória, embora o tema se desvie um bocado, não muito)