a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

12/12/2019

Em oxigénio

Os meus alvéolos pulmonares dão-me a entender que não gostam nada de estar na estação dos correios ali a tentar puxar o ar. Que é mau, não sei como quem lá trabalha aguenta aquilo o dia todo. Pesado, saturado. Hoje fiz a segunda volta da entrega dos postais de natal para enviar aos meus clientes (dito assim até parece que tenho imensos). Ora é lá para o segundo número que os alvéolos pulmonares me dão a entender o mal-estar deles. Isto passa-se, em média, quatro ou cinco números antes do meu. A tática é encostar-me à estante que expõe os livros quase todos de autoajuda, para me autoajudar a não ceder à pobreza do ar enquanto espero. Resultam, esses livros, já agora posso afiançar, e tanto é que o seu efeito se estende a toda a estante. Por outras palavras, mantive-me. Mas onde eu queria chegar era ao balcão após o meu número aparecer no tlilim do ecrã. Já cheguei. E entregar a coleção de envelopes ao empregado que já me conhece esta manha dos postais de natal em papel. Agora noto que ele vai olhando para os endereços destinatários, o maroto, e não é que lê o nome do meu Cliente Azul?! Pois lê! Azul?! Trabalha no Azul?! (todo espantado). Às vezes, digo eu orgulhosa, é meu cliente. E, se notar, continuo, aí mais à frente encontra o Mais Novo, o meu Cliente Mais Novo...


Sim, sim, fiquei vaidosa, que eu senti. Deu até, verdade, para esquecer ali um bocado os pobres alvéolos pulmonares ricos em dificuldades. É que foi só quando saí porta fora, decerto sorridente, a pensar nas pessoas que vão receber os meus postais, que me lembrei dos pobres alvéolos, porque estes ficaram claramente num instante de novo ricos. Em oxigénio, coitadinhos.

04/12/2019

Especialidade almoço

Tenho esta dificuldade. Depois de toda a manhã em pé, a falar a falar, não há agarrem-me-senão-vou-a-correr ficar retida numa tal de fila parada para o almoço na cantina. O que há é uma senhora vontade de me sentar. Isso, juntando o facto verídico de eu optar por não calçar sapatos tipo ténis para a ocasião, é tramado. Foi ontem: inaugurei-me e aos meus sapatos ligeiramente elegantes no cliente mais novinho, o Cliente Grande. Ainda por cima, ali é corredores e corredores, ai que eu perco-me, se não fosse ter memorizado os votos de Feliz Natal das diferentes secções colados nas paredes e mais uma ou outra máquina de café com que me cruzei, por ali fora, para aumentar as hipóteses de encontrar o caminho de volta, são técnicas, mas desvio-me, aliás ai perco-me.
Vá lá que com a conversa a fila parada lá se mexeu e cumpre-se a espera. Finalmente munida de tabuleiro nas mãos, uma salada de atum, sopa, uma maçã para mais tarde que cheira tão bem a maçã, vou e, muito mais contente, sento-me junto de algumas das pessoas para quem falei falei. Agora vamos saltar esta conversa que é confidencial e há aquilo dos dados para preservar. Mas comi tudo menos a maçã, de acordo com as previsões. Levantam-se as pessoas minhas anfitriãs, levanto-me eu embora ainda ficasse mais um pouco antes de me lançar na sessão da tarde toda ela também de pé, e eis que bato os olhos numa espécie de colega por um dia que tive recentemente e que apareceu em um post deste blogue. Está sentada, a comer, numa mesa aqui perto. Olá, como está, etc, eu de tabuleiro na mão, ela na sua refeição, não lhe disse grande coisa, não estava a dar jeito, ela tampouco a mim disse. Ficou, portanto, sem saber que pela segunda vez seria mencionada neste blogue. E de novo na especialidade almoço. Que giro.

30/11/2019

Margaret

Não sei porquê, dá-me sempre vontade de escrever no comboio ou no aeroporto. Mas agora é no comboio. Vai todo sujo, este. Leva, imóvel no chão, um m amarelo possivelmente coberto de bactérias gulosas. Da coleção de chocolates em bolinhas coloridas m&m's, já se vê. Mas como é só um, digo m (não foi engano). Ainda é muito cedo, era noite completa quando entrei no comboio, as cadeiras vão quase todas vazias. Sujas e vazias. Também por ser sábado (o irem vazias).
Tenho estado a pensar na vida infeliz de tantos membros da coroa britânica, com particular incidência em Margaret. Por causa de ter andado a ver a série, sim, a série!, "The Crown". Sinceramente prefiro ir num comboio sujo tendo por companhia o m amarelo, possivelmente bacteriano, estendido no chão, do que viver naquele enquadramento de salamaleques e sabe-se lá que constrangimentos, espartilhos e frustrações. Talvez mesmo um certo tédio now and then. Que sorte tive de não calhar nascer naquela família. Nem sequer um pequeno blogue decerto poderia manter para atender a estas vontades que me dão no comboio. E chegando aqui, de repente rematar que o céu já está a clarear dum lado.

29/11/2019

Dia da tampa laranja

Temos, nesta pequena e pacata cidade holandesa, a seguinte organização entre outras, muitas (por acaso adoro). Amanhã passa nas ruas o camião de esvaziamento dos contentores de tampa laranja: plástico e metal, embalagens. Isto é evento para estar nas agendas de todas as casas, naturalmente. Mas basta olhar pela janela e ver que Joop, o vizinho que mal vê - do seu sofá, imagino - umas folhitas de árvore no chão do seu arranjadíssimo jardim, vai soprá-las para a rua com a sua máquina especial de soprar folhas barulhenta, basta ver que Joop, dizia eu, já pôs o seu contentor de tampa laranja em posição, a uns vinte centímetros do lambril do passeio, para dispensar a consulta da agenda. Vou então eu também, munida de casaco e botas apropriados ao tempinho que faz, puxar o nosso próprio contentor com a cor da tampa certa. Vou ser a segunda da rua. Já está escuro, mas dá para distinguir as cores das tampas e pego no contentor certo. Atravesso a rua com ele e posiciono-o alinhado com o de Joop, de soslaio verificando se a posição está corretamente paralela à rua e a distância ao lambril bem medida.  Amanhã os braços-robot do camião que vai passar encontrarão tudo em ordem, o seu encaixe será perfeito, sem folgas nem desvios, nas adequadas ranhuras do recipiente. 
A acrescentar a isto, é um bocado, como direi, surpreendente que o camião ande sempre tão limpinho (é um gosto vê-lo, camião), mas deve-se isso em parte, já refleti, à exata geometria com que toda a vizinhança colabora no orquestrar da situação. Não posso negar que tem a sua beleza. Se amanhã a oportunidade vier, ainda vou e faço uma foto para ilustrar. Porém, era aqui que eu queria chegar, de cada vez que empreendo a colocação do contentor determinado pela organização local - há também o de tampa verde, o da tampa azul e o da cinzenta - sou acometida de uma vontade metidinha de colocar na rua em posição, como se por engano, um com tampa da cor errada. Para testar o sistema, ver que tal. E, quem sabe, é capaz de não ser demais, sair no jornal local.

25/11/2019

O silêncio da cor

Acordei a pensar nisto. São dezenas de milhares de pessoas, só em Lisboa, a vibrar com os concertos do André Rieu. Música, luz e cor. Ou cor, luz e música. A ordem não importa quando o mote é a alegria coletiva. Então porque não sinto eu a urgência para lá ir também, imbuir-me da festa, sair levezinha, como decerto seria, as angústias esmagadas em nada, os medos que me assaltam de noite vestidos de anjos?
Mas depois - o silêncio! - compreendi. Ao contrário do fenómeno André Rieu, quando a orquestra se veste de preto é para que os instrumentos brilhem nos seus metais. É para que as madeiras, tranquilas, aqueçam as notas no ponto. E se forem de cordas, o silêncio da cor dá-lhes o espaço para vibrar. O silêncio da cor. E então a música vem inteira. Pura, suave, dura, chorando ou dançando, agonizando até, ela traz intacta a alma do poeta que a escreveu, sentindo. Como uma oração, um respeito completo, um outro interior. E só assim, sem exuberância adicional, a minha alma insegura, incerta de estar, friorenta, pode abrir-se e, quando capaz, experimentar a alma do poeta como se ela fosse ele. Só assim serei tomada por dentro. Num concerto de André Rieu, estou certa, seria tomada, ah seria, mas apenas por fora.
E depois, sabes, o silêncio da cor, a música que permite sentir, serve de exercício para melhor te compreender. Para melhor ver o mundo. Se não o todo, pelo menos o teu.