a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

15/12/2017

Mas há orquídeas

Continua em força o papagaio, vigoroso, não morreu (ainda é novo). Hoje conversou toda a manhã sobre aquela situação lá dele que incide invariavelmente no mesmo, tchalp tchalp teren tchalp, como eu já tinha dito. Não sei ao certo quanto tempo dura um papagaio normal, do tipo muito falador e todo ele no espetro do verde (Teresa?), e admiro-me completamente de ter criado este sentimento tolinho por aquele que me azucrina tanto o juízo, como dizia alguém na minha infância. Apesar de já me ter apetecido, evidentemente (muitas vezes), lá ir arrancar-lhe uma pena a ver se ele se calava um pedaço ou mudava de assunto. Mas não fui, acobardo-me em casa a ouvi-lo. Na verdade, fosse eu mais de ficar vivendo no mesmo sítio em vez de andar a saltar de lado em lado, seria pessoa para fazer um papagaio feliz qualquer que fosse a sua cor, e tomava um todinho para mim. Além disso, custam uns mil euros os papagaios, e essa parte é que sinceramente, mil euros. De modo que é o seguinte: contento-me com duas belas orquídeas, uma toda em branco, única sobrevivente do pulgão da mesma cor, um pulgão com pelos bastante esquisito (e gordo, e gordo), outra em bordeaux com pintas, muito linda, ofertada o mês passado pelos meus ex-colegas e as orquídeas não se compara, quer dizer, são muito mais caladinhas.

(para não escrever sobre as saudades, muitas muitas, muitas e muitas da minha filha que está lá a fazer o Erasmus, saiu isto) 

13/12/2017

A grande palmada

- Esta tua mania dos voos low cost dá nisto, tu e as tuas manias!!!
Devido à neve que caiu nos últimos dois dias em vários países da Europa, muitos voos foram cancelados ou atrasados. Aquele em que eu me inscrevi para regressar a Lisboa entra no segundo grupo, foi sorte. Mas estamos agora na porta de embarque e eu enfim consegui sentar-me com o objetivo de puxar do computador e continuar o trabalho que quer ser entregue amanhã e vai mesmo ser entregue amanhã nem que a vaca tussa (por exemplo, por causa da neve). À minha frente senta-se uma rapariga que deve andar pela casa dos vinte com cara de portuguesa. A seu lado a cadeira está ocupada com uma amálgama que denota o cansaço da espera e que parece conter casacos enlaçados em outros géneros de bagagens menores, marcando o lugar de alguém que demora a chegar. Eu vou andando no meu trabalho. O lugar do nosso avião lá fora na placa ainda está vazio, de modo que a espera alonga-se mais um bocado e eu aproveito. Quando chega, não o avião mas o ocupante da cadeira da amálgama, faz-se anunciar largando uns palavrões e gestos bastante capazes de informar com clareza sobre o seu estado de espírito. A rapariga corrobora com a intenção dele de se sentar, e faz espaço na cadeira amanhando com os braços toda a trouxa. Amanhando é uma forma de dizer. Ele, porém, não é bem sentar-se, é mais atirar-se (o meu trabalho ficou esperando neste ponto que eu visse tudo até ao fim e até é possível que de boca aberta), é mais atirar-se, dizíamos, e depois escorregar pela cadeira abaixo para encostar a cabeça na espalda da própria, gesto durante o qual pragueja com a rapariga portuguesa como já se leu acima, sendo portanto ele português também e retomamos.
- Esta tua mania dos voos low cost dá nisto, tu e as tuas manias!!!
A rapariga encolhe os ombros, estala a língua e olha para o outro lado.
- Pá! ‘Tou aqui há 3 horas à espera do teu voo low cost!!! como é que queres que eu me sinta?!
Notemos aqui por favor que está ele e estamos todos. E notemos ainda que de acordo com este indivíduo o mau tempo apenas afeta os voos low cost, aos outros voos não se sabe o que faz.
Ela pega no telemóvel como que para se desligar dele concentrando-se no pequeno visor, mas este indivíduo não está feliz ainda e arranca-lho da mão com um gesto condizente com os impropérios e outras desinteligências já expostas, ri-se agora muito e ela grita dá cá isso! Os detalhes que aqui se expõem não é tanto de eu ser uma linguaruda, é mais de ainda estar de boca aberta a olhar, portanto prossigamos: ele afasta o dispositivo da sua dona esticando o braço para o lado da família seguinte que não levou um tabefe por centímetros e que parece tão admirada com este conteúdo de caráter como eu, mas eis que a nossa rapariga vai e zás!, desfere uma sonora palmada na perna do indivíduo, isto a acompanhar novo dá cá isso!, agora mais alto, a palmada levando tal força que até parece que a mim doeu. E doeu. Mas nem foi a palmada.

29/11/2017

Em que pensas enquanto aspiras a casa?

O avião aterrou no aeroporto de Eindhoven, travou, rolou ainda pela pista fora até quase parar e depois sair normalmente para as vias secundárias que servem de ligação ao estacionamento. Uma senhora entradota na idade abriu o cinto mal pousámos no chão e já está de pé a tentar equilibrar-se por forma a conseguir quem sabe esticar o braço e quem sabe abrir a bagageira e quem sabe tirar a mala, mas o chefe de cabine agarrou no microfone e está a mandá-la sentar! sentar! sentar!, que só depois de pararmos é que se pode! A senhora não mostra ter captado a mensagem, continua de pé a procurar equilíbrio e o chefe de cabine retoma a ordem agora em tom mais alto Hello! Hello!, tudo isto acontecendo bem rápido (a escrever é lento). Como a senhora está a uma distância de braço e meio de mim, estico-me toda de dentro do meu cinto e agarro-lhe o casaco castanho de pelo macio dizendo em português a senhora tem de se sentar, dando até um puxãozinho para baixo ao casaco no sentido de ilustrar a minha mensagem, não fosse ela não entender português apesar de parecer. Aí entendeu e, deixando-se cair no assento com um ai, terá devolvido a paz ao chefe de cabine; o avião a rolar ainda por ali afora.
Vários dias depois, no voo de regresso a Lisboa lá estava a mesma senhora a embarcar com o seu casaco pelo braço, o mesmo pelo macio que eu puxara umas linhas acima para baixo, a senhora tem de se sentar e isto é uma senhora coincidência, ai é. De novo ficámos sentadas à distância de braço e meio, de modo que optei por tomar atenção aquando da aterragem, para verificar da eventual necessidade de me esticar de novo para ela, o resto seguirá como já sabemos. Porém não, desta vez manteve-se sentada, cumpridora até à imobilização do aparelho, tudo certo.

Sobre esta ocorrência, entretanto, passaram muitos dias e eu estava para esquecer completamente esta senhora. Contudo, caminhava hoje de tarde em passo apressado rumando à estação dos correios para ir levantar mais uma carta da autoridade tributária, mais uma, a ver se é desta que sossego na minha vida de contribuinte, etc, e cruzo-me com uma senhora entradota na idade. Isto é cara conhecida, penso eu, mas quem é, quem é, é conhecida mas parece que falta qualquer coisa nesta senhora, virá dos correios, do café ou da farmácia, e é então que se está mesmo a ver que me vai cair a ficha: o casaco! O casaco que trazia hoje é outro.

As escovas do limpa-para-brisas já não são escovas há imenso tempo, são borrachas.

Enquanto percorria toda a segunda circular logo depois de cair a noite, levava as escovas do limpa-para-brisas no modo ativo contínuo. Como são novinhas em folha (e em borracha) desde a semana passada que o carro veio da garagem a brilhar por todo o lado, não fazem barulho nenhum é tzz tzz muito lisinho. Eu estou sempre a tentar escrever uma coisa séria e com jeito e começo a descarrilar num abrir e fechar de olhos, mas vamos na segunda circular, tzz tzz. E levava no carro duas pessoas que tinha acabado de conhecer no evento da tarde. Iam apanhar o comboio para o Porto e iam chamar um táxi que os levasse à estação do comboio, ouvi-lhes eu dizer à saída do auditório. Então ofereci boleia.  
No carro não precisei de puxar assunto eu. Nem tampouco teve a chuva de ajudar oferecendo tema fácil, batendo nos vidros e no tejadilho com aquela energia toda trazida no cair. A minha passageira do lado quis saber de mim, quem sou, o que faço. Contei. Não é tão amiúde assim que sucede alguém perguntar quem és e o que fazes. Mas contei resumido. Ela ainda fez uma ou duas perguntas para preencher detalhes onde eu deixara abertas (pelo visto). Com o discorrer da conversa, acabo dizendo que a gare do Oriente já não está longe.
Mas não pensemos que não veio a vez de eles se apresentarem, veio. São então colegas de trabalho e deslocam-se muito a Lisboa. Informa ela, mais faladora do que ele sentado atrás, que no Porto há menos eventos destes, há menos gente para encher as salas, por vezes os eventos até são cancelados. Admirei-me: como menos gente?... (e depois descarrilei um bocado, não muito) então eu até costumo ouvir no rádio que a ponte do Freixo e a da Arrábida são muito dadas, as duas, a engarrafamentos, cheiinhas cheiinhas que se põem todos os dias, aquilo há de ser muita gente lá no Porto!, e eles não me levam a mal a brincadeira e eis que chegámos à estação do Oriente para não repetir gare, dado que nem sempre sou de repetir as palavras. Então adeus, boa viagem! Deixei-os debaixo da grande cobertura para não apanharem chuva, ocorreu-me logo a seguir que talvez não volte a vê-los nunca mais e rumei para casa, tendo antes passado no supermercado que já está todo enfeitado para o Natal.

26/11/2017

Grande intervalo

Domingo, 23h07, cozinha, cheiro a chocolate dos restos da sobremesa de ontem

A minha filha ainda estuda para o teste de amanhã na mesma mesa em que eu ainda trabalho. E distrai-se. E põe e tira os auriculares dos ouvidos. E mexe no telemóvel e eu ralho e ela diz ó mãe!!! estou a fazer um intervalo!, e eu acho é muito grande o intervalo mas torno ao trabalho e ela aos auriculares e ao telemóvel e então concede um ou dois minutos de atenção ao livro da escola, mas só um ou dois minutos e depois é como se saltasse na cadeira, lança os braços no ar, mexe a boca a fazer que canta uma canção muito alto e abana a cabeça e dança toda na cadeira, braços para a direita e para a esquerda e eis que toca uma guitarra imaginária completamente inclinada para um lado e eu zango-me outra vez e digo ou estudas ou vais para a cama, larga o telefone e para de dançar e ela, muito indignada para mim, suspendendo realmente todo aquele dançar inclina-se para a frente e atira-me com isto:

- Ó mãe!!! Tu também às vezes enquanto trabalhas danças!!! com os pés!!!

Com os pés.



A canção é esta (descobri).