a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

24/08/2016

Uma procissão e eu parece que sou surda

Entro muito devagar no gabinete médico com a mão no flanco esquerdo e a minha filha mais velha a amparar-me com o olhar. Sento-me também devagar na cadeira destinada ao doente. O médico mal me olha, é um homem de cabelos brancos e origem indiana - engraçado eu esperar mais de um homem de origem indiana - e fala-me então muito alto, como se eu fosse tão surda quanto vagarosa. Faz-me perguntas às quais respondo pela terceira vez, se contarmos com a triagem e o telefonema prévio feito de casa, pela minha filha, logo depois da dor que me mordeu o lado esquerdo, mesmo por baixo da nódoa negra obtida há vários dias quando caí dentro de um buraco, mas só metade de mim é que caiu, o resto sei lá como ficou (isto para explicar).

- Vamos ver a sua coluna.
- A minha coluna está bem, é aqui de lado que me dói, doutor.
- Mas se está na ortopedia, é a coluna que vejo.
- Enviaram-me para a ortopedia.
- Não estou a dizer que foi a senhora a tomar a iniciativa, mas temos de ver a coluna, estamos na ortopedia. Faz raio-x e depois vai para a cirurgia geral.

Tudo isto lhe saiu no tal tom de voz para surdos e sem me olhar. Sinto-me uma espécie de porta do "surda que nem uma porta” e penso nos velhinhos que lhe entram no gabinete à velocidade a que eu entrei. Tento apanhar-lhe os olhos com os meus, para ele ver que deste lado está um exemplar da mesma espécie - olá, sou uma pessoa - e que surda tenho a sorte de não ser, nem porta. Noto então a ficha de outra doente em cima da mesa do médico, na qual leio, ao contrário, um nome e uma idade, oitenta e dois anos.

- Essa não é a minha idade. Ainda. – esta foi a estratégia para lhe apanhar os olhos, acordá-lo.
- Esta não é a sua ficha. Ou quer chamar-se Maria das Dores?

Não quero, e apanho-os, aos olhos. Fixo-os. E sem os largar, pergunto-lhe porquê a cirurgia geral. Como eu pretendia, explicou-me então, agora com a voz bem regulada para o meu ouvido, ainda que olhando alternadamente para mim e para o ecrã do computador, e usando de termos técnicos com tudo incluído, o porquê da cirurgia geral. Percebeu? Percebi.

Sala de espera de novo, lentamente.  Raios-x, deite-se, devagar, agora vire-se, com certeza, e agora de pé, já vai, só um bocadinho, encha o peito de ar, expire, não se mexa. E outra vez sala de espera e de novo a ortopedia, o mesmo médico. Não me esqueço de notar que a minha filha acompanhou tudo isto, mãe queres água, mãe deixa ajudar, mãe vem sentar-te. A mais nova ficou de fora, que só podia entrar uma com a doente, eu. Que a voz do médico indiano se mantém regulada para a minha acuidade auditiva, também devemos notar. Não tem fratura, declara, mas vai para a cirurgia geral, há que ver os órgãos internos. Se lhe pedirem raio-x diz que já fez raio-x, não só à coluna, a tudo. Percebeu? Percebi, doutor, lembro-me muito bem que fiz mesmo agora o raio-x, muito obrigada, levanto-me e saio como um caracol.

Outra sala de espera, lentamente. Gabinete cinco. Ao ouvir o meu nome, dirijo-me à porta já se viu como. Está um médico lá dentro, ladeado por uma cortina, bom dia doutor, o doutor não responde. Atrás dele um corredor e do outro lado outra secretária e uma médica que me atira com a voz do mesmo tipo para-surdos, ela também, é para aqui se faz favor! Passo ao lado deste médico da cortina que não diz bom dia facilmente, eu muito devagarinho, desculpe, com licença. Fico junto da médica, em pé no meio do tal corredor, a minha mão no flanco, ela uma bonita mulher, penso, elegante, mas que estranhamente também me supõe surda. Então a queda foi hoje?, atira-me, enquanto olha para o que está a teclar. Não, doutora, não foi hoje, hoje foi o osso a estalar, uma grande dor, expliquei de novo, mesmo crendo que também ela não ia ouvir. Não ouviu (e a surda sou eu), mas viu um grupo de três doentes chineses, isso viu, que andavam atarantados à procura de alguma coisa, com passos pequeninos, aqui por trás de mim, muito chegados uns aos outros os chineses, olhavam para a esquerda e depois para a direita; reconheci-os da sala de espera número quatro.

- Qu’é isto?! Uma procissão?! - a bela médica fala sozinha, que para mim não é, e depois – Eh!!! Não podem estar aqui!! Isto é um gabinete!!! – na mesma voz alta para quem é ou surdo ou surdo. Os chineses exclamaram umas coisas em chinês e fugiram muito juntos.

Ora eu, que já tinha decidido não tentar capturar os olhos desta médica com os meus, doíam-me as costas e estava de pé há muitos minutos ali, de mão no flanco e vontade de me ir embora, fiquei perfeitamente esclarecida: isto é um gabinete. É que a mim parecia mesmo mesmo um corredor.


(lá tive de ceder, recentemente, à subscrição de seguro de saúde privado por não ter direito a médico de família e umas outras coisas, porém faço os possíveis por me servir do serviço nacional de saúde; acredito nos nossos médicos e acredito que é servindo-nos dele que o SNS pode melhorar; mas eu está visto que parece que sou um bocadito surda com a mão no flanco e dores nas costas)

17/08/2016

Flutuando

As coisas, a minha vida, o meu isto. Acordada nas quatro da manhã. Desfeita ou refeita, ainda não sei. Dentro do barco, já não ouço a água chapinhar no casco. Sossegou enquanto a lua grande descia, essa encontrei no deck ao frio desta noite, ao pôr a insónia ao léu. Mas não a meti no bolso. Não tenho aquilo da posse, ao menos.

(e tropeçar no Michel Vaillant que li ao entardecer, abaixo do grasnar dos gansos, admiravelmente bom regressar a Michel Vaillant)

14/08/2016

Post sem glúten

Ainda o verão embrião se sentia, trouxe comigo, de Lisboa, uma batata doce sem glúten. Visivelmente cansada da janela da cozinha, que é exigente em tolerância a raios de sol, a batata doce mirrava devagarinho. Trocava, até fotografei, a sua energia alimentar por uns raminhos de folhinhas nervosas que nela começaram a despontar.

Trouxe-a, então, para a serra e, com cuidados, deitei-a num vaso que tinha a terra seca, ervitas indecisas, pedrinhas ao acaso e um ou outro projeto falhado de teia de aranha. Aliás, agora já em pleno verão crescido, deve notar-se que me admiram as aranhas na sua tenacidade para a produção de teias em dois mil e dezasseis. A roupa seca no estendal em meia hora por estes dias mas, ao apanhá-la, já se podem apreciar entre uma calça e um lencinho uma mão cheia dos fios de fabrico aracnídeo, parece impossível. Por causa disto, ontem tomei duche com duas aranhas a trepar pelos azulejos da casa de banho, em fuga aflita, teto salva-me!, e fingi que não as vi. Mas voltemos à batata doce. Já não me passava pela cabeça comer-lhe a ausência de glúten por causa das suas vontades de germinar assim: as folhinhas até as fotografei, como já disse. Portanto deitei-a no vaso, toma lá uma caminha seca, ficas aí mais de fora que de dentro, a olhar o vale, a ver passar os pássaros, talvez eles gostam de ti. E abandonei-a ali, tornei a Lisboa sem ela. Quando à serra voltei, há dias, tudo praticamente na mesma: os pássaros nada, não lhe quiseram a doçura sem-glúten, a terra seca com coisinhas secas, a batata doce um nadinha mais germinada, é certo, mas só um nadinha e num esforço evidente, uma dificuldade (pareceu-me triste). Uma bela manhã, com licença, vou mas é tratar de ti. Deitei meia saca de terra comprada no supermercado (como se ali não houvesse), terra preta, pesada, cheia, nutritiva, uma pode dizer-se terra-mãe e, com o regador metálico, muito bonito, fiz o que faltava, dei-lhe de beber. Nesse dia e no seguinte e nos outros dias, aguinha pela manhã.

Resultados (garantidos em menos de uma semana): até dá gosto. Embora sem glúten.



03/08/2016

Uma visitazinha aos Alpes

Agora ia um algarvezinho. Uma praiazinha pela manhã, quase ninguém, as gaivotas, o sol a chapinhar na água e a maré magrinha, um cardume de peixinhos não completamente opacos, para lá e para cá o cardumezinho, ai p'ra onde vamos, p'ra onde vamos, aprendizes de tão novinhos serem, aquele espelho no areal interrompido por uma concha ou outra concha e tipo, eu. E as ondazinhas a atirarem-se-me aos pés, faltava este verso ao poema, o mar aos pés meu deus.

Ao invés, estamos, o aspirador e eu, em modo trabalho. Vacuum cleaner não podia ser mais apropriado, lembrei-me. Mesmo que a gente se esqueça do que diz este termo composto, quer dizer, não sei se é composto, mas é um termo duplo, o vacuum está ali para nos ajudar, uu consecutivos com v aspiram mesmo, ó: vuuuu! (e agora ia dizer uma coisa e lembrei-me doutra), c’est l’aspirateur!
A coisa de que me lembrei foi isto, eu com uns vinte anos e tal, no dia de saída do apartamento de uma semana de ski (esqui?) numas montanhas dos Alpes do lado francês, eu precisava de um vacuum cleaner mas francês, que era para deixar o apartamento todo limpinho, regras, portanto desci à receção, como é que se diz aspirador em francês? não deve ser aspirateur…, pensava eu, e então pus-me nisto assim tipo bonjour, j’ai besoin d’une chose pour nettoyer l’apartement, s’il vous plait (e ao mesmo tempo fazia o gesto de quem aspira ali a receção), une machine pour nettoyer… (e chão, como é que se diz chão?…)

- L’aspirateur?! – a senhora da receção, voilá, toda francesa.


Vertendo-nos de novo em dois mil e dezasseis, três de um agosto lisboeta, encontrei esta manhã o aspirador onde o deixei ontem depois de uma tournée incompleta pela casa, aguardando pegar ao trabalho para o terminar, mas isto banhado no sol que do rio já se levantou e depois nele se deitou. Nele, no aspirador. Quase lhe achei os plásticos bonitos, não, achei-lhe mesmo os plásticos bonitos, brilhando, o tubo flexível, com uma graça toda ali, tanto que estaquei mesmo à beira dele, bom dia, a meio do corredor, observando este pedaço de agosto refletido assim, no aspirador, e pensei epá vou escrever isto toda eu já numa poesia (contudo, com tudo de plástico, com tubo de plástico... pronto, pronto). Mas depois foi giro porque, em começando a desfiar, vou parar àquilo dos Alpes para onde te levei também.

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