a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

13/01/2018

Ensaio sobre o fígado (em princípio)

Na pausa do trabalho como um iogurte natural com a granola que a minha filha inventou, fez e me recomenda vivamente com os olhos a brilhar. Enquanto isso, leio uma parte da história de um médico. O médico dirige-se ao leitor e agora o leitor sou eu por isso com licença (leitora, leitora). Diz o médico que eu posso viver sem baço. Ou sem um rim ou sem uma parte da bexiga, mas não percebi que parte é. O que eu não posso, diz o médico do livro, é viver sem o maior órgão interno que é nada mais nada menos que o fígado, o meu próprio fígado! Um órgão tão sossegadinho se comparado com o coração. A bexiga também, mas o médico falou foi do fígado. Eu já não sabia que o maior órgão interno era o fígado. Aliás nunca tinha pensado no meu fígado e portanto decidi pensar agora mesmo nele. Posso dizer por exemplo que o levo para todo o lado prontinho e arrumado. E também que hoje ficou em casa o meu fígado. De manhã ouvimos uma gaivota, sim, uma gaivota, para variar do papagaio, e fomos ao lixo esticar as pernas. No regresso estendemos a roupa que estava à espera na máquina. Não direi que a roupa esperava pelo fígado porque isso não tem beleza nenhuma. E o fígado está inocente, claro, o fígado não sabe. Por exemplo não sabe que estendemos a roupa porque não temos máquina de secar, devido a uma opção estratégica. Que em Lisboa chove apenas em cinquenta e cinco dias por ano, mais dia menos dia. E portanto, no fim, chega. Quer dizer, chegamos. (que bom, que bom)

11/01/2018

K.

Primeiro, ando admirada comigo por admirar tanto uma mulher pela sua superior elegância e também ando há tempos para contar isto no blogue, mas bem. Vejo as fotos dela quando me aparecem entre ecrãs do computador a acompanhar parangonas, a minha mãe é que diz muito parangonas. Que mulher elegante aquela, como nenhuma outra! Segundo, hoje fui à minha última reunião de pais em escolas de filhas – a menos que ainda venha a ter mais algum (bastante perto de impossível).

Chego atrasada uns minutos à reunião e eu detesto tanto chegar atrasada. Entro na sala sem fazer barulho, olho a professora daqui em diante designada DT (diretora de turma) para lhe pedir desculpa pelo atraso mas ela ignora-me totalmente de modo que peço desculpa para o geral. Considero uma falta de respeito chegar atrasada seja ao que for e eu estava a faltar ao respeito, mesmo que sem querer. Andam a fazer uma ciclovia junto à escola, ciclovia essa que tem vindo a comer lugares de estacionamento ao pequeno almoço e a escola foi e optou por combinar as reuniões de pais todas para o mesmo dia, portanto o meu carro ficou estacionado para lá de longe. Mas a reunião desta vez não serviu para nada. Esta nova DT está claramente com pais pelos cabelos, dado o despacho que deu ao encontro, sem um sorriso, sem um calorzinho, sem um tentar saber de que filhos somos nós pais. Apresentou em gráfico de barras a estatística das notas da turma, que não são nada de se deitar fora as notas desta turma, e depois disse mais umas coisas às duas mães que lá se atreveram a levantar questões, embora questões absolutamente vazias (talvez se eu fosse professora também estivesse com pais pelos cabelos, talvez). A reunião terminou mais rápido que sei lá o quê, eu nem devo ter aquecido a cadeira e já me estava a levantar, empatia no zero, mas como eu tinha falhado na minha parte, que era só e apenas chegar a horas, ponho-me quieta no montinho em torno da DT à espera de vez, há sempre um montinho em torno de DTs no final das reuniões, com o intuito de me desculpar pelo atraso referindo vagamente a ciclovia e me apresentar como mãe da Saminhas, visto que ainda não nos conhecíamos a DT e eu. Ela despachou o restante do montinho com o mesmo avio com que fez a reunião e chegando a minha vez ainda perguntou se era rápido, é rápido, eu digo o que já sabemos que vou dizer e é num instante: uns dez, vá, quinze segundos bastaram, após o que ela emite apenas que as ciclovias não servem para nada, nem aqui nem por essa Lisboa fora, as ciclovias são inúteis, ponto. (next!) Desejei-lhe ainda um bom ano (muito rápido) e saí. Há professores e professores, evidentemente. Esta é completamente estéril com pais de alunos. Mas como é uma excelente professora de matemática e é na verdade só isso que interessa, tem direito a post.

Chegámos então ao ponto em que me cabe dizer quem é a tal elegância de mulher, impossível batê-la, sinceramente. Mas como é facílimo de adivinhar para quem estiver para brincadeiras, fica apenas a sua inicial: K.


(e a primeira pessoa que quiser completar o nome aqui em baixo pode escolher o tema do próximo post, sendo eu capaz)

30/12/2017

Um post do tipo leve três pague um (mas sem coiso*)

Agora estou sentada praticamente dentro da lareira, frio não tenho mas é os pés – molhei-os na relva do jardim, relva quer dizer, não é bem relva, é uma espécie de erva que nasce e cresce selvagem com nanoflorzinhas amarelas dispersas e ainda a estas horas para lá das cinco da tarde conserva o orvalho da manhã. Uma poesia, portanto, e porque fui visitar a laranjeira que, vista do terraço, estava a exibir uma laranja no meio da folhagem. A laranjeira, agora vista de perto, é mais baixinha do que eu e dando-lhe uma volta completa não tem uma, não tem duas, mas sim três! laranjas. Têm o tamanho - vá - de morangos de grande calibre, mas são laranjas, daí a cor delas, e são as primeiras! da arvorezinha. Só que molhei os sapatos e meias.

Ontem fiz uma coisa muito interessante que foi deixar o meu computador dentro do avião, tipo esquecido. Só dei por isso uns vinte minutos depois de estar em Lisboa e por muita sorte ainda no aeroporto, de modo que me lancei em corrida estafante para dentro do guichet de lost & found, onde tive de aguardar que a senhora terminasse a chamada com alguém aflito como eu mas a falar algures da Escandinávia, esse alguém tinha optado antes por deixar o telemóvel no avião e eu foi o computador, raios raios. Torci muito as mãos e respirei fundo umas quinhentas vezes (mais ou menos hiperventilei) para conseguir esperar em modo calmo, a pensar que o avião podia muito bem tornar a descolar sabe-se lá para onde e o meu computador ai jesus que o último back-up foi há imenso tempo. Certo, sei, devia bater com a cabeça na parede sobre isto, mas agora a senhora desligou a chamada com a Escandinávia e olhou para mim sorrindo, boa tarde: boa tarde é como quem diz até certo ponto e depois então disse-lhe tudo. Em que lugar estava sentada, lembra-se? Lugar 9A se faz favor. Ela pegou no walkie-talkie e chamou o colega que estava a fazer o meu avião.

Hoje pela manhã encetei um novo estojo de lentes de contacto, a esquerda é sempre a primeira por uma questão de eu ser destra. A direita, ao pô-la, tive umas náuseas de ver tudo tão mal, tão mal, completamente torcido em meu redor, que nem a parede se safou. Penso que estou a ficar maluquinha e retiro a lente de contacto potente do olho direito. Torno a pô-la, a ver que tal. E a ver tudo torcido tornei, parede incluída, uma coisa do tipo Dalí e as náuseas, olá. ‘Tamos mal (não sei se é a idade).

Mas não muito muito porque 1) a lente do olho direito eram afinal duas encaixadas na concavidade uma da outra, oferta de fábrica ou então promoção de natal leve duas pague uma como este post mas este é três, 2) as meias e os sapatos entretanto secaram e 3) o computador tornou à minha mão duas horas e meia depois da cena com o walkie-talkie. Foi cá uma sorte e hoje claro que já fiz dois back-ups.


*Tive uma colega que terminava as frases quase todas coiso, era tão giro. 

21/12/2017

Todos ao léu

Este ano o natal chegou demasiado cedo. Por mim estaria a terminar maio, saindo com vagar o mês das flores, como se ainda pudéssemos evitar um verão desgraçado. É que não estou pronta. Do lado de fora da minha casa, quem olhar vê a silhueta luminosa da árvore de natal que arranquei aos braços em prestações curtas. Nunca antes tinha trabalhado tanto, tantas horas, tantos domingos e sábados, praticamente todos, noites e noites adentro. A publicação menos frequente de posts neste blogue em dois mil e dezassete vem daí. Mas então pode ver quem olhar da rua a luminosa árvore de natal cuja gambiarra de luzes veio da arrecadação a incluir, quando olhei bem, felizmente olhei bem, os fios de cobre junto à ficha que fica na extremidade todos ao léu, desordenadamente surgindo de dentro do isolamento em verde-árvore-de-natal e verde-árvore-de-natal porquê, por causa de camuflar na folhagem de plástico ou polímero especial, isso já não sei. Em vez de comprar uma gambiarra nova fui à loja exígua que também tem tudo o que a gente quiser desde chapas de matrícula até ao mais pequeno dos parafusos não faltando fichas elétricas mas não é chinesa, é portuguesa, onde foi a gambiarra reparada com sabedoria, destreza e substituição de peças. Exclamei inclinada sobre o balcão, mas isso da ficha fazia eu, e eles, não custa nada fica já feito, da minha parte foi só então lá deixar um euro e meio, depois da parte da árvore foi deixar-se iluminar à janela e da parte da janela, quando vista da rua, já disse.

Mesmo assim, o natal ainda não me bateu – e é capaz de não bater. Propriamente.

17/12/2017

Se o mau gosto fosse música

Há uma rotunda debaixo praticamente da ponte vasco da gama que está iluminada de natal por partes: está e não está, está e não está, está e não está. Ou seja, piscando a uma frequência aflita, e mais: o tom das luzes naquele branco de câmara frigorífica onde se pendura o gado já morto (imagine-se). Fez-me também lembrar por que deixei de ir a discotecas – a música do tipo obras na variante tábuas a bater-nos na cabeça muitas vezes e também no corpo todo, por dentro. Mas em luz.

(o bom, porém, foi ter conseguido - até que enfim - escrever poucochinho)