a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

03/08/2016

Uma visitazinha aos Alpes

Agora ia um algarvezinho. Uma praiazinha pela manhã, quase ninguém, as gaivotas, o sol a chapinhar na água e a maré magrinha, um cardume de peixinhos não completamente opacos, para lá e para cá o cardumezinho, ai p'ra onde vamos, p'ra onde vamos, aprendizes de tão novinhos serem, aquele espelho no areal interrompido por uma concha ou outra concha e tipo, eu. E as ondazinhas a atirarem-se-me aos pés, faltava este verso ao poema, o mar aos pés meu deus.

Ao invés, estamos, o aspirador e eu, em modo trabalho. Vacuum cleaner não podia ser mais apropriado, lembrei-me. Mesmo que a gente se esqueça do que diz este termo composto, quer dizer, não sei se é composto, mas é um termo duplo, o vacuum está ali para nos ajudar, uu consecutivos com v aspiram mesmo, ó: vuuuu! (e agora ia dizer uma coisa e lembrei-me doutra), c’est l’aspirateur!
A coisa de que me lembrei foi isto, eu com uns vinte anos e tal, no dia de saída do apartamento de uma semana de ski (esqui?) numas montanhas dos Alpes do lado francês, eu precisava de um vacuum cleaner mas francês, que era para deixar o apartamento todo limpinho, regras, portanto desci à receção, como é que se diz aspirador em francês? não deve ser aspirateur…, pensava eu, e então pus-me nisto assim tipo bonjour, j’ai besoin d’une chose pour nettoyer l’apartement, s’il vous plait (e ao mesmo tempo fazia o gesto de quem aspira ali a receção), une machine pour nettoyer… (e chão, como é que se diz chão?…)

- L’aspirateur?! – a senhora da receção, voilá, toda francesa.


Vertendo-nos de novo em dois mil e dezasseis, três de um agosto lisboeta, encontrei esta manhã o aspirador onde o deixei ontem depois de uma tournée incompleta pela casa, aguardando pegar ao trabalho para o terminar, mas isto banhado no sol que do rio já se levantou e depois nele se deitou. Nele, no aspirador. Quase lhe achei os plásticos bonitos, não, achei-lhe mesmo os plásticos bonitos, brilhando, o tubo flexível, com uma graça toda ali, tanto que estaquei mesmo à beira dele, bom dia, a meio do corredor, observando este pedaço de agosto refletido assim, no aspirador, e pensei epá vou escrever isto toda eu já numa poesia (contudo, com tudo de plástico, com tubo de plástico... pronto, pronto). Mas depois foi giro porque, em começando a desfiar, vou parar àquilo dos Alpes para onde te levei também.

Gostaste?

31/07/2016

hunger games, pior será possível?

Ontem, já o dia se sumia, aliás a noite, para dentro desta data, e fui rematá-lo para a sala de estar assim: acompanhando a minha filha que sobrou de sair num sábado à noite, mas vocês não podem ser amigos de dia? têm de ser amigos com tanta urgência pela noite dentro?  isto sou eu, claro, sim mãe, tu não percebes, à noite é outra coisa, mas ontem, dizia eu, ontem fui então ao sofá, olá sofá, lembras-te de mim? Mãeeee!!! Vens ver televisão???? Fui ver televisão (portanto deixa aqui e agora de ser verdade que eu não vejo televisão). O prato que me foi servido por esta minha filha, que é a mais nova, com todos os cuidados, chama-se hunger games (não leva maiúscula).

Às vezes, quando estou a escrever, o meu coração começa a bater com mais força para me avisar de que aquele caminho não é para ser caminho escrito, andor daqui; foi o que acabou de acontecer, de maneira que fazemos um desvio suave ao tema. Até me recordei nessa altura que conhecia o nome hunger games (não merece maiúscula) do livro que esta minha filha comprou na Feira do ano passado com muito entusiasmo. Na altura, devido ao muito entusiasmo, nutri uma certa simpatia pelo livro. A minha filha leu-o logo nos dias seguintes, mas eu sou mãe que não conhece tudo o que se lê em casa.

Vi o filme até ao fim. Queria ser resgatada à tristeza em que aquilo me estava a enfiar, toda aquela ausência de vida, de alegria, de cor, ó meu amor… ó mãe, eu mudo... Nem a tecnologia simulada que ali se põe me veio buscar. Mas eu quero ver o que é isto que captura tanto a minha filha, pelo visto as duas, e mais do que uma vez, eu já vi este filme imensas vezes, mãe, posso pôr outro, só faltou talvez perguntar-me se eu queria o Música no Coração (aqui maiúsculas, evidentemente). Tentei tomar diferentes perspetivas, abrir a mente a novas ideias, rebusquei nas minhas bases de dados mais abertas, possivelmente desatualizadas mas de boa serventia para muito assunto, e vá que encontro uma perspetiva ali no chão, agarrada ao tapete: isto na verdade é uma sátira à vida real – lembrando-me de cenas também cá minhas (não posso é dizer quais). E até vi uma outra: filha, isto não se assemelha ao big brother, aquela coisa patética do big brother, em que as pessoas vão sendo mandadas fora de uma casa onde estão como animais sem privacidade e no fim sobra um?... Mãe, eu ponho outra coisa…

Dormi mal. Acordei a meio do sono ainda imbuída de toda aquela ausência de vida, aquele cheiro intenso a morte como se de uma brincadeira se tratasse, uma violenta miséria humana levada ao extremo, a subtração de toda a liberdade, uma descomunal estupidez.

Eu não percebi. Haverá por aí outras perspetivas, se faz favor?

(perdoo melhor, mesmo assim, a ganância que se sobrepôs a interesses maiores, durante décadas, na construção civil, da qual resultaram hordas de prédios horrendos e mal metidos por todo o lado, e sobretudo mal construídos - que eu bem oiço os meus vizinhos)

26/07/2016

Manjericão no chá e depois uns pokemones vivos

Estou incapaz de escrever por mim. Se tentar, purgarei que não aguento mais trabalhar sem parar, nem parece verdade isto, trabalhar sem parar, e direi que tenho vontade de vomitar, perdão. Então vou e sento-me numa cadeira ao sol, fecho os olhos para a luz intensa e quente e fico apenas a tentar existir. Consigo, porque mudo de ideias. Em vez de vomitar, perdão, tenho vontade de chorar. Mas levanto-me, arrumo a cadeira dentro de casa; a cadeira é leve, se bem que hoje pesa mais. Faço um chá para continuar a aquecer depois do sol, é chá de laranja e gengibre e eu já não gosto de gengibre, corto duas folhas de manjericão para dentro do chá. Ficam os pedaços verdes a boiar e dão ali aroma, aspiro. Mas não sabor. Volto a sentar-me ao trabalho. Para dissipar a vontade de chorar, deito-a pela janela e o jardim oferece-me um gato desconhecido. O gato caça uma coisa. Deve ser pokemones vivos a coisa e eu não sei escrever pokemones nem me interessa escrever pokemones. Filmei detrás do vidro, mal.

Enquanto visualizo o filminho do gato e penso vagamente que tenho um blogue às moscas, esqueço-me do manjericão e levo a chávena de chá à boca sem pensar. Sinto um pedaço de folha e penso num ápice que é uma das moscas no chá, dou um grito. Estou mesmo parvinha.


(acho que era uma rãzinha, um pokemon rãzinha)

22/07/2016

Uma ideia magnífica e outros contos (pequeninos, para variar)

Ontem de manhã, no caminho para o trabalho, apeteceu-me ser polícia. Foi na rotunda junto ao rio, de onde lhe admiro as águas com cuidado porque vou a conduzir o meu carro todo sujo, que ontem quis ser polícia. Um outro condutor que ia ali teve uma ideia estupenda que foi fazer uma marchazinha atrás em plena rotunda; se nas rotundas circulamos todos no mesmo sentido é por motivos no geral muito bons, mas aquele condutor teve a tal ideia magnífica, aparentemente porque tinha deixado passar a saída que pretendia. Está bem que o rio distrai se a gente não tiver os cuidados no máximo, eu compreendo isso do brilho da manhã e da poesia não sei quê, mas uma rotunda é configurada especialmente para toda a gente dar mais uma voltinha ou muitas se quiser, portanto eu ter-lhe-ia tirado a carta de condução ali mesmo e antes de tornar a pestanejar. Mas não sem lhe sugerir a aquisição de um burrico ou jerico que sempre combina com asno ou jumento. Andam devagar e dão a volta em qualquer lugar, não sei se estamos a ver a ideia, senhor condutor. Claro que a sinfonia de buzinadelas foi tipo das grandes e pelo retrovisor chegaram-me umas travagens que aquilo sim foram umas travagens, porém a destreza dos restantes não deixou escangalhar-se o mundo, ninguém bateu.

Para adiantar trabalho, já me despedi da chávena de café que me deu de beber durante pelo menos dez anos, está na mesma, ela, nem se percebe que poupou o meio ambiente em milhares de copos de plástico, mas adeus.

Hoje vi televisão, normalmente apenas oiço enquanto faço o jantar, mas hoje também vi enquanto faço o jantar, era a entrevista ao treinador Fernando Santos que me fez ficar em pé no meio da cozinha a ouvir a ouvir a ouvir. E a ver. Eu que para ver televisão ou vai a seleção a jogar ou têm de me amarrar.

Para eu não rimar.


(e por me terem dito que apreciavam os meus posts assim às postas, hoje deu-me p’ra isto – as reclamações são para aqui se fazem favor)

20/07/2016

Um post frio no calor

Há anos que nos escrevemos. Nunca nos vimos, nem sequer por fotografia, nem isso passou pela cabeça de qualquer de nós. Julgo-a mulher, mas podia ser homem, visto daqui é igual e o seu nome escrito não esclarece. São natais e natais de votos trocados, e anos novos com desejos de prosperidade para lá e para cá, cedo esquecidos, e anos do dragão e anos chineses também, anualmente lá vem um de cada. Julgo que é mulher, mas escrevemo-nos como máquinas e fazemos comércio de máquinas, eu a comprar, ela a vender. Se uma das máquinas precisa de alguma coisa, preciso de alguma coisa, eu peço, ela primeiro diz que não, essa já não, tem outra para vender mas eu não compro e quem ganha sou eu, tenho de ser eu, e logo vem um natal ou vem o ano do dragão, lá se refrescam os votos, a frio os recebo, a frio os envio. Há anos que nos escrevemos. Não há, nunca houve, um traço de emoção, nem das boas nem das más, é um continuado todo, de metal e de plástico, as máquinas e nós, ela e eu robots.

Ontem, antes dos cordiais cumprimentos na língua do costume, escrevi-lhe um já agora informo que em breve não nos escreveremos mais, eu vou sair deste percurso, apanhar outro, o nome que fica tenha a bondade de ver abaixo, cordialmente se fizer favor com licença e atenciosamente cumprimentos sinceros, o costume.

Mas a resposta voou em menos de um minuto, se me vou reformar, vai retirar-se para o seu doce lar? e se a minha filha, não sei como deixei escapar uma filha, que mau robot fui um dia, para além de ter ficado pela metade, e está crescida a sua filha?, que ela tem um menino e o menino já vai com cinco anos ha ha. Ha ha vinha a seguir ao menino, agora tenho a certeza, é mulher. Uma fissura no frio das máquinas, uma nesga com gente sendo gente, ela desliga o robot, eu, perplexa, desligo também o meu.

Que não me vou reformar, ainda está muito cedo para me retirar ao meu doce lar, mas não usei o doce, que doçuras é aqui para nós, em que há calor e energia humana, há isto que é tão bom. E que tenho duas, corrigi, duas filhas, não uma. Sim, crescidas, ambas, hesitei mas acrescentei as idades, se calhar já vou longe demais na fissura. Porém ainda deixo soltar a minha curiosidade ocidental, nada ancestral, pelos dedos fora: e pode ter um segundo filho, ou a lei do filho único ainda se mantém?

A resposta não veio num outro minuto, aliás ainda não veio.

(há muitos anos, antes de eu ter filhas, esteve um cidadão chinês, professor catedrático, a trabalhar junto de mim por um tempo longo; um dia recebo uma chamada telefónica da embaixada da China em Portugal, querendo saber se o cidadão comparecia ao trabalho, se estava tudo como previsto... confirmei, sim, estava tudo como previsto, era um cidadão exemplar; ficámos amigos mas só até ele regressar ao seu país, de lá mandou dizer que eu já não podia escrever-lhe mais, amizades não eram autorizadas pelas instâncias superiores - ele já tinha a filha permitida por lei e o seu sonho, não me esquecerei, era um dia poder ir ao parque com ela que, desde que ela nascera, seis anos antes, não tinha tido um dia livre: trabalhava sete dias por semana desde cedo até à meia noite, sempre)