a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

10/06/2015

Pó, cinza e recordações (com notas de tremura)

Começa mais uma tarde a cair, mas nesta já não há desculpa. É feriado, dia de Portugal, portanto tenho mesmo de contar.

(começa o rodeio)

Bem sei que a poesia não se deixa apanhar por mim. Enquanto a persigo com marcha insistente, porém desajeitada e grosseira, lembrando patas de elefante, dedico-me esta manhã a compor uma jarra de flores que fui apanhar, quer dizer, roubar, depois de saltar por cima de uma lagartixa que se atravessou no meu caminho. Olha uma lagartixa foi tudo o que me saiu, assim, de tesoura na mão. Com lagartixas não temos problemas, mas lembro-me que não conheço nenhum poema que as mencione. As flores apanho-as com as mãos trémulas porque não tenho jeito para roubar, mas a casa que possui a fachada junto à qual elas vivem, não tem ninguém há muito tempo. Mesmo com uma desculpa tão boa, a composição florida, depois de pronta, vê-se bem que não obedeceu às minhas melhores intenções.


(fim do rodeio)

Entrámos no recinto da Feira do Livro já lá vão quatro tardes e quase todas quentes. Ele ainda não tinha chegado, mas eu posicionei-me imediata e estrategicamente junto à mesa com pilhas de livros no meio das quais a fotografia de rosto sorridente me diz que é ali mesmo. Espero por este momento há um tempo considerável e portanto estou ligeiramente ansiosa. Daqui já não saio.

(Erik afasta-se para ir comprar garrafas de água, a minha filha também desaparece, vai procurar um livro lá dela)

 Também está à espera dele? – meto conversa com a senhora que já ali está, sentada ao lado de um saco que promete o conteúdo.

- Também. Adoro a escrita dele. Hoje trago estes - e abre o saco para me mostrar que são vários os que traz - mas amanhã volto cá com o resto, não podia carregar os livros todos de uma vez, tenho nove.

Gosto de pessoas que gostam de outras. E que vêm dois dias seguidos à feira para ter os livros todos autografados. Portanto continuo a alimentar a conversa com esta senhora, que passou por me dizer que é transmontana - como ele - e que viveu no Brasil - como ele.

- Temos estes dois pontos em comum - e sorri orgulhosa.

Das duas, não sei qual está mais ansiosa, mas quem o vê chegar sou eu.

- Ele já chegou, está ali - e aponto discretamente para o abraço do Francisco José Viegas no qual ele quase desaparece.

(Erik chega com três garrafas de água na mão, declarando que um euro é muito barato por uma garrafa de água destas num sítio destes, um euro é no money)

Deixo os minutos de privacidade entre ele e a transmontana dos nove livros e avanço já para o momento em que me sento à sua frente. Apertamos as mãos.

- Eu ainda estou a tremer, é da viagem, são muitos quilómetros desde Trás-os-Montes, sabe - sorri-me e pergunta - Qual é o nome?

Digo o meu nome e também estou a tremer, mesmo sem viagem, mas ele

- Não tem Maria, antes ou depois, é nome sem Maria?

- Sem Maria, não sou Maria.

E, de repente, olha-me de novo e sai isto:

- Tem um blogue, não tem?

- Tenho...

- Não me diga qual é, eu sei, espere.... ai, diga lá a primeira letra...

Eu disse as primeiras letras e ele disse o resto. O grande José Rentes de Carvalho lê este blogue e deu-me uma enorme alegria ao dizer-mo.

Quando me despedi dele, não tinha vontade de sair dali: o carinho com que me tratou trago-o guardado no coração (para a próxima, levo os livros todos).

(Pó, Cinza e Recordações, o livro que acaba de ser autografado alguns parágrafos acima e sem Maria no nome, foi escrito entre Maio de 1999 e Maio de 2000, em forma de diário. Neste período nasceu a minha segunda filha, a que foi acima referida. Já na estação de metro, no regresso a casa, dei-lhe a ler o texto do dia do seu nascimento. Quando lhe estendi o livro aberto, ainda tinha as mãos a tremer.)

24 comentários:

  1. Até eu fiquei a tremer de comoção.
    Que bonito, Susana! -- a sem Maria. (;

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    1. Obrigada, Carla. Foi, realmente, um momento dourado para mim. :-)

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  2. Comunicação

    Pequena lagartixa branca,
    ó noiva brusca dos ladrilhos!
    sobe à minha mesa, descansa,
    debruça-te em meus calmos livros.

    Ouve comigo a voz dos poetas
    que agora não dizem mais nada,
    – e diziam coisas tão belas! –
    ó ídolo de cinza e prata!

    Ó breve deusa de silêncio
    que na face da noite corres
    como a dor pelo pensamento,
    – e sozinha miras e foges.

    Pequena lagartixa – vinda
    qara quê? – pousa em mim teus olhos.
    Quero contemplar tua vida,
    a repetição dos teus mortos.

    Como os poetas que já cantaram,
    e que já ninguém mais escuta,
    eu sou também a sombra vaga
    de alguma interminável música.

    Pára em meu coração deserto!
    Deixa que te ame, ó alheia, ó esquiva...
    Sobre a torrente do universo,
    nas pontes frágeis da poesia.

    Cecília Meireles

    Presumo que Cecília Meireles não tenha conhecido Rentes de Carvalho. Sorte a tua que com ele conversaste e tiveste um extraordinário retorno sobre a tua escrita.

    Beijos, Susana. :)

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    1. Querida Maria, muito obrigada por esse presente. Um poema sobre lagartixas é coisa para mim, sem dúvida. :-) Adorei.

      Foi um privilégio apertar a mão a tão admirável senhor.

      Beijos, Maria. :-)

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  3. Querida Susana,
    Há escritores "à séria".
    Um beijo,
    Outro Ente.

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    1. Querido Outro Ente, pois há. E por vezes também há sortudos "à séria", como eu. :-)
      Outro beijo.

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  4. Eu também tremeria. Maravilha, mesmo com rodeios. :)

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  5. Tão bom Susana! Sei que não me vais achar disparatada por dizer que estou aqui mesmo feliz por ti, por teres tido esse momento, desde que te leio que sei o quanto admiras JRC, já o disseste várias vezes.

    "Bem sei que a poesia não se deixa apanhar por mim". Lamento desiludir-te, porque acho que, de certa forma, diverte-te andar a brincar à apanhada com a poesia, convencida que nunca a apanhas. Pois fica sabendo que, não raras vezes, o que aqui escreves é poesia, lamento mesmo ter de te dizer isto, mas, já a apanhaste Susana, embora não saibas.
    Beijinhos Susana e que o resto da semana continue cheia de bons momentos.

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    1. Eu nunca te acho disparatada, Cláudia. Tenho, até, muito respeito por ti e pela tua pureza de ser. É de pessoas assim que mais gosto.
      E quanto à poesia, bem, é certo que alguma já apanhei, mas ainda tenho muito que correr.
      Muito obrigada pelas tuas palavras e pelo teu carinho.
      Uma semana cheia de poesia é o que te desejo. :-)

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  6. Querida Susana, que maravilha, não é que eu começo quase sempre a ler os diários assim, por dias que me foram muito especiais... lá dizia Freud, "não há coincidências" e se ele sabia que em todos os prosadores há um coração de poeta adormecido! Não esperaria outra coisa de Rentes de Carvalho.

    E agora uma dica para hortências (roubadas), que não se querem murchas: dar-lhes uma chuveirada de cabeça para baixo, sacudi-las depois e colocá-las na jarra com água fresca até ao pescoço, um quase afogamento. Depois ir acrescentando sempre água fresca para manter o nível; mantêm-se lindas e frescas pelo menos até ao próximo "roubo"...
    Beijinhos Susana.

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    1. Muito obrigada, querida Teresa.
      Hoje de manhã, como choveu, elas apanharam uma chuveirada das nuvens e estavam viçosas que nem pareciam as mesmas. :-) Confirma-se, então, o teu método de afogamento. :-)
      Beijinhos de volta.

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  7. As mãos a tremer e o coração a bater em desalinhados sobressaltos... Também eu transbordaria emoções por todos os poros. Que privilégio, querida Susana!

    Um beijinho

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    1. Um privilégio, mesmo. :-) Ele é muito querido (nas palavras da minha filha: também fofinho).
      Um beijinho, querida Miss Smile.

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  8. Que coisa tão boa!!! Tem bom gosto, o senhor.

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    1. Minha querida Cuca... que comentário.

      Muito obrigada.

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  9. Uau!!!! :) Que emoção que deve ter sido!!! :) Que sonho! :)
    Fiquei muito feliz por si! :)
    Bom fim de semana e boas leituras! :)

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    1. Obrigada, Luísa. Tenho pena que não possa estar aqui nestes dias da Feira, é quase injusto para si (mas bem, uma noite de fado em Buenos Aires também não é para todos! :-))
      Bom fim de semana também para si e boa continuação de leituras.

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    2. :) É verdade, mas não trocava isso pela Feira do Livro de Lisboa, só nestas trocas obrigadas!!:P
      Boas leituras!:)

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  10. São acasos felizes que nos deixam a sorrir Susana :)
    Beijos

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  11. Mas acabo de ver que ele encerrou o blogue.... e agora não consigo sorrir durante um bocado. Uma pessoa habitua-se a ler os blogues de que gosta, durante anos, o Tempo Contado leio desde 2010, e depois custa, sente-se a falta...
    Beijos para ti também, querida Just (dos mais simples, :-))

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