a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

27/06/2015

Queres casar comigo?

Noto que hoje a cautela que transporto voluntariamente ao atravessar o terraço (tanto sol já me fez estender três máquinas de roupa, mas isto não se deve levar à letra), está aumentada, inchou, inchou. Sei que estas facilidades se devem à dose de alegria extra que trouxe no coração, ontem, de Lisboa. Desvio-me toda a manhã, com sucesso, das formigas que galopam, levam graça e muita pressa de chegar ao último ladrilho, depois atiram-se escada de pedra abaixo sem morrer.

Ontem à noite, ia a meia-lua alta, vem o meu coração tão cheio nas medidas e o carro a subir a serra serpenteando à vontade da estrada estreita e também deserta se não contarmos com as luzes máximas dos faróis e mais três coisas, ai ai.

Que coisas?

É a seguir a uma curva que sai o primeiro disparado do lado direito, a correr, a correr, e só pára na berma esquerda, o carro faço parar também, junto com a minha respiração, e ficamos a olhar um para o outro, coisa rica que está ali (queres casar comigo?). Mas não me mexi e ele escondeu-se nas ervas, as parvalhonas.

A lua não teve tempo de fazer nadinha e, do mesmo lado direito, sai lançado outro, também vou, também vou, pernas para que vos quero e enfiou-se com o primeiro nas mesmas ervas que os querem todos, as invejosas (não podem ver nada).

Esperem por mim, esperem por mim, corre veloz o terceiro corpinho jovem todo malhado, castanho, coisa mais linda aqui da mamã que continua sem respirar e assim se manteve mais alguns minutos, nos quais se tornou a instalar o deserto, as ervas não mais deixaram ver o meu tesouro.

As três crias de javali a fazerem-me transbordar o coração de alegria e eu não sei o que fiz para merecer isto.

Portanto toda a manhã a estender roupa e nem um pontapezinho de nada, inadvertido, no jogging das formigas.

10 comentários:

  1. Susana, não sabes como é bom encontrar pessoas que se preocupam em não perturbar as formigas e deixá-las lá sossegadas na vida delas. É que eu faço isso e recebo em troca uns abanares de cabeça com sorrisos a acompanhar e ainda duas palavras, "só tu". Está claro, que crias de javali também seriam coisa para me fazer transbordar o coração.
    Na sequência de ter lido o teu post anterior, também não tenho Facebook, no meu caso é mesmo uma teimosia, é coisa que não quero mesmo ter. E lembrei-me disto, quem não tem Facebook, mas tem um blog, terá um Insidebook? gosto da ideia de Insidebook.
    Ah! peço desculpa, mas não quero casar contigo (eh!eh!eh!). Agora ser tua amiga, quero sim, mesmo que a distância.
    Beijinhos, Susana e um bom fim de semana.

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    1. Agora já podes dizer que não és 'só tu' a ter cuidado com as formigas, talvez por isso as crias de javali tenham escolhido atravessar a estrada à minha frente e não à frente de matadores de formigas. :-)
      Inside book é uma ideia brilhante. Tu também tens o teu e é um inside book muito luminoso.
      Só não percebi por que razão não queres casar comigo... :-)
      Beijos, Cláudia, e bom domingo.

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    1. Teresa, se fôr destas ficas logo cheia com uma, são gigantes. :-)

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  3. (!!! Hoje vi uma lebre/coelho e lembrei-me deste post :)

    Beijinho

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    1. E eu o que gosto que tenhas cá vindo dizer isso, querida G!

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  4. Se de tão quieta criasse raízes, a simbiose seria perfeita.
    A natureza é bela, alegre e pura.
    Beijinhos, Susaninha.

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    1. A natureza é maravilhosa, sim, perfeita. E nós, fazendo uma parte tão especial dela, também somos seres maravilhosos. Quando queremos.
      Beijos, querida M D.

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  5. Essas ervas, onde se esconderam, são mesmo parvalhonas, tal como as folhas das árvores onde se escondem as aves e me deixam irrequieta por só ouvi-las e não conseguir avistá-las. :)

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    1. As aves acho que ainda é pior. Nunca sossegam e nós a querer ver-lhes a penas em detalhe, tão lindas são. Temos de nos contentar com o seu canto, que já não é pouco.
      Quanto aos javalis, enquanto não aprendem a cantar bem podiam mostrar-se mais um bocadinho à gente. :-)

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