a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

01/07/2026

Notícias jardineiras

Deitava-se a noite sobre a serra, vencendo lentamente os laivos vermelhos de céu, quando estacionei o carro debaixo da buganvília. 
Dois dias na capital e o jardim continuou a medrar, mostrando-me os progressos sob a iluminação elétrica: as maçãs começaram a cair, as peras já quase me enchem a mão, as rosas continuam a abrir. E a figueirinha que plantámos o ano passado, também não ficou a preguiçar: notoriamente mais crescidos, estão os figos. Ambos. 

Metro, poesia e francês mas não muito

No interior das carruagens do metro de Lisboa estão afixados cartazes com poemas escolhidos pelos trabalhadores. Os seus nomes aparecem junto ao nome do autor do poema.
Ora a pessoa que teve esta genial ideia devia ser escolhida para governar um país. Tipo este, que é maneirinho. 
Numa tarde a anunciar dias tórridos no horizonte, com o peso da mochila a comprimir-me os discos vertebrais para não dizer os miolos e os sapatos novos a trincarem-me os pés, saí feliz da carruagem salpicada por dentro com poesia.
Subi as escadas, passei numa das gates de saída, arrumei o cartão sem deixar cair nada ao chão imundo e dirigi-me com a recém adquirida felicidade poética ao quiosque do café, motivada por intenções indefinidas. Olhei a pequena montra e fui logo apanhada: pedi um croissant com queijo. Afinal, tinha mais de meia hora até ao comboio para Coimbra e quatro bolachas num pacotinho tristonho dentro da mala. Quando o rapaz da caixa me entregou o recibo de pagamento, deu-me para lhe dizer Merci. Então ele olhou-me a sorrir e respondeu com uma pergunta: como se diz "de nada" em francês?
Je vous en prie, respondi. 
Je vous en prie, repetiu ele. 
Fiquei imediatamente ainda mais feliz e por isso tinha de vir logo contar a vossemecês, não tinha?