A jovem sentada à minha frente no comboio come uma salada de cuscuz e húmus de uma caixa de plástico. Por talher usa uma colher que na outra extremidade é um garfo o qual, por sua vez, num dos dentes externos tem uma serrilha portanto é também uma faquinha. Intercala cada colherada-garfada-facada com mensagens que digita no telemóvel. Da última vez que o pousou para comer mais uma (colherada-garfada-facada) vislumbrei o ecrã com as mensagens trocadas no WhatsApp. A jovem da salada de cuscuz e húmus acabou de receber uma linha de emojis em forma de corações duplos.
O comboio ainda está parado na estação de partida, faltam três minutos. Pela janela, vejo um homem de tez muito morena carregando um saco de compras bastante usado. Dentro, vai pondo garrafas de plástico vazias que retira do caixote próprio para separação do lixo ali disposto e muito sujo. Para isso, enfia um braço inteiro dentro do caixote - já deve estar a apanhar as garrafas do fundo.
Conclusão, não foi este homem quem enviou à rapariga sentada à minha frente a linha de corações duplos. Ai não foi, não.
Sem comentários:
Enviar um comentário