a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

30/09/2026

Do coração

Vinha embalada dentro da chuva inaugural, já toda outonal, na aproximação a Lisboa. Quando me faço assim à cidade onde nasci há imenso tempo a partir da A1, essa obra de engenharia sem bermas no troço final, experimento o sobressalto causado pela beleza dos cartazes espaçosos (com área suficiente para duas boas assoalhadas, pena não darem muito jeito na vertical) que ladeiam a via, informando sobre vinhos, carnes fumadas, stands de automóveis, materiais para a nossa casa. Cartazes que, na sua triste maioria, estão com a própria área à venda, prontos para fresquíssimos momentos publicitários por preencher, exibindo números de telefones gigantes. 
Mas adiante. Vinha eu pois embalada, imbuída de toda esta beleza em quantidade industrial a encher-me as medidas ali muito (ainda que a noite ocultasse a cena um bocado), na velocidade estabelecida em cento e oito quilómetros por hora e na via da direita como manda a lei, que eu nisso faço os possíveis devido ao amor extremo à vida, quando os meus olhos batem no veículo à frente, circulando sem luzes, aliás quase sem circular, parecendo mesmo parado, a aproximar-se muito rapidamente, na sua desiluminada traseira, de mim. O meu coração saltou completamente, o pé enterrou-se todo no travão e os pneus fizeram o generoso serviço de friccionar no asfalto com eficiência. Não colidi. 
Mas quase tive um ataque cardíaco.
Portanto, queridos e afoitos colegas de estrada, ao decidirmos ir passear no carrinho, não optemos por circular a setenta à hora numa autoestrada sem bermas, o nosso carrinho sem luzes, aquelas na parte de trás que servem para assinalar a nossa presença, sabem, em tom encarnadinho, não optemos por fazer isso numa noite de chuva inaugural, já toda outonal, não? Obrigadíssima, a sério, do coração.

24/09/2026

Na plataforma

Se a voz emitida pelos altifalantes da estação de comboios, a voz que repetidamente anuncia atrasos na linha 2, na linha 6, na oito, se essa voz em vez de agradecemos a vossa compreensão pelos incómodos causados, dissesse solicitamos a vossa indulgência pelos atrasos causados, ninguém ia reparar.
Talvez só um menino de sete anos, um menino sossegado que observasse em redor, com a mãozinha agarrada pela de sua mãe, talvez só ele perguntasse, ó mãe o que é indulgência.

08/09/2026

Olá, setembro

A insónia rendeu bem esta noite. Apanhou-me na curva das três para as quatro, aquela horinha em que adormecer está quieto. Então já que é assim levantei-me. O quarto estava quente, as pedras da parede a largarem o calorzinho que lhes ofereceu a tarde.  Mesmo assim, embrulhei-me no robe. Desci as escadas com cuidado, não fosse um pé escorregar-me para fora do chinelo no escuro.
Para suavizar os estalidos metálicos que assustam o silêncio, abri devagar a porta que dá para o terraço. Na névoa fresca da noite, imobilizei o corpo a escutar o breu.
A insónia rendeu bem esta noite. De longe, chega-me através da humidade do ar, projetado pelas entranhas do cio, o uivo de um veado macho. A brama já começou.

03/09/2026

Peço batatinhas

Trouxe umas folhas do trabalho para ler no caminho, um livro de poesia farto de estar em casa e outro livro mais cheinho para encetar.
Depois fiquei um bocado coisa, talvez os meus olhos cansados ou a cabeça com ganas de almofada. Portanto puxei de um suspiro fundo, com restos dos frutos secos da tarde, e fiz-me ao telelé (já ninguém diz telelé). Encaminhei-me para os fundos do blog e estacionei nas estatísticas com risos. Há que tempos que não visitava esta cave mofenta. O que para ali vai!
Então temos visitas do Bangladesh neste restinho de internet? Milhares de gente nos estados desunidos a cá vir por dia? Para não falar nas paletes de europeus de várias cores e sei lá mais o quê que agora não me lembro.
Enfim. (Está-me a cheirar a vinho aqui no comboio, vinha a tentar disfarçar mas claro que vou no comboio, vou sempre no comboio, é no comboio que há tempo para os extras de origem).
A noite a cair deslizando na horizontal ali fora e a vontade de comer batatas fritas de pacote (trazida de Lisboa) inteirinha da silva. Mas não posso, já basta de gordices. 
Apetecia-me ser mais alta, mais magra e mais inteligente.
Mas daqui a pouco já passa.