a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

17/03/2015

Cadeiras de conversar

Eram onze horas quando me apercebi de que estava com saudades da minha mãe, já não falamos há séculos. Interrompi o relatório, levantei-me da secretária, fui à copa e, enquanto o café corria e depois o bebi, telefonei-lhe. Contou-me logo umas sete coisas diferentes de vários outros membros da família, ai filha não te quero empatar, como foi o teu fim de semana, sabes a Ana e o Tiago estão em Florença, os miúdos sozinhos, dois homens e meio e um cão, depois ri-se da graça dela, a minha mãe às vezes tem graça, dois homens e meio e um cão, e duas tartarugas acrescentei eu, de maneira que depois de desligar convidei os dois homens e meio que são os meus sobrinhos para jantar. Isto fez o meu dia, que passou a ser feliz (nunca me sinto feliz no trabalho).

Mas agora os dois homens e meio já foram para casa, o mais velho já leva o Qashqai e eu está-me a parecer que não sei escrever Qashqai, as miúdas foram dormir, mãe levas-me amanhã à escola, levo filha, arruma os sapatos, dorme bem, retomo o silêncio que tinha despido ao chegar a casa, é um fato inteiro que preciso de vestir todos os dias, o silêncio, adapta-se a qualquer estação do ano, serve-me tão bem, às vezes põe-me à frente de um livro mas hoje sentou-me aqui. E deixa-me ouvir o tique taque do relógio que a minha filha me ofereceu, que está em cima da mesa e que marca dez horas e quarenta e quatro. É cedo.

Tão cedo que, se ainda estivesses aqui, sentávamo-nos nas cadeiras de conversar e ficávamos até às quatro da madrugada a tecer os encantos da vida e a arrumar os medos no lugar, a ordenar as coisas importantes e a rirmo-nos das parvas, fumavas o teu cigarro, até fumavas muitos, contavas histórias da tua infância, eu bebia as palavras saídas quentes dessa tua voz que ainda sei ouvir, dobrava-as para as meter nas gavetas dos assuntos, às palavras, que dobradas cabiam mais. E foi naquela vez em que eu ia ter exame oral no dia seguinte, tinha que defender ou subir a nota, e eu até a queria subir, nunca te contei, conto agora, não a subi mas consegui mantê-la, porque na conversa que tivemos até às quatro da madrugada disseste lá pelo meio, na tua voz que me parecia música, disseste com palavras que arrumei no baú dos tesouros, disseste que eu sou uma boa ouvinte, Pai.

(Se não fosse ter lido isto há dois dias, não me tinha sentado agora com a memória do meu pai nas cadeiras de conversar. Obrigada, Uva.)

4 comentários:

  1. Ternura(s).

    Abraço apertado, Susana. :)

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    1. Obrigada, Maria.

      Um abraço dos grandes de volta. :-)

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  2. Abraço Susan! As cadeiras de conversar é delicioso. Olha deixa-me despachar que são 7.30h e hoje chove. Caramba.

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    1. Inspiraste-me, Uva. :-)

      Conversar é realmente das melhores coisas da vida. E parece fácil, não parece?

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