a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

30/12/2020

Policultura (ao contrário dos eucaliptos)

De um lado, homens racham lenha, mulheres deitam galinhas mortas à panela e temperam. Do outro, homens ajustam o nó da gravata entretanto imaginária à sexta-feira, mulheres preparam refeições rápidas fotografadas para envio imediato. De um lado é assim, do outro também é semelhante ao contrário.
Separam-nos o oidio do pessegueiro, a colheita do leite para queijo ou tuitadas viajando indiferentes, novidades criadas urgentemente em achetague. Polarizados por dores nos joelhos e joanetes queixosos ou falta de laiques e abundante intolerância, estendem-se entre eles por exemplo cem quilómetros ou cem metros, de profundidade ou à superfície.

(A vizinha inglesa que está furiosa com o mundo não sai de casa. Nem ela nem os seus filhos.)

19/12/2020

Mondkapje

Tampinha da boca é, traduzindo para português em direto, o nome que os holandeses dão à máscara facial contra o vírus. Acho que é por isso que andam muitos com o nariz de fora dela. Tampinha da boca é tampinha da boca, daí o nome. No stand de automóveis, por exemplo, pode notar-se a milhas terrestres que nós portugueses levamos mais uns meses efetivos de experiência profissional no uso adequado do acessório indispensável, que é como quem diz, temos bem metidos os narizes onde eles são chamados. Assim reconheceu o funcionário que veio falar connosco, ostentando na sua tampinha a insígnia da marca automóvel aplicável em redor. "Em Portugal o vírus não se espalhou tanto, tomaram lá medidas mais eficazes", diz, olhando a partir do longe obrigatório para mim. Eu confirmei com um aceno de cabeça para o caso de não se perceber o sorriso escondido até ao nariz, claro está. É próprio deste povo reconhecer as coisas como elas são; sobranceria ou gabarolices tomadas às colheres não se encontram com facilidade. É pois de prever um futuro próximo mais feliz para todos estes narizes, logo logo arrumadinhos sem falta por trás da tampinha da boca.

07/12/2020

Uma miséria de passos: estava a chover

Tanta introspeção, tanta introspeção e - se não tropeçarmos nestes batimentos supracardíacos da pobre língua - corremos o risco de sucumbir. Tipo assim. Fui, agora apessoando a história, apanhada por duas coisas comuns das quais andava a fugir. A fugir em condições bastante sérias! Uma, Netflix. Agora sou pessoa (apessoando) de ver séries, séries! Tento as feias para não me agarrar mas não acerto. A minha autoestima cai na medida do autocontrolo. Nem pensar em me recomendar das boas! E eu que queria era escrever, escrever, isto faz impressão. Duas, um relógio esperto entrou a derrapar pela minha vida adentro e agora não me larga, já não bastava o querido telefone (outro esperto, mas menos, menos). Ou não o largo eu. É que agora sei tudo sobre mim. Por fora e por dentro. Batimentos cardíacos, tipos de sono interrompido, cochilos curtos em português do Brasil, já tínhamos referido esta nomenclatura, idade projetada, muito tempo sentada (my god), quantidade de passos [inserir título], incentivos em palavras lindas, alegres e saltitantes, as coisas que eu consigo, entre outros: um a-m-o-r mas ai, por favor, que venha a ansiada vacina.

(post escrito pelo robot que há em mim, apesar de tanto declarar o contrário) 

28/11/2020

De primeira

O homem caminha apressado com a sua bagagem de mão por ali fora até se cruzar com a hospedeira de terra. Pelo menos acho que é esse o caso, uma hospedeira de terra. Ela está a organizar as entradas no avião da Portugália, tendo começado pelos passageiros da classe executiva (e bebés). Nunca são muitos estes passageiros e sendo esta uma aeronave mais pequena, claro que menos serão eles estatisticamente. Vai então o homem a todo o gás a cruzar a hospedeira que, tendo já testemunhado o embarque de um ou dois desses passageiros mais raros que pagam muito muito muito mais pelo bilhete de ingresso, se inclina para este e pede confirmação por detrás da máscara, executive class? Eu agora por acaso estou na dúvida se era executive ou se era first class, mas deixemos lá isso, tanto faz. O homem abranda ligeiramente o seu passo veloz e confirma que sim, ele é um executivo (ou de primeira). Ela OK, siga meu senhor toda profissional e isso e o gajo, passou a gajo, pára, volta-se para ela inchado de indignação e diz uma data de coisas zangadas como ferido no orgulho por alguém ter imaginado que ele poderia numa eventualidade super improvável pertencer a outra classe que não a primeira.
Ora agora, que voltámos todos para a mesma gate onde isto se passou três horas antes, porque o sistema lá de voo da aeronave informou à beira da pista que não havia condições para descolar, agora estou toda curiosa a ver se no segundo embarque o gajo também se vai inchar para ali imenso se quem fizer o serviço desta vez não adivinhar à cabeça que aquele passageiro sim senhor, não há dúvidas, aquele passageiro pagou o seu bilhete muito muito muito mais caro e portanto é de primeira. Coitado.

24/11/2020

o que um cochilo curto na nomenclatura da eletrónica pode fazer

Com um cochilo curto pude arrumar o cérebro por dentro. Vinha desengonçado, a apitar um bocadinho, da manhã prematura arrancada à noite (outra vez, outra vez, outra vez). Ali a criar um rasgão nela, apanhada a dormir deste lado do mundo. Mas foi um esforço louvável, coitadinho. Não nos esqueçamos que já não vai para novo. Adoro este meu cérebro, ele é um amor (além de que preciso mesmo dele). Mas esticá-lo desta maneira é que vai lá vai, como dizia a Carla. Lembro-me imenso da Carla por causa dos seus dizeres adoráveis. Só que nunca mais a vi.

A tarde já está posta por ordem. Ali toda de fora da janela, brilhante de um sol tangente mas vivinho da silva, embora por estes lados não haja muitos, é mais um jan van boos, um karl koeiebomen, um martin zijnidee. Por mim, e é isto ao que viemos, afinal, o valter hugo mãe ganhava mas é o Nobel já para o ano que vem para não perdermos mais tempo.