a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

06/07/2026

No intervalo do jogo

A mulher que (ao contrário de quase todos nós) não vai a olhar para o telemóvel, deitou-se no banco do comboio com a cabeça apoiada no braço do lugar vazio ao seu lado. Tem aberto na mão um livro de Mia Couto e ainda não o largou. "Na berma de nenhuma estrada", é o título.
Porque a posição não deve ser lá grande coisa de conforto, a somar ao chocalhar da carruagem intercidades, tanto se ajeitou melhor, tanto se ajeitou melhor, que lhe saltou do cabelo a pinça que o apanhava e que embirrava com o encosto improvisado. Um jovem passageiro que fala francês com a namorada esticou-se para apanhar o acessório do chão, que lhe entregou educadamente. Ela torceu o corpo magro para aceitar a pinça tresmalhada e continuou a incursão na tal berma de nenhuma estrada, mantendo agora o saltitante objeto na mão. 
Hoje o comboio vai muito bem. Nem um frio congelante como o de há duas semanas que me remeteu o pensamento para a arca congeladora de um talho, nem o calor sufocante da semana passada, a partir do qual cheguei a pensar que desmaiava completamente. Também não vai ninguém a ver vídeos no telefone em alto e mau som, graças a deus. Assim, perdoa-se muito melhor o atraso habitual com que fomos de novo brindados e acede-se também com mais vontade ao pedido muito conhecido para os senhores passageiros compreenderem os incómodos causados.

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