a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

21/11/2014

Pais que não são meus

- A senhora fala português?

Ando a inventar.

Inventei de tricotar um cachecol azul muito bonito com um castanho entremeado em certos sítios, mas primeiro acendi seis velas de cores diferentes, espalhei-as pela sala e gastei os fósforos nisto para não queimar os dedos.

- A senhora fala português?

Inventei de acordar muito cedo e experimentar acender luzes em casa, mas tinha tanto sono que embati na ombreira da porta e fiz o corredor todo a esfregar o braço às escuras.

- Português falo e até bastante bem – percebi que a pergunta era para mim.

A electricidade tinha ficado do lado de fora da porta e eu fui inventar de tomar banho à luz das velas mas troquei os produtos na aplicação, quando se está zen não se pode ler miudezas como “shampoo” ou “dê mais brilho ao seu cabelo”, com esta luz sei lá com que brilho posso contar, de qualquer forma a coisa lá se fez. Depois, ao sair da casa de banho, tropecei na mala de viagem que ainda está no chão e lembrei-me dele.

- Então não me arranjava umas moedinhas, que a máquina ficou-me com o cartão?

Contra a minha mais habitual vontade, também inventei de comprar numa loja chinesa um chapéu de chuva que abre de repente ao pressionar-se um botão e torna a fechar de repente pelo mesmo botão, já o usei três vezes e ainda está bom.

- Moedinhas? – obeservei-o por um momento. Tresanda a tabaco e a desequilíbrio, os olhos não se fixam, parece que tremem. É domingo à noite, estamos no aeroporto, eu à espera do táxi para me levar a casa, a mala no chão ao meu lado.

- Sim, eu vim visitar os meus pais a Castelo Branco e agora faltam-me doze euros, a máquina ficou-me com o cartão, trabalho em Marrocos, a senhora não me arranja umas moedinhas?

- Não. Acabo de levantar dinheiro para o táxi e não tenho moedas.

Não abri a carteira para confirmar. Inventei a certeza de não ter moedas. Ele afastou-se e fiquei a vê-lo abordar outra pessoa que fala bem português: abriu a carteira e deu-lhe moedas.

E eu, da próxima vez, inventarei uma atitude diferente. Darei as moedas.

Porque mesmo inventando muito, não preciso de inventar que trabalho em Marrocos, que a máquina me ficou com um cartão que não tenho e que fui a Castelo Branco visitar uns pais que não são meus. 

Afinal não falei bem.

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