a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

19/02/2015

Aviso laranja ou então dormir

Tenho andado a pensar se continuo a não ser capaz de mudar os comentários neste blogue ou se me lanço num novo caminho precursor de uma partilha mais aberta. É que já foram várias as pessoas ilustres que me disseram que não conseguem comentar aqui.

No momento da criação do blogue, parto que se fez em duas horas (fiquei impressionada), eu conhecia dois ou três blogues, não, quatro se contar com o do José Saramago.

E não prestei atenção a comentários, se é que os havia nalgum destes quatro blogues (os outros três, por ordem de chegada: TEMPO CONTADO, Quarks e Gluões e Ana de Amsterdam).  

Assim, a plataforma que me ajudou a pôr o meu lado mudo cá fora (espero que se trate mesmo de uma plataforma), tomou algumas decisões por mim, evidentemente. Uma delas foi a dos comentários.

Os meses foram passando e eu ia publicando posts para mim mesma. A dada altura, começou a aparecer na minha caixa de correio electrónico, de vez em quando, um email assinado com google+, e eu achando que era spam de venda de cosméticos, apagava imediatamente (se eu sem cosméticos já sou de arrasar, com eles então nem quero pensar). Afinal tratava-se de comentários ao blogue (com certeza devido ao jeito que tenho para as rimas).

Conseguir responder-lhes foi outro tanto. Via os emails, guardava-os, responder em reply não é possível, nem clicando oito vezes seguidas, e no blogue não os encontrava (juro). Estavam, descobri depois, bloqueados por motivos da segurança que eu não encomendei e isto é tão aborrecido que já estou quase a dormir com a conversa.

Portanto decidi descobrir, ontem à noite, depois de um bate-papo sobre este assunto com esta ilustre colega, como havia de fazer para mudar isto.

Há um preço a pagar e baixo não é. A malta do google+ diz que sim senhor, voltas para o blogger (o “voltas” é deles que eu nunca… certo, já sabemos) mas os comentários que tinhas esfumar-se-ão. Todos. (até lhes deve doer serem assim tão queridos)

Ora desaparecerem os comentários não é o meu sonho, nem de infância (onde foi que li isto recentemente) nem de nada.

No entanto, tenho-os todos (à excepção dos primeiros da venda de cosméticos que afinal não era) guardados nos emails a que deram origem.

Portanto, embora hesitante, que isto custa exterminar da face do blogue os meus queridos comentários, pois custa, vamos lá mudar.

Aceitam-se reclamações, claro. Prometo que, quando aprender a responder, responderei. O melhor possível.

(aviso laranja - nem tudo neste post se pode dizer que é a verdade mais pura)

18/02/2015

O melhor possível

Passavam alguns minutos das sete quando o meu cérebro decidiu, na passagem do dorme-bem para o acorda-lá, lembrar-se de uma coisa.

Alguns textos de Ana de Amsterdam são como os quadros da Paula Rego.

A seguir, já perfeitamente desperta pelo efeito de alavanca de que semelhante pensamento foi capaz, pergunto-me: e os que não são Paula Rego?

Levanto-me, vou à cozinha e ponho a fazer o café cujo aroma se vai espalhar pela casa e eu aspirar de olhos fechados quando sair do banho.

Tomo banho, visto-me o melhor possível e a seguir espremo duas laranjas, hoje está sol e deito o sumo num copo.

Ergo-o perto da janela para que um raio de sol atravesse o líquido, beijando-o, degustando-o, tornando-o translúcido, uma simbiose destas mostra que ainda está vivo este sumo e eu com tanta sede matinal. Bebo-o de um trago sem respirar e sinto as papilas gustativas suspirar de prazer e depois ajeitarem-se satisfeitas dentro do sítio delas, localização cujo termo médico só não me foge porque nunca cá veio.

Duas horas depois estou sentada à minha secretária de trabalho e estou ao telefone com um colega de profissão que vejo de quando em vez, trato formal, discutimos a participação num evento que ele organiza, se isto se aquilo, como será melhor, talvez assim, que lhe parece.

Nisto, vejo a Cristina assomar à minha porta e desatar a fazer gestos com uma mão enquanto levanta os calcanhares do chão e torna a baixá-los, numa indicação de urgência iminente, eu não ouvi o alarme de incêndio, muito embora ele tenha o costume de tocar quando não há incêndio nenhum. A mão da Cristina alterna entre apontar para a própria boca e fazer círculos no ar em redor da zona da orelha que pôs dentro da minha sala e torna a repetir a coreografia, calcanhares acima, abaixo, mão, um gira, dois aponta.

- Diga, desculpe, acho muito bem, sim, depois confirmo-lhe, obrigada – isto digo eu ao colega de profissão do trato formal mas ele ainda tem um já-agora na manga, ó Cristina que coisa.

Terei eu feito uma expressão de peixe a morrer na areia, que a Cristina acrescenta mais um quê à dança, agora também mexe os lábios caricaturando palavras sem som, eu ainda com o já-agora em desenvolvimentos, se eu sou membro sénior?, acho que não, isso soa-me a muito velha e muito velha, compreende, tal tal.

De modo que de um lado registei aquilo do membro sénior, que vinha do já-agora, enquanto do outro despachei a Cristina abrindo e fechando a boca exageradamente, a ideia do peixe foi muito boa, já falamos foi o que eu lhe quis dizer, acenei com a mão, ela retirou-se; tive muito gosto em ouvi-lo, com licença, até breve.

Quando desliguei, veio, de súbito, a resposta.

Os textos de Ana de Amsterdam que não são Paula Rego podem muito bem ser Armanda Passos.

Era isto, Cristina?

14/02/2015

Mal, mas cantavam

Ontem, quando o rádio despertador me acordou, fê-lo com uma valsa de Strauss. Era o Danúbio Azul. Ainda de olhos fechados, remeteram-me estes acordes para a sala de casa dos meus pais, aquela em que eu li os livros da Patrícia e do Mistério, aprendi a tricotar e fugi de ver o Espaço 1999 que me metia um medo tremendo, mas só a mim, às minhas irmãs não, e onde tocavam valsas de Strauss se fosse a minha mãe a pôr os discos. 

A sala tinha uma alcatifa azul escura que servia de fundo às construções de LEGO e ao tabuleiro do Monopólio e também às leituras que tinham de ser feitas no chão, eram leituras de chão: o Tio Patinhas e os livros da Anita, por exemplo (não se vê ninguém lendo Tio Patinhas no sofá de perna traçada, como é evidente). Ter alcatifa era portanto muito bom, mas quando os microscópios se tornaram capazes de mostrar aos cientistas os ácaros, nós ai-que-nojo e tirámos as alcatifas todas. Embora não tenha dado nas notícias, tenho a certeza que a operação se estendeu a todo o país, eu a princípio pensei que era ideia da minha mãe, mas não, atacou as casas todas que eu conhecia. O chão de madeira é tão lindo, dizia ela a tentar convencer-nos. Tão lindo o tanas, que ninguém se senta num chão de madeira a jogar Monopólio. Quando os microscópios nos conseguirem mostrar os quarks e os bosões e calhar eles terem bigodes e patas com pêlos, vamos tirar o quê? Tadinhos dos ácaros.

Já parada na passadeira de peões para uma mulher atravessar, acordo pela segunda vez, desta com o carro nas mãos. Agora foi a Diana Krall. Lança-se na sua voz extraordinária, tão bom que é ouvi-la. De forma que me fez pensar ser um bocado excessivo juntarem-se numa mesma mulher tanto talento e tanta beleza. Muitos há que nem uma nem outra e isso poderia parecer injusto. Poderia. 

Não fosse a gente ter a certeza que mesmo sem talento nem beleza, se pode andar contente.  

Certeza que encontrei um dia, deitada de barriga para baixo no chão, pouco antes de ter sido arrancada a alcatifa azul escura. 

Ana de Amsterdam

De manhã, veio parar ao ecrã do meu computador o livro de Ana Cássia Rebelo, “Ana de Amsterdam”. Esperei pela hora do almoço e, assim que saí da cantina, fui à Fnac.

Mal entrei na loja, cruzei-me com uma mulher que vestia um casaco igual ao meu. Vermelho e tudo. Ela caminhava depressa, já me tinha visto o traje, percebi, e era mais pequena que eu. Voltei-me e quase corri até ela para a cumprimentar, mas que bom gosto, não é todos os dias que se encontra alguém com um casaco igual, no entanto não o fiz. Eu gosto de pessoas desconhecidas porque não tenho razão nenhuma para não gostar delas (todas as pessoas de quem não gosto, conheço), mas elas nem sempre gostam de mim. Quando voltei a cabeça outra vez para a frente não choquei com uma estante redonda carregadinha de livros de capas cinzentas, por um triz.

No andar de cima, procurei nas novidades em língua portuguesa, autores portugueses, literatura lusófona ou sei lá como lhes chamam ali. Não vi a capa florida em lado nenhum.

Pus-me então na fila de um dos vários balcões de informação. A atender os clientes estava um rapaz que podia ser meu filho, envergava a camisola amarela e preta da loja e tinha borbulhas na cara sem sombras de barba. Eu nunca tive borbulhas destas na adolescência, apesar de ter sido a feia da turma. E da escola, creio. Mas chegou a minha vez.

- Procuro o livro Ana de Amsterdam, por favor, sei que é muito recente, deve ter saído... hoje? Ontem?

- Ana de quê? – a falta das sombras de barba no rosto do empregado fez-me sorrir e, sem denunciar impaciência que de resto não sentia, repeti.

- A-M-S-T-E-R-D-A-M. Amsterdam. Editado pela Quetzal.

- Deixe ver - tac tac tac – não, ainda não chegou. Estamos à espera.

Agradeci e tomei o caminho inverso. Ainda no piso superior, contornei outra estante insurgente, cheia dos livros cinzentos. Desci as escadas rolantes e, de novo no andar de baixo, ainda uma - não, duas - tropeçaram em mim.

No fundo, senti-me satisfeita. É reconfortante verificar que o livro que eu procuro (e do qual já li se não todo, quase, no blogue homónimo, portanto conheço-lhe a alma, também sou mulher) não está a sufocar naquele espaço de marketing de trazer por casa. As pessoas, quando vão comprar um livro, normalmente sabem que livro querem e encontram-no, isto se a loja o tiver, evidentemente; não são burras e não precisam que as estantes lhes saltem para cima.

Saí e fui à Bertrand.

Encontrei o meu livro em segundos, não precisei de perguntar.

E não tropecei em nada. A Bertrand, se tem sombras - tê-las-á - eu não as vi.


(Sobre o Charlie Hebdo, não escrevi uma palavra; li muitas. Nascida da incapacidade de compreender guerras, quaisquer que sejam, a minha indignação foi e é maior que as palavras que sei usar. Sobre o tema da semana, no entanto, escrevo duas. Porque me entrou casa adentro e com ele me vi obrigada a esgrimir. E não escreverei mais.)

12/02/2015

Este título devia ser prefiro pilinhas, mas penso que ficava mal

Só que estou praticamente a ferver, o problema é esse. Irrita-me que quando há uma coisa, só se fale duma coisa.

Por isso vou falar doutras. Para me distrair.

Ando a enganar-me quanto a fazer ginástica e só hoje é que vi. Os meus joelhos tentavam aninhar-se dentro da boca para não esborrachar o nariz e as mãos foram para outro lado mandadas chegar onde não dá. Dores localizadas, a cãibra no estômago a querer aparecer e um olhar de esguelha ao relógio pendurado na parede do ginásio, detesto ginástica. Detesto e acho que não é nada saudável aquilo. Dores agora e dores depois de recolher as partes do corpo ao sítio original.

Se não fosse aquele professor ter dito, todo engraçado, com umas sobrancelhas fartíssimas muito despenteadas, a inclinar-se para a frente e a pôr nas mãos um pedaço de metal imaginário, a sustê-lo com todo o cuidado para não o magoar, se não fosse esse professor, naquele muito momento (tradução do original em inglês in that very moment) ter dito que o material se sentia quentinho, eu nunca teria criado um blogue.

Porque nunca as fotografias de gatinhos tão fofos esbatidos em fundos indefinidos e as de bebés metidos em malmequeres gigantes com toucas de folhos na cabeça e os dedos das mãos a segurar os dos pés, dobrados como eu na ginástica, mas eles a rir, nunca estas coisas me fizeram inclinar a cabeça e expelir ohhhhs de admiração, e eu gosto de gatos e de bebés, principalmente de bebés, mas nunca isso me teria trazido aqui. No entanto temos a tabela periódica dos elementos, já o tenho dito, ela é que me extrai a inclinação de cabeça e o ohhhhh de fofura. O estrôncio, o carbono e até o urânio, embora seja provavelmente proibido gostar de urânio e até parece que já me estou a distrair.

Só falta a dona Esmeralda, que é a senhora lá da cantina. Hoje, quando eu disse que não queria o peixe frito que estava marcado para mim, ai hoje está muito esquisita e não sei quê, perguntou-me então, duas vezes seguidas, se eu gosto de pipis. Duas vezes seguidas porque a minha cabeça estava noutro lado, se calhar no hidrogénio, que é o meu preferido, ao que se está mesmo a ver o que lhe respondi e até o fiz directamente o que foi boa ideia. Olhou-me por cima dos óculos com a colher do arroz cheia de arroz colado, suspensa no ar, e uma cara muito estranha e a dona Esmeralda é muito gira com esta cara muito estranha.

É que irrita-me que só se fale duma coisa, e se fosse apenas nos blogues, uma pessoa abre, vê o título, uma pessoa fecha logo a seguir, é na descontra, como dizem as minhas filhas. 

Mas não é só nos blogues: elas querem ir as duas ver o filme, quando eu nem sequer li o livro (e não quero ler) para saber se podem. E agora? Levo-as ao museu de arte antiga ou faço o quê?

(quanto a isto, adoraria receber dicas extraordinárias)