a voz à solta


Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero.

14/02/2015

Ana de Amsterdam

De manhã, veio parar ao ecrã do meu computador o livro de Ana Cássia Rebelo, “Ana de Amsterdam”. Esperei pela hora do almoço e, assim que saí da cantina, fui à Fnac.

Mal entrei na loja, cruzei-me com uma mulher que vestia um casaco igual ao meu. Vermelho e tudo. Ela caminhava depressa, já me tinha visto o traje, percebi, e era mais pequena que eu. Voltei-me e quase corri até ela para a cumprimentar, mas que bom gosto, não é todos os dias que se encontra alguém com um casaco igual, no entanto não o fiz. Eu gosto de pessoas desconhecidas porque não tenho razão nenhuma para não gostar delas (todas as pessoas de quem não gosto, conheço), mas elas nem sempre gostam de mim. Quando voltei a cabeça outra vez para a frente não choquei com uma estante redonda carregadinha de livros de capas cinzentas, por um triz.

No andar de cima, procurei nas novidades em língua portuguesa, autores portugueses, literatura lusófona ou sei lá como lhes chamam ali. Não vi a capa florida em lado nenhum.

Pus-me então na fila de um dos vários balcões de informação. A atender os clientes estava um rapaz que podia ser meu filho, envergava a camisola amarela e preta da loja e tinha borbulhas na cara sem sombras de barba. Eu nunca tive borbulhas destas na adolescência, apesar de ter sido a feia da turma. E da escola, creio. Mas chegou a minha vez.

- Procuro o livro Ana de Amsterdam, por favor, sei que é muito recente, deve ter saído... hoje? Ontem?

- Ana de quê? – a falta das sombras de barba no rosto do empregado fez-me sorrir e, sem denunciar impaciência que de resto não sentia, repeti.

- A-M-S-T-E-R-D-A-M. Amsterdam. Editado pela Quetzal.

- Deixe ver - tac tac tac – não, ainda não chegou. Estamos à espera.

Agradeci e tomei o caminho inverso. Ainda no piso superior, contornei outra estante insurgente, cheia dos livros cinzentos. Desci as escadas rolantes e, de novo no andar de baixo, ainda uma - não, duas - tropeçaram em mim.

No fundo, senti-me satisfeita. É reconfortante verificar que o livro que eu procuro (e do qual já li se não todo, quase, no blogue homónimo, portanto conheço-lhe a alma, também sou mulher) não está a sufocar naquele espaço de marketing de trazer por casa. As pessoas, quando vão comprar um livro, normalmente sabem que livro querem e encontram-no, isto se a loja o tiver, evidentemente; não são burras e não precisam que as estantes lhes saltem para cima.

Saí e fui à Bertrand.

Encontrei o meu livro em segundos, não precisei de perguntar.

E não tropecei em nada. A Bertrand, se tem sombras - tê-las-á - eu não as vi.


(Sobre o Charlie Hebdo, não escrevi uma palavra; li muitas. Nascida da incapacidade de compreender guerras, quaisquer que sejam, a minha indignação foi e é maior que as palavras que sei usar. Sobre o tema da semana, no entanto, escrevo duas. Porque me entrou casa adentro e com ele me vi obrigada a esgrimir. E não escreverei mais.)

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